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Mostrando postagens de Agosto, 2020

paraísos inexistentes >>> branco

  hoje encontrei um véu  caído na calçada e minhas mãos ficaram feridas pelos espinhos que ele escondia limpei-as com um lenço novo que logo se maculou como os sujos panos de guerra minha cara barbuda mostra cicatrizes amargas mas as que ainda doem tanto são aquelas que só eu não entendo vi um cordeiro branco balindo porque ele sabe a noite ela está para chegar um carpinteiro construiu uma cruz na beira de um lago tranquilo mas meu espírito morto sabia que ainda deveria andar mais e encontrar meus demônios que me cantam cantigas de ninar eu vi o reflexo de um homem e procurei saber mais mas antes que o reconhecesse um espelho partiu-se em vários pedaços então nada a comemorar sem motivos para sorrisos cruzes e cicatrizes é o meu presente para você joelhos dobrados braços eretos em direção aos céus implorando por paraísos inexistentes ilustração (lápis em cartolina) por   ana betsa publicado originalmente no livro 7 © 2010 do autor

A CARTA >> Fred Fogaça

Quase não publiquei hoje, estive sem ideias novas nessa quarentena que é sempre a mesma. Mas hoje, ou melhor, agora, relembrei um texto muito catártico que escrevi a alguns anos atrás. Acho ele bastante pesado ainda, porque explora esquinas de meus traumas, mas relê-lo, tal como o processo da escrita, é muito importante pra mim. - Algum lugar, Algum dia, mês e ano. Nove da noite. Mãe: me perdoe. Mas não me sentia mais seguro convivendo com as evidências de quem eu era. A vida tinha se tornado uma empresa dispendiosa e dramática, que me era penosa desde todas as manhãs até os anoiteceres. Há quanto tempo já não desapareci, mãe? Demorei tanto p'ra conseguir mendigar palavras o bastante para compor o número digno de uma carta. Não tenho falado muito. Outrora eu tinha histórias, casos de todos os tipos e gostos, outrora opinava dos times que nunca assistia os jogos e falava por horas dos filmes que não tinha visto. Outrora, discutia profundíssimos assuntos com a pura arte da retórica

COTEJANDO DEDÕES >> Sergio Geia

Deitei a coberta de lado, num solavanco, pus-me de pé. Foi quando senti.  Poderia ser na cabeça, no ombro ou mesmo no estômago.  Era no dedão. O dedão do pé direito. Doía.  Essas dores aparecem do nada. Fui dormir às onze, nem me lembrava que tinha dedões. De manhã, ao me levantar, o latejar, como se o tivesse colidido com um pé de cama.  Com dificuldade me dirigi ao banheiro. Liguei o chuveiro. Quem sabe água quente dê jeito.  Não me acuse de acidentes noturnos. Uma mente maliciosa pode criar histórias. Durmo só. Mesmo que quisesse companhia, em tempos de pandemia? Só se for virtual, como live de Instagram . Não acredito que virtualmente se machuque um dedão.  Como bom médico, resolvo fazer o exame clínico. Tiro os chinelos, submeto o grande dedo a minuciosa análise.  Herança de meu pai, os dedões sempre me foram demasiadamente feios. Na verdade, não apenas eles, mas o pé inteiro. Ao lado do dedão, tenho um dedo encavalado. Assim, ele se torna menor que

REUNIÃO EM 2020 >> Paulo Meireles Barguil

E lá vou eu para mais uma reunião! Nada de tomar banho, pentear cabelos, escovar dentes, passar desodorante e perfume, vestir camisa e calça, calçar sapatos... Vou apenas de óculos e calção. Eu nem me preocupo com a câmera, pois não tenho no meu computador de mesa. O microfone, tão logo entro na sala, desligo e mantenho assim durante toda a atividade. Quando quero falar, uso o chat . Excepcionalmente, quando a manifestação oralizada é indispensável, conforme minha avaliação, ativo aquele instrumento. Lamentarei muito quando, no próximo ano, eu tiver que abandonar esse estilo.

AMIZADES >> Whisner Fraga

 a menina precisa de ser mais organizada, repreendo, o meio da sala não é lugar para um pedaço de papelão, a menina quer explicar, mas não há tempo, a educação e suas urgências, é preciso ordenar, estruturar, classificar, planejar, a menina quer explicar: veja, uai, bem, é que, olha, é porque eles se tornaram amigos e fiquei com pena, eles quem?, nina e o papelão, estão inseparáveis, sério?, inseparáveis?, (onde você aprendeu esta palavra?), olho para a gata e ela retruca um cerrar de olhos, quem sou eu para desfazer amizades?

