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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

TERCEIRO CAPÍTULO >> Carla Dias >>

Roça o dedo no vidro da janela e desenha letras, chegando à palavra “efeméride”. Gosta tanto dela, ainda que caçoem dele os primos e os amigos da escola, porque não entendem como moleque feito ele pode entender o significado de palavra tão difícil de ser dita... Ao menos por eles. Mas acontece que o significado é o de menos, e ele não o entende muito bem. O que mais lhe atrai na palavra é o som, como se ao dizê-la entoasse a mais bela melodia. Não é à toa que deu nome de Efeméride à sua gata. Gosta de chamá-la, e o faz em diversos tons, compondo uma ária de entendimento consigo mesmo. Obviamente, desagrada-lhe que os primos e os amigos de escola caçoem tanto dele. Porém, o menino sabe que o fazem porque querem mantê-lo afastado, querem que ele se sinta sempre desconvidado aos eventos em comum. Sua mãe, uma doce mulher com tendência à melancolia, é também quem alimenta o mantra “você foi escolhido e precisa cuidar bem do seu dom”. Na verdade, o menino queria mesmo era soltar pipa, jogar b…

SAÚDE E PROVIDÊNCIA
>> Albir José Inácio da Silva

Seu Pedro ficou indignado quando na rua lhe disseram que lugar de velho era na rede ou na cadeira de balanço. Teve ganas de dizer que o outro também ficaria velho, que a mãe do outro já deveria ser velha, e outras imprecações que não chegou a proferir. E era melhor que mantivesse a indignação porque acabou concordando que lugar de velho é mesmo na rede, no asilo ou no cemitério.

Mas os transeuntes não são os únicos a se incomodar com sua lerdeza. O governo culpa a velhice interminável pelo déficit da Previdência. Os planos de saúde reclamam porque quem vive mais tem mais tempo para ficar doente. Há uma lista de doenças permitidas de acordo com a categoria do cidadão, que só conta com a providência divina para adoecer de moléstia coberta pelo seu plano.

Seu Pedro não gosta de incomodar ninguém, e agora virou um estorvo. Claudica pelas ruas ouvindo a respiração impaciente dos que querem passar para seus trabalhos, sua produtividade. No ônibus, demora pra subir, pra sentar e pra descer, …

ENCONTROS COM A CO-OPERAÇÃO
[Heloisa Reis]

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
“Mãos Dadas”, C.D.de Andrade


Muito tem me (pre)ocupado a dificuldade de se estabelecer um processo interativo entre pessoas que habitam uma mesma rua. A proximidade física não tem sido suficiente para que se desenvolvam projetos e objetivos comuns dentro do conceito de cooperação.

Por que será?

Acho que para que essa interação se desenvolva é preciso que se veja o outro como uma totalidade. Facilitaria se soubéssemos sobre seus traumas, seu passado, as causas de sua felicidade e mágoas; se conhecêssemos suas virtudes e defeitos. Mas a vida nas cidades leva ao fechamento não só dos portões, mas também da alma entre as pessoas...

De fato observo que pode até haver cooperação entre vizinhos quando há um objetivo comum, uma reclamação contra um terceiro, ou um problema que afeta a ambos... mas sempre algo específico e moment…

TORTURA DE SALÃO >> Fernanda Pinho

Se me assaltarem com uma arma de fogo é capaz até de eu reagir. Impulsiva como sou, não duvido nada. Agora, experimente um meliante me assaltar com um alicate de unha. Olha, eu entrego até minha alma sem nem resmungar. Porque tenho horror àquela coisa. Quando amolado então, vade retro, alicate! E você, que é bom de conclusão, deve estar se perguntando: então como você tira suas cutículas? Elementar, meus caros. Não tiro! Pra quê? Se eu não tiro minhas orelhas, minhas pernas ou meus braços fora, por que tiraria minhas cutículas que são tão parte de mim quanto todo o resto? Pobrezinhas. Estão aqui, sem causar nenhum dano à minha saúde física ou mental, sem interferir no aquecimento global ou no movimento das placas tectônicas. Aliás, minhas cutículas só me fazem bem, pois o fato de não me incomodarem em nada me poupa perder tempo em salão de beleza. Sério. Eu só não digo que estar em um salão de beleza é a pior situação social que existe porque tem os ônibus lotados e as UTI's dos…

CADÊ MINHA VERSÃO DO STEVE? >> Carla Dias

Considero o meu livro “Os estranhos” o primeiro romance que escrevi. Antes dele, minha relação com a prosa era mais para os contos. Anos antes, ainda quando não sabia muito bem o que era o que no meio literário – o que ainda não sei direito - escrevi dois textos que acreditava serem romances. Porém, eles se mostraram, anos adiante e um pouco mais de experiência, apenas longos contos.

