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Mostrando postagens de Agosto, 2009

HOMENINO >> Eduardo Loureiro Jr.

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(Para ouvir antes, durante ou depois da leitura.)

Qualquer homem é mais homem do que eu. Eu ainda sou menino. Menino que, olhando pelo buraco da fechadura, deu de cara com um espelho e se viu — menino — olhando pelo buraco. Menino que se percebe menino. Homem ainda não.

Mais homem do que eu é aquele que faz barulho com uma britadeira e me arranca de meu sono. Mais homem do que eu é quem faz rua, casa, poste, mesa. Operários em construção são mais homem do que eu. Desempregados com família pra cuidar são mais homem do que eu. Aquele que trabalha dois expedientes é mais homem do que eu. Quem trabalha um turno extra, então, é ainda mais homem do que eu. O jovem descuidado que engravida a namorada, e casa, é mais homem do que eu. O homem comum, burocrático, da casa pro trabalho, do trabalho pra casa, é mais homem do que eu. Até o homem que sente raiva da mulher, e bate nela, é mais homem do que eu. Até o mendigo que pede, até o ladrão que rouba, até o golpista que frauda é mais ho…

ATORES [Sandra Paes]

— Quem vem aí?

Abertura da peça Hamlet. A pergunta inicial já me remeteu a uma resposta além do texto. Quem representa quem?

Na vida, fingimos que somos apresentados. Desfilam uma série de atributos para nos emoldurar. Descobri recentemente que sempre ponho uma moldura mais valiosa em torno da pintura. Valorizo por demais, assim, cada apresentação e, talvez, por isso mesmo, fique à espera, como um leigo, sentado no teatro da vida, do descortinar de personagens através de textos e cenários marcados.

Shakespeare atravessou os séculos. Ainda hoje, os ditos atores profissionais tremem diante da possibilidade de encarnar um de seus personagens.

E de novo: — Quem vem aí?

Afinal, a frase, em si mesma, é magistral. É sempre assim a cada batida na porta, a cada toque de telefone. A cada virada de pescoço num ambiente qualquer.

Não sei quando e por que ficamos desavisados — estado esse que parece ser o melhor para os enredos começarem, atando ou desatando nós.

Nos dramas de todos os dias, Hamlet começ…

OS ÚLTIMOS INSTANTES DE TIM BUCKLEY >> Leonardo Marona

É com extrema dificuldade que acendo o cigarro. Não sei ainda o que está me matando. Penso nos cabelos loiros de meu filho, sei que também ele não escapará, terminará com as calças encharcadas e o estômago inchado de peixes. Minha mulher, ela nunca me entendeu, e apenas isso facilitou o nosso amor. De outra forma não haveria amor, esse élan, não haveria afinal este cigarro na boca. Só os imbecis fumam sem motivo. Adoraria ser um imbecil. Palavras tão gastas quanto a lâmina que decepou Garcia Lorca. Imagino as mortes sempre a facadas.

O frio que faz, sei que não vem de fora. Apenas sei que chove, foram muitas gotas, sinto as gotas escorrerem pelos meus cabelos. Tão bonitos eram os meus cabelos. Fartos e volumosos. “Você parece o Tim Buckley”, ela dizia. Onde estará ela? Tanto tempo não nos vemos. Ou será que foi ontem? Repentinamente me vem a imagem de Dostoievski se agachando para apanhar a pena, rumo à última hemorragia. Dostoievski tinha as pernas curtas e a testa larga e andava sem …

A DOR DA DÚVIDA >> Kika Coutinho

Marília era uma colega de trabalho que logo tornou-se grande amiga.

Eu lhe contava as minhas esperanças e sonhos, meus anseios e preocupações, e ela, um bocado mais velha do que eu, contava-me de suas dores e frustrações, suas tentativas fracassadas e seus problemas sem fim.

Marília passava por um casamento muitíssimo conturbado e tentava com unhas e dentes manter aquela relação, já tão desgastada. Eu, que era uma menina jovem e solteira, sentia um misto de pena e admiração por aquela mulher. Ela era brava como uma leoa protegendo os seus filhotes, enquanto o marido, que eu conhecia mal, não manifestava a mesma força e gana para manter aquele amor.

Foi numa manhã ensolarada que Marília chegou com uma excitação diferente: “Você não vai acreditar!”, ela disse, meio que animada, meio que chocada. “O que foi?”, perguntei, entusiasmada. “Achei uma coisa no bolso dele, achei!”. Ai meu Deus – eu gelei diante do fato. Marília correu, me chamou até o banheiro e lá, ambas assustadas, ela tirou da …

FELIZ... POR QUE NÃO? >> Carla Dias >>

Uma pessoa nasce desastrada à beça. Então, não consegue andar pela sala sem tropeçar nos móveis, ou sem perceber, na idade incerta das coisas da vida, que errou a mão ao abrir as cortinas, e o fez justo em dia cinza.

