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Mostrando postagens de Junho, 2020

ACABOOOOOOOUUUU >> Clara Braga

- Filho, mamãe precisa escrever uma história! Mas a mamãe está tão cansada, que não consegue pensar em nada. Você pode me ajudar? - Toma, pega esse livro! - Ah, boa ideia! Vamos nos inspirar em um livro! Então, meu filho de 2 anos sentou no meu colo e passou página por página de um livrinho infantil sem falar nada. Quando terminou eu perguntei: - Então, você já se inspirou? Vai criar sua história? - Vou! Era uma vez... - Legal, começou bem, pode seguir! - Um papel! - Hum, interessante, ter um papel como personagem principal não é comum! Continue... - Ele morava na floresta! - Legal, faz muito sentido um papel morar na floresta! Talvez esteja tentando voltar às suas raízes, dá para escrever uma história ecológica! Continue... - E pronto! - Como assim pronto? A gente não fica sabendo o que acontece com o papel? O que ele fez? Achei muito curta essa história, vamos tentar criar uma um pouco maior? - Tá! Era uma vez... - Sim... - Uma árvore de natal! -

TÁ LIGADO? >> Albir José Inácio da Silva

Embora não tenha a menor ideia do que seja isso, Uélito acordou estremunhado. Braço dormente embaixo da cabeça, barriga doendo e pescoço duro. A mãe já o sacudiu duas vezes enquanto se veste para trabalhar. Parece que ela está falando há horas na cozinha, no banheiro, às vezes bem pertinho, no quarto que também é sala. - Levanta logo, menino, vai pra escola que tu já faltou ontem e eu acabo perdendo o bolsa-família de novo. Pede pra diretora te deixar entrar, que eu hoje não posso ir, mas eu vou falar com a patroa pra ver se dá pra ir amanhã. Toma leite do Juninho que eu peguei ontem no Posto e tá em cima do fogão, não sai sem comer que tu já tá magro que nem pau de virar tripa. Toma também água da garrafinha que eu trouxe da igreja pra te curar dos vício e te livrar daquele processo na Vara da Infância, que ainda bem que foi só uso mas da próxima vez a mulher já falou que tu vai assinar artigo 33 de tráfico. Tu precisa tomar rumo na tua vida, se não vai morrer de tiro que nem te

A CASA DAS OITO MULHERES >> Sandra Modesto

Havia na Avenida 27, numa pequena cidade do arraial de São José do Tijuco, uma casa. A princípio, casa das sete mulheres.  Naquela época, 1974, era questão de honra para um homem casado, com família constituída, ter uma casa "própria" financiada.  Foi mais fácil e acessível comprar uma casa velha e reformar. Mudaram. Na casa, uma sala pequena.  No único banheiro, azulejos floridos.  Uma cozinha que aos poucos avermelhou-se. Geladeira vermelha, fogão vermelho, mesa e armário vermelhos. Muitos sorrisos espalhados escancarados em cada mulher.  E a casa sorriu também. Três quartos. O do casal, o dos filhos adotados e crescidos, e o quarto das meninas adolescentes. Amontoadas num espaço delicado.  Alguns mistérios antes do sono, antes das histórias malucas, antes do amanhecer.  Pela porta um sol... Hora do despertar, do aroma de canela. Quente pela manhã. Gelado ao entardecer.    A casa das sete mulheres não era a do livro, nem da minissérie. A

MADRUGADA, ÁGUA E COR >> Cristiana Moura

Muito já contei sobre ela, mas esta menina-moça-mulher não se esgota no tempo e, hoje, volto aqui, para dar notícias de sua vida. Gabriela, que já brincou com a beleza efêmera das bolhas de sabão, que já deixou um pedaço de sorriso em cada encontro fugaz, abandonando-se em infância e juventude remotas. Ela mesma, que teve um sorriso não planejado num sinal fechado e aprendeu a costurar pedaços do dia a dia com linhas de névoa e assoprar, agora, sabe devanear com os pés firmes no chão.  http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html Gabi, com seus cabelos brancos por entre os negros a iluminar pensamentos e sonhos, vive o segundo tempo da vida com a intensidade forjada por desejo e medo atados, pois já sabe que são parceiros. Ao mesmo tempo que baila solo na sala de estar, a vida lhe é urgente, transparente, fluida e quer gente. Na polifonia da vida cotidiana, mora em seu casulo-casa-corpo e, simultaneamente, reencontra com entusiasmo e volúpia,