Um deles eu guardei para trabalhar na ideia e transformá-lo mesmo em um romance, porque há muito a ser desenvolvido ali. O texto original, escrito quando eu tinha vinte e pouquinhos anos, é um amontoado de possibilidades truncadas, porém, eu gosto dos personagens, do contador tacanho e do poeta que não está nem aí com ninguém, a não ser consigo mesmo. Aprecio a relação que eles criam, sem querer. Sendo assim, ele continua lá, até eu transformá-lo no que desejei há alguns anos, mas não sabia como fazer isso acontecer.

O outro, o primeiro que escrevi, bom, este é o tema dessa crônica.

Meu feriado prolongado em…

APROVEITE A VIDA, E O CARNAVAL TAMBÉM! >> Clara Braga

Eu tenho os melhores pais do mundo. Sei que essa é o tipo de afirmação que causa controvérsias e sobre a qual nunca vamos todos concordar, afinal, sei bem que não são todos, mas muitos têm certeza de terem os melhores pais do mundo.

Sabemos que existem aqueles pais que não deveriam nem ter colocado filho no mundo, mas tenho muito orgulho em poder dizer que meus pais me ensinaram as maiores e melhores lições sobre a vida e sobre o mundo.

Dentre todas as lições que tive, como por exemplo, a importância de estudar, como devo ser gentil com as pessoas, ajudar quem precisa de ajuda,  etc., tem uma em específico que eu venho aprendendo com o tempo e que eles continuam a me ensinar a cada dia que passa: Aproveite a vida!

Se você gosta muito de algo, tem muita vontade de fazer algo, esse algo não vai fazer mal nem a você nem a ninguém, e você tem condições de fazer, então faça, afinal, você não sabe quando vai ter a oportunidade de fazer de novo.

Foi com esse espírito que quando eu tinha meu…

A VIAGEM >> Kika Coutinho

Hoje, voltando dessas férias de carnaval, passamos por aquele stress cotidiano no carro. Crianças gritando. Uma grita enquanto tenta se soltar da cadeirinha, outra, a menor, grita enquanto sacode as mãozinhas, que não sabem soltar-se do cinto. Ufa — quase acho bom esse não saber da minha bebezinha.

Já em casa, esgotados, mais uma resposta mal-criada foi a gota dàgua e soltei meus piores rugidos com a minha filha: "Chega! Chega, chega!", eu rosno, enquanto ela, num instante, me desafia. Oras, como assim? Ela calça 21, pesa o quê, 12 quilos? Que coisa é essa de me desafiar como se fosse minha chefa, líder da América Latina toda?!

Enquanto me abaixo na altura dela, tento explicar: "Sofia, você sabe quem manda aqui?!"

— Eu — ela responde, líder do mundo né?

— Não, Sofia, quem manda aqui sou eu. Eu e aquele moço ali, o papai. Você não manda aqui, entendeu?! Ela chorou, frustrada.

Saí para dar banho na outra menina, que também chorava no quarto ao lado e, quando a deite…

DE GATOS E HOMENS >> Whisner Fraga

Não foi a vida toda que gostei de animais. Quando criança, me recordo que minha família criava periquitos. Na casa da avenida 38A, um desses bichinhos cantava o dia inteiro a sua prisão. Viver confinado a um terreno não devia ser agradável, mesmo tendo comida garantida e um poleiro pra brincar de vez em quando. Para que não fugisse, aparavam-lhe as asas. Assim que um morria, davam um jeito de conseguir outro. As aves eram como brinquedos ou passatempos, nunca entendi muito bem.

Depois foi a vez dos cachorros. Esses, eram meros utilitários e ficavam isolados, no quintal, sem muito contato com os humanos. Ou seja: tinham a tarefa de vigiar a casa e o soldo era uma muxiba malpassada misturada a um fubá, pois naquela época não existia essa moda de ração. De vez em quando, assim que o animal começava a emagrecer, alguém se lembrava de exterminar os carrapatos e pulgas do couro do bicho e era o máximo de carinho que ele recebia durante o ano.

