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Mostrando postagens de Março, 2013

OUTROS TEMPOS >> Whisner Fraga

O legal naquela época era morar a cinco quadras da escola, poder andar de bicicleta pela rua sem temer um atropelamento, conhecer todos os vizinhos da mesma faixa etária, sumir durante uma tarde inteira sem que isso preocupasse nossas mães e, naturalmente, ter a sensação de que o bairro inteiro era uma grande família. Uns ajudavam os outros, uns se metiam na vida dos outros, uns controlavam as ações dos outros e no final da noite todo mundo sabia qual marido se esbaldava no puteiro. A vida era boa.

Então importaram algumas pragas: o shopping center, o condomínio fechado, o playground do prédio, as prestações a perder de vista e a violência. No fundo todos sabiam que não dava para viver de Toddynho a vida inteira. No interior imaginavam que as coisas iam bem, que isso era coisa da capital, mas era evidente que uma hora o mercado se saturaria e a caravana seguiria para as cidades pequenas. Daí para o sequestro relâmpago e os assaltos a mão armada acontecerem em uma minúscula cidade do T…

RITO E TRANSFORMAÇÃO [Heloisa Reis]

“Ascender ao espírito em sua forma de idéia é entregar-se ao imutável na eterna e permanente transformação.” (Goethe)

Nosso vínculo com o mundo em que vivemos manifesta-se das mais diversas maneiras e diferentemente em cada ser, mas a natureza humana é sábia e o ser humano é na verdadetri-membrado em corpo, alma e espírito.

O  corpo é  o instrumento com o qual interagimos nesta esfera terrena, enquanto com a alma  elaboramos e criamos um mundo interno, pleno de interações  que trazem desconfortos, afinidades, repulsas, atrações,  sem que nem nos demos conta... O espírito é a ligação entre corpo e alma e traz as sensações que levam a mudanças e a diferentes vivências.

A sociedade moderna – principalmente a Ocidental – costuma reagir negativamente à importância de determinados rituais – que na verdade são  “pequenos ritos de passagem”. É como se demarcássemos nossos territórios internos – de acordo com a passagem do tempo ou de fatos -  afirmando que transcendemos um estado e passamos para…

A AMANTE >> Zoraya Cesar

D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época. Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos. Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita. E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Tidinha…

PÁSCOA ME LEMBRA >> Fernanda Pinho

CANÇÕES >> Carla Dias >>

Infinito meu
agora que a lua sola
eu amanheço a noite em sua hora

"Infinito meu", Gero Camilo

Eu estava escutando uma canção linda, linda, composta pelo maravilhoso Gero Camilo e interpretada belamente pelo extraordinário Rubi. Eu sei, são adjetivos positivos demais para uma frase só, não?
Não.
Infinito Meu é uma canção especial mesmo. As pessoas envolvidas no feito, então... Artistas capazes de nos virar ao avesso por meio de suas crias.
Escutando a canção, peguei-me questionando o que em mim posso considerar infinito e meu. Separando as palavras, dá-se um novo sentido ao dito. Um infinito meu nem sempre está de acordo com o que é infinito e o que é meu.
Questões existenciais e questionamentos sobre o universo e o ser humano são infinitos. Livros de cabeceira, CDs constantemente no player, filmes que já assisti nem sei quantas vezes são meus. O amor que sinto pelos meus sobrinhos, definitivamente infinito. Os personagens dos meus livros, meus, mas apenas até criarem vida própr…