RESPIRE >> Carla Dias >>

Cordiais violências consumidas, diariamente. Suas obsoletas buscas por respostas que nem cabem mais em perguntas. Porque a roda gira. Tudo se transforma, por isso andamos por aí, tontos... ligeiramente desconectados da realidade. Que somos ávidos consumidores de pausas. Nós as achamos encantadoramente desleixadas. De quando esbarram em horas, para então escoarem em sutis despreocupações. Por que o mundo precisa de nós entranhados em apreensões? Já não são muitos os sôfregos içados pelas suas unhas serrilhadas?  Não ignoramos as agonias, tampouco desdenhamos das maledicências e seu poder fogo. Respeitamos o que é capaz de ferir e mutilar o espírito. Não somos sonhadores de sonhos que não valem nada, nem mesmo para quem os sonha. No entanto, somos das pausas, da itinerância dos alívios que elas trazem para completar par. Da maciez da presença delas que amansa urgências distorcidas, acostumadas a ecoar aos berros.  É que tem hora em que os sons endoidecem a gente. Que eles chegam aos cali

É PRECISO SABER SORRIR? >> Clara Braga

 Quando eu era mais nova, ainda na época escolar, lembro de uma professora de redação que leu um texto em sala de aula sobre crianças bolhas, que seriam crianças que os pais não deixavam sair e, por isso, eram criadas dentro de uma bolha.  Depois de ler o texto, a professora pediu que debatêssemos e refletíssemos o quão bolhas nós éramos ou não éramos.  Logo começou uma guerra em sala. Cada aluno queria ser mais bolha do que o outro. Um se considerava bolha por não ter viajado com os primos, mas logo era rebatido por outro que dizia que isso não era ser bolha, já que ele ia para todos os outros lugares, dormia na casa de amigos e tudo mais. Bolha era o fulano, que só podia ir ao shopping nos finais de semana desde que os pais de algum dos amigos fosse também. Mas tinha também aquela outra, que o pai não deixava sair nem na rua, mas a mãe mentia para o pai, dizendo que ela estava estudando na casa da amiga e acobertava a saída da filha para que ela não vivesse em uma bolha, então, ela n

QUE ISSO, MEU SANTO?! > Albir José Inácio da Silva

Gilda não tinha dúvidas de que precisava morrer. A questão era encontrar um jeito indolor e evitar escândalo. Não queria que sua mãezinha sofresse mais que o necessário com sua foto no jornal. Avaliou as opções com a carta nas mãos. Nada de corda, pulo da ponte ou caminhão na rodovia, não podia parecer suicídio. O problema é que qualquer coisa seria suspeita depois daquela carta. Sentada na cama, deu com o Santo Antônio no quadro da parede.   - Me desculpe, meu Santo, mas já tá resolvido! – disse e fechou os olhos. Quase desmaiou quando lhe ouviu o sermão: - Então é assim que te consideras devota? Não sabes que o suicídio é o caminho mais rápido para o inferno? Essa é a tua fé? Por acaso eu já te desamparei antes? Não! Nunca o santo a tinha desamparado. Desde criança, quando começou a andar, parava diante da imagem de Santo Antônio na igreja e ficava admirando. Os adultos brincavam “essa não morre solteira!” Ela juntava quadros, medalhas, estátuas, livros e qualqu

QUEM É QUE CARREGA? >>> Sandra Modesto

O suspiro da noite. Um tempo insone.  A vida do avesso. Um verso perverso.  Talvez um contexto. Talvez dissecar. Quem é que carrega?  O peso e o preço  A barriga e o aperto  O sangue no meio  O salário estreito  Notícia instalada  Os primeiros desenhos  O livro que chora  No beco de sempre  Estilhaço dos sonhos  O espaço em ruínas.  A boneca esquecida  Jogada na cama.  Quem é que carrega?  O abafo do grito  A bíblia esquisita.  O cerne e o choro  Na pele da preta Quem é que carrega?  Em tempos de lutos  Estrofe invadida  Perdida na história  Mulher destroçada  Cansada de guerra  Imagem: PhotoSan da ilustração de Sônia Magalhães. Livro: Os Saltimbancos/ Irmãos Grimm; adaptação Chico Buarque de Holanda.  Teatro musical. Global Editora.

A MULHER DO SÓCIO - um episódio de Felipe Espada >> Zoraya Cesar

A primeira vez que Bruno encontrou a mulher do sócio, detestou-a. Achou-a arrogante e pernóstica. Uma perua dispendiosa. E, ainda assim, desejou-a. Mais para sacanear o soberba dela, colocar aquela moralista enjoada pra cacete a seus pés. Por esporte. Just for the fun of it . Queria ver se ela resistia ao seu charme de cafajeste bonitão.  Depois de algum tempo, o irresistível Bruno conseguiu seu intento. E ganhou, de brinde, duas surpresas.  Patrícia era uma tarada em potencial, um diamante pronto a ser lapidado pelas mãos e lábias do experiente Bruno, um frequentador assíduo de termas, clubes privées, lupanares.  A outra foi descobrir que a sisuda Patrícia era uma alcoviteira: durante as escaldantes sessões de sexo, alguma droga e sem rock’n’roll, ela revelava segredos do marido, todos.  E foi assim que ele soube que Paulo gastara sua fortuna em jogatina e bebida. E que começara a esboçar um plano para fraudar a contabilidade de empresa e jogar a culpa em Bruno.  Bruno entrou em pânic

