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VOLTAR: TRANSITIVO E CIRCUNSTANCIAL >>Claudia Letti

Nunca gostei muito das voltas. Nem dessas que a vida dá, mesmo que sejam das boas. Da parte boa da vida prefiro o inusitado ao regresso, o presente/futuro ao invés de passado. Por isso mesmo, nunca me animei a fazer regressão terapêutica, e vai ver, turismos à parte, é por isso também que nunca voltei a morar em cidade alguma da qual já tenha mudado. Voltar a qualquer situação me soa retrocesso, me causa a sensação de que estou atrasando o passeio porque, lá da rua, preciso voltar pra me certificar se apaguei a luz ou desliguei o gás.

Algo me diz que voltar exige pequenas concessões e o "desde que" não deixa de ser uma barganha bem educada, uma censura comportada. Voltar para um antigo parceiro desde que um dos dois mude um comportamento, voltar para um velho emprego desde que eu faça alguma coisa divergente do que já fiz, voltar para a mesma cidade onde já vivi, desde que eu me adapte ao que antes não consegui. Voltar para situações das quais já nos despedimos é como aconselhar a vida a não promover desafios.

Definitivamente não gosto do voltar quando é remexer, revolver, repetir. Voltar me tira a oportunidade de ir em frente, titubeia as minhas decisões, não me permite avançar e zomba das minhas chances de partir. E a partida (desde que não seja "desta pra melhor", claro) é recheada de oportunidades, é um prato cheio de desejos e vontades. Mesmo quando são doídas e contra nossa vontade, partidas, cedo ou tarde, trazem estradas novas no pacote e acenam com horizontes ilimitados. Partir pode ser a única saída quando já não somos o que éramos, porque a vida é mutante e tudo muda o tempo todo, como lembra a música.

É verdade que sempre somos injustos quando avaliamos algo ou alguém, baseados na nossa história de vida e receio estar sendo muito dura com meu verbo voltar. Na tentativa de não cometer injustiças, pelo menos não tão graves, abro parênteses pra voltar quando ele é reencontro - rever amigos de anos a fio, por exemplo, e que (quase) se perderam nos desvios das nossas escolhas de vida, é maravilhoso. O reencontro de si mesmo é salutar, acontece de tempos em tempos (quero crer!) e gosto do voltar quando ele é revisita -- a casa de infância, a cozinha da avó, mesmo que ela não esteja mais lá, tem um sabor de fruta no pé e reaviva a criança que ainda existe cá dentro. Também gosto do voltar quando ele é regresso -- depois de um tempo sem nossas gavetas e nossa cama, ter de novo o sono do nosso travesseiro é confortador -- voltar pra casa é como apitar no cais.

E, finalmente, como uma boa romântica não acredito em voltar para um amor, porque se é amor, não se perde e ninguém volta ao que nunca deixou.

Por isso estamos todos aqui, no Crônica do Dia, fingindo voltar a esta "casa" que nos acolhe há anos com amor e generosidade. Então, repare bem, acho que não estamos de volta, exceto se esta for, literalmente, a volta dos que não foram.

Comentários

Alena disse…
Lembrei-me imediatamente do texto da Ane Aguirre sobre voltar também.
Então aceitou minha sugestão de tema? :) E como o desenvolveu lindamente! É mesmo um caso crônico de amor esse de escrever e ler em turma. Reencontro, revisita, regresso... que belas palavras para perdoar a culpada volta. :) Como é que se bate palmas com o teclado?
r a c h e l disse…
:*)

"...Voltar para situações das quais já nos despedimos é como aconselhar a vida a não promover desafios."

clap clap clap (acho que é assim que a gente bate palma no teclado, mas ainda nem tenho certeza), amei!


beijo,
email disse…
Uma palavra apenas para teu texto. Encantamento.E, não será necessário dizer-te mais, por ora, até revisitar-te, por aqui.
Debora Bottcher disse…
Oi, guria,
Lindo esse texto, muito expressivo.
Mas vou ter que discordar dessa coisa de voltar... :))) Porque como disse Mia Couto, "O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo."
Um beijo enorme, saudade sempre.
Cantinho Bom disse…
Que visita ilustre!!! Adorei....Adoro suas crônicas...Beijos

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