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UM POVOADO. UM CIRCO. ERA UMA VEZ - 2a parte >> Zoraya Cesar


Chegou a noite - ansiosamente esperada por aquela gente que nunca esperançara por nada. Andavam silenciosos, em fila ordenada, como que ainda temerosos que qualquer movimento mais brusco, qualquer bulício pudesse desvanecer o circo, como uma miragem.

O circo, no entanto, estava lá. Uma tenda grande, de pano roto, tecido velho, remendada com linhas e cordas toscas, aqui e ali. Para sentar, caixotes, tábuas apoiadas em latões, algumas almofadas que nunca viram melhores dias. Ninguém se importou, todos se ajeitaram de uma forma ou outra, os mais velhos sentados nesses bancos improvisados, os mais novos espalhados pelo chão.

Picadeiro? Uma área retangular, de frente para a plateia, mais parecendo uma arena. E areia, terra, pó era o que não faltava naquele chão, naquela cidade, em cada poro daquela gente. 

A luz era pouca, roubada de um ou dois postes elétricos (com o consentimento tácito dos próceres do povoado, homens mais velhos que sobreviveram à aridez e ao desconsolo). A Lua brilhava intensamente, ansiosa por não perder um acontecimento sequer do que prometia ser memorável.

O senhor grisalho e forte entrou, saudando e agradecendo ao respeitável público de Monaxiá com sua voz tonitruante. O vermelho de sua roupa estava desbrilhado e a cartola típica dos mestres de cerimônia fora substituída, há muito, por um chapéu panamá repleto de enfeites tristes. 

Chegou o mágico, cheio de truques tirados de uma caixa de brinquedos para crianças – os que ele mesmo criara quando jovem ficaram perdidos em algum momento de fome. Para o público, porém, aquela mágica era de outro mundo (e, de certa forma, era mesmo; de um mundo onde os sonhos viviam antes de serem esmagados pela realidade). 

Chegou o palhaço, fazendo estripulias com o cachorro sempre famélico, mas bem adestrado e animado. A apresentação foi burocrática, e as palavras saíam engroladas e reticentes, como as de alguém desperto, bruscamente, de um estado de torpor alcoólico. Mas a platéia nunca vira algo tão engraçado. (Melhor dizendo, ninguém ali jamais vira algo engraçado. As risadas escapavam roucas e cheias de pó). 

Foram-se o mágico, o cachorro e o palhaço. Ficou o silêncio, aquele que antecede aos grandes momentos, a penetrar em cada ser, pensamento, molécula. Minutos – nem longos nem curtos, apenas minutos, em sua dimensão imutável - se passaram assim, sem que nem os olhos piscassem. 

Então, ela entrou. A Bailarina. A Equilibrista. Ela.

Baixa, magra como um saco de ossos, os olhos grandes demais para o rosto fino e anguloso. Parecia que, ao menor sopro, seu corpo seria levado pelo vento afora. Ledo engano. Ela era a senhora dos ares, do equilíbrio, das alturas. Em seu habitat, reinava, soberana e absoluta, dona de beleza incontestável. O brilho de seus olhos e de seu sorriso (no qual faltava um dente) ultrapassavam o da lua, o das lantejoulas, o dos paetês. 

E a plateia a acolheu em seus corações, ávida e fremente. 

Tão delicada e suave quanto uma bailarina de caixa de música ela dançou seu corpo esguio até a escada, por onde subiu, lenta, parando a cada dois degraus para acenar à plateia, olhar-lhe nos olhos, mantê-la cativa. Ninguém piscava, respirava, pensava; as bocas abertas não emitiam qualquer som.

Subiu, finalmente, na corda bamba, baixa para os padrões de um circo decente; alta o suficiente para causar arrepios e provocar tensão. 

A Bailarina e sua plateia
- uma união indissolúvel
a ser eternizada no pó
A Bailarina colocou um pé, depois o outro, equilibrando-se, um tanto cambaleante, com o bastão nas mãos. O público se levantou. Ela, encorajada, continuou. Como se estivesse sobre um tapete invisível, e não sobre uma corda oscilante, a bailarina fazia piruetas, pequenos saltos, colocava-se de ponta-cabeça... As manobras iam se tornando cada vez mais perigosas, a corda bambeando quase selvagemente, como um frágil barco no mar bravio, prestes a soçobrar em pedaços.

A emoção, o coração na boca, os olhos esbugalhados... em cada um dos presentes foi crescendo e se enraizando uma certeza: não poderiam mais viver sem ela. Aquele espetáculo de beleza, de vida desafiando a morte, não poderia acabar, tinha que ser preservado para sempre.

O silêncio foi, paulatinamente, sendo invadido por um rumor grave e baixo, quase imperceptível, saído do fundo das gargantas empoeiradas: pula

A Bailarina pressentiu o clamor de seu público, percebeu que pertencia àquele lugar, àquela terra, àquele pó. Não precisaria mais zanzar como uma cigana pelo mundo, eles a receberiam como sua própria gente. Era isso. Largou o bastão. Abriu os braços. E fez a manobra mais arriscada de sua vida, murmurando 'aqui estou'...



Imagem: August Macke (1887–1914) - Tightrope Walker I (Seiltänzer I)













Comentários

Ana Luzia disse…
meu deus...

e que cada um esteja em paz onde deseja estar...
Anônimo disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Unknown disse…
Cruzeeeeeessss... Ai, que dó... Final triste. O texto tá otimó, mas o final trágico demais pro meu gosto... Voce tava com saudades de matar alguem no final né? Mas tinha que ser um vilao Rs
Marcio disse…
Zoraya, por melhor que fosse essa bailarina, duvido que seus movimentos possam ser comparados, em precisão, à descrição que seu texto traz aos bem-aventurados que têm o privilégio de lê-lo.

Puxa, eu já escrevi isso tantas vezes, mas nunca é o suficiente.

Flaubert - aquele chato - deve estar morrendo de inveja de você.
Clarisse Amador disse…
Lindo final, mas achei que faltou desenvolver um pouquinho mais o envolvimento emocional dela ao clamor e a luta interna. Bjs
Anônimo disse…
A miséria a solidão, tão bem retradas na apresentação dos componentes do circo, e as dores da vida q silencioamentw carregam e q nem precisamos conhecer para saber que existem , nao precisam de muitas explicações, o final é realmwnte trágico e forte. A moça ao tentar atravessar a corda bamba da vida, mais 1 vez de tantas já feitas, por fim desiste, nao aguenta, nao quer mais, nao suporta mais, o q seja, e , como muitos de nós , se entrega. Triste. Tragico. Verdadeiro.

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