DESAFIO NAS TERRAS DO SEM FIM >> Zoraya Cesar

Já nasci cavalgando. Não tenho memória da infância que não montar a cavalo e manejar o revólver. Eu gosto. É minha natureza. Uma vida dura, essa que escolhi, mas não reclamo. Nunca reclamo.  Fiz de tudo. Guarda-costas. Justiceiro. Matador. Boiadeiro. Caçador. Agora sou só cavaleiro. Eu, meu cavalo e meu revólver, no céu ou no inferno, juntos,  percorrendo o giro do mundo. Ver o céu amanhecer lilás e se espessar de nuvens plúmbeas de chuva forte e doída. Atravessar leitos de rios tão gelados que mesmo a alma se retraía. Assistir ao embate de ursos da pedras por território. Dormir ouvindo as corujas sussurrarem a noite tenebrosa. Pertencíamos à terra. Nunca tivemos medo.   Meu cavalo era o melhor de muitas regiões, regiões a perder de vista. Um alazão portentoso e bravio, cujo simples bufar fazia o resto da tropa fremir de reverência e excitação de batalha.  Era lindo de se ver, quando estávamos com outros cavaleiros - meu alazão bufava, o vapor saindo das narinas, quente derr

Pulos, Barbies e nostalgia >>> NÁDIA COLDEBELLA

Minhas filhas estão em distanciamento social já faz um bom tempo. Sentem falta dos colegas, da escola e da vida normal. Sentem falta da correria, do movimento, dos abraços, dos gritos e empurrões das brincadeiras, da balburdia da sala de aula. - Mãe, lembra quando eu ia para a aula? - diz minha filha menor, na hora de dormir - Eu gostava muito de brincar de pular corda. Vamos brincar? - Errr... - Como saio disso? Minha inaptidão esportiva me segue a vida inteira, da caminhada ao jogo de volei. Se envolve pulos, a coisa é muito séria. Mas mãe tem que dar exemplo, ainda mais na pandemia. - Tamo junta, filha, mas podemos fazer isso amanhã? - Eu ou ela vai esquecer, uma baita estratégia manipuladora e desumana inventada por uma mãe em puro desespero com a possibilidade de pulos miquentos. Uma mãe inapta que não quer se expor. Quem disse que os fins não justificam os meios? Recolho-me, envergonhada, na minha insignificância, e vou até o quarto da minha filha de doze anos. Lá o a

DANOU-SE >> Carla Dias >>

Danou-se, meu caro. Eu pensei que, finalmente, a liberdade de ser estivesse ali, na esquina das nossas buscas. Não se tratava mais de uma estrada a ser percorrida, mas de destino acenando, nos dando boas-vindas. Estradas a serem percorridas perderam até o quê poético para mim. Veja, percorremos estradas bem longas, até aqui. Ser tem sido o desafio mais complexo que já encaramos. Ser sem medo de sê-lo. Ser com direito a sê-lo. Talvez, tenhamos nos deslumbrado com perspectivas e perdemos a noção da força daquele que prefere ecoar um outro alguém. Um alguém oco destinado a sobreviver feito reservatório de percepções obsoletas. Porque, se o ser humano tende a evoluir nada mais natural do que seu olhar se apurar, certo? Suas percepções se aprumarem. Na minha cabeça – e no meu coração, na minha alma, ou sabe-se lá em que lugar do dentro você entende como sensível ao mundo -, o futuro seria o tempo no qual compreenderíamos que somos seres humanos; que nos trataríamos, pri

DAS GRANDES ÀS PEQUENAS CRIAÇÕES >> Clara Braga

O homem já foi à lua. O homem entendeu a eletricidade e, com ela, criou coisas incríveis. O homem encanou a água. O homem arrumou formas de viajar cada vez mais rápidas e, quando viajar não é possível, criou formas de estar presente virtualmente. O homem cria músicas que emocionam, livros que nos fazem viajar e imagens que nos representam e encantam. O homem entendeu como funciona a terra (embora alguns duvidem) e pôde, assim, contar o tempo. O homem criou obras arquitetônicas que nem Deus explica como foram feitas. O homem lê e escreve em diferentes línguas, conta, cria e interpreta mapas, decifra enigmas e prevê fenômenos naturais. Para quem não vê direito, óculos. Para quem não escuta direito, aparelho auditivo. Para quem está cansado, cadeira. Para quem está entediado, jogo de tabuleiro. Para quem está doente, remédio. O homem mal intencionado também criou coisas maléficas e destruidoras, verdade seja dita. Mas eu fico pensando: diante de ta