A pessoa nasce de atravessado, por isso parece não caber em lugar nenhum... Nem mesmo detrás dos livros, dentro da tela da televisão, debaixo do edredom, na caixa do correio.

Enquanto caminha pelo calçadão, onde ficam as lojas populares, o sonho se acomoda num futuro distante. Logo adiante, como se não tivesse dado três passos, este mesmo futuro - barba branca, fé desbotada, olhar encalhado – lhe confidencia: aconteci.

A pessoa nasce desembestada, ansiosa de um jeito quase insano, como se cutucasse precipícios, como se de lá, do fim sem fim, pudesse contemplar melhor os fogos de artifício. Como se a realidade tivesse sempre que ser a das distâncias.

Quem nasce e depois renasce, dia após o outro, remoça benquerer?

Essa pessoa acreditava que jamais sentiria a felicidade desacomp…

A ESTRANHA >> Eduardo Loureiro Jr.

Cheguei de surpresa. Bom, pelo menos essa era a minha intenção.

Não gosto de surpresas. Considero um roubo de expectativa. Quem faz uma surpresa tira, do outro, o prazer de esperar. E quantas vezes o prazer maior é justamente esse prazer dos pais que esperam o filho -- principalmente o primeiro -- por quarenta semanas. O prazer da criança que caminha até a sorveteria antecipando os sabores. O prazer do jovem se preparando para o show de seu ídolo. O prazer dos namorados que se arrumam para o primeiro sexo. Tudo isso acontece sem surpresa, mesmo que haja outras pequenas surpresas envolvidas -- porque sempre há. Quem faz surpresa guarda só para si esse prazer. E eu nunca quis ser um estraga-prazeres.

Mas com o Tempo -- esse senhor surpreendente mesmo quando não nos rouba a expecativa (como é que ele consegue isso?! -- aprendi que o meu gostar não é o gostar do outro. A gente dá uma coisa não para receber a mesma. Esse é o problema da Pena de Talião ("olho por olho, dente por dente&qu…

DE VITUPÉRIOS [Monica Bonfim]

Li, num livro do Lobato quando criança, que “louvor em boca própria é vitupério”. E acho mesmo de uma total falta de educação ficar um sujeito se autoelogiando o tempo todo.

Acontece que nos tempos que andam, darlings, o pessoal anda achando que a propaganda é a alma do negócio, ou seja: significante de autoestima é ficar se autoapreciando em alto e bom som.

Eu até acho que, em termos profissionais e pessoais, há que se dar uma de galo de vez em quando: fez um gol, tem mais é que comemorar mesmo, e sair cantando o feito. Mas é o feito, não o autor do feito, entendem? Uma conquista, uma vitória (até sobre si mesmo) há que ser sempre comemorada — mas é o fato, é o fato... Ainda acho que tem que deixar a platéia gritar: “o Autor... o Autor”. E aí o autor tem que fazer uma cara de alegria e certa modéstia, e agradecer o elogio feito PELOS OUTROS.

O problema é que eu tenho uma falha: quando não é exagerado demais — porque aí fica ridículo —, eu acredito piamente. Talvez seja porque, sendo pró…

A SEGUNDA FRASE >> Leonardo Marona

Hoje estou do tamanho do mundo. E, é claro, o mundo não cabe em mim. Estou do tamanho de algo que não cabe em mim portanto, e isso é patético. Sou como o resto de uma comida renegada mesmo pelos cães. Me dói por isso estar tão tomado por algo que ultrapassa os poros. E sem arma suficiente. Sem gritos e gemidos sobre uma evolução calma. Estar do tamanho do mundo então não passa de uma mentira. E, como eu, mentimos muitos. Ou seja, não tenho nem para mim o Milagre de Pedro, o Milagre da Exclusividade. Estou à beira do mundo e a sensação é de Gepeto à beira da boca enorme. Por exemplo, a segunda frase deste testamento tornaria a primeira genial. Mas acabei por perder a segunda frase, e tudo foi por água abaixo. E agora, como uma lasca descolada de uma parede horrível, despenco para o fim do parágrafo, porque a idéia inicial foi amputada.