Depois, quando fiquei amigo do João, percebi que…

UM ARRANJO DE PALAVRAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quis o exatíssimo Senhor Tempo que coincidissem, neste domingo, dois eventos cuja simultaneidade me deixa perplexo: o velório/sepultamento do corpo do marido de uma querida amiga E o aniversário de dois anos de meu casamento com minha esposa.

Hoje, também, as floriculturas não entregam flores. A princípio, fiquei incomodado e quis reclamar, escrever uma crônica anticarnaval, definitiva, começando pelas estatísticas de aumento no número de acidentados e mortos, e chegando até esse absurdo do impedimento da livre circulação das flores. Mas depois fiquei pensando, cá com meu coração, que as flores, essas moças delicadas, bem que merecem ficar a salvo da agitação de momo.

Tal compreensão, claro, não me livrou da necessidade de flores para esse dia tão importante. Tratei de descobrir como se faz um arranjo de flores. Mais surpresas. Confira a lista de material necessário, caro leitor: tesoura, alicate, tijolo floral (não sabia nem que isso existia), suporte plástico para o tijolo, arame de…

AMOR NOVO
PRECISA DE ARES NOVOS
>> Maria Rachel Oliveira

Quando terminam os amores, eles deixam rastros. Certas lembranças que não se pode guardar sob pena de a vida não andar pra frente. Fotos, bilhetes, pequenas coisinhas, okey, você grava tudo num cd ou põe numa caixinha cor-de-lavanda e embatuca em algum canto que não use na sua casa, ou na casa de sua mãe e deixa lá, finge por algum tempo que simplesmente não existem. Trata-se do tipo de lembrança que pode perdurar. Nem incomoda. Um dia, muito tempo depois que os sentimentos tiverem virado uma vaga lembrança, você lembra que esses restos existem e vai lá, numa onda esquisita de nostalgia, cata, ri e percebe que não lembra de tudo, mesmo que em um ou outro amor tenha ultrapassado, sei lá, 5 anos.

Em alguns casos esqueceu até os sobrenomes, lembra pedaços, um aqui, outro acolá – e geralmente só os bons, mas às vezes o tempo futuro prega peças revelando umas surpresas; ora divertidas, ora amargas, ora só surpresas mesmo. Reconhece a criatura x, a criatura y, ri daquele poema boboca que qu…

A MÃE DO TROGLODITA, ONDE ESTÁ? >> Zoraya Cesar

Minha Avó costumava dizer que mesmo a mais cafajeste pessoa tinha nascido de mãe, e não da roseira. E que, justamente por ter mãe, um dia ela voltaria para o caminho do bem.
Eu sempre acreditei na minha Avó, mas agora tenho minhas dúvidas. Como criança teimosa, que quer comprovação da existência do Papai Noel ou do Bicho Papão, eu quero a prova de que toda essa gente por aí realmente nasceu de mãe humana.
Pois não consigo acreditar que haja qualquer resquício de humanidade nas criaturas que, no Rio de Janeiro, surraram um mendigo e também o jovem que tentou impedir o selvagem entretenimento (vocês conhecem essa história, não? O rapaz está com 63 pinos no rosto e talvez perca os movimentos em um dos olhos).
Assim como duvido que sejam humanos os amigos (entre os quais um médico!) que bateu numa moradora de rua; outro grupo que espancou um rapaz por ser homossexual; ou os rapazes que esmurraram uma moça alegando que ela parecia uma prostituta (ah, em prostituta pode bater? Isso é de…

SEM FANTASIAS, POR FAVOR
>> Fernanda Pinho

Detesto quando preciso me definir. Porque não gosto de perguntas sem resposta ou perguntas com um milhão de respostas. Sei que sou tranquila a ponto de ver o circo pegar fogo ao meu lado e nem me abalar. Mas também sei que sou estressada a ponto de eu mesma tacar fogo em alguns circos por aí. Sei que sou ágil — quase no limite do desespero. Mas posso irritar as pessoas nos meus dias de lentidão. Sou afetuosa, amorosa e paciente. E implicante, chata e intolerante. Sei que tem gente que me acha uma palhaça. E outros que me acham uma bruxa. Não posso discordar de ninguém. Sou tudo isso mesmo. Só não sou volúvel. Quer dizer, sou sim. Ou melhor, não sou não. Ah, sou volúvel, sim. Ou não? Sei lá. Acho oscilar a coisa mais humana que existe e desconfio muito de quem é do mesmo jeito o tempo todo.
Sério. Me sinto muito mais segura ao lado de gente que reage (aqueles que choram, se irritam, ficam bravo, têm ciúmes, preguiça, TPM) do que dos inabaláveis. Porque quem reage é transparente, está…