A máscara da Colombina >>> NÁDIA COLDEBELLA

Assim que pusemos nossos pés no asfalto da rua, Lena e eu não conseguimos mais andar. Ela jogou o tricô fora. Como se nossos corpos houvessem sido tomados por forças ocultas, nos mantivemos parados, silenciosos, de costas para a casa em que vivemos a vida inteira. Eu bem que gostaria de voltar-me e olhar para ela uma última vez e acho que minha irmãzinha gostaria de fazer o mesmo, mas Lena nada dizia. Ela tremia apenas, talvez pelo frio que inundava a noite. Eu vira, na gaveta da cômoda um casaco lilás de linha, muito bonito, de pontos truncados e confusos para mim, mas que formavam uma bela e delicada trama. A cor cairia muito bem nela, agora que sua pele estava lívida e que alguns traços de desespero pareciam ser o pivô de seu silêncio. Trouxe-a mais junto a mim e apertei sua cintura, tentando, em vão, conduzi -la um passo à frente. -Não! - Lena olhou-me com os olhos úmidos (o clima desta época do ano em geral machuca os olhos, contribuindo para que as reações naturais de proteção

PERCURSO IMPREMEDITÁVEL >> Carla Dias >>

Daqui eu observo o mundo. Ele se movimenta e sua cadência nem sempre agrada ao olhar, mas movimento é bom. Desperta a sensação de que é possível se chegar a outro lugar. Como seria outro lugar? Seria eu outro nesse outro lugar ou não haveria problema em ser eu mesmo e apenas me entregar às novidades? Dizem que faço somente perguntas que sei que posso responder, isso quando elas fazem algum sentido. Já me perguntei para que servem longos silêncios, durante uma conversa. E assim, aconteceu de um longo silêncio representar a resposta. Eu me defendo: acredito que o problema não seja ter a resposta para pergunta conhecida, mas se perguntar sempre a mesma coisa. Porque perguntas podem se tornar vícios, e de tal forma, que elas resultem somente em outras perguntas. Passei por um período em que fui viciado em perguntas, mas por sorte não eram as mesmas. Eram muitas e diversas. Então, ninguém mais escutava o que eu dizia. As pessoas estavam exaustas por tentarem saciar meu questionamento. Quand

poemas e diamantes >>> branco

não acredito em rimas ritmos métricas não acredito  em verdades trabalhadas pois assim como o homem que adentra a mina e com sua picareta fere a terra na procura pela gema penetro dentro de mim e procuro pela essência do que sinto pode o minerador lapidar a pedra ou o poeta melhorar o impulso sem que se perca a bela e rude verdade? essência é o bruto assim como bruto é o estado da flor não faço dos meus poemas perfumes com suas ricas e belas embalagens minha poesia não é brilhante trabalhado tirei a pedra opaca e agora a mostro a vocês e cabe a vocês a lapidarem à sua maneira ao modo de cada um de vocês espero a pedra preciosa de mim o mínimo sou apenas o minerador foto :   Marcus Web © 2018 do autor* publicado originalmente no livro poemas de gaveta * alterações feitas para esta publicação 

ESCREVER DÓI >> Sergio Geia

E a vida continua, mesmo com pandemia. A vida dos que conseguiram vencer o coronavírus, como tia Adélia e seu Diamantino. A vida dos que não se infectaram; pelo menos até agora. Não a vida dos 100.000. Essas, não continuaram. Nós e os Estados Unidos batendo recordes de mortes. Algo em comum?  Ando num momento estranho literariamente falando. Passei a me dedicar mais aos contos. Surgem fiapos de ideias, como diz o Tezza. Anoto num caderno. Pode ser uma ideia, uma imagem, uma situação qualquer, mas é fiapo, pequenino, quase nada, demanda um doloroso processo de construção. Doloroso porque dói. Não é simplesmente escrever, pronto, acabou. Escrever dói. Porque é construção. Você ergue o conto, depois percebe que ele não está bom, põe tudo abaixo, numa implosão que machuca. Ou você vai erguendo o conto e segue até o final. Depois você volta e começa a mexer, muda verbos, o tempo, reescreve parágrafos inteiros, diversos parágrafos, às vezes tudo. Ou você imagina uma história e vai

PORTA ABERTA >> Paulo Meireles Barguil

Desde a adolescência, desejei morar em um local que eu tivesse maior contato com a natureza. Há pouco mais de um ano, vivencio isso. Um bônus dessa situação é deixar a porta aberta, sem qualquer receio, quando quero.  Outro dividendo é andar tranquilo em várias ruas, independentemente do horário. A única exceção são os cachorros grandes que moram numa casa, os quais ficam latindo e pulando quando eu passo na calçada do outro lado da rua. Eles me lembram algumas pessoas, com as quais, sempre que possível, adoto o mesmo procedimento. Evito passar em frente. Se for indispensável, o faço mantendo distância. Os caminhos são infinitos...