E parece que vivemos todos assim. Reparo nos mortos que ainda se mexem. Esses que entram de muletas nos ônibus, com paralisia infantil. É claro que há um…

Vou deixar a rua me levar >> Kika Coutinho

A história é verídica. Eu tinha acabado de criar o meu primeiro blog, que se chamava Estações ou algo assim. Do alto dos meus 20 anos, escrevia sem parar e, para decorar o blog, escolhi uma foto linda que achei na net. Eram umas árvores de outono, com folhas amarelas no chão. Enfim, uma belíssima paisagem.

Lá pelas tantas, recebo um e-mail em inglês de uma senhora que se dizia a fotógrafa da imagem que eu usava no blog e, como eu o fazia sem a permissão dela, deveria depositar na conta XYZ uma quantia de X dólares. Eu tomei um susto, mas, como mal tinha real, ri de pensar que ela imaginava que eu teria dólares.

Respondi me desculpando e explicando que não poderia pagar-lhe, mas tiraria a imagem, já que ela não queria que eu a usasse. Não demorou muito para que a mulher me escrevesse novamente, propondo um acordo. Ela pesquisou meu nome na internet e, achando que só existia uma Ana Carolina no Brasil, concluiu que eu era uma cantora famosa e que tocava guitarra em muitos shows pelo meu p…

DIZ, BEATRIZ >> Carla Dias >>

Foto: Julia Moraes
Recebo muitos e-mails de pessoas envolvidas com arte, escritores, músicos, fotógrafos... E confiro tudo o que recebo. Separo o que me agrada, num primeiro momento, e me aprofundo, cultivando sintonia. O que colho, logo adiante, é o gostar genuíno ou a constatação de ter sido apenas um deslumbre momentâneo.
Quando se trata do gostar genuíno, ah, eu fico feliz! Porque, pensem bem, não é fantástico quando encontramos algo ou alguém que faça a nossa alma sussurrar - sonsa que só - ao nosso corpo todo: isso é bom e faz bem?
Bom... Bem...

Foi assim que conheci o trabalho de uma cantora, compositora, atriz e poeta que não necessita dos meus préstimos para ser (re)conhecida, mas como gosto de partir o pão e dividir, com os agregados do meu afeto, os pedacinhos, vou falar sobre ela hoje.
De Beatriz Azevedo eu ouvi a música e mais de uma vez. Li os poemas, as mensagens sobre os seus fazeres artísticos que caiam na minha caixa postal.
Foto: Roger Sassaki
Ontem, recebi um flyer …

VOZES >> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho uma quedinha por vozes. Tudo bem, confesso: tenho uma quedona; uma não, várias.

Ano passado, quando eu ainda trabalhava no MinC, tive que ligar para todas as secretarias de cultura do Brasil em busca de algumas informações. Era uma tarefa chata, repetitiva:

— Olá, meu nome é Eduardo Loureiro Jr. Trabalho no Ministério da Cultura. Estamos elaborando um catálogo referente ao centenário de morte de Machado de Assis e gostaríamos de saber se vocês realizaram ou pretendem realizar algum evento comemorativo relacionado ao tema.

A resposta também não variava muito: às vezes, "Sim"; às vezes, "Não". No máximo, aquele velho e irritante: "Você pode aguardar um pouco na linha? Vou transferir a ligação para o setor responsável."

Eu estava em minha vigésima ou vigésima primeira ligação, repetindo as palavras como se fosse uma máquina, quando me atendeu aquela voz:

— Boa tarde. Secretaria de Cultura. Fulana. Em que posso atendê-lo?

Eu já nem reparava mais para qual DDD…

DE ESTEREÓTIPOS [Monica Bonfim]

Te economizando a ida ao dicionário, diz o Houaiss que estereótipo é “idéia ou convicção classificatória preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações”. Uau... uau... uau...

Pois acabei de entrar em casa, tirei os sapatos, pus os pés na mesinha de centro e tomei um mate gelado com limão, enquanto minha secretária para assuntos domésticos estava passando roupas na sala (é atualmente o lugar mais fresco da casa com a chegada do verão amazonense) ouvindo U2 enquanto dança e me pede o CD emprestado para ouvir na casa dela no final de semana. E comenta que ela gosta mais de dançar que as filhas dela — que estão adolescentes e ela cria sozinha, trabalhando em dois empregos. Aproveitei a oportunidade para perguntar por que ela tinha tirado os CDs de pagode que eu estava ouvindo no final de semana. “Pagode, doutora, só quando estou bebendo... ”.