NÃO ESTOU MENTINDO... >> Carla Dias >>

Todos por aqui sabem que sou apaixonada por séries... Também. Entram no pacote das telinhas e dos telões as minisséries e os filmes. Porém, ser fã de série de televisão é muito mais do que ser noveleiro, como muitos dizem por aí, porque a novela passa de segunda a sábado, e conseguimos ficar bem sem ela aos domingos, e nem sempre são realmente boas, mas somente uma distração após um dia de trabalho. Porém, as séries contam com um episódio por semana e ainda são por temporadas, ou seja, passamos meses esperando o próximo capítulo, quer dizer, episódio.
No ano passado, descobri que algumas séries, que não me atraíam em nada, eram ótimas pedidas. Isso porque em período de middle season (quando não há episódio inédito da série, durante algumas semanas) e festas de final de ano, não há o que assistir que não seja de repeteco. Foi assim que incluí na minha extensa, porém seleta lista de favoritas, as séries The Tudors, Justified, The Vampire Diaries e Mad Men.

The Tudors teve quatro tempora…

OUVINDO O SILÊNCIO >> Clara Braga

Não sei dizer exatamente como nem quando aconteceu, só sei que de alguma forma chegamos ao ponto onde, como dizia Renato Russo, as pessoas falam demais por não terem nada a dizer. E então começaram a falar tanto, mas tanto mesmo, que as palavras se tornaram pequenas e agora muitas palavras que eram cheias de significado já não são quase nada.

Além das palavras terem se tornado só palavras, o silêncio se tornou um problema. Nós esquecemos como é que se faz para apreciar esses pequenos momentos onde não temos nada a dizer, mas não porque estamos chateados com quem está ao nosso lado, que é o que a maioria pensa, mas sim porque às vezes queremos só apreciar o momento.

Pensei muito nisso depois de ir ao cinema assistir ao filme O Artista. Que filme maravilhoso! Ali sim podemos entender o que significa a palavra expressão. Muitas vezes nos expressaríamos muito melhor e com muito mais sinceridade se parássemos de falar um pouquinho e fizéssemos mais. Dizer que sente saudade de alguém é muit…

PARTO DO CORDEL SEM DOR
>> Albir José Inácio da Silva

(Rabiscos em papel de pão, encontrados nos trapos do homem suicidado na Avenida São João, ao sol das duas da tarde, debaixo de um caminhão.)

Depois do tapa na bunda
ninguém nunca me avisou
por pena nem por amor
que da vida eu mereceria
didático espancamento
ensino em forma de dor.

Na dor do primeiro ar
por pena ou por amor
ninguém pôde me falar
que pela vida afora
doía pra respirar.
Asma, ronco e suspiro
é nisso que se resume
minha função pulmonar.

Por pena ou por amor
esqueceram de me contar
que quando a dor vai embora
tá doidinha pra voltar.

Por pena ou por amor
deixaram de me dizer
quando me consolaram
do grito que me assustou
que a partir daquela hora
comigo gritariam só
para domesticar melhor.

No primeiro chifre que tive
por amor ou por dó
disseram pra relaxar
que a culpa era da vadia
eu tinha que me aprumar.
Depois, a boca pequena,
puseram-se a me insultar:
- Bem feito praquele corno,
merece o que a vida dá!

Quando numa confusão
acabei levando …

RECEITA DE JUNTAR CABEÇAS
>> Eduardo Loureiro Jr.

"Porque a cabeça da gente é uma só, 
e as coisas que há e que estão para haver 
são demais de muitas, muito maiores diferentes."
(Guimarães Rosa)
Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Poucos discordariam. E três pensam melhor do que duas? Quatro melhor do que três? Dez melhor do que nove? Poucos concordariam. E, ainda assim, deve ser verdade. O problema é que é mais fácil administrar duas do que dez cabeças.

Nesse final de semana, eu estava incumbido de fazer dezessete cabeças pensarem melhor do que cada uma. Cabeças de escritores, o que é mais complicado. Porque cabeça de escritor já não é cabeça de um só, é cachola povoada de não sei quantos personagens cada uma. Enfim, uma tarefa impossível, daquelas a que a gente se entrega por mero desencargo de consciência, apenas para dizer, ao final, "fiz o que pude, não deu certo, paciência".

