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Mostrando postagens de Agosto, 2018

OU >> Paulo Meireles Barguil

 Por cima ou por baixo? Há quem prefira de lado! E, também, quem não goste de exercícios...

Carne ou frango? Há quem escolha peixe! E, também, quem não selecione qualquer animal...

Azul ou Vermelho? Há quem opte pelo amarelo! E, também, quem não eleja qualquer cor...

Praia ou serra? Há  quem delibere pelo sertão! E, também, quem não aprecie viajar...

Gratidão ou reclamação? Há quem decida pela indiferença. E, também, quem sequer saiba o que sente...


[Oficina Cerâmica Francisco Brennand – Recife]

[Foto de minha autoria. 21 de dezembro de 2004]

DE SAMPA >> Sergio Geia

De Sampa, trago algumas histórias. Num dos dias fui ao Masp. Terça-feira a entrada é gratuita. Na oficina que fazia no B_arco, Renan me disse que a fila estava horrorosa e que não quis encarar. Na quarta eu fui, e mesmo sendo pago, a fila não era das menores. Encarei. Enquanto estava nela, aguardando para comprar ingressos, apareceu uma mulher toda vestida de branco se oferecendo para medir a minha pressão. Num primeiro momento, pensei que fosse alguém da Prefeitura, ou de alguma universidade, essas campanhas que têm por aí. Ao se preparar para medir, com uma técnica apurada de fazer duas coisas ao mesmo tempo, absurdas e incompatíveis entre si, mostrou-me um boleto no valor de R$ 7.837,00 ou algo perto disso, dizendo que era o valor que a filha tinha de pagar na faculdade de medicina, pedindo uma contribuição, que podia ser de R$ 37,00, ou R$ 837,00, ou o valor todo. Decerto imaginou que eu fosse algum figurão abastado, pobre de mim. Eu disse que contribuiria com R$ 7,00 e olhe lá. Pe…

UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ - 2a parte >> Zoraya Cesar

Um povoado. Um circo. Era uma vez - 1a parte - O circo chegara pela primeira vez àquela cidade onde nada havia, a não ser solidão, pó, areia
Chegou a noite - ansiosamente esperada por aquela gente que nunca esperançara por nada. Andavam silenciosos, em fila ordenada, como que ainda temerosos que qualquer movimento mais brusco, qualquer bulício pudesse desvanecer o circo, como uma miragem.
O circo, no entanto, estava lá. Uma tenda grande, de pano roto, tecido velho, remendada com linhas e cordas toscas, aqui e ali. Para sentar, caixotes, tábuas apoiadas em latões, algumas almofadas que nunca viram melhores dias. Ninguém se importou, todos se ajeitaram de uma forma ou outra, os mais velhos sentados nesses bancos improvisados, os mais novos espalhados pelo chão.
Picadeiro? Uma área retangular, de frente para a plateia, mais parecendo uma arena. E areia, terra, pó era o que não faltava naquele chão, naquela cidade, em cada poro daquela gente. 
A luz era pouca, roubada de um ou dois postes e…

CONDICIONAL >> Carla Dias >>

Quem eu teria sido?

Teria escolhido o mundo?

Itinerante, conheceria sua geografia e sua gente. Talvez me perdesse na sua complexidade, mas não tanto quanto na sua beleza, porque dizem que o mundo, o planeta, é deslumbrante. Mesmo quando suas crias o esganam com seus feitos, ele reverbera sua venustidade. Talvez me aventurasse na pluralidade das suas pessoas, permitindo-me saber mais sobre o outro do que o outro já desejou saber sobre mim.

Teria escolhido a solidão?

As paredes de uma casa onde seria habitante única, na qual a iluminação se espalhasse tímida, despertando curiosidade e abafando saudades diversas. Lugar de onde eu jamais sairia. De quando o sol que tocasse minha pele fosse aquele amparado pelo quintal, metros quadrados de liberdade assistida por muros enfeitados com trepadeiras.

Obviamente, teria de dar um jeito no meu medo de lagartixa.

Mas é o que fazemos, certo? Colecionamos medos. Enfrentamos medos.

Muitas vezes, os medos vencem.

Teria escolhido a mente?

