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Mostrando postagens de Novembro, 2014

EM BUSCA (DA PALAVRA) DE UM SONHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ele teve um sonho em que a canção "Como uma onda" era cantada com uma pequena e curiosa alteração na letra: em vez de "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo", ouvia-se "não adianta estrudir". Ele olhou para sua namorada do sonho, enquanto esperavam pelo horário certo para descer à estação do metrô, e os dois sorriram da mania dos intérpretes de alterarem a letra das canções. Mas, ao final do riso, ele ficou se perguntando se não se tratava de uma mania dos ouvintes de escutarem errado as letras das canções: ele mesmo, durante muito tempo, achava que "tocando B. B. King sem parar" era "tocando de biquíni sem parar". Então pensou que seria bom consultar um dicionário para ver se existia a tal palavra — estrudir — e se ela fazia sentido no contexto da canção. Como não havia dicionário no sonho, ele teve que procurar ao acordar.

Nem o Houaiss nem o Caldas Aulete conheciam a palavra estrudir. O sonhador também procurou a grafia com x, m…

DILEMAS DE UM RECÉM-SEPARADO >> Sergio Geia

Fui às compras. Confesso que nunca me imaginei comprando o que fui comprar. Nesses 45 anos de vida não precisei. Mas dessa vez, não. Tive que me virar. Sozinho.

Entrei nas Pernambucanas à cata de panos de prato. Pedi a uma vendedora que me mostrasse uns. Até que eram bonitinhos. Delicados, com bordados infantis, desenho de porquinho, de peixinho, de ursinho. O preço era bem razoável. Peguei quatro. Um pra enxugar as mãos, outro pra enxugar a louça. Um jogo reserva. Mostrei a uma amiga que achou lindo, mas disse que aquilo não era pano de prato, era pano de enxugar a mão. “Eu comprei pano de prato”, disse, já meio bolado. Uma outra amiga me tranquilizou. Falou que os panos eram ótimos, que enxugavam prato que era uma beleza.
Tapetinho pro banheiro é outra desgraça. Uma que não achei nenhum bonito. Todos bregas. Era o jogo. Um tapetinho pra pisar ao sair do banho; uma almofadinha pra forrar a tampa do vaso; um outro esquisitinho pra colocar na frente. Umas cores danadas de feias! Depois …

CAIR E LEVANTAR >> Paulo Meireles Barguil

"O que dá pra rir, dá pra chorar" é um ditado popular que expressa o quanto a vida é subjetiva.

Um mesmo acontecimento pode ser sentido de forma antagônica por diferentes pessoas: as competições, esportivas ou não, exemplificam facilmente essa situação.

Há, também, aqueles momentos trágicos, que, após várias rotações e translações — da Terra e nossa — são motivo de alegria e alívio para a mesma pessoa que quase naufragou no passado.

O inverso também é frequente: momentos maravilhosos que, sem percebermos, escorrem entre os nossos dedos.

Não há como segurá-los...

Eles se vão e nos deixam um gosto amargo na boca e lágrimas que parecem não ter fim.

Como é possível se falar em manter o equilíbrio para alguém que acaba de cair no chão?

É claro que há uma diferença — substancial! — entre ter sido empurrado ou tropeçado...

O que importa, mesmo, é que há de se aceitar que cair faz parte da vida e o desafio é aprender a se levantar o mais rápido possível, em vez de ficar chorando e…

QUE VENHAM AS SEGUNDAS IMPRESSÕES >> Mariana Scherma

2014 mal apontou na reta dos boxes e eu já fiz minha resolução para o ano que vem, que, na verdade, começou esses dias atrás. Nunca mais julgo ninguém à primeira vista. E esse definitivamente não é daquele tipo “nunca diga nunca”, é nunca mais mesmo. Tirar conclusões precipitadas sobre quem a gente mal conhece é a maior perda de tempo.
Vez ou outra, eu considero alguém antipático pelos critérios mais diversos: falta de um oi, falta de um sorriso, falta de mostrar os dentes no sorriso ou ainda me deixo levar pelas opiniões dos conhecidos. “Nossa, o Fulano tem mania de limpeza”. Ai, credo e cruz, não quero ser amiga de alguém fresco assim... Como se a questão limpeza influenciasse na amizade e na honestidade de alguém. Sem contar que as pessoas podem não mostrar os dentes ao sorrir porque acabaram de comer. Ou então não sorriem porque estão enfrentando seu pior dia do ano. A gente perde muito ao julgar. É muito mais frequente eu me encantar por alguém que, antes, julgava ser nada a ver d…

MINHA CAIXA >> Carla Dias >>

O que desejo é apenas uma casa. Em verdade, Não é necessário que seja azul, nem que tenha cortinas de rendas. Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas. Quero apenas uma casa em uma rua sem nome. Do poema "Pedido quase uma prece", de Manoel de Barros.
Eu moro em uma caixa.

