Pular para o conteúdo principal

VOLTEI ÀS CORES >> Maurício Cintrão

Sou um pintor cíclico. Gosto de brincar com tintas e pincéis de tempos em tempos. Não há um “gatilho” detonador desse processo. Se existe, ainda não o identifiquei. Percebo que é a hora de voltar às telas e volto. Se fosse um pouco mais estável, talvez desenvolvesse o talento. Mas não faz parte da minha característica seguir linhas retas.

Esse é o motivo de variar entre a pintura, a joalheria artesanal e as coisinhas de biscuit, agora com passagens pela decoração de caixinhas de madeira reprocessada. Faço essas traquinagens nas horas de folga. E, quando dá, tento vendê-las para diminuir um pouco o déficit familiar.

Não, meus amigos, eu não sou um esbanjador juramentado. Não tenho despesas exorbitantes com sexo, drogas ou rock’n roll. Meus vícios foram abandonados. Não fumo mais e quase não compro sorvetes e chocolates. Nem carro moderninho eu tenho. Aliás, o velho e bom Escort 95 da Viviane, único veículo da Casa, é um dos motivos dos desembolsos acima do possível. É preciso investir o tempo todo em manutenção e mecânica.

Recentemente, fiz a renegociação de minhas dívidas com bancos. Por conta dela, torro mensalmente uma quantia que seria suficiente para fazer uma família viver bem. Além disso, tenho gasto mensais com as crianças em São Paulo. Assim, o que sobra é menos do que preciso. Por conseqüência, vivo à beira do abismo.



Dessa forma, as minhas brincadeiras com artesanato e artes representam fontes alternativas (e honestas) para conseguir alguns Reais. O que consigo é pouco, mas ajuda a pagar o que gasto para produzir, mais uns troquinhos para ajudar em casa.

Ainda tenho dúvidas se é solidariedade ou amor à arte, mas muitos amigos compram as coisinhas que produzo. Muitos deles, inclusive, têm altos delírios sobre meu cotidiano. Devem achar que sou um misto de mago com doente mental, aquela imagem que se faz de quem cria que mais parece descrição de mau comportamento em Boletim de Ocorrência.

A maior parte nem desconfia que meu ateliê é um dublê de depósito e lavanderia, lá nos fundos da casa. Não tem nada de notável. É tão simplesinho que dá até pena. Minhas coisas ficam dependuradas em pregos ou empilhadas com certa displicência. Mas não precisa chorar. Isso acontece mais porque sou um sujeito caótico do que por falta de recursos para me arranjar melhor. É evidente que uns 2 milhões de Euros fariam enorme diferença, mas não é bem esse o caso.



Enfim, o divertido é que voltei às cores e estou produzindo meus quadrinhos depois de longo período sem mexer nas telas. Isso pode ser um bom sinal, um indicativo de que vou retornar às atividades artísticas com mais vontade. Porque sempre retorno a alguma das minhas artesanias, mas há tempos não pensava em molduras.

Vai ver chegou a hora de fazer os exames para me cadastrar nas instituições oficiais que promovem registram artistas e artesãos. Será que vou virar hippie? Será que dessa vez eu consigo? Bom, se abrir alguma barraquinha para vender minhas invenções artísticas, aviso a vocês. Enquanto isso, vou me divertindo.

Comentários

Que é isso, Maurício?! Suas telas são lindas. E a foto do seu ateliê parece uma pintura. Minha primeira impressão era de que era outra tela. :) Não bastassem as imagens, suas palavras as apresentam muito bem.
Viviane disse…
Isso pq ele não colocou as fotos mais bonita, na minha opinião, é claro, rs...
TIO BETO disse…
SUA MELHOR OBRA DE ARTE ESTÁ NESTA ULTIMA, O PEDRO, NÃO DESMERECENDO OS OUTROS QUATRO.
EXISTE TB SUA NOTORIA FACILIDADE EM USAR, AQUILO QUE CHAMO DE MAGICA "A PALAVRA".
SEMPRE CONSEGUE COM SUAS CRONICAS TIRAR LAGRIMAS DE NÓS.
OBRIGADO POR SER SEU IRMÃO!
ME ORGULHO DISSO E QUERO GRITAR AOS QUATRO VENTOS!
TO CONTIGO E NÃO ABRO!
BEIJOS
BETO
Carla Dias disse…
Ah... Adorei a crônica e as imagens.
Beijos!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …