sexta-feira, 31 de agosto de 2018

OU >> Paulo Meireles Barguil


Por cima ou por baixo? Há quem prefira de lado! E, também, quem não goste de exercícios...

Carne ou frango? Há quem escolha peixe! E, também, quem não selecione qualquer animal...

Azul ou Vermelho? Há quem opte pelo amarelo! E, também, quem não eleja qualquer cor...

Praia ou serra? Há  quem delibere pelo sertão! E, também, quem não aprecie viajar...

Gratidão ou reclamação? Há quem decida pela indiferença. E, também, quem sequer saiba o que sente...


[Oficina Cerâmica Francisco Brennand – Recife]

[Foto de minha autoria. 21 de dezembro de 2004]


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sábado, 25 de agosto de 2018

DE SAMPA >> Sergio Geia






De Sampa, trago algumas histórias.
Num dos dias fui ao Masp. Terça-feira a entrada é gratuita. Na oficina que fazia no B_arco, Renan me disse que a fila estava horrorosa e que não quis encarar. Na quarta eu fui, e mesmo sendo pago, a fila não era das menores. Encarei. Enquanto estava nela, aguardando para comprar ingressos, apareceu uma mulher toda vestida de branco se oferecendo para medir a minha pressão. Num primeiro momento, pensei que fosse alguém da Prefeitura, ou de alguma universidade, essas campanhas que têm por aí. Ao se preparar para medir, com uma técnica apurada de fazer duas coisas ao mesmo tempo, absurdas e incompatíveis entre si, mostrou-me um boleto no valor de R$ 7.837,00 ou algo perto disso, dizendo que era o valor que a filha tinha de pagar na faculdade de medicina, pedindo uma contribuição, que podia ser de R$ 37,00, ou R$ 837,00, ou o valor todo. Decerto imaginou que eu fosse algum figurão abastado, pobre de mim. Eu disse que contribuiria com R$ 7,00 e olhe lá. Pelo menos ELA, e eu fui pego de surpresa, estava 13x8.
No frente do Masp sempre tem gente vendendo coisas. Numa das vezes, comprei um livro de crônicas do escritor José de Carvalho, que, em pessoa, no meio da multidão, oferecia sua obra por R$ 20,00, dizendo que o livro tinha o prefácio do Lourenço Mutarelli. Desta vez tentaram me vender um de poesia.
Um fato inusitado. Num dos dias, o taxista que estava na porta do hotel me contou que acabara de chegar um grupo de hóspedes. Que enquanto aguardavam atendimento, um sujeito entrou, carregou uma das malas e se mandou. Ninguém viu. Ele, o taxista, desconfiava que havia coisas especiais na mala, mas não me disse que coisas especiais seriam essas. Alguém vai roubar mala de roupas?, me questionou. Já era algo planejado, arrematou, com a convicção dos advogados.
Sabe que a Frei Caneca, onde normalmente fico, anda vivendo uma onda de assaltos e violência. Na esquina da Barbosa Rodrigues, um rapaz foi baleado outro dia ao se assustar com uma tentativa de roubo de celular e morreu. A gente anda com medo, olhando para trás.
Numa das noites fui ao shopping comer alguma coisa, e vocês acreditam que o Shopping Frei Caneca fecha às 22 horas? Eu não acreditei. Falei com o segurança, inconformado, se não seriam apenas as lojas, mas não; ele me confirmou que também a praça de alimentação.
Por falar em taxista, senti falta de boas conversas. A maior parte dos motoristas que encontrei se mostrou calada, acho que assustada um pouco com a violência, com a falta de chuva (fazia mais de cinquenta dias que não chovia em São Paulo), com a falta de grana. Se não puxo um papo qualquer, uma conversa sobre o calor, sobre futebol, violência etc., ia de um lugar a outro em absoluto silêncio, como uma igreja vazia. Em compensação, um deles falou demais. Preconceituoso, mostrava-se indignado com o amor livre entre pessoas do mesmo sexo. Tentei ponderar, mas senti que ele nem me ouviu.
Encontrei um amigo que participava de um seminário sobre empreendedorismo, e batemos altos papos num barzinho na Augusta (saiu uma crônica a respeito). Por razões óbvias, não falarei seu nome.
Do meu quarto, no décimo quarto andar, eu enxergo um pedaço da Augusta. Difícil é dormir de sábado pra domingo. Aliás, havia um barulho chatésimo de obra que não parava mesmo às três da madruga, obra 24 horas. Acho que era perto da Paulista. Como as autoridades permitem? E a lei do silêncio?
No meu próximo retorno já marquei um almoço com a Roseli Oliveira e o Denis Faria, amigos de longa data. Uma cerva com o Érito Mayer também, esse artista estupendo, dançarino, palestrante, um showman.
Tudo isso foi o lado do avesso do avesso do avesso da minha estada em Sampa, o que desimportante aconteceu, que esteve à margem do programa oficial. Desculpa aí por colocar minha lupa em coisas tão insignificantes. Mas, e o que é escrever crônica senão isso?



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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ - 2a parte >> Zoraya Cesar


Chegou a noite - ansiosamente esperada por aquela gente que nunca esperançara por nada. Andavam silenciosos, em fila ordenada, como que ainda temerosos que qualquer movimento mais brusco, qualquer bulício pudesse desvanecer o circo, como uma miragem.