2 rios >>> branco

a vida passou tão rápida por nós amigo ainda há pouco  e estávamos bebendo cerveja e cachaça no bar minha risada era franca sua tranquilidade não menos que isso uma doce obsessão de sermos jovens entre um copo e outro a alternância nos goles cerveja cachaça cerveja seu manso falar daqueles que sabem meu senso de humor impedindo a implosão - sem saber - já éramos vulneráveis cores sem matiz há muito tempo não nos vemos amigo - paradoxo o tempo que não vimos passar o tempo que faz tempo de alguma coisa -  gostaria de poder dizer aquele velho olá seguido também pelo idoso tudo bem? sempre fomos sinceros e isso bastava mas como foi dito  há muito tempo não nos vemos meu amigo e assim meus olás foram desperdiçados e os tudo bem que não se perderam são agora apenas como contas gastas de madrepérola neste grande rosário que chamamos vida envelhecemos como grandes e orgulhosas árvores mas não tão fortes  para impedir que

CÁ PRA NÓS >> Fred Fogaça

cá pra nós: eu fecho a cara e cruzo os braços, olho de cara feia a vida e resisto e me recuso. entre eu e você: todo assim menino, birrento, vítima do correto, aliciado do travesso: eu tenho motivos rasos pra uma tristeza profunda mas os problemas graves já não me pegam mais. a derrota categórica é um mal passageiro, mas as pequenas frustrações são intragáveis e eu vou culpar quem? eu menino, eu de cara de fechada e olhando feio o que? sem nem saber o que é culpa e quanto mais a quem atribuir. cá pra nós: eu continuo sem muito a dizer: só há raivas espontâneas que aguardam a cada canto da casa e me perseguem por esses dias de claustro: e eu me esvaziando das vontades comuns porque o tédio é mais primoroso no ofício que qualquer meditação. sigo assim, breve, com ódio, em grandes lutas diárias por causa alguma: sem novidades.

SABOR ESQUECIDO >> Sergio Geia

Ela saboreava a fruta com tanto gosto, que deu vontade de correr até a geladeira e abocanhar uma também. Era um caqui. Talvez seja até banal a história de alguém em sua casa a chupar um caqui.  Decerto é. Ocorre que não me lembro da última vez em que eu chupei um. Não faltou oportunidade, afinal, eles estão aos montes nos supermercados. É que nunca houve empolgação minha.  Além do mais, há bichinhos adocicados aqui em casa que me tentam a todo instante, e tomaram de assalto o lugar das frutas. Depois do almoço, sempre me vejo à cata de chocolates.  A cena dela devorando um caqui com tanto gosto era extraordinária e bela.  Não resisti.  Chupei-o, talvez, com um prazer até maior que o dela. E algo simplesmente magnífico aconteceu: o sabor, não era de um caqui. Havia mais.  Sempre que ia à casa de minha avó, na Barão da Pedra Negra, dava uma olhada no pé de araçá que ela tinha no quintal. Se houvesse um araçá amarelinho, apanhava. O maduro era doce. O verde,

INVENCIONICES >> Whisner Fraga

enquanto os feixes experimentam nossa pele, neste sol imaturo e fuzilante, enquanto as suculentas escorrem pelo vaso, nesta manhã depurada, as gatas roçam o sono, nossos olhos convergem para o desalento, a menina pede a ternura, um sorriso, é preciso revidar a truculência da monotonia: um jogo, é preciso emanar da trégua um rosto alegre: vamos brincar de inventar nomes?: janeiro de fevereiro março, estrela da lua dos dias escuros, reunião vídeoconferência dos santos dias, diretrizes bases do coaching falso, (...) foi assim.

QUANDO FALTA... >> Carla Dias >>

Reinventar-se, nesse momento, não é somente questão de escolha. Trata-se também de uma necessidade. Pena que ficou muito mais complicado, não é? Não se preocupe, porque não estou aqui para falar sobre reinventar-se. Isso eu já fiz, há alguns anos, em modo prosa-poética-de-ficção-escancarada. Se você quiser, pode conferir ali >> [ Reinventar-se ]. Não vou escrever sobre o que me incomoda profundamente nesse momento. Há muita gente fazendo isso, com mais coerência do que eu jamais terei. Talvez a minha reinvenção seja essa: calar minha escrita, diante dos absurdos da nossa realidade. Mas sinto dizer, aos que ficaram demasiado empolgados com o meu calar, que ele vai durar somente essa crônica. Sou péssima caladora de incômodos e escrever é a minha necessidade indomável. Contudo, fico muito feliz em saber que cada um de nós tem a liberdade de não ler o que não apetece, de não concordar com o que ofende, de não defender o que prejudica o outro. E sim, não interessa se nun

