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UM POUCO DE JOÃO >> Sergio Geia


De repente, confiante, ele saiu da cozinha: 

— Se quiser, eu faço o supermercado hoje. 

De pronto, aceitei o oferecimento. 

Duas horas depois ele estava de volta. Na cozinha, guardava tudo o que havia comprado. Dentre a lista de sempre, ele acrescentou alface, brócolis, tomate, alho, cebola, cheiro-verde, carne, pão de alho, farinha de rosca. 

Essas coisas costumeiramente não compro. Não compro porque não cozinho. Não cozinho porque não me sobra tempo. Minhas refeições chegam da rua, prontas. 

Antes, as fazia em restaurantes. Agora, por força dessa doença que se espraia pelo Brasil, elas vêm até mim. 

Portanto, recebi-as de bom grado, mas com estranheza. 

Então, ele me disse, com mais confiança ainda:

— Vou fazer o almoço. 

Respondi:

— Bom. Quero ver. 

Almocei arroz, feijão, bife à milanesa e salada de alface, tomate e cebola. 

Um verdadeiro banquete de sabores a mim oferecido e que exigiu repetição. 

Refestelei-me como se diz em literatura com refeição tão boa. 

Por fim, embora dia de semana, sucumbi a uma pequena dose de licor Mariquinhas, trazido a mim de Lisboa pelo casal Alexandre e Edna. 

E por falar em literatura, foi inevitável não lembrar O Crime do Padre Amaro, quando Carlos da botica, que detestava o pároco da Sé, José Miguéis, vendo-o passar na rua, comenta à boca pequena: 

— Lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura. 

Eu estava quase a ponto de estourar. 

Não estourei, felizmente, tanto que cá estou a lhe contar essa passagem. 

O mais significativo, entretanto, foi a certeza que me atingiu impiedosa. Já tinha sinais no próprio corpo que não mente. Mas agora, a criança de outrora crescida a cozinhar para o próprio pai, rendi-me à mais indiscutível das verdades: 

— Como o tempo passou...

Comentários

Unknown disse…
Pequenas lembranças, pequenos sabores, grandes lembranças de momentos bem vividos. Parabens Sergio.