O circo, no entanto, estava lá. Uma tenda grande, de pano roto, tecido velho, remendada com linhas e cordas toscas, aqui e ali. Para sentar, caixotes, tábuas apoiadas em latões, algumas almofadas que nunca viram melhores dias. Ninguém se importou, todos se ajeitaram de uma forma ou outra, os mais velhos sentados nesses bancos improvisados, os mais novos espalhados pelo chão.

Picadeiro? Uma área retangular, de frente para a plateia, mais parecendo uma arena. E areia, terra, pó era o que não faltava naquele chão, naquela cidade, em cada poro daquela gente. 

A luz era pouca, roubada de um ou dois postes elétricos (com o consentimento tácito dos próceres do povoado, homens mais velhos que sobreviveram à aridez e ao desconsolo). A Lua brilhava intensamente, ansiosa por não perder um acontecimento sequer do que prometia ser memorável.

O senhor grisalho e forte entrou, saudando e agradecendo ao respeitável público de Monaxiá com sua voz tonitruante. O vermelho de sua roupa estava desbrilhado e a cartola típica dos mestres de cerimônia fora substituída, há muito, por um chapéu panamá repleto de enfeites tristes. 

Chegou o mágico, cheio de truques tirados de uma caixa de brinquedos para crianças – os que ele mesmo criara quando jovem ficaram perdidos em algum momento de fome. Para o público, porém, aquela mágica era de outro mundo (e, de certa forma, era mesmo; de um mundo onde os sonhos viviam antes de serem esmagados pela realidade). 

Chegou o palhaço, fazendo estripulias com o cachorro sempre famélico, mas bem adestrado e animado. A apresentação foi burocrática, e as palavras saíam engroladas e reticentes, como as de alguém desperto, bruscamente, de um estado de torpor alcoólico. Mas a platéia nunca vira algo tão engraçado. (Melhor dizendo, ninguém ali jamais vira algo engraçado. As risadas escapavam roucas e cheias de pó). 

Foram-se o mágico, o cachorro e o palhaço. Ficou o silêncio, aquele que antecede aos grandes momentos, a penetrar em cada ser, pensamento, molécula. Minutos – nem longos nem curtos, apenas minutos, em sua dimensão imutável - se passaram assim, sem que nem os olhos piscassem. 

Então, ela entrou. A Bailarina. A Equilibrista. Ela.

Baixa, magra como um saco de ossos, os olhos grandes demais para o rosto fino e anguloso. Parecia que, ao menor sopro, seu corpo seria levado pelo vento afora. Ledo engano. Ela era a senhora dos ares, do equilíbrio, das alturas. Em seu habitat, reinava, soberana e absoluta, dona de beleza incontestável. O brilho de seus olhos e de seu sorriso (no qual faltava um dente) ultrapassavam o da lua, o das lantejoulas, o dos paetês. 

E a plateia a acolheu em seus corações, ávida e fremente. 

Tão delicada e suave quanto uma bailarina de caixa de música ela dançou seu corpo esguio até a escada, por onde subiu, lenta, parando a cada dois degraus para acenar à plateia, olhar-lhe nos olhos, mantê-la cativa. Ninguém piscava, respirava, pensava; as bocas abertas não emitiam qualquer som.

Subiu, finalmente, na corda bamba, baixa para os padrões de um circo decente; alta o suficiente para causar arrepios e provocar tensão. 

A Bailarina e sua plateia
- uma união indissolúvel
a ser eternizada no pó
A Bailarina colocou um pé, depois o outro, equilibrando-se, um tanto cambaleante, com o bastão nas mãos. O público se levantou. Ela, encorajada, continuou. Como se estivesse sobre um tapete invisível, e não sobre uma corda oscilante, a bailarina fazia piruetas, pequenos saltos, colocava-se de ponta-cabeça... As manobras iam se tornando cada vez mais perigosas, a corda bambeando quase selvagemente, como um frágil barco no mar bravio, prestes a soçobrar em pedaços.

A emoção, o coração na boca, os olhos esbugalhados... em cada um dos presentes foi crescendo e se enraizando uma certeza: não poderiam mais viver sem ela. Aquele espetáculo de beleza, de vida desafiando a morte, não poderia acabar, tinha que ser preservado para sempre.

O silêncio foi, paulatinamente, sendo invadido por um rumor grave e baixo, quase imperceptível, saído do fundo das gargantas empoeiradas: pula

A Bailarina pressentiu o clamor de seu público, percebeu que pertencia àquele lugar, àquela terra, àquele pó. Não precisaria mais zanzar como uma cigana pelo mundo, eles a receberiam como sua própria gente. Era isso. Largou o bastão. Abriu os braços. E fez a manobra mais arriscada de sua vida, murmurando 'aqui estou'...



Imagem: August Macke (1887–1914) - Tightrope Walker I (Seiltänzer I)















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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CONDICIONAL >> Carla Dias >>


Quem eu teria sido?

Teria escolhido o mundo?

Itinerante, conheceria sua geografia e sua gente. Talvez me perdesse na sua complexidade, mas não tanto quanto na sua beleza, porque dizem que o mundo, o planeta, é deslumbrante. Mesmo quando suas crias o esganam com seus feitos, ele reverbera sua venustidade. Talvez me aventurasse na pluralidade das suas pessoas, permitindo-me saber mais sobre o outro do que o outro já desejou saber sobre mim.