O QUE VOCÊ VAI SER? >> Clara Braga

Acho que descobri porque os adultos perguntam tanto para as crianças o que elas querem ser quando crescerem. É porque depois que você de fato cresce é bem difícil responder a essa questão, então quem sabe uma criança com sua genialidade não ajuda a encontrar a resposta!
Quando eu era pequena já quis ser muita coisa. Me lembro especialmente de querer ser astronauta, porque gostava das estrelas, como se ser astronauta fosse o único jeito de estudar o céu. Lembro também de uma vontade curiosa de uma colega minha que disse que queria ser aposentada, pois percebia que suas tias que eram aposentadas tinham bastante tempo para leva-la para passear, então essa “profissão” devia ser bem bacana.
Não importa o quão absurda era a resposta, os adultos sempre se divertiam com os sonhos e desejos das crianças. Acredito que conforme fui crescendo meus sonhos e desejos cresceram comigo, hoje em dia é mais fácil eu dizer o que não quero ser do que o que eu quero. A diferença é que ninguém acha isso bo…

MEMÓRIAS NÃO REVELADAS VÃO AO BORDEL I >> Albir José Inácio da Silva

- Posso pedir um uísque?

- Pára de palhaçada, garota, que você não bebe uísque. É capaz de passar mal.

Arrancou a rolha e encheu dois copinhos com a cachaça amarela que estava na mesa. Ela provou, fez uma careta desnecessária e exagerada e virou o líquido num copo de coca choca que tava segurando. Depois sorriu e tratou de agradar:

- O que é que o senhor vai querer? Por esse preço a gente pode fazer muita coisa.

- A gente sempre pode fazer menos do que gostaria, moça.

O sorriso dela ia e vinha sem saber se ficava. Examinou o freguês: paletó velho, colarinho puído e relógio parado, com algum esplendor de um tempo que já foi. Mas parece que não há risco de não pagar. Nem de ser violento. Parece aperreado, o que não facilita o trabalho, mas também não empata. Dasdô se orgulhava de sustentar qualquer prosa. E a noite só começava.

- O meu nome é Maria da Dores. E o seu?

Ele olhou através dela.

- Nicolau, como o santo. Dizem que a sua profissão é a mais antiga do mundo, mas eu duvido que a …

UM NOVO PAPA? OU NADA ALÉM DE UM PAPA NOVO? >> Sílvia Tibo

Depois de muita fumaça preta ter ecoado nos ares do Vaticano, teve fim o conclave destinado à escolha do novo representante da Igreja Católica. 
Embora eu não me inclua entre seus seguidores, reconheço a grandeza do acontecimento, que, aliás, ganhou destaque (e quase exclusividade) em todos os meios de comunicação nos últimos dias, a ponto de se tornar, inclusive, um assunto cansativo pra grande parte dos ouvintes e telespectadores. 
Mas a repercussão do fato não poderia mesmo ser pequena. Afinal, pela primeira vez, elegeu-se um latino-americano para ocupar o posto máximo dentro da hierarquia da Igreja Católica, que é, sem dúvida, uma das instituições mais sólidas do mundo. Sem falar que isso aconteceu logo após a primeira renúncia de um pontífice em quase seiscentos anos. 
Confesso que achei positiva a novidade, assim como (acredito eu) a maior parte dos brasileiros, a despeito da famigerada rivalidade que mantemos com os nossos vizinhos argentinos, da qual até nos orgulhamos. 
Pode ser …

EXPERIÊNCIA DE LEITURA [Ana González]

Eu gostava de ir á biblioteca da escola na época em que eu frequentava o segundo grau. As lombadas dos livros me diziam pouco de tudo o que eles guardavam. Eu ia, então, à descoberta. Era uma enormidade de dados, uma quantidade imensurável que estaria para sempre inalcançável à minha curiosidade.

Assim, visitando as estantes de uma sala grande e quadrada com algumas janelas também  grandes – e isso é o máximo que minha memória consegue resgatar - descobri as biografias. 

