domingo, 17 de março de 2013

UM ASSUNTO DELICADO >> Whisner Fraga

Outro dia fui almoçar num shopping de São Paulo e vi dois homens subindo a escada rolante de mãos dadas. Fiquei pensando na coragem daqueles sujeitos, porque todos andam acompanhando que a coisa anda feia para o lado dos homossexuais. Infelizmente, é lógico. Achei muito bonita a atitude do casal, o carinho que demonstravam um pelo outro, mas ao mesmo tempo fiquei com receio por eles. Em todo lugar há gente belicosa, disposta a bater, a atirar, para defender seus preconceitos.

Aí o pensamento debandou para os lados do Vaticano. É claro que a igreja católica não aceitará tão cedo a união gay. Para que a admitisse, seria necessária uma edição revista da Bíblia, que em vários pontos condena o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esperar que um Papa dê sua benção sobre este assunto, portanto, é bobagem. Mais fácil seria que os homossexuais desistissem dessa história de religião e focassem em Deus, que, se existir, deve ser um ente livre de intolerâncias.

Eu mesmo já participei de missas e vi muitos padres gays professando a fé nos ensinamentos cristãos, como se a doutrina pudesse livrá-los da homossexualidade. Tenho minhas dúvidas, como de resto todas as pessoas deveriam ter. Para não espalharem que falo sem conhecimento de causa, tenho dois queridos amigos que tentaram refúgio na sacristia e voltaram desolados, porque não conseguiram “se curar”.

A violência, como qualquer criatura que tenha estudado o mínimo de história sabe, é um mal da humanidade. O homem é violento por natureza e não há o que se fazer para modificar isso. O que as pessoas rotuladas como “boas” fazem é tentar bloquear sua essência por meio de palavras e, algumas vezes, ações. Mas quando a coisa esquenta, pode ser um santo, que se o gatilho estiver ao alcance, ele o pressiona. Depois basta o arrependimento para chegar ao perdão.

Conheço o estrago que as religiões produzem em nossa sociedade, mas quem não estiver por dentro, pode dar uma lida no livro “Deus não é grande”, de Christopher Hitchens. Bom, mais uma vez me pergunto: que importância tem para os homossexuais a aprovação da igreja? Não sejamos ingênuos, é claro que o reconhecimento de uma entidade tão poderosa seria interessante. Bastaria uma palavra e certamente algo mudaria na cabeça dos cristãos.

Vejam bem: não acho errado que uma pessoa exerça seu poder de escolha religiosa, mas o velho ditado ainda é válido: seu direito termina onde começa o meu. Não gosto que me abordem para tratar de um tema de natureza tão íntima, quanto é a crença em algum Deus. Não aprecio que pessoas sofridamente preparadas venham tentar me convencer que existe um paraíso fora daqui e que, quanto mais eu sofrer neste mundo, mais certamente terei acesso a ele. 

Mas estou tratando de um assunto delicado. Fato é que toda manifestação de carinho é um negócio muito bonito, de maneira que, ao ver os dois homens de mãos dadas no shopping, senti que meu dia melhorava, que as agruras da manhã se dispersavam diante daquela alegria que chegava, sorrateira. Haverá um dia em que não será mais proibido expor em público o afeto que um ser humano sentir por outro.

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2 comentários:

silvia tibo disse...

Torço também pra que esse dia chegue, Whisner!!! Qualquer forma de demonstração de amor é nobre e, acima de tudo, deve ser respeitada!!!
Abraço...

whisner disse...

Sim, chegará, Silvia. Obrigado pela leitura.