Teria escolhido a solidão?

As paredes de uma casa onde seria habitante única, na qual a iluminação se espalhasse tímida, despertando curiosidade e abafando saudades diversas. Lugar de onde eu jamais sairia. De quando o sol que tocasse minha pele fosse aquele amparado pelo quintal, metros quadrados de liberdade assistida por muros enfeitados com trepadeiras.

Obviamente, teria de dar um jeito no meu medo de lagartixa.

Mas é o que fazemos, certo? Colecionamos medos. Enfrentamos medos.

Muitas vezes, os medos vencem.

Teria escolhido a mente?

Assim, moraria na minha própria casa: ossos, carne, sangue. Imaginaria o lugar, as pessoas, o tempo. Quem sabe, imaginaria nada. Viveria mergulhada num sobrenadar eternamente, durante uma eternidade da qual desconhecesse a duração. Sentiria emoções escolhidas de uma prateleira recheada com diversidade. Choraria e gargalharia ao mesmo tempo. Amaria com a intensidade das tempestades, sem nem mesmo saber o que ou a quem. Seria amor a me consumir na sua pureza.

Nada de alvo. Apenas o senti-lo.

Teria escolhido o escândalo?

Aquelas pequenas barbáries cometidas em nome da espontaneidade. Das que comungam com o desejo contundente. Racionalidade se despediria de mim, assim, sem se sentir abandonando o serviço ainda em horário comercial. Sem se importar em perder o dia e isso fazer falta no pagamento do mês. Eu seria um descarte da racionalidade. Ela me abandonaria à mercê do delírio, ele que adora um escândalo. Ele que me entregaria às nuances de um imaginário se passando por realidade.

Qual roupa eu usaria?

Qual nudez me caberia?

Teria escolhido o outro?

E me rastejaria pelo recinto da vida a computar informações sobre o que o satisfaria. O outro, tão acomodado na minha serventia, passaria a nem pensar na minha existência de outra forma que não fosse como engrenagem. A vida do outro funcionaria melhor com os serviços que eu lhe prestaria. O espírito do outro se amoldaria melhor em seu corpo. Ele seria feliz sempre que a felicidade se assanhasse para ele. Não perderia a chance de aproveitar o que a minha dedicação o ajudaria a alcançar. Em contrapartida, ele me ofereceria umas lascas de prazer, em noites em que sua agenda não estivesse comprometida. Conversaria comigo por alguns minutos, antes de se perder em seus eletrônicos relacionamentos.

Teria escolhido a mim?

E quem eu seria nessa mistura de eu e eles e tudo e o mundo e os delírios e as tristezas e as alegrias e os desejos e as solidões?



Imagem: Menina com bandolim © Pablo Picasso

carladias.com



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terça-feira, 21 de agosto de 2018

É ENSINO MÉDIO QUE CHAMA? >> Clara Braga

Uma aluna me procurou pedindo orientação para um trabalho de português, justo para mim, uma semi desorientada em trabalhos. 

Fiquei feliz pela confiança, me animei e fui logo aceitando. Tinha só um detalhe no meio do caminho, aceitei sem perguntar o tema. Machado de Assis em diálogo com Nietzsche - analisando Memórias Póstumas de Brás Cubas a partir do niilismo.

Por um instante duvidei que estava lidando com alunos de ensino médio. Quando tinha a idade deles Nietzsche para mim era só uma palavra estranha impossível de escrever por ter 5 consoantes seguidas. O orgulho de ter sido escolhida como orientadora, embora eu ache que vou desorientar mais do que orientar, me fez ir logo pedindo: me conta a história do livro para eu lembrar, tem pelo menos uns 15 anos que li.

E a resposta foi: no resumo que eu li diz que...

- Espera aí, no resumo que você leu? Como assim? Você não leu o livro que está usando como base do seu trabalho?

- Ah professora, sabe como é né, não deu tempo de ler, mas não tem problema, além do resumo eu também assisti ao filme!

Quase morri do coração, terminei ali mesmo o primeiro dia de orientação e o dever de casa era óbvio: vá ler o livro!

Cheguei em casa e fui logo pegando meu exemplar para começar a lembrar da história. No início da obra, um mega prefácio anuncia: iremos fazer uma contextualização histórica para facilitar a compreensão do livro! Não lembrava disso, achei bem legal e continuei.

Mais a frente me deparei com duas páginas cuja nota de rodapé ocupava metade da página explicando referências usadas pelo autor.

Não me lembrava de nada daquilo, e foi justamente nesse momento que eu percebi: acho que quando eu precisei fazer um trabalho sobre este livro eu também acabei lendo só o resumo! Será que ainda tenho moral para dar puxões de orelha nas minhas orientandas?!


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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

CREPÚSCULO >> Paulo Meireles Barguil


 "Eu queria ter na vida
Simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca
De varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer."
(Gilson, Joran e Marcelo, Casinha branca)
 
"– Você nem é eremita, Paulo!" – disse-me, há alguns anos, uma amiga.
 
Calado fiquei, mas respondi internamente: "Sou.".
 
Decidi sê-lo, há mais de 3 décadas, por vários motivos, a maioria por mim desconhecida.
 
Não que eu queira evitar o convívio social, nem que não queira, talvez seja mais o desejo de estar conectado à natureza.
 
