segunda-feira, 11 de março de 2013

ENCONTRARAM-SE >> Albir José Inácio da Silva

Não, talvez melhor dizer desencontraram-se. Porque não se pode chamar de encontro uma tal repelência. Também não foi marcado, não foi querido, planejado. Foi obra do acaso, e o acaso, quando quer, trabalha mal. Mas se alguém quiser insistir no tema, pense num encontrão.


Teriam se evitado, teriam tomado direções opostas se desconfiassem da existência um do outro. Mas, sabe-se lá por que coincidência, esbarraram-se. E repugnaram-se.


“Docinha” como era conhecida, desmanchava-se em delicadezas, singelezas e doçuras. Voz de anjo e jeito de fada, sonhadora, de sua boca só se ouviam carinhos, homenagens e orações. De suas mãos, só afagos.


Ele, um ogro mesmo, como era chamado. Voz alta, mal-educado, arrotava e xingava em qualquer lugar. Mulheres, para ele, objetos. Chatinhas, mas, quando não eram muito frescas, atendiam umas vontades. “Servem quando servem”- dizia sempre.


- Um brucutu, só a custo deve manter-se nos dois pés. Quando ri parece relinchar. Pode haver alguém mais sem noção? – perguntava a moça.


Ele contra-atacava que ela desatendia ao mínimo para uma mulher. Conseguia não ser bonita nem feia nem interessante. Uma mosca morta, uma insignificância. Irritava-o, não pelo que fazia, mas porque existia.


O acaso nem sempre convence, e as coincidências desafiaram os números. Viram-se mais vezes e desdenharam-se outras tantas. Xingaram-se, ela em cochichos e resmungos e ele aos brados e declarações públicas.


Tão ácidos eram os comentários na ausência e as refregas na presença, que todos acreditavam na reciprocidade da repulsa. E ninguém desconfiou quando eles gastaram muito tempo e saliva falando mal um do outro. O assunto já não interessava, mas eles continuavam. Prometiam novos e maiores desaforos para a próxima vez. E, por acaso, e só para brigar, encontravam-se.


E foi assim que um dia, de novo, encontraram-se, provocaram-se, desafiaram-se. Experimentaram-se. Provaram-se.

Aprovaram-se e fundiram-se. Ela, comedida, conteve-lhe a fúria com a boca, os braços e as pernas. Ele, espaçoso, espalhou pelo quarto as dúvidas, os melindres e os limites dela.


Com sofreguidão, liquefizeram-se. E o bruto falou de “ternura, casamento e amor eterno”. E a doçura replicou em “cale-se, mais força e deixe-se de lirismos”. Com arrebatamento, liquidaram-se e ressuscitaram-se.


Mas deixemo-los, que não somos bem-vindos.


E calemo-nos, que as ênclises são muito cansativas.


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4 comentários:

silvia tibo disse...

A vida e suas surpresas, né?
E opostos se atraindo...
Adorei!!!

Carla Dias disse...

Albir, sabe o que dizem por aí, não? Dependendo do caso, a repulsa nada mais é que o desejo limpando os pés no capacho, desfazendo-se das ofensas. Depois que ele entra, tudo se mistura. Todos se enroscam.

Zoraya disse...

Albir, eu nao tinha lido ainda essa veia romântica! Ficou muito interessante mesmo! O uso do português mais acadêmico, as alternâncias, o final maravilhoso! Adorei.

Élida Regina disse...

É... Como diz o ditado " quem desdenha quer comprar!"...
És talentosíssimo! Nos envolve com suas histórias e ainda nos faz rir...muito! Parabéns!