BEM VINDO À SELVA >> Clara Braga

Olhando da janela dava para dizer que era um dia como outro qualquer. A chuva havia dado trégua e amenizado o calor, o que deixava o clima muito agradável para um belo passeio de carrinho. Decidimos ir até um café que fica a menos de 2km de distância de casa, tomaríamos um café e voltaríamos, cumprindo tanto nossa cota diária de cafeína quanto a cota diária de vitamina D do nosso filhote. Tudo ia bem quando menos de 500 metros depois eu ouvi um latido desesperado de um cachorro. Queria não acreditar, mas quanto mais rápido eu empurrava o carrinho mais próximo parecia o latido. Tomei coragem e olhei para trás apenas para chegar à conclusão esperada: um cachorro corria em nossa direção enquanto seu dono olhava tudo de longe e ria alegremente ao telefone. Para nossa sorte o cachorro estava em paz e se contentou em apenas cheirar nossos pés sem se aproximar do carrinho, que nesse momento já estava com a frente toda levantada caso o cachorro tentasse pular. Quando estava quase recu

DESABAFO NO BUNKER >> Albir José Inácio da Silva

- Excelência, tá dando eme na internet. - Todo dia! O que foi agora? - A fala do general sobre o inverno no norte. Pegou mal. Zuação até no estrangeiro. - PQP, um general! Passou a vida estudando e comendo, pelo jeito comendo mais que estudando, pra depois fazer um negócio desses. - Os memes não param, capitão. Turista marcando de esquiar no Tocantins, iglus nas aldeias do Xingu e boto cor-de-rosa descansando em placa de gelo. - Outra vez os gringo rindo de mim, tudo vem pro meu colo. Um general dando munição pro inimigo! Agora a imprensa comunista vai se fartar. Um general! Por isso que eu gosto mais de sargentos. Antes, ministro fazia bobagem, eu trocava por um general. E agora, eu troco por quem? - É só uma fase, vai passar. - E o Vaitralbe não pode fazer nada? Mudar uns mapas aí? - Mudar mapa é complicado, capitão. Não pode ser por Medida Provisória. - Se ele já tivesse resolvido a questão do terraplanismo, não tinha isso aí. Terra plana não te

JOÃO E MARIA >>> Sandra Modesto

Maria acorda e encara o espelho desses comprados no camelô.  Sobre a mesa apertada nos dois cômodos da casa, alguns pães amanhecidos.  Prepara o café. Engole o caos da luta.  João mora do outro lado da rua em meio à desigualdade social esquecida.  Maria e João possuem uma força bruta.  Vão ao mercado do outro lado da cidade. Com máscaras pretas rezam para não serem confundidos.  No Brasil, preto tem cara de bandido. João e Maria sempre deram um jeito no verbo suportar...  Suportar o sol, a chuva, atropelos, dissabores. Os boletos chegando. O trabalho informal pedindo socorro.  Maria e João em seus barracos.  O pai de João está tossindo. Os dois trocam olhares preocupados.  No barraco de Maria, o filho pequeno pede colo, o do meio desenha no papel, a menina de onze anos fala baixinho: — Mãe, se eu tivesse um computador com internet...  Estudar pelo celular... Tá difícil, mãe.  — É filha, por enquanto o computador não dá pra co

PALAVRAS GUARDADAS NO SUOR DAS MÃOS >> Cristiana Moura

N esta madrugada eu disse palavras destas que ficam guardadas por tempos. O leitor pode pensar, num primeiro momento, que me refiro aos absurdos sociais que vivemos, às falas anti-racistas tão imprescindíveis, entre outras. Poderia ter sido, mas não. Falei mesmo (de fato escrevi em mensagens de whatsapp), daqueles segredos-sentimentos guardados numa gaveta, no suor das mãos, num porão, nas células esquecidas do próprio corpo. O leitor deve ter alguma curiosidade sobre o que falei (ou não). Mas não trata-se de vida a ser desvelada assim, toda de uma vez. Há de se tirar véu por véu e respirar o ar do que ainda é diáfano. Aí, lembrei que hoje é dia de Santo Antônio. No sincretismo afro-brasileiro, dia de Exú, orixá que abre caminhos e destribui bençãos de fertilidade, fartura e prosperidade.  Laroyê Exú!!! E respirei pela pele e em canto. Não me recordo, agora, as exatas palavras com as quais Leminski escreveu sobre o fantasma das coisas não ditas — mal que nos adoece. Esta