No canto da caixa, empilho livros que, ainda que demore, eu leio. Se me apaixono por algum, ele ganha uma pilha especial, aquela dedicada aos dos quais jamais me desfarei. Apaixonar-se por livros requer espaço, mas mesmo quando a caixa é pequena, dá-se um jeito de não abrir mão dessa boa companhia.

Acho curioso ter de dizer que amo livro físico, em época de livro digital. Mas ele não deixa de sê-lo, mesmo quando lido em tela de computador, que há alguns que mexem com a gente de um jeito, que fazem o corpo vibrar, que nos faz sentir sendo tocados pela palavra.

Na minha caixa não falta café fresco, principalmente em madrugada que espanta sono e inspira a escrever. Em pequenas pausas – para esticar o corpo e…

A CIDADE DE VOLTA >> Whisner Fraga

A cidade deveria ser nossa. Dividida entre a vontade do poder instalado e o desejo da iniciativa privada, ela agoniza em sua missão disfuncional. Queremos nos mover, mas nos sentimos impotentes diante da imobilidade de uma urbe caótica e sem diretrizes. Como nos movimentar? De carro, de bicicleta, de trem? Aqueles que nos representam precisam decidir entre o transporte particular e o coletivo. É tarefa deles escolher o que priorizar. Assim, precisamos estar conscientes que, quando elegemos políticos, investimos no aumento ou na diminuição de emissão de poluentes, no acréscimo ou não dos velhos privilégios para poucos, na venda ou na recuperação de lugares públicos.

Precisamos nos desacostumar com a visão de que somos donos de espaços coletivos. A calçada não é nossa, aquele trecho entre a sarjeta e o meio da rua, onde os carros normalmente estacionam, não é nosso. O patrimônio da prefeitura não é nosso. Cabe a ela, cabe aos políticos instituídos democraticamente decidir o que fazer co…

PEQUENAS FARSAS >> Cristiana Moura

Fazíamos uma caminhada, um colega e eu. Ele disse: — vamos por aqui e pegamos um atalho. Não íamos ao trabalho ou a um passeio. Tratava-se de atividade física. Caminhada em si mesma. Atalho? Estranhei.

Na tarde do mesmo dia, a nutricionista orientou-me a tomar café descafeinado.
— Doutora, mas o que eu quero é a droga. É para acordar. — O descafeinado serve, efeito placebo.

Meu filho toma leite sem lactose, dos de soja. Leite é produto animal e de mamíferos. Soja não dá leite, não, não dá.

Antes de sair, pela manhã, disfarço as olheiras que moram comigo com corretivo entre outras maquiagens que me constroem a face e colorem meus sorrisos.

Na última quinta-feira, me peguei tomando um café (cafeinado mesmo) após o almoço. O cafezinho neste horário me ajuda com a dieta porque me serve de sobremesa. Este em especial acompanha três gotas, bem pequenas, de chocolate com menta. Um pedido feito assim: — um expresso, por favor! Não há de ser computado na dieta como sobremesa.

Fico aqui pensan…

O CANDIDATO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique para ler O Candidato - Parte I

Antero estava obcecado em passar no concurso e em eliminar qualquer obstáculo em seu caminho. Cismou que aquele colega obeso e comilão, dentre todos os milhares de candidatos, era o único entrave à sua classificação. 
Como que de disposto a provocar Antero, um dia antes da prova, durante o último aulão, o colega acertou todas as questões, respondendo-as com a boca cheia de comida.
Os elevadores do prédio nunca funcionavam na hora da saída, provocando uma grande confusão de pernas, braços e mochilas enquanto os alunos desciam as escadas. Talvez isso explique o acidente.
Quem sabe, na confusão, Antero tenha sido empurrado, caindo sobre o invejado colega, que rolou pela escada, quebrando o braço e contundindo a cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu o que aconteceu realmente. Mas sabemos que aquele candidato não fez a prova.
A mente – principalmente a doentia – é uma coisa curiosa. Aliviado em ver o concorrente fora do páreo, Antero fez a prova em estado …

