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REDEFININDO A QUARENTENA >> Clara Braga

Outro dia, assistindo à uma entrevista com uma psicóloga, ouvi a melhor definição já feita sobre esse período de quarentena: a quarentena é o puerpério do mundo!

A definição não era dela, mas como ela não lembrava quem tinha dito, também não vou poder dar os devidos créditos. 

Independente de quem foi, essa pessoa conseguiu resumir tudo em poucas e precisas palavras! Fiquei dias refletindo sobre essa frase, e cada vez mais ela representa exatamente tudo que eu venho sentindo.

Ficar isolada, só poder sair depois que as principais vacinas forem tomadas (pelo menos as vacinas do recém-nascido já existem), mudar completamente a rotina e lidar com uma quantidade enorme de informação e sentimentos sem perder a sanidade mental. Esses são só alguns aspectos iguais das duas experiências.

Poderia praticamente escrever um livro só com as comparações de um puerpério com a quarentena. E tenho certeza que se cada mãe também escrevesse, teríamos pontos semelhantes, mas com certeza cada uma traria um novo aspecto sobre essa colocação, pois embora o puerpério seja desafiador para todas, uma experiência nunca será igual a outra. E até nesse aspecto a quarentena e o puerpério são semelhantes, pois com certeza os desafios de uma quarentena são completamente diferentes de uma casa para outra.

Porém, recentemente me peguei pensando novamente nessa frase e cheguei a uma nova conclusão que me deixou pensativa. O puerpério e a quarentena são semelhantes também nos motivos pelos quais temos que ficar isolados: pois uma outra vida depende dessa nossa reclusão. 

Não vamos sair e expor nosso filho, nosso recém-nascido, aquele pequeno ser que nos faz sentir coisas nunca antes sentidas. Não vamos correr o risco de passar por alguém que esteja doente e acabar deixando nosso filho, ainda tão sensível, doente também, pois o que pode ser simples para uns pode não ser para outros.

Quando se trata de uma pessoa que é praticamente (se não literalmente) uma extensão de nós mesmos, fica mais fácil fazer "quarentena". Me pergunto porque é tão difícil então entender que, nesse momento, quando decidimos que não vamos seguir regras básicas de distanciamento social porque não nos achamos vulneráveis, estamos afetando diretamente a vida de quem é vulnerável? 

Será que o tal povo brasileiro que adora encher a boca para dizer o quão receptivo é, o quão caridoso, amoroso, amigável, mostrou que no fundo, quando precisa realmente ser empático e agir em prol do outro, é na verdade um grande egoísta?  





Comentários

Zoraya Cesar disse…
Falou tudo, Clara!