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, PATRÃOZINHO >> Zoraya Cesar

Dizer que o dia estava lindo seria um chavão inescusável. Mas no amor tudo é escusável. Até as cartas de amor, que são ridículas, ou não seriam cartas de amor. Suriellen não tinha a mínima ideia de quem dissera isso, nem saberia dizer quem era Fernando Pessoa. Tivessem se encontrado, talvez fossem bons amigos de alma, pois de amor, Amor, Suriellen entendia.  Deixemos, portanto, de implicâncias com chavões e retomemos nossa história de amor. O dia estava lindo. Um vento cantante e gaiato trazia um frescor outonal e levantava a saia das folhas para vê-las rodopiar. O azul lavado e o amarelo suave do céu acolhiam-se, como um quadro de Turner. Suriellen estava feliz. Era dia dos namorados. E era sexta-feira.  Era o dia da faxina na casa do Seu Roberto.   Quando o conheceu, há quase 20 anos, ela mal chegara à maioridade, mas ele já era quarentão. Quando a mulher de Seu Roberto foi embora, levou as crianças e o cachorro; só não levou a empregada porque Suriellen escolheu

O CIRCO >> Carla Dias >>

Grande circo, esse. Pena que não tem palhaço que fomente alegria, tampouco trapezista que nos faça sonhar com o voo. Não há alegria nessa tenda de dissimulações e injustiças. Um circo de horrores do qual não somos mais meros espectadores, mas sim os cruelmente domesticados para serem exibidos como curiosas criaturas. Porque, em algum momento, deixamos a sabedoria, que nos concede o milagre de decidirmos o nosso caminho, nas melindrosas mãos-prisões dos que cochicham em nossos ouvidos – manipuladores e indiferentes ao desfecho que nos espera – o que queremos escutar para acalmar ansiedade e calar questionamento. Bem-vindos ao circo dos dissabores! Aqui há uma grande variedade de tragédias para serem ruminadas em tempo infinito. Uma verdade gritante para se encarar com dolência aguda: somos colaboradores ativos da miséria do mundo. Nós, esses bichos amestrados pelo desejo próprio, e por ele fazemos o que é impossível de se desfazer e que, às vezes, leva o outro à lona, pa

REDEFININDO A QUARENTENA >> Clara Braga

Outro dia, assistindo à uma entrevista com uma psicóloga, ouvi a melhor definição já feita sobre esse período de quarentena: a quarentena é o puerpério do mundo! A definição não era dela, mas como ela não lembrava quem tinha dito, também não vou poder dar os devidos créditos.  Independente de quem foi, essa pessoa conseguiu resumir tudo em poucas e precisas palavras! Fiquei dias refletindo sobre essa frase, e cada vez mais ela representa exatamente tudo que eu venho sentindo. Ficar isolada, só poder sair depois que as principais vacinas forem tomadas (pelo menos as vacinas do recém-nascido já existem), mudar completamente a rotina e lidar com uma quantidade enorme de informação e sentimentos sem perder a sanidade mental. Esses são só alguns aspectos iguais das duas experiências. Poderia praticamente escrever um livro só com as comparações de um puerpério com a quarentena. E tenho certeza que se cada mãe também escrevesse, teríamos pontos semelhantes, mas com certeza ca

poemas de gaveta >>>> branco

prólogo ele chegou em frente a casa - estava cansado -  uma noite no velório e o sepultamento ao entardecer deste dia pegou a chave abriu a porta sentiu o cheiro de tinta fresca das paredes recém-pintadas móveis limpos e brilhando e uma estante onde tinha um baleiro antigo pensou em quanto conseguiria pelo imóvel - pelos móveis -  ele estava olhando para a sua herança I andando pela casa percebeu que os cds haviam desaparecido os livros não esses estavam em outra estante no escritório - onde ele estava agora -  olhou para a  escrivaninha uma relíquia - pensou ele -  e agora ele tinha a chave a chave daquela gaveta que jamais fora aberta na presença de alguém e com certo ar cerimonioso colocou a chave na fechadura e a girou II com a gaveta aberta pode ver canetas e lapiseiras - borrachas também -  algumas balas de hortelã e uma de morango jogadas por cima de livros de atas de reunião - 5 ao todo numer