A GRAMA DO PASSADO É SEMPRE MAIS VERDE >> Fernanda Pinho

Sofro de nostalgia. Sempre suspeitei mas cheguei ao diagnóstico definitivo semana passada, quando ouvi por um acaso uma música que tocou muito nas rádios (e na MTV, que ainda existia e era legal) nos idos de 2003 e 2004. Fui envolvida por uma sensação tão boa durante aqueles quatro minutos e pouco, como se aquela tivesse sido a melhor época da minha vida. E, posso apostar, se tivesse me aparecido um gênio da lâmpada durante aqueles quatro minutos e pouco e me sugerido uma voltinha por aquele passado eu teria topado sem nem pestanejar (acho essa expressão "sem pestanejar" legal, embora nenhuma das minhas decisões estejam vinculadas ao ato de pestanejar). 
Depois que a música e a magia daquele momento acabaram, porém, me veio uma lembrança muito forte, estilhaçando o momento: "mas, peraí, eu odiava essa música". Odiava mesmo, achava chata repetitiva, pegajosa e irritante. Aliás, talvez nem fosse culpa da música, mas do momento em que eu estava que, por uma série de …

RESSALVA >> Carla Dias >>

Boca que não se abre para dizer palavras, quando tudo que o momento pede é declaração, aprisiona um sem número de possibilidades. Como a de posicionar sentimento no canto que lhe cabe, naquele capaz de abrigá-lo e nutri-lo, equilibrá-lo ao entorno da alma.

Que esse arrabalde, no qual se deitam as meninas-alegrias, quando esquecido de vez as leva a sucumbir ao vazio. Nada contra o vazio, contanto que ele não fique por tanto tempo deserto. Esvaziar-se é preciso, que coração não se dá bem com lotação de impropérios. Esvazia-se para então reaver o que realmente lhe é importante.

Cogita lançar ao mundo a frase feita que mais lhe agrada: o que tiver de ser será. Sabe que ela é vedete em muitas canções ruins, e de poemas indignos de serem considerados tais. Ainda assim, a ideia de dizê-la, reverberar o som das palavras dessa frase, faz com que seu corpo se alimente de certo tremor. Até uma frase feita, maltratada na sua aplicação, com seu sentido às vezes atravancado pela ironia, pode mudar…

Desafiando Murphy >> Clara Braga

Murphy tinha tudo para ser um cara bacana! Super presente, participativo, pontual, só é um pouco egoísta, mas sendo realista, quem não é? Pena que, como alguns, decidiu usar todo seu potencial no lado negro da força. E ainda foram inventar de criar uma lei que leva o nome dele, massagearam o ego errado!
Ultimamente ele tem sido tão presente que já estou até começando a gostar dele. Quando o trabalho começa a dobrar, quando as coisas começam a dar uma leve desandada e você começa a se descabelar e ter olheiras, calma, isso significa que logo as férias irão chegar e você está apenas trabalhando tudo que irá descansar depois. Ah, tinha planos de ler livros, assistir filmes, fazer uma viagem rápida de fim de semana e começar a praticar corrida ao ar livre? Esquece, sempre que você pede por férias alega estar cansado, então se é descanso que você quer é descanso que terá.
Deixe nas mãos de Murphy, ele se encarregará de tirar todos os filmes bons de cartaz, esgotar todas as edições daquele…

CRIME OU PECADO? >> Albir José Inácio da Silva

Nem quis ouvir o restante da história, arrastou o filho pelas vielas abaixo. Também, ele começou pelo final, pela bomba, pelo crime e, o que é pior, parecia ter muito orgulho do que fez. O moleque já tinha se envolvido em coisa ruim, mas melhorou de uns tempos para cá. Voltou pra escola, jogava futebol, ia à missa e, no ano que vem, se apresentaria no quartel. Tinha que fazer besteira de novo!
- O que é que foi, mãe, cê tá devendo alguma coisa pro movimento? Virou X9? Por que a gente tá fugindo? – Ainda se fazia de desentendido, o crapuloso.
Esgueiravam-se pela noite, quando foram parados por dois soldados do tráfico que fumavam baseado. Mas foram logo reconhecidos, e prosseguiram.
Já quase no asfalto, havia uma patrulhinha displicente, com dois PMs que nem olharam pra eles. Mas Dona Chica tremeu, tropeçou, quase desmaiou. O menino não estava entendendo. O que dera na sua mãe? Desorientado, ele não tinha direito a explicações, só a andar, quase correr.
Contornaram a igreja e Dona Chi…