Elas me mostraram aspectos insuspeitados de personagens conhecidas. Foi assim que Maria Antonieta e Lincoln me acompanharam por muito tempo desde que eu os conheci tão de perto. Tinham ganhado estatura de pessoas. Não eram mais referências históricas. O fato de ser pelos olhos de outra pessoa não fazia diferença para mim. Sim, era  uma interpretação pessoal, mas esse aspecto não tinha importância. Era um detalhe que não cabia no repertório de minhas preocupações. E eu literalmente me perdi em meio a essas vidas e suas p…

EXPECTATIVA BOA>> Mariana Scherma

Não sei se mais, talvez seja tanto quanto. Quero dizer, tanto quanto viajar gosto da expectativa de viajar. Se tem algo que me deixa feliz é abrir um mapa e começar a sonhar. Eu já viajo nessa hora. Em pensamento, tô sempre viajando. E no momento tô mode on e no volume máximo, curtindo essa expectativa das férias que se aproximam. Acho tão saborosa essa espera que não sei se quero que maio chegue logo ou não, porque uma coisa é certa: depois que chega, já começa a acabar.
Em 2010 fiz meu primeiro mochilão sozinha. Um dia antes de embarcar, nem dormi. Meus pais sofreram de me ver partir. Seriam três semanas curtindo o Velho Mundo, mas mais parecia que eu estava viajando também no tempo e indo, sei lá, pra Segunda Guerra, direto para um campo de concentração. Entendo o medo dos meus pais. Eu senti medo, mas o medo bom, que empurra pra frente e joga você dentro do avião. Meu medo passou assim que entrei na sala de embarque, com o coração dolorido por estar feliz e ver meu pai e minha mãe …

ENTÃO, JÁ FOI >> Carla Dias >>

Morte é uma consequência da vida, que é complicada de se aceitar sem dramas, ainda que sejam dos interiores, dos escondidinhos. Penso assim porque acredito que a morte faz mais sentido para os que ficam. Porque apesar de amarmos a pessoa, de ser fato que sentiremos falta dela, que vai ser muito difícil lidar com a ausência dela, depois da notícia do seu falecimento, passamos a pensar em nós mesmos. Prova disso é que, um dos primeiros pensamentos de quem recebe a notícia do falecimento dos seus afetos costuma ser o que será de mim sem essa pessoa?

De alguns anos para cá, tem sido mais complicado receber a notícia da passagem de alguns. Isso porque, quando crianças, adolescentes até, ao sabermos da morte de alguém, lidávamos com isso sem detalhes. Era como se a pessoa simplesmente parasse de nos visitar, ou tivesse se mudado de casa, deixando uma saudade a ser desfiada durante os encontros familiares e os muitos álbuns de fotografia.

Não estou diminuindo a importância das pessoas, mas …

CONVERSAS DE ELEVADOR >> Clara Braga

Quem nunca teve problemas de relacionamento que atire a primeira pedra! Até quem nunca teve um relacionamento amoroso já teve problemas de relacionamento com os pais, com os irmãos ou com os amigos, não adianta! E digo mais, pode apostar que se você estiver em um recinto cheio de pessoas, a probabilidade de pelo menos um grupo estar conversando sobre relacionamentos é muito grande.
Outro dia estava no trabalho esperando o elevador para subir até minha sala, e ouvi uma mulher reclamando do seu relacionamento para a amiga. Elevador é uma droga mesmo, principalmente o do meu trabalho, que quando não está quebrado demora um século para chegar, então você fica ali, ao redor daquelas pessoas que se aglomeram esperando o elevador e reclamam de seus relacionamentos, como no caso dessa mulher.
Ela reclamava para a amiga que não estava recebendo a atenção merecida de seu companheiro, e isso a estava deixando irritada. Então, de uma forma muito madura, ela resolveu tratar o rapaz com a mesma fr…