Ela não será branca.
 
Um dia, talvez, seja, quando o amarelo desbotar.
 
Varanda ela terá, pois não há lugar melhor para deitar na rede.
 
Além de um portal de 360º para contemplar estrelas, planetas, luas e outros seres espaciais...
 
Tão perto, tão longe...
 
E ainda há quem diga que não tenho paciência!
 
 
[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 27 de julho de 2018]


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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

PERCURSO IMPREMEDITÁVEL >> Carla Dias >>



Daqui eu observo o mundo. Ele se movimenta e sua cadência nem sempre agrada ao olhar, mas movimento é bom. Desperta a sensação de que é possível se chegar a outro lugar.

Como seria outro lugar? Seria eu outro nesse outro lugar ou não haveria problema em ser eu mesmo e apenas me entregar às novidades?

Dizem que faço somente perguntas que sei que posso responder, isso quando elas fazem algum sentido. Já me perguntei para que servem longos silêncios, durante uma conversa. E assim, aconteceu de um longo silêncio representar a resposta.

Eu me defendo: acredito que o problema não seja ter a resposta para pergunta conhecida, mas se perguntar sempre a mesma coisa. Porque perguntas podem se tornar vícios, e de tal forma, que elas resultem somente em outras perguntas.

Passei por um período em que fui viciado em perguntas, mas por sorte não eram as mesmas. Eram muitas e diversas. Então, ninguém mais escutava o que eu dizia. As pessoas estavam exaustas por tentarem saciar meu questionamento.

Quando se sentem exaustas, as pessoas partem do outro, do lugar onde acontecem, de si mesmas.

Causar exaustão ao outro, por meio de questionamento, também causa exaustão em nós mesmos. Então, amiudei de um tudo, queria que o mundo me deixasse em paz, que parasse de me oferecer desejos e perspectivas. Mas o mundo não se cala. Ele se movimenta, diante dos nossos olhos, além de ser tagarela. Às vezes, ele diz coisas insanas, mas não há quem não se emocione quando ele diz eclipse e o tal acontece.

Sujeito habilidoso esse mundo-planeta.

Daqui é esse lugar onde vivo há muito tempo. A distância que se mantém entre mim e o mundo é confortável, acolhedora, como são muitas realidades questionáveis. Eu sei que devo muito à minha própria biografia. Construí nenhuma história que valha a pena ser deixada de herança para o mundo, esse mesmo que observo, assim, de longe. Ele que, mesmo de longe, assedia minha capacidade de me reconhecer na sua forma, no seu tempo, na sua divindade.

Inventei nada, enquanto me sentia apto a reinventar muito. Só que reinventar exige que exista a invenção. Dei-me conta disso já era tarde demais para reescrever o roteiro de mim. Daí que tive de continuar assim, com o desejo aleijado, a dor trepidando na carne da alma.

Daqui eu observo o mundo. Ele não deixa por menos e me desafia a me achegar, quem sabe até eu o abrace, feito conterrâneo de país de língua estrangeira, de gente tão diferente de mim, que eu seja obrigado a reavaliar-me. Não se basta em mapas e iguarias, regionais são suas mãos a ampararem margens.

Escutei muitas histórias sobre amores avassaladores, de quando se perde o rumo, o tento, a elegância, a ponto de se jogar nos braços do outro como se ele fosse a rede que se insinua ao trapezista.

Estico-me. Preparo-me para o salto.

Que o mundo me ampare.

Que o mundo me abrace.

Que seja lá...

Imagem: Figuras à beira-mar © Lasar Segall

carladias.com



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sábado, 11 de agosto de 2018

