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A RESISTÊNCIA E O TATA >> Sergio Geia



Deixa lhe explicar o imbróglio. 

Meu chuveiro anda a falsear. O modo verão não esquenta, o modo inverno esquenta para os dias de verão. Mas sabe como são essas coisas, a gente adia o máximo que pode a tomada de decisão, mesmo que às vezes comecemos o dia enxovalhando essa porcaria que não esquenta. 

Na verdade, acho que meu chuveiro está batendo com as dez. Seu Diamantino, o porteiro aqui do prédio, como um bom possuidor de certas habilidades domésticas, ao ouvir minhas lamúrias sobre o equipamento, sentenciou sem maiores delongas: 

— É coisa de capacitor, seu Sergio. O chuveiro já era. 

Outro dia, tomando o banho da manhã, o diabo pareceu decolar como um avião. De repente, com as turbinas a todo vapor, ele passou a esquentar. Considerei o problema resolvido. Mas então, veio o banho da noite, e ele refugou de novo. 

De modo que bastou o tempo esfriar, para eu tomar a decisão de substituir a resistência. Explico. Darei uns dias ao pobre. Quem sabe é caso de ressurreição? Se ele se comporta bem, adio a compra de um aparelho novo. Caso contrário, darei razão a seu Diamantino. 

Só que antes de efetuar a substituição, algo que aprendi a fazer por necessidade, embora meus dedos entesados atrapalhem sobremaneira, talvez pura ausência de habilidade, em meio a um desânimo que me bateu só de pensar no serviço, me veio à lembrança o meu sogro, já falecido, que fazia a troca da resistência lá de casa. 

Ele vinha cheio de boa vontade, calção preto, camisa de botão cinza listrada, e com enorme bom humor fazia a troca, sempre com eficiência. Aproveitava para brincar com as crianças no quintal, jogar futebol, comer um doce. 

Foi uma lembrança boa que me evocou outros momentos vividos em sua companhia, bateu uma saudade suave, um desejo ingênuo de reencontrá-lo algum dia. 

No início, lembro-me que demorou a aceitar este genro. Na verdade, tinha predileção por outro candidato que sua filha dispensou. Mas a convivência logo nos aproximou, em algum tempo esqueceu o outro, acertamos ponteiros, e tudo se conduziu de maneira amorosa. 

Infelizmente partiu cedo, levado por uma doença que também levou meu pai. 

Como não posso rebobinar a fita, fico com as boas lembranças, aquelas que proporcionam um sentimento suave, tal qual esse que sinto. Como um bom vinho, ele aquece o coração, e me inspira para este serviço antiquado de troca de uma abjeta resistência.


P.S. O Tata do título é o meu sogro

Comentários

Sandra Modesto disse…
O Tata é maravilhoso! E a crônica é perfeita.
branco disse…
as vezes e de maneira subconsciente, o defeito deve permanecer, para que as lembranças também permaneçam.
essa crônica, tratada cvom o carinho que só os que tem a alma do ontem, não seria possível se existisse um chuveiro novo. belissimo !
José Olavo disse…
Sergio este esquema desenhado por você por acaso é parte da estrutura do DNA
segundo Watson e Crick; fora isso gostei de ver seu amor correspondido pelo seu genro.
É tão bom quando isso acontece, mas não é sempre...
Gustavo disse…
Tata é meu avô. É até difícil escrever esse comentário lembrando dele, de tão boa pessoa e alegre que ele era. Gostei demais da crônica! Excelente homenagem, e obrigado Sérgio (tio).
Unknown disse…
Muito boa a crônica. Lembrança Lembrançaboa 😊👏👏👏
Unknown disse…
Bela Crônica amigo! Coisas simples que nossos antecessores gostavam de fazer e que nos proporcionavam momentos maravilhosos. Viva as boas lembranças! Viva a resistência!
sergio geia disse…

Sandra, querida, grato pelo carinho.

Branco, meu poeta, seu comentário é uma poesia. Gostei do "alma de ontem".

José Olavo, obrigado; guardo com muito carinho as lembranças do meu sogro.

Gustavo, lembro de um bebezinho no alto da serra de Ubatuba. Era você. Legal tê-lo aqui.

Amigo 1, sem dúvida, lembrança boa.

Amigo 2, viva a resistência. Falou e disse.





Zoraya Cesar disse…
Quanta suavidade, cronista das pequeninas grandes coisas! Q comovente. Troquemos as resistências por lembranças amorosas, já, agora.
sergio geia disse…
Zo, querida, obrigado pelo carinho de sempre.