CEBOLAS >> Sergio Geia

Há mais mistérios entre a faca e a cebola do que sonha a nossa vã filosofia. Mais que uma simples cachoeira lacrimal, o prosaico ato do debulhe pode lhe proporcionar outras coisas, muitas coisas, coisas que você decerto nunca imaginou. 
Existe toda uma simbologia por detrás da cebola. Ramakrishna, por exemplo, compara a estrutura folhada do bulbo à própria estrutura do ego, que a experiência espiritual debulha camada por camada até a vacuidade. A partir daí nada mais constitui obstáculo ao espírito universal, à fusão com Brama.Os egípcios tinham como grande curandeira quem? Quem? Você adivinha? A cebola. Os latinos, segundo Plutarco, proibiam o uso do bulbo, porque acreditavam que ele crescia quando a lua diminuía. Quanto ao cheiro, provocava um sentimento de força vital. Virtudes afrodisíacas lhe são igualmente atribuídas, tanto por sua composição química quanto por suas sugestões imaginativas. Está tudo na internet.
A umbanda trabalha ritualisticamente a cebola em banhos e defumações.…

NEXOS >> Paulo Meireles Barguil


Solto altas gargalhadas internas quando ouço as pessoas dizerem que nunca estivemos tão conectados!

Penso exatamente o contrário: nunca estivemos tão desconectados, conosco e com os outros.

Mais adequado seria dizer que nunca, na História da Humanidade, estivemos tão plugados...

Nexum, em latim, de onde se origina nexo, significa, conforme o Houaiss, atar, ligar, travar, entrelaçar, unir e prender.

A Humanidade, há milênios, busca entender o Universo, bem como a natureza desse safári ontológico, em que cada pessoa é, ao mesmo tempo, caça e caçador, como já cantara Milton Nascimento, em Caçador de mim.

Há quem defenda que a existência, o sentido do mundo está nele mesmo, não sendo necessária a participação, a intervenção do Homem.

Outros, contudo, argumentam que, sem o Homem, o mundo não existe, pois é aquele que ratifica a existência desse.

Piaget, no século passado, diferenciara duas formas de o Homem conhecer o mundo: a abstração empírica – somente mediante a observação – e a ab…

DAS PEQUENAS OBSESSÕES >> Mariana Scherma

Já tem alguns bons anos que esmalte colorido virou febre. Febre amarela, febre vermelha, febre azul-royal, febre azul-piscina, febre apenas... Ah, antes de continuar aqui, desculpe você aí, mas hoje vou escrever sobre um assunto mulherzinha. Eu comecei comprando um ou outro e, quando me mudei para o atual apartamento, vi que havia enchido duas gavetas do armário do banheiro apenas de esmalte. Passados três anos que moro nesse apartamento, os esmaltes foram dando cria e sendo guardados até no armário da cozinha (é, eu tenho mais esmalte que panela e prato, isso pode dizer algumas coisas sobre mim, eu sei).
Achei absurda a quantidade e resolvi dar embora alguns e jogar os mais velhos e quase no fim fora. O objetivo era voltar às duas gavetas iniciais. Cheguei ao meu objetivo de “apenas” duas gavetas de esmaltes separados por tonalidades (cores quentes na gaveta de baixo, cores frias na de cima) e cheguei também à conclusão de que a indústria de cosmético me faz de palhaça. Ãham. Dos 30 (…

ESCUTAR É PRECISO >> Carla Dias >>

Nos últimos dias, eu não consigo tirar da cabeça um filme que assisti há algum tempo. Um Conto Chinês é muito interessante, e em diversos aspectos. Então, essa lembrança me levou a outro filme: Cookie.