VOCÊ VAI GOSTAR >> Sergio Geia







Bom, não sei se vai. Talvez sim, talvez não. Talvez você goste apenas do “Você vai gostar”, e não goste de todo o resto. Talvez você já conheça, gostou de primeira, goste, e aí vai desgostar de tudo, porque simplesmente o que escrevo hoje não vai lhe interessar. Ou talvez você desconheça. Então, nesse caso, desconhecendo, talvez você goste, quer dizer, goste de conhecer e acabe gostando de tudo, do “Você vai gostar”, e do que escrevo hoje. Você vai achar que valeu a pena ler o que escrevo hoje simplesmente porque valeu a pena conhecer “Você vai gostar”. Irá me agradecer, quem sabe até irá me oferecer um vinho, ou, talvez, não me agradeça, nem me ofereça um vinho, mas goste, goste de tudo, especialmente do “Você vai gostar”.
Foi na Igrejinha do Bom Conselho, no fim de um ano lá atrás, um fim de ano igual a todo fim de ano, comemorações mil, abraços, desejos de um ano melhor, canapés, até cervejinha rolou. Chico Salles, depois de beber umas, tratou de iluminar a noite. Grudou no violão perdido sobre uma cadeira e começou a tocar. E mandou muito bem, sambinhas, Alcione, Jorge Aragão, mas de repente, um pouco atabalhoado com as cifras, ele começou: “Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar...” e iluminou a nossa noite. Foi lá, na Igrejinha do Bom Conselho, numa noite dezembrina para lá de quente, entre amigos e colegas de trabalho que eu a conheci.
Um dia, sozinho aqui em casa, peguei o violão. Como não a conhecia bem, foi um desastre; saiu uma coisa feinha, sem ritmo, afinação. Não desisti. Pesquisei e descobri uma gravação do Renato Teixeira — que é de Taubaté, pelo menos de coração (minha mãe diz até que foi sua amiga, do Renatinho, naqueles tempos idos, e deve ter sido mesmo porque ele sempre está por aqui, no Chafariz), cantando “Você vai gostar”. Aprendi, e nesse caso se aprende repetindo, repetindo, encontrando a melhor cifra, transportando o tom, e hoje, talvez seja ela, “Você vai gostar”, uma das músicas que mais causa emoção nas pessoas quando me ouvem cantar — não, não canto nada, apenas arranho amadoristicamente um violão, em festinhas, em reunião de amigos, de vez em quando.
Muitos a conhecem como “Casinha branca”, em razão de “Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nos dois morar”, mas ela nasceu mesmo “Você vai gostar”, mesmo porque “Casinha branca” é outra, do Gilson, lembram? “Eu tenho andado tão sozinho ultimamente, que nem vejo a minha frente, nada que me dê prazer”, deprê braba, e no refrão, “Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, só pra ver o sol nascer”.
Você vai gostar” é uma das coisas mais lindas que a criatura humana já produziu. Essa criatura, luizense de São Luiz do Paraitinga, chama-se Elpídio dos Santos, escudeiro de Mazaroppi. A dupla fez coisas lindíssimas; uma que adoro diz: “A dor da saudade, quem é que não tem, olhando o passado quem é que não sente saudade de alguém”. Havia um programa (nem sei se existe ainda) na Rádio Difusora de Taubaté, nas primeiras horas do domingo; lá estava ela desfilando sua simplicidade na voz caipiríssima do Mazaroppi.
Você vai gostar” você pode ouvir nas vozes de Renato Teixeira, Matogrosso e Mathias, Nilton César, Fafá de Belém, Sergio Reis, Almir Sater, Grupo Paranga, a escolha é sua. Prefiro a do Renato.
Ouça. Você vai gostar.


P.S.: A mesa está pronta. Preparei uma massa para nós. Trouxe o vinho?






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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ. 1ª PARTE >> Zoraya Cesar

Nuvens de poeira ocre podiam ser vistas ao longe. Não havia árvores ou montanhas que ilustrassem aquele quase fim de mundo, que fizessem daquele recanto um lugar bucólico. Não. Tudo era poeira, terra seca, pó. As gentes do lugar adaptavam-se à geografia e ao clima – pessoas simples, planas, semi-áridas e silenciosas. 

Que, assim como a terra, entraram, também elas, em polvorosa, ao perceberem que as nuvens não sumiam ao léu, mas se aproximavam, lentamente. 

Ajuntaram-se para esperar: moleques remelentos de barriga de fora e olhos esbugalhados; meninas que já nasciam com as mãos calejadas, preparadas para as duras fainas da casa; mulheres que poderiam ter 20, 30 ou 60 anos imprecisos, todas envelhecidas precocemente; homens que trabalhavam desde antes de o sol nascer até o sereno baixar. Cada um deles inconsciente da monotonia da existência: não havia tempo. 

Nasciam, trabalhavam, morriam e eram enterrados por ali mesmo, naquele povoado que tinha pouco menos de uma centena de casas, que variavam apenas de tamanho. De resto, eram todas iguais: uma porta, uma janela, uma chaminé. Mas a cor era sempre a mesma, um tom de cinza sujo e triste. Nada acontecia ali. Nunca. Nada. Até que. 

Enfim, a poeira deixou antever o que escondia: um ônibus caindo aos pedaços, um tanto descascado; uma parelha de cavalos magros e desenxabidos; uma carroça coberta. No entanto, o que chamou a atenção foi uma única palavra mágica, escrita nas laterais do ônibus:

CIRCO

A palavra foi murmurada de boca em boca, delicadamente, como se temessem que um som mais brusco fizesse desaparecer o inusitado grupo, uma miragem a se desvanecer na poeira. As crianças, sempre mais corajosas – ou curiosas, ou simplesmente menos cansadas – aproximaram-se, olhando, perscrutando, os mais velhos até perguntando uma coisa ou outra. Os recém-chegados pararam um pouco afastados, o suficiente para despertar interesse e, caso necessário, fugir, dependendo da receptividade do lugar. Quem já foi recebido a pedradas entende a louvável precaução.

Voltaram, as crianças, com poucas palavras, bastantes para os habitantes, não acostumados a abrir a boca ou os ouvidos para o que não fosse essencial. O circo ia ficar uma semana, pois os artistas precisavam descansar, os cavalos também, e, em troca de hospitalidade e alguma comida, a trupe faria uma apresentação. Não tinha leão nem elefante, apenas um vira-lata de focinho magro e olhar esfaimado. Mas tinha palhaço, tinha mágico e uma bailarina que usava maiô com brilhos e penas. E que arriscava a vida em algum aparelho perigoso que as crianças não souberam explicar o que era (os meninos deixaram de prestar atenção  ao escutarem a palavra “perigoso”; as meninas, “maiô com brilhos”).

Nunca a imaginação dos habitantes de Monaxiá
fora tão colorida, tão intensa, tão... onírica
Naquela noite, todos os olhos permaneceram abertos. Os do povoado, porque pensamentos incomuns saltavam de suas mentes pelas órbitas, queimando-lhes as retinas. Os dos artistas, porque, quando o cansaço é demasiado, o corpo se recusa a acreditar no repouso.

