sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A MÃE DO TROGLODITA, ONDE ESTÁ? >> Zoraya Cesar

Minha Avó costumava dizer que mesmo a mais cafajeste pessoa tinha nascido de mãe, e não da roseira. E que, justamente por ter mãe, um dia ela voltaria para o caminho do bem.

Eu sempre acreditei na minha Avó, mas agora tenho minhas dúvidas. Como criança teimosa, que quer comprovação da existência do Papai Noel ou do Bicho Papão, eu quero a prova de que toda essa gente por aí realmente nasceu de mãe humana.

Pois não consigo acreditar que haja qualquer resquício de humanidade nas criaturas que, no Rio de Janeiro, surraram um mendigo e também o jovem que tentou impedir o selvagem entretenimento (vocês conhecem essa história, não? O rapaz está com 63 pinos no rosto e talvez perca os movimentos em um dos olhos).

Assim como duvido que sejam humanos os amigos (entre os quais um médico!) que bateu numa moradora de rua; outro grupo que espancou um rapaz por ser homossexual; ou os rapazes que esmurraram uma moça alegando que ela parecia uma prostituta (ah, em prostituta pode bater? Isso é defesa?); os sujeitos que amarraram uma cadela prenhe e a arrastaram pelas ruas; o rapaz que atropelou o filho de uma atriz famosa e fugiu ... Chega. A lista é infindável.

A sabedoria popular costuma qualificar quem tem comportamento cruel como o de alguém que não teve mãe.

Então eu pergunto: essas criaturas tiveram mãe? Alguma que merecesse o título, pelo menos? Que tenha vergonha do desvio de comportamento de seus filhos. Que também esteja atônita e sem entender o que aconteceu, não foi assim que ela os educou, não foi para isso que ela os criou. Se seu rebento nasceu podre, ela não teve culpa, ela fez todo o possível.

Porque parece que a maioria sabe muito bem, sim, os filhos que têm: “Meu filho é muito carinhoso, nunca deu trabalho, não fez nada de errado. Estão querendo incriminar meu anjinho.” E o anjinho dá um beijo na mãe e sai para se divertir. Se o seu conceito de diversão é espancar, atear fogo, roubar, atropelar, matar, os outros que se cuidem para não atravessar seu caminho. O velho (e igualmente asqueroso) “guardem suas cabras que meu bode está solto” foi substituído por “saiam do caminho que meu troglodita quer se divertir”. Que mãe é essa? Onde está o verdadeiro sentido da maternidade?

Há uma profusão de estudos sobre o tema maternidade X vida moderna e outra quantidade enorme de mães que compartilham suas experiências com educação de crianças (como a Kika e a Maria Rachel, aqui do Crônica do Dia, maravilhosas), portanto, não vamos discutir a dificuldade de criar filhos no mundo de hoje, jornada dupla de trabalho, mães solteiras, adolescentes, separadas.

Mas que não se use a desculpa de que “hoje em dia as coisas são diferentes". Claro que são. Ontem é diferente de hoje e hoje é diferente de amanhã. Nada de saudosismos. As mães de ontem tinham de lidar com os problemas daquela época e as mães de hoje com os dessa, e sempre foi assim, sempre será.

E se não falo dos pais, é porque na maioria dos casos (incluindo os de trogloditagem explícita acima descritos) são eles que aparecem para defender os “filhinhos”. E porque geralmente é a mulher quem fica com os filhos quando a família é desfeita. E porque a figura da mãe é emblemática. E porque mãe é mãe.

Então, quero saber onde estavam as mães daquelas criaturas quando, lentamente, ao longo dos anos, seus filhos iam se transformando em monstros?

No entanto, talvez exista uma responsabilidade social a ser dividida com as famílias que geram e nutrem e protegem aqueles neanderthals. Uma culpa social, por permitirmos que eles continuem impunes, em vez de alijá-los da sociedade, enquadrando-os na lei. Por nos juntarmos aos milhares para pular carnaval e organizar blocos, mas não nos mobilizarmos para exigir que professores sejam mais bem pagos, que as escolas tenham condições de complementar o ensino de cidadania que começa – ou deveria começar – na família. Por não nos escandalizarmos mais.