Um Conto Chinês (Um cuento chino/2011) e Cookie (2013) têm algo em comum: um chinês que não fala o idioma de quem o acolhe. Um Conto Chinês fala sobre um homem solitário, que coleciona artigos de jornais sobre casos curiosos, e um chinês que está em busca de seu tio. Em Cookie, a empregada chinesa de uma mulher que perdeu o marido e o filho em um acidente de carro desaparece, deixando o filho aos cuidados da patroa e um endereço falso.


Ambos os filmes tratam, essencialmente, do poder da comunicação. Quando estamos dispostos, ao acessarmos a empatia nos tornamos capazes de elevar a nossa capacidade de entendimento.

Sou suspeita para falar sobre Ricardo Darín, porque sou fã do ator, assisto a todos os filmes dele. Especialmente em Um Conto Chinês, ele está genial, porque se trata de um per…

ALGO SOBRE CLÁSSICOS >> Whisner Fraga

Gosto de futebol. Muitos escritores esnobam o esporte e, talvez por isso, haja tão pouca ficção produzida sobre o tema. Não sou um fanático. Acho todo tipo de fanatismo uma afronta à democracia e ao direito do outro. Tampouco sou um expert no assunto. Gosto mesmo é de me sentar à frente da televisão e assistir às jogadas engenhosas dos atletas em campo. Considero este um momento de descanso das adversidades do cotidiano.

Não entendo essa “paixão” exagerada de torcedores que fazem do resultado de uma partida motivo para guerras. A imprensa divulga, após cada clássico em nossos estádios, o saldo dessas batalhas: mortes, violência, covardia. Como justificar que o fato de nosso time ter perdido é motivo o bastante para ameaçar outro cidadão? E não apenas amedrontar, mas ir às vias de fato. Culpam as torcidas organizadas, mas isso é buscar uma solução fácil para um problema maior: o espírito belicoso presente na natureza humana.

Por isso vou muito pouco a estádios. Não são lugares seguros,…

ANTES EU VIVIA ANESTESIADA >> Cristiana Moura

O Sol mal nascera e a moça, já de pé, preparava o café para os patrões. Arrumava, lavava, limpava. Fazia o almoço, servia, comia. Depois arrumava, lavava, limpava. Já era hora do jantar. Já passava da hora de dormir. No dia seguinte os afazeres se repetiam. E no outro. E mais um. Nos intervalos Jô criava Vitória ao mesmo tempo que a menina se criava entre a escola e o brincar pelos jardins do casarão.

Certa vez acordou com um cansaço tanto. Não estava cansada de ontem. Nem era cansaço da semana mais intensa de trabalho na casa que recebera hóspedes. Já não havia juventude. Já im-se vinte anos e Jô se cansara dos dias iguais e sem tempo pra pensar seja lá no que fosse. Pensar vida sendo vivida. Deu-se conta que vivia à revelia de si mesma.

Arrumou as malas. Despediu-se sem grandes afetos. Trocou o trabalho de todos os dias e todas as noites em uma casa só por trabalhos em residências diferentes a cada dia. Pessoas outras. Novos trajetos pela cidade.

— Agora, sou dona da minha vida — ou…

O CANDIDATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A gota d’água transbordou o copo no dia em que o chefe insinuou que a empresa precisava ousar mais, renovar a equipe, trazer novas ideias, abandonar antigos ideais.

Voltou pra casa arrasado e apavorado. Aos 48 anos, não tinha mais chance no mercado de trabalho. De que adiantam, pensava ele, minhas especializações, meus upgrades, a fortuna despendida com cursos...com cursos... a sonoridade da frase levou-o por outros caminhos. E um desses caminhos levou-o à banca de jornal, onde publicações especializadas anunciavam, enfaticamente, que ali estava a solução de todos os seus problemas.
O emprego de seus sonhos, a estabilidade financeira e a aposentadoria garantida. Um concurso justo, sem discriminação de idade, sexo ou raça, o que era ideal, pois ele perderia em todos esses quesitos. Bastava matricular-se num dos inúmeros cursos oferecidos, estudar em casa e voilà! Virava um servidor público, a nata da sociedade, the best of the best, um afortunado, o paraíso logo ali. 
Decidiu-se na me…

OS PAIS DA FILHA >> Carla Dias >>

O pão amanhecido feito ela. Ela que não colocou a cabeça no travesseiro, passando a noite acompanhada dos pensamentos vãos. Foram quinze cigarros apagados quando pela metade, no quando ela se lembrava de que tinha medo de ficar doente por causa deles. O pai a iniciara na arte de ser fumante, quando ela ainda tinha oito anos de idade. Ela chorou de fome e ele a alimentou com seu vício preferido. Anos depois, ele faleceu prejudicado pelo prazer, sofrendo um bocado, antes do fim. Ela assistiu a tudo, sendo a responsável pela vigília e por alimentá-lo, como um dia ele fez por ela.