O SUBVERSIVO DO KANGOO >> André Ferrer

Bruno!
− Suzane!
− É... – disse comigo mesmo. − Onde estará o Mizaelzinho?
Fila de cinema. Cercado de adultos notavelmente mais interessados no filme do que os pequenos a tiracolo. Alice. Branca de Neve e o Caçador. João e Maria. O apelo infantil, nos dias de hoje, atrai e convulsiona a mais insuportável espécie de homens e mulheres: pais e mães “adultescentes”. Enfim, o bom senso aconselha-me a nunca mais fazer aquilo.
− Pa-pa-i-quer-pi-po-ca.
Pronto: o raio da minha imaginação logo abriu os trabalhos. Começou a pintar um bestiário para Hieronymus Bosch nenhum botar defeito. Bruno, 10, Suzane, 14, e Mizael, 3 – este, naturalmente, ficara em casa com a babá – nasceram rápido demais. Ninguém esperou que o papai e a mamãe amadurecessem. Malvados.
Enquanto a fila se arrastava, questionei o meu suspeito interesse naquele conto de fadas transformado em arremedo de Tarantino. Django tinha sido ótimo uma semana antes. Eu precisava assistir àquela história cercado daquela gente? O fanfarrão agarr…

UM ASSUNTO DELICADO >> Whisner Fraga

Outro dia fui almoçar num shopping de São Paulo e vi dois homens subindo a escada rolante de mãos dadas. Fiquei pensando na coragem daqueles sujeitos, porque todos andam acompanhando que a coisa anda feia para o lado dos homossexuais. Infelizmente, é lógico. Achei muito bonita a atitude do casal, o carinho que demonstravam um pelo outro, mas ao mesmo tempo fiquei com receio por eles. Em todo lugar há gente belicosa, disposta a bater, a atirar, para defender seus preconceitos.

Aí o pensamento debandou para os lados do Vaticano. É claro que a igreja católica não aceitará tão cedo a união gay. Para que a admitisse, seria necessária uma edição revista da Bíblia, que em vários pontos condena o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esperar que um Papa dê sua benção sobre este assunto, portanto, é bobagem. Mais fácil seria que os homossexuais desistissem dessa história de religião e focassem em Deus, que, se existir, deve ser um ente livre de intolerâncias.

Eu mesmo já participei de missas e…

A IDADE FATAL [Debora Bottcher]

Revistas e programas femininos nunca se cansam de falar sobre as mulheres acima dos quarenta anos. Estão sempre às voltas com dicas e cuidados da pele, do corpo, e sobre a alma a ideia é que estejamos preparadas para a idade da loba: os conflitos, a resignação, as mudanças.

Então, quando cheguei aos 40, tratei de espreitar além das brechas para compreender o que me esperava de tão tenebroso - sim, porque o tom de advertência é assustador. É como se fôssemos abandonar totalmente um tipo de vida e começar outro - muito pior, diga-se de passagem.

Isso sempre me remeteu ao pensamento sobre as datas de validade de produtos alimentícios: o que acontece com uma lata de feijão à meia noite do dia que a data de sua validade expira? Começam os feijões a saltar no escuro, a batucar, enlouquecer por uma saída? Assim às vezes olhei para os 40 anos: como se à meia-noite de completá-los, as mulheres perdessem sua data de validade.

Há alguns anos li uma entrevista com Maitê Proença em que lhe foi pe…

OS CAÇADORES >> Zoraya Cesar

O anúncio era bem simples, quase pobre: “Alugo casa em vila, bairro nobre, rua **, preço abaixo do mercado. Procure o proprietário no local após as 19h”. O papel estava colado em um poste, igual àquelas propagandas que prometem trazer o amor de volta em três dias. Não tinha desenhos, cores, qualquer tipo de chamariz. Era mais um anúncio grudado num poste, que, assim como centenas de outros, passava totalmente despercebido. Totalmente? Não. Havia dois tipos de pessoa que, não por acaso do Destino (que este senhor não acredita em acasos), lia a mensagem. Uma velha senhora, sem parentes, sem amigos e sem cachorro; um estudante de filosofia, vindo do interior, tímido demais até para perguntar as horas (quanto mais morar numa república cheia de gente desconhecida); um professor aposentado, viúvo e sem filhos. Pessoas que passavam mais despercebidas que o anúncio, que não faziam falta a ninguém, e a quem a chance de morar numa vila, em condições tão vantajosas, não podia ser desperdiçada…

QUATRO ESTAÇÕES, QUATRO MESMO >>
Fernanda Pinho