sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O CANDIDATO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique para ler O Candidato - Parte I

Antero estava obcecado em passar no concurso e em eliminar qualquer obstáculo em seu caminho. Cismou que aquele colega obeso e comilão, dentre todos os milhares de candidatos, era o único entrave à sua classificação. 

Como que de disposto a provocar Antero, um dia antes da prova, durante o último aulão, o colega acertou todas as questões, respondendo-as com a boca cheia de comida.

Os elevadores do prédio nunca funcionavam na hora da saída, provocando uma grande confusão de pernas, braços e mochilas enquanto os alunos desciam as escadas. Talvez isso explique o acidente.

Quem sabe, na confusão, Antero tenha sido empurrado, caindo sobre o invejado colega, que rolou pela escada, quebrando o braço e contundindo a cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu o que aconteceu realmente. Mas sabemos que aquele candidato não fez a prova.

A mente – principalmente a doentia – é uma coisa curiosa. Aliviado em ver o concorrente fora do páreo, Antero fez a prova em estado de graça. Tinha certeza de que passaria.

Enquanto esperava o resultado, sonhava em chegar ao trabalho, com o Diário Oficial na mão, espanando sua nomeação, sua posse, sua libertação, no nariz de todos. Discursaria, emocionado e ácido, sobre os anos dedicados à empresa, sobre seguir novos rumos, e que velho e ultrapassado era a vovozinha. Do chefe. E revelaria o caso que este mantinha com a faxineira - casada com o chefe da segurança. Instalaria o caos e partiria, vitorioso.

Enfim, cada um com seus delírios, vamos ao que interessa. Antero passou? Sim. Foi classificado? Sim. Foi chamado? Não.

A vaga destinada a Antero ainda estava ocupada por um servidor que esperava a aposentadoria compulsória, dali a alguns meses. Meses? Antero surtou. Não agüentaria esperar meses.

Vociferava internamente que aquele velho não tinha mais nada a oferecer no trabalho, por que tanto apego, por que não ia jogar dominó na praça, ou aprendia a tricotar, ou se afogasse, qualquer coisa, mas que abrisse a vaga a quem ainda tinha alguns anos de trabalho pela frente. E que precisava, desesperadamente, oh, tão desesperadamente, daquela oportunidade.

Inconformado, dedicou-se a descobrir – tal qual fizera com o colega de curso – quem era o tal empecilho à sua felicidade. Não sei o que passava na cabeça de Antero enquanto seguia o sujeito, freqüentava os mesmos lugares, sentava-se ao seu lado nos transportes públicos. 

Mas sei que, um dia, durante sua corrida matinal, o velho servidor foi atropelado por um ciclista, no pior estilo hit and run e, ou devido às sequelas do acidente, ou porque sua hora havia chegado, o fato é que ele morreu pouco tempo depois.

Rei morto, rei posto. Antero pulou, gritou, exultou, pouco se importando com a desdita que se abatera sobre a família do falecido. Afinal, pensava, todos vamos morrer.

Entre o dia em que recebeu o telegrama convocatório e o dia em que deveria comparecer à repartição, Antero passou por uma marola de  azar. Primeiro, foi vítima de intoxicação alimentar que o deixou internado no hospital, após comer um camarão oferecido – como cortesia - por um ambulante na praia. Depois, foi empurrado ao descer de um ônibus. Podia ter morrido em ambas ocasiões.

No dia marcado para sua posse, Antero estava fora de si, tal a euforia. Talvez por isso não tenha prestado atenção ao atravessar a rua, pois, assim como o desinfeliz servidor a quem substituiria, foi atropelado. Por uma motocicleta. Sem entrar nos detalhes, seguramente mórbidos, do acidente, o fato é que Antero não tomou posse de outra vaga que não a de uma cova no Cemitério de São João Batista. 

Rei morto, rei posto. Longa vida ao rei. 

O próximo da lista de classificados foi chamado. Assim que assumiu, tratou de pagar a quem devia sua sorte. Tinha de garantir sua proteção, para não acabar como seus antecessores. A vida não estava fácil pra ninguém.  E, como já disse, entrar no serviço público mediante concurso equivale a uma luta renhida pela sobrevivência nos ambientes mais inóspitos e selvagens, uma guerra da qual apenas um sairá vivo. E, para vencer, tem gente capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Antero que o diga  - se ainda pudesse dizer alguma coisa.

(Tomando cerveja e olhando o entardecer, Felipe Espada meditava. Um informante falara sobre uma nova máfia, envolvida em concursos públicos. 

A princípio, pensara tratar-se de licitações, mas o relato de estranhas coincidências lhe chegaram às mãos. Mortes de funcionários públicos prestes a se aposentar e de candidatos prestes a assumir vagas; sequestros-relâmpagos em dias de prova; intoxicação em turmas inteiras de concursandos, entre outros.

Felipe Espada tinha mais de 20 anos de polícia, reconhecido dentro e fora do país. E jamais acreditara em coincidências. 

Ligou para sua equipe. Que estivessem preparados. Uma nova investigação iria começar.)

Mais aventuras de Felipe Espada:







Partilhar

4 comentários:

Ana Luzia disse...

extraordinariamente incrível, nunca é o que pensamos ser, rsrsrs...

Parabéns, Zô! Maravilhosa como sempre, assim como é maravilhoso saber do seu e-book!

Vida Longa à mente criativa que nos encanta à sextas-feiras pela manhã!

Sucesso!!!!

Anônimo disse...

Você sempre nos surpreende!
Eu vou ficar quietinha sobre o período que vou me aposentar...
Vai que tem alguém esperando minha vaga, hahahahaha

Cecilia

erica disse...

Ai que meeeeedoooo. Melhor não falar pra mais ninguém onde trabalho... rs Pior é que o inimigo pode morar (ou trabalhar) ao lado kkk pq não da pra se esconder dos colegas que agora prestam concurso pra analista rsrs Adorei, Zo. Ri muito. Rs

aretuza disse...

agora tem mais uma continuação, né? por favor!!!