A mãe era linda, tinha o tipo de lindeza de extasiar homens e mulheres. As crianças a adoravam, talvez pelo tom angelical de seu olhar. Particularmente, ela odiava crianças, que achava que elas demandavam trabalho extra, o que não a interessava. Por isso que, de acordo com a sua avó, claramente desapontada com a filha, sua mãe escolheu a completa indiferença à maternidade. Ela fora um erro, não de cálculo, mas …

SÓ PARA QUEM ENTENDE >> Clara Braga

Fui uma dessas adolescentes que idolatram um artista ou uma banda. Tinha pastas repletas de revistas com todas as matérias que saíam sobre a banda que eu gostava, sabia a cor predileta dos artistas, quanto eles calçavam, decorava o que gostavam de comer e essas coisas que a gente fazia ao invés de fazer o dever de casa e ainda tinha coragem de dizer pro professor no dia seguinte que não tinha feito porque não tinha tido tempo.
Cresci, e nem por isso deixei de ter os meus ídolos. Claro, hoje em dia a vida exige um pouco mais de bom senso na hora de expressar isso, mas existem certos momentos que só quem tem um ídolo entende que, apesar de pequenos, significam muito.
Nunca vou esquecer quando decidi fazer, de trabalho final de uma disciplina da faculdade, fotografias que ilustravam o livro Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão (sim, minha escritora predileta)! Hoje em dia, quando vejo o trabalho que fiz, agradeço aos meus professores pelo incentivo que fez com que …

PARTIDOS E REMENDOS >> Albir José Inácio da Silva

Para evitar qualquer mal-entendido, considerando alguns nervos ainda expostos pelas recentes escaramuças, necessário explicar que estes fatos não se passaram na última eleição. Aconteceu no pleito municipal de uma cidadezinha tranqüila em algum lugar deste país. Melhor não identificar cidade, amigos ou candidatos.
Se me contassem eu não acreditaria, mas ninguém contou - eu vi o fim daquela amizade. Eles tinham bótons de candidatos diferentes e vitupérios semelhantes.
- Gaysista! Se você defende essa escória, é porque tem alguma inclinação, algum desejo escondido! Onde ficou perdida a sua formação e dignidade?
- Dignidade é igualdade de direitos, seu homofóbico! Por que a família hetero é melhor que a família gay? E o seu partido afundado em corrupção? Você tá levando alguma coisa?
 A democracia tem às vezes o condão de trucidar amizades. Quando as pessoas têm um inimigo comum, como ditadores ou monarcas, pensam em se proteger e não em disputas políticas.
Os dois candidatos à Prefeitu…

PT X PSDB >> Sergio Geia

E ela se foi, amigo. E nenhuma saudade deixou, tipo Copa do Mundo depois do 7 a 1. Honestamente? Não deveria. Como ponto alto das democracias, uma eleição deveria ser festejada, comemorada, aplaudida. Mas é difícil bater palmas diante dessa gororoba que temos de engolir chamado “Programa Eleitoral Gratuito”. Na boa: serve pra nada, não; a não ser pra jogar confetes em postulantes que são arquétipos de perfeição num mundo de conto de fadas.
Até nas redes sociais a coisa ganhou uma proporção hercúlea. Vi amigos se mordendo no melhor estilo Suárez de ser, cada qual se achando o baluarte da razão. Petistas e tucanos quebrando o maior pau. Gente bem informada, que lê, que acompanha. Mas a verdade, pura, cristalina, límpida e colossal, meus caros, é que ninguém tem razão quando acha que tem razão. Essa consciência mínima deveria servir pra baixarem a bola.
Vamos aos fatos. A Bolívia, por exemplo. Reelegeu Evo Morales. Não dá pra entender, né? Não? Dá. Dá, sim. Desde quando Evo assumiu, o PIB…