E semana passada eu estava numa reunião cheia de senhores engravatados quando toca meu t…

OS ALIADOS DO COSME VELHO >> Leonardo Marona

E descendo o Cosme Velho, rumo à História forjada ia você, poeta emotivo e irônico cheio de espinhas e com intensas, delicadas perturbações, de alguma forma cantarolando sua canção exclusiva em na sua própria cabeça, num ritmo que tornasse possível prosseguir andando, assobiando para os pássaros, enquanto tocava o sino, o sino das seis da tarde e as senhoras brotavam da Igreja São Judas Tadeu, com suas cruzes e olhares perversos para pequenas delicadezas, e você, mago prodígio, assustado com a vida madura cuja boca abria e o hálito era terrível, você vinha vindo descendo a rua, pensando em Machado de Assis, O Óbvio, pensando em como odiava Olavo Bilac.
– Um novo emprego, pois muito bem. Um novo emprego não deve ser letal...
Inadequadas lembranças de quando ouviu certa melodia, certo murmúrio ao pé do ouvido... Numa boate talvez, quem sabe...
– Aí, gordinho, larga o bigode! Perdeu!
Larga o bigode? Primeira imagem: uma clavícula muito magra, tensa, borrão expressionista no olho da noite que…

Dos desejos das grávidas >> Kika Coutinho

Não é que me dê nenhum desejo especial. Não, não dá. O que sinto, pra falar bem a verdade, é desejo de tudo o que eu vejo.

Estão fui à padaria, e já tinha comprado o que precisava, quando passei pela vitrine dos quitutes. Imediatamente, tive um desejo incontrolável pelo pão de queijo. “Moça, esse pão de queijo está bom, é?” Ela responde que tinha acabado de sair, e eu não hesitei: “Me dê 100 gramas, fazendo o favor”. Enquanto ela depositava os pãezinhos no saco, não pude deixar de ver as mini-coxinhas ao lado. Pronto, de novo aquele desejo incontrolável. Meu Deus, tenho que andar com aquela coisa de cavalo nos olhos — sabe? — que não te deixa olhar para o lado. “Moça, dá pra pôr uma coxinha aí dentro?” Ela sorriu e tascou o salgadinho no saquinho. Quando já estava pesando, foi que vi, ao lado da coxinha, uma bandeja superapetitosa de bolinhas de queijo. Não que eu quisesse comprar 100 gramas de bolinha de queijo, não, eu só queria uma, umazinha daquela ali. Acho que é uma sensação meio…

ESTOU PARA... >> Carla Dias >>

A temperatura das palavras a perturba...


Fosse apenas um arruaceiro, dedicado a emparelhar sentimentos vãos - e lançá-los contra os muros do óbvio -, talvez ela não mastigasse nesse tempo o amargor, enquanto encaracola uma mecha de desassossego.
Arrancada que foi da (in)tranquilidade que lhe cabe, agora conta nuvens nos dedos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... O mundo para e, em vez de descer, enquanto lhe é de direito, ela pisa firme no solo da teimosia e da curiosidade. O que está no avesso assanha o seu desejo em esperar para ver.
Ela: estática. E a chuva cai nas suas faces, que amparam o cansaço dos anos que foram e dos que virão. Ela é assim: ora se atrasa e ora se antecipa, atrapalhando-se com os rompantes da própria existência, como quem prende o dedo na porta e cala o grito, o olhar simulando uma diversão pálida.

Creio que sempre teve esse algo com a temperatura das palavras, como aquelas que ela guarda na memória, desde os arrabaldes da infância, ditas pelas vozes da mãe, das tias, da a…

IGUAL PAPAI! >> Felipe Holder

Não gosto muito desse negócio de dia certo pra presentear. Não tenho nada contra dar presentes de aniversário, de Dia das Mães, de Dia dos Namorados, de Natal, enfim, nada contra dar presentes com data marcada. Mas pra mim os melhores presentes, aqueles que a gente nunca vai esquecer, normalmente são os que são dados sem um motivo especial. Às vezes até mesmo sem querer.













Quarta-feira, dia 5 de agosto. Noite quente em Montreal e eu assistindo ao jogo Náutico x Corinthians na telinha do meu computador. Meu filho Eduardo tinha me chamado pra montar com ele um de seus inúmeros quebra-cabeças, mas eu respondi “Papai agora vai ver o jogo do Náutico. Tá certo?” Normalmente ele reclama, mas dessa vez ele disse o seu costumeiro “tá ceto” e foi brincar sozinho.

Jogo nervoso, Corinthians perigoso, papai preocupado. O Náutico perde um gol incrível. Vai acontecer de novo: joga bem mas não consegue ganhar. Melhor perder logo de uma vez, pelo menos a gente não fica nervoso. 40 do primeiro tempo, pênal…

AMOR PLATÔNICO >> Eduardo Loureiro Jr.

