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Mostrando postagens de Janeiro, 2019

A MENTIRA >> Whisner Fraga

Os dedos da criança peregrinam pelo dorso da maçaneta.
As máquinas estão sob controle e não espalham ameaças pela tarde imponderada.
O pai observa a curiosidade mística da filha, próxima ao mecanismo desacordado. Engrenagens sonolentas também espreitam mãos que brincam. E logo o trinco ferroa a carne e um veio de sangue se infiltra na solidez precária da segurança.
O pai acode o desespero da filha, mas não está preparado para a investida da dor contra a idade vulnerável. Por enquanto não percebe que estamos expostos e estaremos para sempre apenas nos desviando da fatalidade.
Ela só desejava a suavidade do banco veludoso massageando as costas e a porta do carro a apartava dessa ganância.
O pai recolhe o corte em uma calma premeditada e aloja a ferida na barra da camisa, tentando estancar o medo.
O dia resiste em sua alegria desafeiçoada. Por que não se atormentam mais com a angústia de outra pessoa? Por que ninguém se acerca, se compadece, oferece uma fatia de humanidade?
Por que um d…

NULIDADE >> Carla Dias >>

Luz apagada, para ver nada de nada de nada. Nem teto quer ver, assume. Nem assumir quer, assume. Nem assumindo se convence. 
Que diferença faria se convencesse? 
Nada de nada de nada. É o mínimo do mínimo em um universo de sem-fim. Mesmo que se aproximem dele, esse um e aquele outro, que digam que a vida necessita do que ele tem a oferecer, e gargalhem da sua falta de pretensão, afinal, quem vence na vida sem desejo de domá-la? 
Nunca quis domar a vida. Nunca desejou a vida assim. Sempre se sentiu alinhada a ela, como se entrelaçassem mãos: ele e a vida. Ainda não sabe se é erro ou medo. 
Então que se percebe assim: fio frágil conectando o pouco ao quase nada. Um nada de carne e ossos e sangue e sonhos rejeitáveis. Nada de nada de nada, que se deita no corpo das horas e inventa conversas obtusas. Que comunga com o indizível e reverbera no indecifrável. Que o faz tremer como se enfiasse dedos na sua garganta, a fim de alcançar a verdade que ele não se deseja encarar. 

Qual verdade é a…

VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA >> Albir José Inácio da Silva

Sempre que se ergue da justiça a clava forte, não faltam voluntários dispostos ao sacrifício e à glória em nome da pátria. Principalmente quando se trata de lutar contra tiranos, comunistas e demônios que frequentemente habitam a mesma pessoa. Somos fanáticos por democracia, justiça social e pelo Estado Democrático de Direito.
Quando historiadores vermelhos insistem em apontar um tempo maior de ditadura que de normalidade democrática na nossa jovem e acidentada República, fica evidente o partidarismo, já que chamam de ditadura justamente os períodos em que erguemos a clava forte para combater o mal e defender a liberdade. É exemplo disso o AI-5, remédio amargo e necessário para eliminar do país os comedores de criancinhas.
Mas esse sentimento de patriotismo e brasilidade é anterior à República. O nome “Voluntários da Pátria”, presente em ruas de quase todas as capitais brasileiras, é homenagem aos heróis que lutaram e morreram na sangrenta guerra do Paraguai.
Quase metade dos voluntá…

QUAL É SEU NÍVEL DE FELICIDADE? >> Mariana Scherma

Foto: Greyerbaby/Pixabay

Eu sempre questionei muito sobre a felicidade. Uma época, queria ser feliz. Como se felicidade fosse um país, que pede visto e o raio que o parta pra deixar a gente entrar e usufruir. Hoje, entendo que felicidade são momentos colecionáveis. A gente tem uma estante com vários deles, que fazem aquele carinho sempre que olhamos pra essas recordações. Exemplo: eu sou feliz pelos meus pais e todas as nossas lembranças, pela gatinha deles, pelas besteiras que falo com meu namorado, por alguns amigos, enfim. Várias coisas. Uma colcha de retalhos.
Um livro que li ano passado (Sapiens, indico muito), fala, em um momento, sobre a felicidade. De acordo com algumas teorias da biologia, o ser humano tem uma escala de felicidade. Tipo de zero a dez mesmo. A de algumas pessoas vai até 10. São as pessoas que são animadas, acordam de bom humor ou ficam assim logo que tomam seu café. Mesmo que algo ruim aconteça a elas, elas têm a capacidade intrínseca a elas de entender que as…

