sexta-feira, 29 de março de 2013

A AMANTE >> Zoraya Cesar

D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época.
Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos.
Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita.
E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Tidinha recebeu a visita sempre desagradável de cobradores, ou teve de vender as poucas jóias para fazer frente às contas atrasadas.

Aristeu não chegava a cair de bêbado, infelizmente, pois se caísse poderia bater a cabeça no paralelepípedo e... esse não é um pensamento cristão. Chegava em casa alterado e agressivo. Destratava as crianças, empurrava Tidinha para o quarto e vocês podem imaginar o resto.

E por que não separava, perguntam as mulheres modernas. Porque não era tão simples assim. D. Tidinha não teria como se sustentar nem às crianças, mulheres desquitadas eram discriminadas. E ela sabia que, sozinho, aí mesmo Aristeu perderia as estribeiras e também o cargo no Banco do Brasil, já ameaçado. E perder a segurança da pensão do banco era impensável, depois de tanto sacrifício.

De forma que agüentava tudo estoicamente, inclusive as farras do respeitável Aristeu. Aliás, essa era a melhor parte, pois sempre que ele se enrabichava por uma sirigaita passava alguns dias fora de casa, para alívio geral.
Mas nem tudo era amargor, D. Tidinha freqüentava o clube do BB, tinha suas amigas. E foi no aniversário de uma delas que encontrou Lucrécia, a exuberante, independente, rica, a loura Lucrécia. Viúva, não tinha peias nem pejos, mas possuía o que as gentes da época chamavam sex appeal. Por onde passava, atraía olhares e desejos. Diziam ser fútil, inconseqüente, egoísta. Tudo o que não se poderia dizer de D. Tidinha.

Ainda assim, as duas mulheres ficaram amicíssimas, pareciam irmâs, de tão unidas. Tanto que Lucrécia jantava constantemente na casa de D. Tidinha.

Bem, não vou fazer pouco da sua percepção, Amigo Leitor, sei que você já concluiu o óbvio: Aristeu se apaixonou e fugiu com Lucrécia, deixando tudo para trás, menos o emprego.
D. Tidinha, com a elegância que sempre lhe fora peculiar, não se abalou. Continuou sua vida e, a bem da verdade, a família nunca passou necessidade. Talvez por não terem de pagar dividas de jogo ou contas atrasadas. Talvez.
Algumas semanas depois, recebem a notícia de que Seu Aristeu e Lucrécia haviam morrido juntos, acidentalmente asfixiados pelo gás que escapou do banheiro. D. Tidinha, para surpresa de todos, chorou copiosamente por muitos dias, e nem saber que receberia toda a pensão do Banco do Brasil pareceu consolá-la.

Nessa época, estava para ser avó – uma ainda jovem e linda avó, diga-se de passagem.

Chamou a filha e o genro no canto e comunicou, sem meios termos:
- O menino vai se chamar Lucrécio. E eu serei a madrinha.

A filha ficou quieta, mas o genro ainda tentou argumentar. O olhar da sogra – e o fato de ela ajudá-los financeiramente – fizeram-no calar-se. Apenas pediu, tímida e respeitosamente, para colocar um segundo nome na criança, que tal Lucas, D. Tidinha? Ela assentiu. Lucrécio Lucas era um nome sonoro e forte, todos ficaram satisfeitos.

Apaziguada a questão, restou a curiosidade. Por que batizar o neto com o nome da amante do marido? E porque estava tão deprimida, afinal, livrar-se do estorvo não era o que ela queria? D. Tidinha ouvia as perguntas sorrindo como uma Gioconda e igualmente enigmática.

Uma dia, D. Tidinha recebe um envelope lacrado enviado por um escritório de advocacia. Ela se trancou no quarto, acendeu uma vela, tirou o retrato de Lucrécia do fundo de uma gaveta e colocou-o no altar, junto com seus santos de devoção.

"Minha Amada Tidinha, não fique triste. Você sabe que eu estava desenganada e que jamais me permitiria morrer definhando.
De forma que ajeitei tudo para partir de maneira rápida e indolor.
Deixo em testamento todos os meus bens para você, e levo o que te atormenta. Aristeu vai comigo.
Vivo, ele nunca te daria sossego, você é gentil demais, ele iria te deixar na pobreza.
Adeus, minha Querida Amiga, você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Lucrécia”

D. Tidinha chorava e ria ao mesmo tempo, sabendo o que ninguém desconfiava: que, naquela história toda, o grande corno sempre fora o marido.


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9 comentários:

Vanderley José Pereira disse...

Zoraya Cesar....

Que texto genial... confesso que me deu um quê de inveja..

Seus texto me parecem tão íntimos que tenho vontade de ter como amiga. isso é normal? tem um diagnostico?

W L disse...

Bravo!

aretuza disse...

Surpreendente!! Adorei!

Erica disse...

Homenagem justa, afinal a Lucrécia livrou a Tadinha, digo, Tidinha do traste! Isso é que é abnegação... isso é que é amor!...rs Adorei a surpresa do final. Não era bem uma história romântica, mas não deixou de ser uma história de amor... :-)

Zoraya disse...

Vanderley, puxa, que comentário bonito! Olha, nem sei se é normal, mas quem precisa de tanta normalidade, né não? Diagnóstico provável: gentileza em altas doses. Espero que você nao se cure.

WL: obrigada! agradeço em nome de D. Tidinha, que é mesmo uma vitoriosa

Aretuza: meu objetivo é surpreender, e sempre que consigo é maravilhoso, obrigada

Erica, puxa, agora você disse uma verdade: nem todas as histórias de amor são românticas. Mas, pelo visto, devem ter final feliz, né?
Beijos a todos e obrigada pela leitura e comentários

Aglae disse...

amei. sempre me sinto vingada da humanidade com suas cronicas
(sentimento nada cristao ainda mais nessa epoca). parabens

albir disse...

Zoraya, confesso que antes de saber o final torci pelas duas. A dose de drama não ofusca a história de amor. Beijo.

Ana Luzia disse...

querida, nelson rodrigues adoraria te conhecer!!

e será que um dia Lucrécio Lucas chegará a saber a estranha história de seu nome? será que é isso que o faz ser tão tenaz?

esse seu personagem me intriga, tenho um especial carinho por sua astúcia... talvez porque ele me faça vislumbrar uma pequena parte de uma certa cronista, rs...

bj!

Cris Jeha disse...

Amei essa crônica! Gostosa de ler, nos aproxima dos personagens com se fossem nossos vizinhos! Que leveza de leitura! Quero outras!!