terça-feira, 7 de agosto de 2018

É RELATIVO >> Clara Braga

Lembro como se fosse ontem dos tempos de escola. Sempre que, por algum motivo, deixava de fazer alguma tarefa e era questionada pelo professor, respondia: desculpe, não tive tempo de fazer.

Hoje escuto quase diariamente meus alunos usarem a mesma desculpa, mesmo tendo a semana toda de prazo. Aliás, desculpa não, justificativa, já que eles, assim como eu quando estava na posição deles, realmente acreditam que não tem tempo.

Já tentou conciliar a vida escolar com alguma atividade extra curricular, mais decorar a letra de todas as músicas daquela banda predileta e ainda ler todas as reportagens importantíssimas nas revistas adolescentes que traziam informações únicas como o peso, a altura e as cores prediletas dos irmãos Hanson?!? Agora pensa essa realidade hoje em dia e acrescenta whatsapp, facebook, twitter e afins. Eles realmente acreditam que não tem tempo.

Eu só fui refletir sobre a questão de ter ou não tempo pela primeira vez quando entrei na universidade. Lá eu vi que tarefa de casa não era nada, difícil mesmo era conciliar uma quantidade X de matérias que exigiam de você muita leitura, produção prática e produção escrita. Mas não é aquela produção escrita que você finge que fez em casa quando na verdade fez na escola, em folha de caderno e não se deu nem ao trabalho de tirar aqueles pedaços da folha que ficam espetados quando você arranca do caderno. Produção agora exige regras, e não são das mais fáceis. Tem ainda que usar a fonte exata, no tamanho pedido, com espaçamento bom e um tamanho de fonte que não seja justificado pelo fato de ser maior, ocupar mais espaço e, por isso, você chega rapidinho no mínimo de linhas exigido.

Não preciso nem dizer que mudei rapidinho meu discurso né? Na escola temos tempo de sobra, difícil é faculdade. Então, não contente, eu passei por um período no qual achei melhor conciliar duas graduações. Quando estava quase perdendo o juiz, larguei uma. Mas logo arrumei um estágio e um projeto de extensão para participar. Ou seja, lá estava eu desafiando os conceitos do tempo novamente.

Trabalhar e estudar era o auge da minha ocupação, e de novo lá estava eu mudando meus conceitos: fazer faculdade não é nada, difícil é fazer todas as atividades da faculdade e ainda trabalhar. Então, nesse mesmo período fui fazer intercâmbio e, pela primeira vez, não podia mais cuidar só dos meus estudos e trabalho, tinha que cuidar da comida, da roupa e de um pedaço da casa, já que morei em república. Isso tudo sem deixar de lado a vida social e a oportunidade de estar conhecendo um outro país, claro.

Ainda assim, posso dizer tranquilamente que essa não foi a experiência mais atribulada da minha vida. Depois de ter filho percebi que sempre tive tempo na vida, agora é que não tenho mais. Pela primeira vez cheguei ao ponto de ter que escolher se durante o cochilo de 30, 40 minutos dele eu vou tomar banho ou comer, arrumar a casa ou lavar roupa, descansar ou entregar as atividades atrasadas da pós graduação. Pela primeira vez, quando as pessoas fazem aquela brincadeira comigo na qual elas perguntam o que eu faço de 00h às 06:00 da manhã eu não digo mais: durmo! e sim: amamento! E enquanto eu pondero e decido o que é melhor fazer enquanto ele dorme ele já acordou e eu não fiz nada. É, o tempo não passa, ele voa, e eu tenho medo de dizer que essa é a fase mais conturbada da vida de uma pessoal, pois nitidamente, sempre que pensei assim fui desafiada a ver que tempo é realmente algo bem relativo.



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Um comentário:

Mandrell Matthew disse...

De fato me encontro nessa situação conturbada. O tempo realmente é relativo, principalmente quando estudamos ou quando vamos ao centro fazer algo inusitado , e do nada já são 20:00, e o ônibus já vai passar, chego em casa próximo das 22:00. No final acordo na manhã seguinte, e mal tomo café, já são 12 em ponto. MEU DEUUUUUUUUUUUUS.