Mas, surpreendentemente, deu certo. E agora sinto necessidade de deixar registrado para, caso eu precise repetir …

FRACASSOS, ERROS, AMOR... [Debora Bottcher]

"O amor precisa de sorte! Para que o encontro no tempo seja convergente..." (Danielle Aranda)

Andei pensando sobre fracasso. É que, percebo, diariamente a gente acaba por conviver com ele - especialmente quando esquecemos que a vida tem um estranho poder de transformar nossas necessidades e a faculdade natural de mudar a aparência das coisas. Vou constatando que nada é o que parece ser e que é no oculto de tudo que a verdade se esconde.

Há algum tempo, prometi a mim mesma que cometeria apenas erros verdadeiros. Erros verdadeiros são falhas genuínas, escolhas que, examinando o passado com o conhecimento de agora, admitimos não terem sido as melhores. Não que eu não tenha cometido muitos erros verdadeiros antes desse pensamento: eu cometi erros demais. Mas é mais fácil conviver com os erros praticados por inexperiência ou falta de informação, do que com os que se comete tentando rever os julgamentos iniciais.

Não é raro vermos um erro surgindo e nos colocarmos contra nós mesmos. …

VOLTAR >> Fernanda Pinho

O senso comum não se engana. É em fevereiro que o ano começa no Brasil. Quando as escolas retomam suas atividades, obrigando filhos (e pais) a deixarem a praia, o sítio ou umas horinhas a mais de sono para retomar as atividades. Os estudantes voltam a colorir as ruas com seus uniformes, o moço do sorvete da porta do colégio volta a faturar e as ruas que abrigam escolas voltam a se tornar um caminho inviável nos horários de entrada e saída. Um movimento incrivelmente insuportável e delicioso.
Faz sete anos que terminei a faculdade e não cumpro mais com obrigações escolares, mas ainda não me esqueci quão insuportável era acordar cedo para ir para a aula. Quanto ao "delicioso", não pense que acrescentei esse predicado só agora, como uma saudosista boba que não aproveitou as coisas na hora certa. Eu tive consciência do quanto era bom voltar às aulas em toda a minha vida estudantil. Era tão bom que eu até achava que as férias nem precisavam durar tanto assim. Dois meses para de…

EU MESMA, PRAZER! >> Carla Dias >>

Sr. Nilson é professor de matemática. No primeiro dia de aula, deixou bem claro, arqueando as grossas sobrancelhas, que não permitiria que os alunos o chamassem “Sr. Wilson” ou “Sr. Nelson”. As crianças arregalaram olhos para o homem severo, vestido em panos simples, mas impecavelmente lavados e passados. A partir daí, dizer o nome do professor se tornou uma jornada perigosa, porque vai que ele decide aplicar castigo tão severo quanto o seu olhar!
O parágrafo acima mistura um tantinho de ficção com a realidade da minha sobrinha, a quem prometi ligar para saber como foi o primeiro dia de aula de 2012. A primeira coisa que ela me contou foi sobre o professor que não queria que o chamassem por outro nome que não o dele, e a forma como ela expôs a questão me levou a imaginar como seria se eu fosse um dos alunos e errasse o nome do Sr. Nilson, porque está bem claro que isso o enerva um tanto.
Neste ponto da crônica, sou obrigada a confessar que sou péssima com nomes. Já pensei em ter problem…

DEEM UMA CHANCE AOS LIVROS
>> Clara Braga

Lá estava eu, lendo as crônicas que gosto de ler, quando me deparei com uma que falava muito bem a respeito do livro Precisamos falar sobre o Kevin.

Fui pesquisar sobre esse livro de que eu nunca tinha ouvido falar antes, a tal crônica realmente me deixou curiosa. Pareceu-me um livro interessante. Procurei em uma livraria, não tinham o livro. Um tempo depois, procurei em outra livraria, mais uma vez não tinham o livro.

Bom, com tantos outros livros bons para se ler nesse mundo, resolvi desistir desse tal de Kevin, até parecia que ele estava se fazendo de difícil pra mim.

Alguns dias depois, fui dar uma olhada em alguns filmes que iam estrear para já fazer minha listinha de filmes para assistir antes da entrega do Oscar. Sim, eu sou esse tipo de pessoa que tenta assistir à maioria dos filmes que estão concorrendo à premiação, para não ficar de fora, mas quando chega o dia de ver durmo igual pedra, nunca consegui assistir a uma premiação até o final. Mas isso não vem ao caso, a questão …

QUERIDO DEUS >> Kika Coutinho

Querido Deus,

Eu sei, eu sei. Eu dizia que só queria ter um bebê, que nunca mais ia pedir nada, eu jurava que só precisava ter uma criança saudável e pronto, não precisaria de mais nada e pararia de pedir coisas nas minhas insistentes orações. Eu sei disso, não esqueci.