O dia amanheceu, o céu de um azul atípico, brilhoso, ameno. Pios de nambus e pintassilgos, até àquele dia inapreciados, encantavam o ambiente. Havia, indubitavelmente, algo diferente no ar. E na terra. Pois a tenda do circo estava sendo armada. 

Cresceu no coração dos habitantes uma vontade irreprimível de ver, tocar nos artistas, assegurarem-se de que não tinham sido mais uma das assombrações trazidas pela noite. Mas não, não era uma ilusão. Lá estavam eles, atarefados e compenetrados, fazendo-se de desapercebidos. Até que um homem alto e grisalho, ainda forte, que parecia ter uma etiqueta escrita com a palavra “chefe” na testa, largou o martelo, num gesto grandiloquente e teatral, voltou-se para a plateia e disse, num tom de voz solene e ensaiado:

- Senhoras e Senhores, Meninos e Meninas, honoráveis habitantes de Monaxiá, estamos preparando uma apresentação inesquecível, tonitruante, inolvidável, impremeditada para a noite de hoje. Tudo o que precisamos é de sua generosidade. Que não precisa ser apenas no vil metal, pois sei que suas posses são reduzidas, mas que pode se concretizar em alimentos!

Parou, sem fôlego e esperançoso. O honorável público não entendeu – por desconhecimento do vernáculo – o que dizia o imponente senhor, nem reparou que as estranhas palavras não faziam sentido. Mas suas mentes práticas perceberam a mensagem sutil. E, naquele dia, os artistas, e até o cachorro, tiveram o que comer. Afinal, saco vazio não para em pé, e todos queriam ver o espetáculo.

Na verdade, por mais ansiosos que estivessem para ver palhaços, malabaristas, mágicos, o que todos queriam ver era a bailarina e seu número arrojado. Perigoso. Mortal. 


Continua dia 24 de agosto. 

Pintura: Le Cirque - Marc Chagall



Notinha sem qualquer importância: “polvorosa” vem do espanhol ‘polvo’, do latim ‘pulvis’, pó, poeira.



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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

DESTINO>>Analu Faria

A secura do cerrado me fez prestar atenção naquele folha verdinha, não tão minúscula quanto deveria ser. Um verde que se destacava daquele jeito era quase uma indecência naquela falta de chuva, um exagero fogoso da natureza balançando a saia na direção dos humanos ávidos por cor.

Pendurada num galho que saía de outro galho que saía de outro galho, a folhinha era a única remanescente verdíssima de sua árvore e deveria sentir uma solidão tremenda, porque um verde tão destacado e bonito num meio cinza daquele de nada servia. Se tudo ao redor era daquela cor sem graça, de que adiantava ser exuberantemente verde? Será que a folha, no alto de sua espetacularidade, teria desejado ser cinza como as outras, opacas como as outras? Será que um dia quisera ser seca como as outras? 

E se a solução para a suposta solidão da folha (vamos supor que eu estivesse certa e, nesse caso, vamos  assumir que a folha se sentisse profundamente sozinha) não fosse mudar de cor, mas de lugar? Talvez  se a folhinha caísse fosse possível encontrar uma ou outra de suas folhas irmãs ainda esverdeadas  no chão. Era um risco. A maior parte das folhas que caíam encontravam seu destino em algum rastelo ou vassoura e, se não tivessem tal sorte, certamente ficariam amarelas ou marrons antes de se encontrarem em sua verdejante circunstância.

O vento batia na folha que não parecia ter tanto apego ao galho que a segurava e, como ele, ela balançava, balançava a cada lufada direcionada a refrescar os humanos e testar equilíbrio das árvores. Cair, a folha não caía. E eu não soube dizer se ela quisesse. Aliás, não soube dizer se a folha uma dia  houvesse desejado ser marrom, ou cinza ou amarelada, nem se se sentia mesmo sozinha com sua exuberância a ser vista apenas por alguns humanos atentos. Fui embora antes que a folha pudesse me dar qualquer indício maior de sua vontade, a não ser que eu considerasse um indício aquele perigoso balançar o vento. 


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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A RUMINAR ESPERA >> Carla Dias >>


Trata-se de um desespero. Não de um desespero qualquer... desespero.

A grande questão aqui é que não se sabe o motivo dele. Daí que coração dá de se render à taquicardia, pelos se arrepiam como se fossem tocados por vento de inverno austero, estômago reclama, olhar nubla.

Há esse som ao fundo: murmúrio oriundo da interação forçada entre prisioneiros de fila longa, das que saqueiam cerca de duas horas da vida daqueles que precisam encará-la.

Que desapontasse, não seria problema. Que sentisse, reverberasse, fosse inundado por incongruências, encharcado por levantes emocionais. Que desalinhasse roupas e frustrasse planos, cutucasse esperança preguiçosa. Que assim fosse, contanto que houvesse movimento outro, que não esse de um passo a passo de espera que dará em nada mais do que na conclusão de uma tarefa de rotina de indivíduo dedicado a completá-la e em boleto quitado.