Assim, morar…

É ENSINO MÉDIO QUE CHAMA? >> Clara Braga

Uma aluna me procurou pedindo orientação para um trabalho de português, justo para mim, uma semi desorientada em trabalhos. 
Fiquei feliz pela confiança, me animei e fui logo aceitando. Tinha só um detalhe no meio do caminho, aceitei sem perguntar o tema. Machado de Assis em diálogo com Nietzsche - analisando Memórias Póstumas de Brás Cubas a partir do niilismo.
Por um instante duvidei que estava lidando com alunos de ensino médio. Quando tinha a idade deles Nietzsche para mim era só uma palavra estranha impossível de escrever por ter 5 consoantes seguidas. O orgulho de ter sido escolhida como orientadora, embora eu ache que vou desorientar mais do que orientar, me fez ir logo pedindo: me conta a história do livro para eu lembrar, tem pelo menos uns 15 anos que li.
E a resposta foi: no resumo que eu li diz que...
- Espera aí, no resumo que você leu? Como assim? Você não leu o livro que está usando como base do seu trabalho?
- Ah professora, sabe como é né, não deu tempo de ler, mas n…

CREPÚSCULO >> Paulo Meireles Barguil

  "Eu queria ter na vida
Simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca
De varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer." (Gilson, Joran e Marcelo, Casinha branca) "– Você nem é eremita, Paulo!" – disse-me, há alguns anos, uma amiga. Calado fiquei, mas respondi internamente: "Sou.". Decidi sê-lo, há mais de 3 décadas, por vários motivos, a maioria por mim desconhecida. Não que eu queira evitar o convívio social, nem que não queira, talvez seja mais o desejo de estar conectado à natureza. Ela não será branca. Um dia, talvez, seja, quando o amarelo desbotar. Varanda ela terá, pois não há lugar melhor para deitar na rede. Além de um portal de 360º para contemplar estrelas, planetas, luas e outros seres espaciais... Tão perto, tão longe... E ainda há quem diga que não tenho paciência! [Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 27 de julho de 2018]

PERCURSO IMPREMEDITÁVEL >> Carla Dias >>

Daqui eu observo o mundo. Ele se movimenta e sua cadência nem sempre agrada ao olhar, mas movimento é bom. Desperta a sensação de que é possível se chegar a outro lugar.

Como seria outro lugar? Seria eu outro nesse outro lugar ou não haveria problema em ser eu mesmo e apenas me entregar às novidades?

Dizem que faço somente perguntas que sei que posso responder, isso quando elas fazem algum sentido. Já me perguntei para que servem longos silêncios, durante uma conversa. E assim, aconteceu de um longo silêncio representar a resposta.

Eu me defendo: acredito que o problema não seja ter a resposta para pergunta conhecida, mas se perguntar sempre a mesma coisa. Porque perguntas podem se tornar vícios, e de tal forma, que elas resultem somente em outras perguntas.

Passei por um período em que fui viciado em perguntas, mas por sorte não eram as mesmas. Eram muitas e diversas. Então, ninguém mais escutava o que eu dizia. As pessoas estavam exaustas por tentarem saciar meu questionamento.

Qua…

VOCÊ VAI GOSTAR >> Sergio Geia

Bom, não sei se vai. Talvez sim, talvez não. Talvez você goste apenas do “Você vai gostar”, e não goste de todo o resto. Talvez você já conheça, gostou de primeira, goste, e aí vai desgostar de tudo, porque simplesmente o que escrevo hoje não vai lhe interessar. Ou talvez você desconheça. Então, nesse caso, desconhecendo, talvez você goste, quer dizer, goste de conhecer e acabe gostando de tudo, do “Você vai gostar”, e do que escrevo hoje. Você vai achar que valeu a pena ler o que escrevo hoje simplesmente porque valeu a pena conhecer “Você vai gostar”. Irá me agradecer, quem sabe até irá me oferecer um vinho, ou, talvez, não me agradeça, nem me ofereça um vinho, mas goste, goste de tudo, especialmente do “Você vai gostar”. Foi na Igrejinha do Bom Conselho, no fim de um ano lá atrás, um fim de ano igual a todo fim de ano, comemorações mil, abraços, desejos de um ano melhor, canapés, até cervejinha rolou. Chico Salles, depois de beber umas, tratou de iluminar a noite. Grudou no violão p…

UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ. 1ª PARTE >> Zoraya Cesar

Nuvens de poeira ocre podiam ser vistas ao longe. Não havia árvores ou montanhas que ilustrassem aquele quase fim de mundo, que fizessem daquele recanto um lugar bucólico. Não. Tudo era poeira, terra seca, pó. As gentes do lugar adaptavam-se à geografia e ao clima – pessoas simples, planas, semi-áridas e silenciosas. 
Que, assim como a terra, entraram, também elas, em polvorosa, ao perceberem que as nuvens não sumiam ao léu, mas se aproximavam, lentamente. 
Ajuntaram-se para esperar: moleques remelentos de barriga de fora e olhos esbugalhados; meninas que já nasciam com as mãos calejadas, preparadas para as duras fainas da casa; mulheres que poderiam ter 20, 30 ou 60 anos imprecisos, todas envelhecidas precocemente; homens que trabalhavam desde antes de o sol nascer até o sereno baixar. Cada um deles inconsciente da monotonia da existência: não havia tempo. 
Nasciam, trabalhavam, morriam e eram enterrados por ali mesmo, naquele povoado que tinha pouco menos de uma centena de casas, que v…

