quarta-feira, 27 de março de 2013

CANÇÕES >> Carla Dias >>

Infinito meu
agora que a lua sola
eu amanheço a noite em sua hora

"Infinito meu", Gero Camilo


Eu estava escutando uma canção linda, linda, composta pelo maravilhoso Gero Camilo e interpretada belamente pelo extraordinário Rubi. Eu sei, são adjetivos positivos demais para uma frase só, não?

Não.

Infinito Meu é uma canção especial mesmo. As pessoas envolvidas no feito, então... Artistas capazes de nos virar ao avesso por meio de suas crias.

Escutando a canção, peguei-me questionando o que em mim posso considerar infinito e meu. Separando as palavras, dá-se um novo sentido ao dito. Um infinito meu nem sempre está de acordo com o que é infinito e o que é meu.

Questões existenciais e questionamentos sobre o universo e o ser humano são infinitos. Livros de cabeceira, CDs constantemente no player, filmes que já assisti nem sei quantas vezes são meus. O amor que sinto pelos meus sobrinhos, definitivamente infinito. Os personagens dos meus livros, meus, mas apenas até criarem vida própria.

Minha versão de um infinito meu ainda é incógnita, talvez assim o seja eternamente... Ou infinitamente? Ou possessivamente de tão meu?

Canções como essa me fazem trafegar por sensações que não são rotineiras. Não é medo, não é a insegurança, não é a felicidade efêmera de quando se consegue realizar algo, aqueles minutos em que sorrimos como se fosse a única coisa a ser feita. Elas me abarcam com sentimentos que nem sei se aprenderei a sentir, que acessam partes do meu dentro que desconheço.

Canções como essa me levam a revisitar cômodos vazios, lacunas, a olhar pelas frestas, a observar trincaduras, a reivindicar atenção minha a mim mesma. Permite-me pensar sobre outros, a mergulhar em empatia, a aceitar contradições com a leveza necessária para não mancomunar com culpas. Porque sou hábil com as culpas, e as crio debaixo da barra da saia dos meus melindres. Eu as alimento com esperas, silêncios, asperezas que é para mantê-las em plena forma. Afiadas.

Às vezes, canções como essa me colocam em modo choroso, levando-me a um estado de concentração em distrações. Abstenho-me do mundo, das suas exigências, e ainda que dure por pouco tempo, é como se tivesse tomado uma garrafa de alívio sozinha, no gargalo. E tudo faz um sentido organizado de um jeito que não sei bem como explicar, mas me permite retomar o fôlego, levantar de tombos. Depois, passa.

Passo.

Infinito meu é esse lugar onde encontro a mim, antes de me jogar à vida. Onde me perco, constantemente, de mim. E pressionada pela incapacidade de caber aqui e ali, amoldo-me ao ensejo da sua bondade em me permitir ficar.
Aninho-me, jogo-me ao infinito que é meu somente quando ele decide ser.

Ou quando escuto canções como essa.


INFINITO MEU - RUBI



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2 comentários:

Zoraya disse...

Carla, só uma pessoa sensível como você para escrever e encontrar essas coisas. Belezas.

Carla Dias disse...

Zoraya... Tem muito dessas coisas, dessas belezas por aí. Por isso que, apesar de tudo e mais um pouco, serei uma eterna entusiasta da vida.