Medita-se:

cabem em um coração
partido
coisas usadas
e diversas
coisas diluídas
em lembranças
inventadas
documentadas em folhetins
do esquecível


É o silêncio que pesa. Esse silêncio habitado por murmúrios de desalentados sujeitos à espera de, ela que não há como encurtar, nem mesmo definir seu tempo de duração. Definir o isso e o aquilo é jeito para se entender o isso e o aquilo. Definir o quem não é o que acaba em acontecimento. Mora sempre no mistério. Provoca a espera mais cruel, que é a espera absorvida por urgência não identificada, apesar de estar claro qual é seu alvo, a busca, o desespero ímpar que provoca tanto com tão pouco.

Um passo. Dois passos. Três passos. Um minuto. Dúzias de minutos. Três discussões. A fila segue. O tempo se perde nesse vazio que não consegue se aquietar. É vazio debochado, dos que ficam cutucando, cutucando, cutucando:

Sabe quem sou? De onde venho? Por que estou aqui? Sabe que vou falar e falar e falar e reclamar e reclamar e reclamar até que me preencha com certo desespero, porque me alimento com gosto dele? Sabe?

Sabe-se.

Vazio é espaço estranho. Vazio do dentro de uma pessoa - que sente um tudo de uma só vez - é como se anjo e demônio dialogassem, ficando acertado, uma pinga com mel e um copo de leite quente depois que, para sair da rotina, um se passará pelo outro, durante algumas filas... horas. Fetiches de anjos e demônios desarmonizam ser humano com desespero que é mais, muito mais do que um recorrente desespero.

É vivo... vivo que só ele.

Não pode correr. Movimento é de um passo de cada vez, na cadência da espera burocrática. Às vezes, anda... em outras, desanda. Filas são lembretes de que não se pode estar onde se gostaria quando se deseja. Elas bastam para desmentir listas de manual de autoajuda. Ninguém estaria aqui se a vida concedesse realização a todo desejo desejado.

Estaria onde?

... braços albergues... anfitriões de abraços-catarses... arrebanhadores de tempestades interiores... bagunçadores de certezas inúteis... mãos emaranhadoras de cabelos... bocas revigoradoras por palavras-liberdade...

Desejar é se sujeitar ao desapontamento. Desapontamento é sentir desespero, mas não qualquer desespero... aquele que não cabe em quem seja, não se adapta ao suportável requisitado para se manter na linha que divide rotina de tragédia. É inflexível no seu desdém irônico-requintado. Amontoa expectativas no sujeito, naquele canto escuro e inativo, que é para mostrar onde mora o perigo, antes pouco que ele abocanhe a sua presa. É para provar que o perigo gosta de cenas de ação nascidas da austeridade do vazio combinada ao peso do silêncio.

Que silêncio pesa.

Há dias em que seu peso é absurdamente difícil de se suportar.

Dessa impossibilidade de suportar é que nascem os gritos.


carladias.com




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terça-feira, 7 de agosto de 2018

É RELATIVO >> Clara Braga

Lembro como se fosse ontem dos tempos de escola. Sempre que, por algum motivo, deixava de fazer alguma tarefa e era questionada pelo professor, respondia: desculpe, não tive tempo de fazer.

Hoje escuto quase diariamente meus alunos usarem a mesma desculpa, mesmo tendo a semana toda de prazo. Aliás, desculpa não, justificativa, já que eles, assim como eu quando estava na posição deles, realmente acreditam que não tem tempo.

Já tentou conciliar a vida escolar com alguma atividade extra curricular, mais decorar a letra de todas as músicas daquela banda predileta e ainda ler todas as reportagens importantíssimas nas revistas adolescentes que traziam informações únicas como o peso, a altura e as cores prediletas dos irmãos Hanson?!? Agora pensa essa realidade hoje em dia e acrescenta whatsapp, facebook, twitter e afins. Eles realmente acreditam que não tem tempo.

Eu só fui refletir sobre a questão de ter ou não tempo pela primeira vez quando entrei na universidade. Lá eu vi que tarefa de casa não era nada, difícil mesmo era conciliar uma quantidade X de matérias que exigiam de você muita leitura, produção prática e produção escrita. Mas não é aquela produção escrita que você finge que fez em casa quando na verdade fez na escola, em folha de caderno e não se deu nem ao trabalho de tirar aqueles pedaços da folha que ficam espetados quando você arranca do caderno. Produção agora exige regras, e não são das mais fáceis. Tem ainda que usar a fonte exata, no tamanho pedido, com espaçamento bom e um tamanho de fonte que não seja justificado pelo fato de ser maior, ocupar mais espaço e, por isso, você chega rapidinho no mínimo de linhas exigido.

Não preciso nem dizer que mudei rapidinho meu discurso né? Na escola temos tempo de sobra, difícil é faculdade. Então, não contente, eu passei por um período no qual achei melhor conciliar duas graduações. Quando estava quase perdendo o juiz, larguei uma. Mas logo arrumei um estágio e um projeto de extensão para participar. Ou seja, lá estava eu desafiando os conceitos do tempo novamente.

Trabalhar e estudar era o auge da minha ocupação, e de novo lá estava eu mudando meus conceitos: fazer faculdade não é nada, difícil é fazer todas as atividades da faculdade e ainda trabalhar. Então, nesse mesmo período fui fazer intercâmbio e, pela primeira vez, não podia mais cuidar só dos meus estudos e trabalho, tinha que cuidar da comida, da roupa e de um pedaço da casa, já que morei em república. Isso tudo sem deixar de lado a vida social e a oportunidade de estar conhecendo um outro país, claro.

