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AMOR EM NÚMEROS >> Eduardo Loureiro Jr.

Cloud_400d - Flickr.comÀs vezes, a gente quer tanto o DEZ que faz pouco do SETE.

O SETE está acima da média, e muitos o consideram um bom partido, a perfeição dentro do possível. Deve até ter muita gente de olho grande no nosso SETE, mas é irresistível pensar que, se conseguimos um SETE, podemos conseguir coisa ainda melhor.

O OITO, por exemplo, é melhor que o SETE. Infinitamente melhor -- quando deitado. O OITO é sedutor, sabe as curvas, os desvios, os atalhos. Mas, assim como sabe chegar, também sabe partir, e ficamos desconfiados. O OITO é bom para dar uma animada, para sacudir a poeira, não para um comprometimento sério.

Já o NOVE está quase lá. Está tão quase lá que a gente suspeita. Ou é muito marketing, muita fachada, ou, pior, o NOVE é preguiçoso. Sim, porque como pode estar tão pertinho do DEZ e não ser DEZ? O NOVE nos dá aquela sensação de que vai criar barriga, de que vai se acomodar, de que noves fora, nada.

Na falta do DEZ -- e do que fazer -- a gente, só por curiosidade, fica a ver e pensar nos outros. SEIS e CINCO, por exemplo, os medianos. Aqueles que quase todo mundo tem em casa: os que trabalham oito horas por dia, os que roncam, os que veem novela e assistem ao futebol. Sim, eles são necessários para o equilíbrio da sociedade. Não são bons o suficiente para a gente, mas têm lá sua utilidade.

Já o QUATRO e o TRÊS são desprezíveis, os reprovados. São, no mínimo, irresponsáveis. Em alguns casos, desleais ou até mesmo cafajestes. São o aluno que cola, o sonso infiel. É incrível como há quem os queira, às vezes até uns amigos nossos. Mas na nossa casa não entram, a não ser pelas notícias trágicas dos telejornais ou pela boataria da fofoca.

Só não sejamos muito duros com o DOIS e o UM. Eles são os coitadinhos, as vítimas do sistema, os excluídos, os fracos. Enquanto o DEZ não vem -- e parece que o DEZ nunca vem --, a gente se permite fazer uma caridade, acolher um DOIS, ou até mesmo um UM, confortá-lo, reabilitá-lo, salvá-lo. Afinal, nós somos bons, e os bons praticam a boa ação.

E então -- ou porque estamos cansados, ou frustrados, ou apenas distraídos -- topamos com o ZERO: a tela branca e vazia. Em si, o ZERO é nulo, mas, colocado ali ao nosso lado, recebe toda a nossa projeção de grandeza e adquire ares de dezena. Iludimo-nos que seja o DEZ e, quando nos desiludimos, racionalizamos que é melhor ainda que o DEZ porque é humilde, porque não resiste, porque aceita em nós tudo que rejeitamos em todos.

E quase nunca nos perguntamos qual é o nosso número.

Comentários

Alba Mircia disse…
Querido,
alguns vão de 0 a 10 e retornam dentro de poucas horas e quase nos conseguem enlouqueder!!! É preciso ficar bem atenta, inclusive às variações do 3,5 e até do 11, em alguns momentos, como quando se recebe flores do viajante...
Carla Dias disse…
Não sei qual número é meu... Tenho meus dias de cinco, de nove, mas sempre gostei do sete. Adoraria ser um sete ou compreender o zero e me tornar o número que me dê o mapa certo de mim.
Bjs!
Tia Monca disse…
Muito Legal!
Bom identificar que viajo do 0 ao 10 :o)
Bj,
Tia Monca
Grato, Valdir. :)

Querida, só você mesmo pra acrescentar um 11 e um 3,5. :)

Carla, desconfio de que você não é número: é letra.

Isso é que é versatilidade, Tia Monca.
Juliêta Barbosa disse…
Eduardo,

Gosto da tela branca, vazia... E as palavras: junção e humildade sempre me atraíram. Que tal a união de dois zeros e a partir daí, um passeio na escala de um a dez? Afinal de contas, todos nós temos um pouco de mocinho e de bandidos. Quem sabe desse encontro possa surgir o famoso casal vinte... É “Vivendo, Amando e Aprendendo” (Leo Buscaglia) que chegaremos lá, na felicidade possível...
Marcos Afonso disse…
Amigo Eduardo!

Pitágoras teve seus átomos revigorados...

Grande abraço acreano,

Marcos Afonso.
É, Juliêta, o "jogo" do amor parece ser mesmo esse experimentar de combinações "bonitas, possíveis, sem juízo final", como canta o Caetano.

Eita, Marcos, agora fiquei curioso pelos amores de Pitágoras. A Sociedade Filosófica já tratou desse assunto dos amores dos filósofos? Ou será que eles nunca pensam "naquilo"? :)
Eduardo,
E eu que, ingenuamente, pensava que você dominava apenas as palavras...
Marisa, parece que não sou o único a dominar as palavras. As suas me fizeram sorrir. :)
Karina disse…
Pra mim é bom saber que entre 0 e 10 existem um infinito de possibilidades, e se um dia estou 3,333333333333333, no outro posso ser 10 e ver o outro 10.Acho que quando olho para mim de forma amorosa, assim como lanço ao outro um olhar amoroso enchergo uma bela nota, destas de se admirar.
Ivan Moraes disse…
Admirei sua crônica. É interessante. De minha parte, resisto e rejeito qualquer avaliação, qualquer valoração, porque esta não ocorre sem julgamento, o que não quero para mim e procuro, desesperadamente, também não impor ao outro.

Sua visão, entretanto, desse mal costume humano, é suave, fraterna, especialmente quando alinha o zero e o dez, as polaridades que se tornam unas.

Vou continuar lendo o que você escreve!
Karina (é você, maninha?), você matou a charada: a única justiça é o amor.

Ivan, que bom que ultrapassou a aparência de julgamento. Também tenho evitado julgar (afinal, que conhecimento temos para tanto?), mas de vez em quando é importante mostrar ao julgador que existe em nós que, mesmo que quiséssemos julgar, isso seria pelo menos falho, ou mesmo impossível. Confrontar o julgador com um sistema explícito e limitado de julgamento, como esse que tentei delinear na crônica, às vezes leva o julgador a questionar seu hábito de julgar. :) E daí pode nascer a liberdade das infinitas possibilidades de ser e deixar ser.
Simone disse…
Que felicidade esse texto. Lindo!!!! muito lindo. Posso copiar e postar no meu Blog? Se puder claro que irá com todos os créditos. Amei demais.
Abraços.
Simone, coloque o crédito da autoria, e um link para o Crônica do Dia, que está liberado. Que bom que amou. :) Grato pelo contato.

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