DESTINO>>Analu Faria

A secura do cerrado me fez prestar atenção naquele folha verdinha, não tão minúscula quanto deveria ser. Um verde que se destacava daquele jeito era quase uma indecência naquela falta de chuva, um exagero fogoso da natureza balançando a saia na direção dos humanos ávidos por cor.
Pendurada num galho que saía de outro galho que saía de outro galho, a folhinha era a única remanescente verdíssima de sua árvore e deveria sentir uma solidão tremenda, porque um verde tão destacado e bonito num meio cinza daquele de nada servia. Se tudo ao redor era daquela cor sem graça, de que adiantava ser exuberantemente verde? Será que a folha, no alto de sua espetacularidade, teria desejado ser cinza como as outras, opacas como as outras? Será que um dia quisera ser seca como as outras? 
E se a solução para a suposta solidão da folha (vamos supor que eu estivesse certa e, nesse caso, vamos  assumir que a folha se sentisse profundamente sozinha) não fosse mudar de cor, mas de lugar? Talvez  se a folhin…

A RUMINAR ESPERA >> Carla Dias >>

Trata-se de um desespero. Não de um desespero qualquer... desespero.

A grande questão aqui é que não se sabe o motivo dele. Daí que coração dá de se render à taquicardia, pelos se arrepiam como se fossem tocados por vento de inverno austero, estômago reclama, olhar nubla.

Há esse som ao fundo: murmúrio oriundo da interação forçada entre prisioneiros de fila longa, das que saqueiam cerca de duas horas da vida daqueles que precisam encará-la.

Que desapontasse, não seria problema. Que sentisse, reverberasse, fosse inundado por incongruências, encharcado por levantes emocionais. Que desalinhasse roupas e frustrasse planos, cutucasse esperança preguiçosa. Que assim fosse, contanto que houvesse movimento outro, que não esse de um passo a passo de espera que dará em nada mais do que na conclusão de uma tarefa de rotina de indivíduo dedicado a completá-la e em boleto quitado.

Medita-se:

cabem em um coração
partido
coisas usadas
e diversas
coisas diluídas
em lembranças
inventadas
documentadas em folh…

É RELATIVO >> Clara Braga

Lembro como se fosse ontem dos tempos de escola. Sempre que, por algum motivo, deixava de fazer alguma tarefa e era questionada pelo professor, respondia: desculpe, não tive tempo de fazer.
Hoje escuto quase diariamente meus alunos usarem a mesma desculpa, mesmo tendo a semana toda de prazo. Aliás, desculpa não, justificativa, já que eles, assim como eu quando estava na posição deles, realmente acreditam que não tem tempo.
Já tentou conciliar a vida escolar com alguma atividade extra curricular, mais decorar a letra de todas as músicas daquela banda predileta e ainda ler todas as reportagens importantíssimas nas revistas adolescentes que traziam informações únicas como o peso, a altura e as cores prediletas dos irmãos Hanson?!? Agora pensa essa realidade hoje em dia e acrescenta whatsapp, facebook, twitter e afins. Eles realmente acreditam que não tem tempo.
Eu só fui refletir sobre a questão de ter ou não tempo pela primeira vez quando entrei na universidade. Lá eu vi que tarefa de …

CURIOSIDADE >> Paulo Meireles Barguil

 Quantos mistérios no mundo esperando para serem decifrados pela Humanidade! Eles são de várias categorias e possuem diversos níveis, além de se destinarem a todas as idades. Enquanto uns desfilam na nossa frente, outros se escondem – fora e dentro de nós... Alguns são desvelados durante o dia. Outros somente de noite ou de madrugada. É necessário utilizar todo o ser e se aventurar.  Ainda bem que a maioria das charadas não têm fim, o que nos possibilita, assim como a Xerazade, continuar a aventura...

[Ana Beatriz Peixoto Barguil com 1 ano e 19 dias]

[Fotos de minha autoria. 12 de junho de 2005]

REFÚGIO >> Carla Dias >>

Livros são bons esconderijos. Há tantas ruas, vielas, rodovias. Há tantos cômodos, lojas, cafeterias. Prédios localizados em página qualquer. Conversas que você não teria nem mesmo com os melhores amigos.

Acontece de se tornarem refúgio, mesmo quando a alma nem sabia que precisava de um.

Há o que vive somente nos livros, como aquilo que vive em segredo no dentro da gente. Então, tem personagem que enlouquece, faz as malas e muda de país, deixando um tudo e vários alguns para trás. No capítulo seguinte, ele já é outro, com a catarse completa da melhor maneira possível. Com uma esperança jocosa morando nele, do parágrafo seguinte até o FIM.

Mesmo quando o livro abriga história acontecida, ele faz mágica. O tempo que gastamos ao mergulhar naquele ocorrido é bem diferente daquele que as telas de televisão e noticiários oferecem. As palavras cuidam melhor do acontecimento. O olhar observa com mais atenção o desenrolar da trama.

Livros, para quem mantém uma relação íntima com o ritual, aum…