Ainda assim, posso dizer tranquilamente que essa não foi a experiência mais atribulada da minha vida. Depois de ter filho percebi que sempre tive tempo na vida, agora é que não tenho mais. Pela primeira vez cheguei ao ponto de ter que escolher se durante o cochilo de 30, 40 minutos dele eu vou tomar banho ou comer, arrumar a casa ou lavar roupa, descansar ou entregar as atividades atrasadas da pós graduação. Pela primeira vez, quando as pessoas fazem aquela brincadeira comigo na qual elas perguntam o que eu faço de 00h às 06:00 da manhã eu não digo mais: durmo! e sim: amamento! E enquanto eu pondero e decido o que é melhor fazer enquanto ele dorme ele já acordou e eu não fiz nada. É, o tempo não passa, ele voa, e eu tenho medo de dizer que essa é a fase mais conturbada da vida de uma pessoal, pois nitidamente, sempre que pensei assim fui desafiada a ver que tempo é realmente algo bem relativo.



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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

CURIOSIDADE >> Paulo Meireles Barguil


Quantos mistérios no mundo esperando para serem decifrados pela Humanidade!
 
Eles são de várias categorias e possuem diversos níveis, além de se destinarem a todas as idades.
 
Enquanto uns desfilam na nossa frente, outros se escondem – fora e dentro de nós...
 
Alguns são desvelados durante o dia.
 
Outros somente de noite ou de madrugada.
 
É necessário utilizar todo o ser e se aventurar.
 

Ainda bem que a maioria das charadas não têm fim, o que nos possibilita, assim como a Xerazade, continuar a aventura...
 

[Ana Beatriz Peixoto Barguil com 1 ano e 19 dias]

[Fotos de minha autoria. 12 de junho de 2005]

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

REFÚGIO >> Carla Dias >>


Livros são bons esconderijos. Há tantas ruas, vielas, rodovias. Há tantos cômodos, lojas, cafeterias. Prédios localizados em página qualquer. Conversas que você não teria nem mesmo com os melhores amigos.

Acontece de se tornarem refúgio, mesmo quando a alma nem sabia que precisava de um.

Há o que vive somente nos livros, como aquilo que vive em segredo no dentro da gente. Então, tem personagem que enlouquece, faz as malas e muda de país, deixando um tudo e vários alguns para trás. No capítulo seguinte, ele já é outro, com a catarse completa da melhor maneira possível. Com uma esperança jocosa morando nele, do parágrafo seguinte até o FIM.

Mesmo quando o livro abriga história acontecida, ele faz mágica. O tempo que gastamos ao mergulhar naquele ocorrido é bem diferente daquele que as telas de televisão e noticiários oferecem. As palavras cuidam melhor do acontecimento. O olhar observa com mais atenção o desenrolar da trama.

Livros, para quem mantém uma relação íntima com o ritual, aumenta consideravelmente o consumo de café. Às vezes, inspiram posições peculiares, depois de um tempo na leitura e a necessidade de mudar de posição. E, sim, há quem brigue com o escrito, discuta com o personagem, jogue o livro contra a parede e se remoa de culpa, dois segundos depois, enquanto o recolhe com todo cuidado.

Alguns dizem que eles servem apenas como distração. Discordam deles aqueles que aprenderam mais sobre si mesmos por meio dos livros do que de qualquer outra maneira. A leitura de um livro é uma das formas de se espantar solidão, ao convidar tantos para frequentarem o tempo que dedicamos a ele.

Há tantas ferramentas que permitem nos conectarmos uns aos outros, mas há relações que pedem que nos demoremos mais ali, onde nasce um sonho, um desejo; ou ali, onde o desfecho é feito soco no estômago e nos provoca sensações que recusamos visitar durante a rotina.

Livros abrigam invencionices habilmente misturadas ao que é real. É uma construção de realidades de pessoas que não existem, mas poderiam ser nossos vizinhos ou familiares. Acontece de eles o serem. Nesse caso, eles abrigam verdades habilmente misturadas a uma narrativa que as enriqueça.

Acontece também de alguém morar em livro. É que existe quem se inspire em uma pessoa para criar um personagem. É como sonhar o outro, alcançá-lo com a intimidade de quem parou, observou, percebeu e se encantou a ponto de escrever centenas de páginas de uma história onde esse alguém seria protagonista. É permitir que o outro protagonize o afeto de quem enxerga enredo nesse sentimento. Porém, como tudo nessa vida se debruça no Yin e Yang, o mesmo serve para os que seduzem pela crueldade que alimentam.

Dizem por aí que livros são bobagens, que saber deles pelo resumo é economizar tempo para momentos mais divertidos. Quem diz isso é porque nunca leu um livro que lhe roubasse o desejo de nunca chegar ao fim da história. Nunca gargalhou alto ao ler aquela frase que nunca será descartada pela sua memória, ou chorou copiosamente naquele desfecho enredado por ousadias que gostaríamos de cometer na nossa tão comportada realidade.

Histórias valem a pena. Livros dizem isso e eu acredito. Mas essa sou eu, alguém que já nasceu mergulhando no outro, e que, ao descobrir os livros, descobriu-se alguém.

Imagem: Reading by Lamplight © James Abbott McNeill Whistler

carladias.com

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