Existe um lugar onde tudo ainda é possível...

Quando eu tinha dez anos, era apaixonado por uma garota alguns anos mais velha. Na época, a diferença de idade — associada à minha timidez — fez com que o amor fosse completamente platônico. Com o passar do tempo, melhorei da timidez e a diferença de idade foi perdendo importância, mas, por um motivo ou por outro, a paixão continuou platônica por um bom tempo e, depois, se dissolveu entre tantos amores de parte a parte. Mas surpreendentemente, e de uma hora para outra, as coisas mudaram...

Ontem, trinta anos após o início da paixão, justamente na semana de meu aniversário de 40 anos, eu a reencontrei. Eu tinha ido a uma exposição de desenhos do ilustrador de meu primeiro livro para crianças. Uma exposição magnífica que, além da qualidade dos desenhos, tinha uma atmosfera mágica. O curador havia conseguido organizar não apenas o espaço, mas também o tempo. Em alguns momentos, cheguei mesmo a ter a sensação de que não estava no presente, ou de…

CALEIDOSCÓPIO [Sandra Paes]

Debruçada. Semprei achei essa palavra e imagem muito estranha. Lembro-me da primeira vez, quando criança, em que experimentei seu significado. O céu debaixo das pernas parecia um convite especial a uma viagem transcendental. A cabeça de menina, por certo, não tinha os conceitos na mente, mas a visão de cabeça pra baixo revelava quase que um outro mundo.

Depois disso, as piruetas, as cambalhotas. Estar horas e horas na barra de ginástica não era, como pensavam os adultos por perto, um exercício a mais pra uma menina com vocação de ginástica. Qual o quê! Eu estava mesmo em busca do céu às avessas. Que maravilha poder não sentir a gravidade e ter o céu sob as pernas, de tantas formas e contornos que poderia fazer tantas e tais posições e prender a respiração apenas pelo lúdico movimento de estar no céu de certa forma.

Hoje, contemplando a tempestade lá fora, ouvindo ao telefone queixumes sobre os relâmpagos, me vi bebendo a chuva e em glória única diante dos trovões e relâmpagos que o céu …

A conquista do parágrafo >> Leonardo Marona

“Por outro lado,
sempre os outros morrem”
(Marcel Duchamp)


Começo o texto por um famigerado título: “Envelhecer”. Mas é tudo mentira. Ninguém envelhece com alguma consciência. Envelhecer é perder a consciência ao falar em nome dela. Mesmo assim, duvido muito que o título permaneça até o fim deste pequeno relato. Na verdade, detesto a palavra “relato”, mas prometi a mim mesmo, dessa vez, não suprimir nada. Os velhos, afinal, acumulam coisas, “experiências”, eles chamam assim. Anoto em papéis amassados coisas sem importância, perco os dentes pelas ruas enquanto a chuva me consome, casei-me enfim, escrevi um livro, é como se me beliscasse o tempo todo. As pessoas – cada vez mais eu acredito – se casam por medo. Não que seja um inferno amar alguém. Mas só ama quem tem medo. Será que tenho medo ou, afinal, não sou uma pessoa? Os corajosos desbravam ilhas e mastigam ópio. Os medrosos se casam, compram cigarros no varejo. Não faz muito tempo eu chorava bastante, sentia uma raiva incontrolável d…

NECESSIDADE DE HOJE >> Carla Dias >

Quando eu era mais jovem, tinha uma necessidade tresloucada que vivia dentro de mim. À noite, ela me tirava o sono. Durante o dia, me distraía do que tinha de fazer.

Essa necessidade também teve suas fases, de acordo com o tempo do meu calendário de vida experimentada. Por exemplo, aos dez anos, eu a chamava “cadê o meu buraco?”. Sei que dar nome a algo usando uma frase, ainda mais com ponto de interrogação no final, não funciona na maioria das ocasiões. Mas, neste caso, tinha tudo a ver com os meus dez anos de idade e a vontade louca de me enfiar num buraco e não precisar lidar com as pessoas. Para mim, os adultos estavam sempre fazendo perguntas menos importantes do que a falta de ar que me pegava de jeito quando tentava entender aonde ia dar o universo.

Mais tarde, a minha necessidade era de livros. Lia tudo o que caía na minha mão, romances água com açúcar, gibis, revistas de música, álbum de figurinhas, bulas, receitas da lata de leite condensado, Herman Hesse, Vinícius de Moraes, …