Acontece que, agora que o Senhor me concedeu a bênção dessa criança saudável, e depois de outra, vi que ficou impossível parar de pedir. Eu não sabia que os pedidos estariam só começando, mas aposto que o Senhor, o Senhor, sim, Deus, o Senhor sabia bem, não é?

Porque ter filhos é ter um vínculo com Deus, nunca mais desfeito. Um vínculo, aliás, com Deus, com Nossa Senhora e com algum santo. Quem não tem apego a santo nenhum, aposto que terá depois da maternidade. Porque depois que temos filhos o amor é tão grande que, sinto muito, só as babás, as avós, as tias, as professoras, o pai, só esse pessoal daqui, desse mundo, é muito pouco, pouquíssimo, pra dar conta.

Precisamos mesmo de ajuda e vou ter de quebrar a minha prom…

A TROCA >> Whisner Fraga

Meu pai foi me buscar no Polivalente naquele dia. Talvez tivesse saído mais cedo do trabalho e precisasse espairecer, não sei. É que ele não tinha esse hábito de me pegar na saída da aula, por isso que estranhei. Então, ele estacionou o Fusca em frente à escola e desceu e ficou perto do portão principal. Quando cheguei à calçada, ele disse “oi” e apontou para o carro. Seguimos, calados. Aí tentou encaixar a chave na fechadura da porta e não conseguiu. Examinou o objeto em sua mão, estava tudo certo. Tentou novamente. Nada. Percebi que ele começava a suar. “Pronto, hoje é meu dia”, ele falou, um pouco decepcionado, quase nervoso. Achei que devia continuar em silêncio. Aí eu olhei para baixo, depois para a esquerda. Quando me virei para o lado, então, eu vi outro Fusca. Branco, como o nosso. Tinha um farol parecido, o mesmo para-choque, as mesmas calotas. Comecei a rir. Acho que no fundo isso irritou um pouco meu pai, mas ele tentou ficar calmo e me perguntou, ríspido: “O que foi?” Eu a…

COLO DE MÃE >> Eduardo Loureiro Jr.

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que, para ti, fosse como um pesadelo. Que te levasse à infância, ao encontro de teus amiguinhos mais queridos, aqueles capazes de ter dar as maiores menores alegrias e os menores maiores desprazeres. Que te pegasse assim desprevenido em meio a um jogo, uma brincadeira, e te cutucasse a ferida com frases certeiras, daquelas que saem rápidas de alheias línguas afiadas e ficam engasgadas eternamente em tua garganta. Que te deixasse assim sem pé nem cabeça, só coração. Que te paralisasse, que te desmemoriasse, que te batesse, espancasse, mais de 160 vezes por minuto. Que te fizesse esperar, medroso e silente, a poeira baixar só um pouco, e te fizesse vagar, passos lentos, mal despregados do chão, por quarto e sala e quintal e varanda com os olhos afundados na terra.

Ah, caro leitor, gostaria de escrever uma crônica que, dentro da crônica, fosse para ti um chamado, a princípio apenas um fraco sussurro diante de tua surdez ensimesmada. Que p…

MEU CORAÇÃO SERÁ SEMPRE
UMA DE SUAS CASAS
>> Maria Rachel Oliveira

Parece que foi ontem que ela era pequena e ainda precisava que eu arrumasse seus livros, conferisse seu dever de casa e a levasse até a escola. Pois esse ano, Maria filha debutou no que chamávamos outrora de segundo grau – que hoje, se não me engano, atende pelo nome de “ensino médio”. E independente que só, lá vai ela às 7h da manhã – antes mesmo de eu acordar – linda, magra e esperançosa por mais um dia de colégio. Pressuponho – como pressuporíamos todos – que mais ansiosa pelos encontros, pelos convites pra festas e pelas novidades reunidas do que pelo conteúdo das aulas. Atire a primeira pedra quem acordava às 6h da manhã pra fazer escova e ficar bonita por conta da aula de história.

Como são gostosos esses três anos e como passam rápido! Entre o primeiro e o último são tantas químicas, tantas festas, tantas histórias, tantas emoções e tanta física... que num instantinho já temos que escolher o que pensamos querer fazer do resto da vida e meter a cara pra estudar pro vestibular.

Q…