quarta-feira, 6 de março de 2013

A CONDIÇÃO >> Carla Dias >>




Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Hilda Hilst


É preciso que entendam que ele não é membro de uma seita, não é curvado à determinada religião, não foi educado para se colocar nessa posição. Muitos o observam como se ele fosse desejo trôpego do destino. Como se ele tivesse nascido empurrando impossibilidade pelas frestas da existência, rasgando-lhe a determinação de não trazê-lo ao mundo. Ainda assim, aqui está.

Ele não aprecia tal atenção, nem mesmo se sente confortável sob os olhares estranhos falando intimamente ao seu ser. Não quer escutar aquelas vozes, faróis embrulhados em curiosidade latente.

Não interessa que estudou direito, e formado doutor, ao ter esse dado de seu currículo existencial liberado, as pessoas, boquiabertas e bizarramente comovidas, lançam-lhe migalhas de compaixão. E mesmo a maestria com a qual emprega a justiça, e a paixão com que se dedica ao feitio da sua profissão, impede que ele seja arrebatado – e curvado, e silenciado, e horrorizado – pela piedade que lhe jogam aos pés, cravam-lhe na alma.

Também é preciso que saibam que ele é um homem interessante, equivocadamente tido como arrogante, quando, na verdade, é apenas ensimesmado, de poucas palavras, de se manifestar somente mediante importâncias.

Sua vida seria muito menos assuntada se fosse capaz de fazer de conta, mas não consegue. Observa os colegas de trabalho, as duas únicas pessoas que não ficam estarrecidas com a sua condição, e que fatalmente se tornaram seus únicos amigos. Observa-os com sagacidade, para que não seja pego na indagação, porque a intenção não é incomodá-los com divagações próprias. Ainda assim, não alcança, não compreende o sentido de ser tão diferente a ponto de.

Os amigos, debochados, relaxados demais para confrontos, como em todo happy hour, acreditam que ele apenas tenha de esperar mais do que as outras pessoas. Mais quanto? Onde fica esse quando? Porque na sua idade, cargo importante adquirido, assim como carro, casa própria, ele está pra lá de pronto. Não há mais as questões da juventude, tampouco a incerteza de quem será. Ele já é, e daí?

Daí que trocaria de cargo sem pestanejar, de carro, moraria de aluguel, se reinventaria em uma realidade menos elogiosa, tudo para viver esse momento sobre o qual os poetas se debruçam durante a criação, os compositores entoam em suas canções, artistas eternizam em suas obras, doendo ou não. Um pouquinho sempre dói, alegam alguns viventes de.

Cai naquele momento de introspecção desencadeado por vários drinques engolidos em ritmo mais acelerado que o usual. Achega-se ao misto de bebedeira e reflexão existencial. Talvez tenha sido sim escolhido pela espera, e ela - dona de um humor negro e de lábios carmim - o esteja contemplando se debater nessa falta de saber como, qual sabor, quais cheiros, e as palavras? Quais palavras fazem sentido em situação feito essa? Como elas imprimem sentimentos em terrenos emocionais até então estéreis?

Ele já foi solução da espera de outra pessoa. Quando pensa nisso, sente que perdeu a vez na fila, que teve de voltar para o final dela, porque não conseguiu conquistar o que lhe pertencia.

A mãe ainda lhe tricota blusas para um frio que não chega. Ele as coleciona no armário, feito lápis de cor na caixinha. O pai lhe chama para conversas que passam pela geografia familiar – e as piadas sem graça dos tios e primos -, até chegar à solidão que levou muitos dos seus entes queridos. A irmã promete que a vida vai ficar mais fácil, mas que ele talvez tenha de ajudá-la nessa missão. Chegou a lhe sugerir uma solução: entregue a vida a Deus, ao silêncio, ao retiro, à castidade.

Enquanto caminha pelas ruas da cidadezinha onde vive, desde sempre, pensa em como as pessoas recorrem aos absurdos a fim de justificarem o que as penaliza, de se afastarem do que os incomoda. Deus, a quem a irmã sugeriu que entregasse a vida, deve saber que ele não nasceu para servir a portas fechadas, filosofias estreitadas por regras religiosas. Apesar de apreciar o próprio silêncio, sente a alegria se comunicar com ele em tardes regadas à música. Ainda que seja um solitário, não deseja hospedar-se de vez na imensidão da solidão, retirar-se da realidade de cidadão, de membro da multidão. Mesmo sendo a pessoa que é, carregando a condição que lhe aflige, é apreciador dos toques, dos desejos vorazes e corpos sucumbindo a esses desejos.

Sendo assim, só lhe resta entregar a própria vida a si mesmo.

Muitos alegam que são incapazes de imaginar pelo o que ele passa. Outros colocam as mãos em seu ombro e respiram fundo, então saem de cena como se tivessem feito um perfeito discurso. Ele digere a tudo com esforço, segurando-se para não vomitar suas queixas. O que eles sabem a respeito? E se é tão importante assim, porque delegam ao destino o amparo que eles devem oferecer a essa conquista?

A sós, longe dos tribunais, das reuniões em família, das tentativas dos amigos em colocá-lo em uma vitrine, até que sua condição mude para melhor, envolve-se com os livros. Por meio da imaginação alheia, consegue se colocar à disposição de um destino em que à espera é imputada a condição de finda. E assim, deixa de ser homem alvo da piedade para se tornar um homem que, finalmente, é amado por outra pessoa, alguém de quem foi escolha, que decidiu estar ao seu lado.

Assim ele flerta com o amor recebido.

O telefone toca. Sua irmã interrompe o momento em que se imagina homem digno de ser amado por alguém, construir uma vida que vai além da que já construíra com muito trabalho e dedicação. E a voz miúda dela, arrastando-se em um ritmo de penúria, confessa a ele a imensa dor que sente por ser a irmã de alguém que nunca foi amado, como se ele fosse culpado por fazê-la se sentir dessa forma, envergonhada, sofrida. Como se nunca ter sido amado fosse peso que ela carregava, não ele. Fosse falta que ela sentia, não ele. A voz miúda revela, agora meio chorosa, que ele tem de resolver essa situação, caia no mundo, renda-se a Deus, faça o que for!

Desliga o telefone como se nada tivesse acontecido. Está habituado aos melindres da irmã sobre sua condição. Volta aos livros, volta ao imaginário.

Mareja os olhos da esperança, contracena com as canções, amplifica as variações do estado de espírito. Dança com a semelhança entre ontem e hoje. Reverbera fascínios no silêncio dos segundos escancarados. Cutuca a espera com vara curta e ela esbraveja o desassossego. Mas por um instante, esse que não cabe na coleira do tempo medido, que às vezes se traveste de eternidade, ela o encara com deslumbre desmedido. E o ama para sempre, hoje e amanhã, daqui a pouco, até, logo mais. Ama-o a espera e seus lábios carmim, seu humor negro banhado em vistosas cores. Ama-o despida de condição.

Imagem: Salvador Dali.

carladias.com


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2 comentários:

Zoraya disse...

Que dor, Carla! E essas imagens da personificaçao da "espera" estão maravilhosas.

Carla Dias disse...

Zoraya... Dói gritando, depois se transforma em sussurro. Beijo.