HÁ MAR >> Carla Dias >>

Há mar que é de calçada. Escorre, languidamente, pelos braços dos bueiros, carregando as crias da impassibilidade de muitos sobre o que entope as veias da felicidade. Misturam-se ali, naquele desaguar: caixas de papelão, roupas puídas, sapatos que se perderam de seus pares, bitucas de cigarro, uma e outra carteira afanada no afã da velocidade de fugitivo de carreira.
Outro dia, havia um corpo sendo banhado por esse mar. Ninguém parou para observá-lo. Ficou ali, feito enfeite defendendo o poder da indiferença, até que a força das águas intrigadas - e seu perfume fúnebre - o levaram embora. Não se sabe para qual código postal. 
Há mar que é revolto. Invoca longos e pesados silêncios, para então se rebelar, entoando a necessidade de conversa. Então, discorre sobre fugas e imodestos planos, como o de se entender com as canções de amor. 
Que fique registrado: canções de amor não perdoam.
Houve quando um corpo se insinuou para a ousadia e dançou, horas e horas e horas seguidas, até não hav…

oceanos >> branco

existe alguma novidade
neste barulho que
perturba sua mente
menino louco?
cansado de falar sobre pores de sol
e finais de história?
não te parece fácil agora
escrever apenas mais uma vez?
dar aquele salto
e mergulhar
neste oceano de papel
manchado pelas tintas das canetas
pelos sonhos não realizados
começos não prosseguidos
sentir cada onda
dentro do seu próprio corpo
submergir
fugir dos pescadores
e a cada braçada
engolir pedaços de palavras
vomitar frases
- as vezes - um poema inteiro
prenda a respiração - tenha esperança -
você nunca esteve sozinho
eu estive com você
desde o nascer do sol até o por da lua

NOTAS SEM TÍTULO >> Fred Fogaça

Dia desses eu fui jantar e tinha coração numa panela. Corações, né. Tinha muito coração. Me lembrei: sabe quantas galinhas morreram pra você poder comer isso aí?, ela olhava pro prato e fazia cinco com a mão, cara de quem não se arrepende e ainda por cima sorria. Depois que eu descobri que o da panela nem coração era, mas já valeu a lembrança. Quase um vacilo. Igual outro dia, zanzando pela cidade de carro vi um acidente na avenida, desviei, olhei o coitado e cantei Chico Buarque. Aquela música lá. Tudo bem que não lembrava direito a letra mas a pessoa comigo também não entendeu a referência. Não conhecia muito da música popular brasileira e de repente nem gostava até. Fiquei tanto um pouco envergonhado quanto um pouco saudoso. Dói uma piada mal empenhada, mas é que ela teria entendido.
Teve um outro dia, conversando sobre ter casas, decorar casas, comprar casas... disse que queria passar um tempo em alguma nas montanhas, me hospedar ou mesmo morar um período - um clássico…

UBATUBA, ENFIM >> Sergio Geia

Anote: requisito indispensável para um bom ano é começá-lo tomando banho de mar. Mais do que iodos e salinidades, o mar é divino, e compartilha com você toda a força, a energia, o poder dessa coisa mágica, sobrenatural, onipotente, que nem conhecemos direito, mas que podemos chamar aqui de natureza. Assim pregava o pai de Clarice Lispector, lembra? De Recife a Olinda, de bus, bora tomar banho de mar, purificar a mente-corpo-espírito, livrar-se das urucubacas, restaurar as energias, alcançar a plenitude de todo o seu ser. E espere duas horas para tomar banho de água doce, okay?
Em Ubatuba você encontra esse mar na forma mais sublime e sofisticada que possa existir. Sofisticação de que falo aqui não é ostentação, grana, penduricalho. É delicadeza, canção do Armandinho, refresco para os olhos, corpo, mente, espírito. São praias maravilhosas, as mais bonitas do Brasil. Discorda? Então você nunca esteve em Ubatuba. Copacabana é a nossa princesinha. Torres tem praias especiais. Joaquina é …

VERÃO >> Paulo Meireles Barguil


"É verão
Bom sinal
Já é tempo
De abrir o coração
E sonhar" (Roupa Nova, Canção de verão)
Os rodopios da Terra ao redor do Sol as ocasionam: outono, inverno, primavera e verão. Apesar da sequência ser sempre a mesma, não há monotonia.  Infindáveis aproximações e afastamentos proporcionam peculiares cenários. Cada estação tem seu charme e sua fragilidade, o que possibilita e o que interdita. A fartura de luminosidade nos convida a limpar, a abrir gavetas, portas e janelas. Não é sensato mirar para a fonte da claridade, sob pena de danificar os olhos. Agradecidos pelos mistérios da natureza e inspirados pelo esplendor e arome das flores, somos convidados a, assim como elas, distribuirmos as nossas belezas. A luz é para todos! Eles verão?
[Niterói – Rio de Janeiro]

[Foto de minha autoria. 13 de maio de 2010]

SANGRIA >> Whisner Fraga

A casa é só um esqueleto carunchoso e os vários ramos se intrometem naquela erosão de abandono maciço.