Aliás, essas pessoas têm noção do que é um lar?

Quem sabe minha Avó, em toda sua sabedoria, estivesse errada. Existe quem nasça não de mãe nem de roseira que dá flores lindas, mas do esgoto.


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14 comentários:

albir disse...

Mundo cão, Zoraya. Sem querer justificá-las ou crucificá-las, as mães dos trogloditas muito provavelmente levaram uma pancada na cabeça e foram estupradas para que eles nascessem. E também muito provavelmente ensinaram a seus trogloditinhas a dar pancadas e a estuprar porque são machinhos. Tudo isso entre beijinhos e afirmações de que são muito bonzinhos e fortinhos e bonitinhos.
Mundo cãozinho.

Josiane Caetano disse...

Perfeito o seu texto: como mãe, morro de medo que un dia minha filha se depare com uns " filhos da mãe" deste tipo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, e se você E sua avó estiverem certas? :)

Alexandre Durão disse...

Como não há espaço para comentar adequadamente o conteúdo de sua crônica – duro, realista, que nos força à reflexão – prefiro comentar a forma – enxuta, segura, sem excessos, perfeita. Secura de início da semana saciada por fonte cristalina.
Não é crônica de Carnaval, mas antecipa a Quaresma.
Precisamos, todos, de textos como esse seu.
Beijos.

Carla Dias disse...

Zoraya, parece que intolerância também tem mãe.

Anônimo disse...

Alguns nao nasceram: foram cuspidos.

Marcos Rogério Mota disse...

E o pai do troglodita?

Zoraya disse...

Oi Pessoal,vamos lá

Albir: pois é, mundo caozinho mesmo. Ainda bem que nem só disso é feito o mundo, sorte nossa.

Josiane: nao se preocupe, sua filha deve estar sendo criada com tanto amor, que só vai atrair pessoas boas em volta dela, e vc terá a alegria de vê-la sempre bem!

Eduardo: como o mundo é multifacetado, provavelmente eu, você e minha Avó estamos certos!

Alexandre: suas palavras, sempre um estímulo doce e positivo.

Carla: ninguém nasce da roseira...

Anonimus: pois é, há mães e mães, mas nao toco mais nesse assunto nao, o pessoal ficou mexido, nao quero ninguem chateado comigo

Marcos:dessa vez livrei os pais, lá no texto eu disse que dessa vez era a hora das mães. Abraços e obrigada

maria rachel oliveira disse...

Zô, você já assistiu/leu o "Precisamos falar sobre Kevin"? Tudo, mas tudo mesmo, a ver com seu texto - ótimo, aliás.

Beijo grande!

whisner disse...

Às vezes as mães tentam educar, mas o mundo ensina também e os ensinamentos da sociedade são mais fáceis de se seguir.
Maria Rachel: o romance é fantástico.

aretuza disse...

Curioso como esse assunto rendeu tantos comentários!! acho que todos estamos mesmo cansados de ver tanta brutalidade, tanta falta de roseiras...
bjs

Zoraya disse...

Oi Pessoal!

Rachel, ainda nao li o romance, mas um amigo vai me emprestar,disse que é muito bom, agora mesmo é que fiquei curiosa.

Whisner, acabei de ler o seu De gatos e homens, e adorei. Sorte nossa existirem tantos que defendem o direito dos mais fracos e pregam a boa convivência. E vc tem razao, o maior desafio dos pais é competir com o mundo lá fora.

Aretuza, seus comentários sao sempre positivos, obrigada

Wanderley Leimgruber disse...

Sua crônica é quase um ensaio, totalmente "We need talk about Kevin"...

Ou ainda: "Saiba,
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem..."
[Arnaldo Antunes}

Nilo Sanches Junior disse...

Concordo com a sua colocação da barbárie que os jovens julgam como diversão. De tudo aquilo que falta para que esses ditos jovens tenham a direção da civilidade, uma boa dose de disciplina, é indispensável. Não aplicação de castigo, que acho errado. Aplicação de disciplina diária. Não só na escola, como também nas ruas. O exemplo deve partir de todos.