sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O CANDIDATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A gota d’água transbordou o copo no dia em que o chefe insinuou que a empresa precisava ousar mais, renovar a equipe, trazer novas ideias, abandonar antigos ideais.

Voltou pra casa arrasado e apavorado. Aos 48 anos, não tinha mais chance no mercado de trabalho. De que adiantam, pensava ele, minhas especializações, meus upgrades, a fortuna despendida com cursos...com cursos... a sonoridade da frase levou-o por outros caminhos. E um desses caminhos levou-o à banca de jornal, onde publicações especializadas anunciavam, enfaticamente, que ali estava a solução de todos os seus problemas.

O emprego de seus sonhos, a estabilidade financeira e a aposentadoria garantida. Um concurso justo, sem discriminação de idade, sexo ou raça, o que era ideal, pois ele perderia em todos esses quesitos. Bastava matricular-se num dos inúmeros cursos oferecidos, estudar em casa e voilà! Virava um servidor público, a nata da sociedade, the best of the best, um afortunado, o paraíso logo ali. 

Decidiu-se na mesma hora. Faria um concurso público, passaria em primeiro lugar, afinal, era um homem inteligente, e mandaria seu chefe e seu emprego atuais se f... ferrarem. A bem da verdade, a perspectiva de xingar o chefe e largar o emprego foram os motes condutores que o estimularam a fazer tudo o que se seguiu dali por diante. Tudo mesmo. Virou uma obsessão. Passar no concurso? Não. Dizer poucas e boas àquele cretino e chutar o pau da barraca que sustentava, ainda que fragilmente, o seu emprego.

(E, vocês sabem, obsessões têm vida própria. Aguardem)

Prestar concurso público é entrar em um mundo novo, onde os fracos não têm vez. São muitas as pedras a serem afastadas do caminho: escolher um concurso dentre os inúmeros oferecidos, estudar as matérias de acordo com a banca examinadora (há provas que são verdadeiros testes de abstração surreal); verificar o nível das exigências (alguns cobram tanta especialização do candidato, que mais parecem concurso para astronauta da Nasa). Ele procurou cuidadosamente – não podia chegar ao trabalho e jogar na cara do chefe: “passei num concurso público, agora sou merendeiro”.

Por fim, escolheu um concurso, matriculou-se em um curso preparatório e encontrou a última pedreira: a relação candidato/vaga. Não é possível, espantou-se, alguma coisa estava errada, tem mais candidatos que seres no planeta! 

Seu desconforto piorou no primeiro dia de aula, ao ver a sala repleta de... jovens. Revoltou-se. Esse pessoal deveria aproveitar para ir à praia, e não tirar a vez de quem não tem mais lugar no mundo. Se eu tive que me esfalfar, suar o pão de cada dia, dar a volta no parafuso para conquistar espaço no mercado de trabalho durante mais de 20 anos para, ao final, ser jogado fora, por que eles também não deveriam passar por isso? Era injusto, muito injusto, furibundava-se

Na turma de Antero (sim, eis o nome do nosso amigo de hoje, desculpem, esqueci-me de apresentá-lo) havia um rapaz quase obeso, óculos fundo de garrafa, que passava as aulas mastigando batatas fritas e bolinhos ana maria com a boca aberta, o que dava nos nervos de Antero. Mas o que o deixou realmente incomodado foi ver que o glutão era uma máquina de estudos. Fazia perguntas pertinentes, levava referências bibliográficas, tinha tudo na ponta da língua. Um concorrente de peso.

Antero desgastava-se por dentro. Começou a crescer nele um ódio inexplicável. Projetou no colega toda a raiva que sentia pelos outros candidatos jovens que estavam a disputar-lhe a vaga, a vaga que era sua, de direito. Esse ódio, num primeiro momento, estimulou Antero a alcançar o mesmo nível de conhecimento do colega: se esse nerd gordo pode passar no concurso, pensava ele, eu também posso. 

Não sei precisar com exatidão quando o estímulo acabou por empurrar Antero para o lado negro da força e passou a alimentar sua obsessão em passar no concurso, largar o emprego, xingar o chefe; talvez no dia em que o colega acertou todas as questões de um teste de raciocínio lógico. Antero teve ímpetos reais de bater nele, fazê-lo engolir, de uma vez, todas as batatinhas que comia durante a aula. 

Posso não saber quando ou por que exatamente Antero passou a concentrar naquele colega em especial a raiva que sentia em ver tanta gente concorrendo por “sua” vaga, mas posso dizer, com certeza, como isso se manifestou. 

Antero iniciou um processo muito parecido com stalking, numa versão mais leve. Descobriu onde o colega morava, criou um falso perfil no facebook para seguir suas publicações, comprava os mesmos livros, sentava-se perto dele.

Disputar uma vaga para o serviço público, hoje em dia, é algo muito parecido com uma briga de foice num quarto escuro, trancado, de onde só um concorrente sai vivo. O dia da prova estava chegando e Antero decidiu que era hora de diminuir as chances da concorrência. 

Continua na 6ª feira, dia 21 de novembro



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7 comentários:

Ana Luzia disse...

como a crônica continua na semana que vem, talvez dê tempo de eu bater um papinho com o Antero a respeito das mazelas de ser servidor público, rs... talvez ele mude seus objetivos...

bjk,

Ana Luzia

Cristiane disse...

Boa! Por um momento achei que não iria ser sangrenta! Tolinha eu...

Anônimo disse...

Para deixar o candidato ainda mais desesperado, faltou avisar que agora, por mais uma "bondade" da Dilma com os servidores públicos, a aposentadoria máxima é o teto da previdência, que é de atualmente R$ 4.300,00, e portanto se ele ganhar mais, var ter que trabalhar até morrer, ou gastar mais uma grana do minguado salário e fazer uma previdência privada, e rezar para não acontecer o mesmo que aconteceu com a "CAPEMI". Agora se ele votou na Dilma, todo castigo para ele é pouco!

Anônimo disse...

Sorte dele entrar no serviço público agora, eu entrei na época do FHC e me danei, além de ficar 8 anos sem aumento, ainda terei que trabalhar mais 5 anos além do necessário.

Erica disse...

A solução perfeita pro Antero é se esfalfar todo e prestar concurso pra juiz. Então, já vai sair ganhando, de cara, mais de R$ 4000 de auxílio moradia, que ele vai colocando na poupança ou usando pra pagar a prestação da casa própria. Além disso, não vai ter que ficar restrito ao teto da previdência... Agora, Zoraya, minha filha, eliminar a concorrência desse jeito que vc deve estar pensando não é coisa de uma pessoa cristã kkkk

aretuza disse...

tomara que o Felipe Espada seja primo do tal gordinho!!!

albir silva disse...

Muito bom, Zoraya! Fico aguardando.