As paredes parecem ressentidas com o descuido, as bocas erodidas e seus dentes afiados de tijolos.

Os homens disputam as vértebras da casa e todos reivindicam uma justiça de três mil faces.

Nada devia ter dono.

Nem o chão, nem a bauxita, nem as esculturas, nem os aviões, nem a vaidade.

Ninguém devia ter dono.

Nem os cachorros, nem os gatos, nem os bois, nem os peixes ornamentais, nem os empregados.

Quantas brigas maturadas naqueles quartos.

Quantos sacrifícios, quantas perdas, quantos gozos naquele cubo?

Já não se atentam.

O que importa é o que pagam por hora e o resto é desperdício e consumo.

Não são ramos, são caules.

Os vãos são alicerces.

Os homens circulam pela calçada e desprezam a beleza arruinada.

Não percebem que a vida rasga os tijolos em busca de ar?

Quem sabe as árvores ofereçam frutos que estanquem a noite.

SEM SARCASMO >> Carla Dias >>

Eu não conheço o Sr. Geraldo. Ele é apenas um nome em uma matéria de telejornal que destaca a negligência e uma boa dose de sarcasmo, em momentos em que ninguém deveria ter de lidar com ele.
Ok, não é “apenas”. Afinal, Sr. Geraldo é uma pessoa, certo?
Certo.
Nas minhas férias, tenho o péssimo hábito de deixar a televisão ligada em canais de jornalismo, enquanto cuido da vida e até escrevo meus textos. Durante todo o ano, eu lido com as notícias de grande destaque, que tem a ver com todos nós. Perdem-se, então, da minha percepção, essas pequenas histórias. Pequenas não por serem desimportantes, mas por não ganharem espaço para o grito necessário.
Durante as férias, foram várias as histórias sobre atendimento, não apenas no setor da saúde, mas na geral mesmo. Claro que as notícias chegavam com o sensacionalismo escancarado. Em alguns casos, sinceramente eu o achei deveras necessário.
Temos a tendência de nos distanciarmos dos problemas que não são nossos. Às vezes, nem é por descaso, m…

PAUSA >> Clara Braga

Pausa.
Suspensão de uma ação.
Interrupção momentânea.
Intervalo.
Na música a pausa é a ausência de som.
Silêncio.
Todos precisamos de pausa.
Hoje saio de férias. 
Ócio criativo.
Pausa para renovar energias e voltar com muitas histórias para contar.
Nos vemos em fevereiro, hoje preciso ver o mar!

ALVO >> Paulo Meireles Barguil

Cada pessoa é, ao mesmo tempo, atirador e alvo. Iludidos com a crença da separação, acreditamos ser apenas o outro atingido pelo que externamos, mediante ações e/ou palavras, sejam elas agradáveis ou não.

Partilhamos – sabendo ou não, querendo ou não – o campo, que acolhe díspares energias. É impossível não receber aquilo que – sabendo ou não, querendo ou não – propagamos. Somos atingidos até pelo que – sabendo ou não, querendo ou não – calamos! Às vezes, a flecha cai no chão... Outras vezes, ela acerta, parcialmente, o objetivo. Raras vezes, ela encontra o centro do alvo! Nosso corpo é o arco que dispara a seta. Após ser projetada, é quase impossível detê-la.
Para diminuir os arremessos desagradáveis lançados por nós e pelos outros, é necessário admitir que a motivação para tal permanece no sujeito...
O chamado erro, fracasso é inevitável: sem ele, o indivíduo não desenvolve suas habilidades, nem encontra o tesouro ignorado. Isso não significa que precisamos ficar imóveis à ação do …

QUE O NOVO NÃO SEJA VELHO DEMAIS >> Clara Braga

Primeiro de Janeiro de dois mil e dezenove. Escrever uma crônica nesse dia é um verdadeiro desafio para mim.
Gostaria de estar aqui cheia de dizeres positivos, de esperança, desejando todos os clichês como paz e prosperidade. Mas, embora respeite opiniões políticas divergentes, não estou recebendo este ano de braços tão abertos!
Justamente por isso, decidi hoje respeitar esse ar dominical, pacato que o dia primeiro tem para refletir sobre o ano que passou e o que está por vir, tanto questões pessoais quanto políticas.
Muita coisa me passou pela cabeça, muito sentimento de gratidão, muito desejo de mudança e muitos questionamentos sobre os possíveis rumos que a vida pode levar.
Entre as varias coisas que pensei, gostaria de deixar um questionamento ou uma reflexão: em um estado laico, acima de tudo e todos não deveria estar apenas os cidadãos?!