sexta-feira, 14 de setembro de 2007

MATEUS 27:46 >> Leonardo Marona >>

Poderiam ser fogos e festins das festas do fim de ano. Poderia ser mais uma cerveja e poderiam ser muitas opiniões bocejadas por almas aflitas de pernas cruzadas superestimando a fumaça dos cigarros como extensão de almas piratas, opiniões nas quais se baseavam apenas para a conformação do fato de que poderiam até saber das coisas, mas simplesmente não era sempre possível acreditar nelas. Mas havia sim um estalo, algo que poderia se quebrar, uma linha tênue de serragem contra o sol como num filme de caubói. Era noite, era o som de algo se partindo por dentro, era um estalo de agonia. Eram peles sobre carnes sobre bactérias sobre ossos, mas era também um não reconhecimento e talvez três bons amigos complacentes, quando este som, quando este constrangimento sonoro fez um deles pigarrear, como quando um se sente mal por ter sido interrompido bruscamente ao discorrer sobre o imperativo categórico da extinta civilização alemã.

- Socorro, socorro! Levei um tiro no coração!

Entra um homem de não mais que trinta anos, mas difícil saber quantos anos tinha cada ano seu. No bar todos gritavam por dentro, estáticos, impávidos, latentes. Os três amigos parados, em pé, militares aspirantes diante de uma prostituta búlgara. Uma mulher com rolinhos no cabelo, alguns soltos, surge com labaredas nos olhos, sobrancelhas retorcidas.

- Não deixem ele entrar! Tirem esse homem daqui!

O homem de pé, mas calmo, caindo. Cai e levanta, suado, e vomita sangue incontrolavelmente: ninguém se aproxima. Os três amigos, que há pouco falavam sobre mundos místicos, permanecem congelados. O homem se apóia no balcão, escorrega sobre a pasta de sangue carnoso e a mulher com rolinhos na cabeça se aproxima e lhe aplica vassouradas na região lombar. De repente um berro, muito agudo e desafinado, esganiçado, e então a mulher se afasta.

- Seus idiotas, vocês não fazem nada! Passa! Já pra trás do balcão!

Os três filósofos correm para trás do balcão. A mulher com rolinhos na cabeça ensopada de sangue coalhado. Sangue e coisas que parecem pedaços de sangue. A mulher entra em estado de choque e cai no chão, desmaiada. Os pequenos Kierkegaards então correm na direção da mulher e tentam não se sujar com o sangue.

O homem em frente, também no chão, escorado no balcão, anuncia engasgos úmidos e tenta desesperadamente se levantar. Mantém os braços abertos e os olhos vidrados como se visse algo monstruoso se aproximar, algo monstruoso e gigantesco e libertador, e do lado esquerdo do seu peito, pouco abaixo do ombro, ribomba uma cachoeira pulsante de sangue que segue em ritmo sincopado, diminuindo e aumentando o fluxo.

O homem caído então sobre os joelhos diz quase sem emitir som, olhando para três reis magos indiferentes, também ajoelhados diante da mulher com rolinhos nos cabelos:

- Levei um tiro no coração... Por favor... Medo... Tenho medo... Me dá um abraço...

Há também uma cachoeira de sangue escoando pelas costas: o tiro lhe havia estraçalhado o ombro. Todos se afastam horrorizados, mas limpos. Um dos profetas corre para o banheiro com engulhos. A vida retorna ao seu estado de mistério. Natureza morta volta a reinar.

Todos fazem o sinal da cruz e vão para suas casas, abalados, famintos e cheios de assunto. Pouco tempo depois, dois homens negros e sujos mal-vestidos, galhofeiros, aparecem e arrastam o corpo murcho do homem que havia levado um tiro e morrido sem ganhar um abraço. E os que permanecem, tendo negado, mesmo sabendo, continuam mortos, com medo de abraçar.


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cinematográfico, Léo!

Debora Bottcher disse...

Nossa! Cinematográfico é apelido! Imagem pura... Dá até pra tocar a cena... E o título é perfeito. Um texto profundo, de beleza triste... Muito bom...
Beijo pra vc.

leonardo marona disse...

poxa, gente, fico feliz mesmo que o texto tenha tocado vcs. será que isso aconteceu mesmo?

beijo a todos.

César disse...

esse texto me tocou pois este fato aconteceu comigo, porém sobrevivi de algum modo q eu nao sei explicar. o tiro passou a 1cm do coração, arterias, pulmoes e depois ainda pegou no braço direito (o tiro foi a queima-roupa pelas costas, na altura do coração). acho q realmente foi a mao de Deus. uns 40 medicos me disseram q eu nasci denovo. isso foi num assalto, e tinham varias pessoas num quiosque logo ao lado, e posso te afimar uma coisa leo.... as pessoas ficam paradas esperando voce morrer ... ninguem sequer me deu a mao ou falou para eu ficar calmo...todos esperavam q eu caisse........ =~~
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