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Mostrando postagens de Outubro, 2021

NAQUELA MESA >> Sandra Modesto

Daqui a dois meses, no dia 31 de dezembro do ano estarrecido, corroído no vazio de muitas famílias, como cantar em coro, adeus ano velho feliz ano novo?  O ano velho levou para sempre, os que não estarão na última festa.  Dá pra dizer feliz ano novo olhando a mesa incompleta? Cadeiras vazias, olhares disfarçados tentando os risos fracos. Porque o pai não está ali, a mãe , a  ovó, o avô, os tios e as tias, a amiga, o amigo.  A professora que contou histórias, as conversas marcantes, agora distantes demais.  Elas e eles viraram covas. Nas seiscentas mil e sete vidas perdidas, seria espanto, reforçar que quatrocentas mil pessoas poderiam estar vivas? Por isso meu bem, no último dia de dois mil e vinte um, recolha sua dor, não ignore a miséria do Brasil, saboreie devagar ao comer pedaços de lombo assado, lembre- se das pessoas comendo osso, catando comida no lixo, e se puder, assuma sua estranha paixão pela vida.  Naquela mesa imprevista, toalha branca escorregando pelos cantos. O feliz a

A DESVIDA DA SRA. GRUÑON - CENAS DA NOITE >> Zoraya Cesar

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Ela tomou o mingau de aveia, colocou o chocolate quente na garrafa térmica e alguns biscoitos na sacola. Trocou a ração e a água do gato. Vestiu o casaco e verificou se o xale, as meias e as luvas já estavam dentro da bolsa – suas juntas reclamavam muito se ela não estivesse bem agasalhada. Ah, as revistas! Suas preciosas revistas sobre celebridades. Por último, e bastante contrariada, desligou a televisão. Que maçada ter de sair bem no meio da novela!  Desceu manquitolando pelas escadas (maldito joanete!) e andou à pé os oito quarteirões - não era tão perto assim, mas preferia economizar o dinheiro do ônibus. Não pegava aquelas coisas imundas e perigosas, não senhor, esses motoristas de hoje querem matar todo mundo.  Seus pensamentos resmungavam. Velhice, artrose, emprego desinteressante (mas que era uma sorte ter um emprego, ah, isso era!), vida chata e sensaborona, nunca tinha o que contar às vizinhas. Passou por bares lotados, lojas fechando e gentes indo, vindo, ficando. Um rapazi

BREVIDADE >> whisner fraga

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eis meus trinta segundos, eis a semântica do íntimo, salomé, eis a oratória da banalidade, eis o descartável, a ciranda da rivalidade, tome, os dedos podem sapatear sobre um byte escravizado por polímeros, trinta segundos que são um minuto uma hora um dia um ano, a vida, a nova coreografia de trivialidades, eis o que tenho para você - um relance, um ricochete, uma centelha, um gesto, um pestanejar, eis meu tempo, tecnologia: tome o seu joão batista, alguém andarilha com o skate, outro testa um filtro, os cabelos requebram mansamente, um nariz regressa a vontades de répteis, numa ansiedade de alvoroços, uma cintilação, um colorido, um ajuste, tudo na palma no clique e o preço é a devoção, amém, santo android, amém ios, a quanto vai o câmbio da curtida?, a anatomia que enlouqueceu, é toda amoled,  a tribologia do vazio,  eis meu tempo, caetano, trinta segundos: sua música é mais comprida?, podemos negociar?, não preciso das letras, não preciso dos acordes, não preciso da voz, só quero a

CONTE SUAS HISTÓRIAS >> Carla Dias

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No armário da cozinha, ela armazena um bálsamo exclusivo para os dias em que seu corpo se torna incapaz de grandes feitos como alongamentos, caminhadas, conversa fiada na fila do banco, encontrar sem querer o vizinho do apartamento de baixo, que adora tê-la como espectadora do seu monólogo do dia. Quando me designaram para esse trabalho, não imaginei que se tornaria uma missão. Por mais que o voyeurismo me apeteça, que eu viva dele e com ele pague as minhas contas de carma, dessa vez o arrastar desse enredo é um requisito.  Ela mantém um ritual para o dia de consumir seu bálsamo de preferência. Um banho contraventor, pois demora mais do que deveria durante um racionamento. Paga esse pecado parcelado, porque é ótima em banhos bem tomados, porém rápidos. Em seguida, esgueira-se por ele, o vestido-bálsamo, até que o tal se aconchegue em seu corpo. Escorrega os pés para dentro dos sapatos mais bonitos que já teve, necessariamente confortáveis. Mesmo tendo nada contra, é das sem talento qua

CADA UM COM SUA EMERGÊNCIA >> Clara Braga

Recentemente tive um problema de saúde e precisei ir à emergência do hospital. Emergência é sempre um saco, muito cheia, sem o especialista necessário e você leva mais de hora para ser chamado para ficar dois minutos olhando para a cara do médico. E dessa vez não foi diferente, esperei 1hora e 40minutos até ser atendida e não precisei ficar nem 5 minutos com a médica. Ela me avaliou e mandou logo para a sala de medicação. Como a sala estava muito cheia ela pedia que os pacientes entrassem sozinhos e os acompanhantes aguardassem de fora olhando pela enorme janela de vidro que havia na frente da sala. Lá fui eu, entrei e fiquei conversando por mímica e whatsapp com minha mãe que ficou olhando pelo vidro. Minha mãe é sempre muito tranquila, se sentou de forma que eu só via sua cabeça, quase se perdendo entre a quantidade de pessoas que aguardavam em pé e coladas no vidro. Vinte minutos se passaram e nada da minha medicação chegar. Conforme o tempo ia passando, as pessoas lá fora pareciam

CAUTELA >> Fred Fogaça

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Que é a vida agora, se não um cigarro começado e o gole de conhaque no copo de plástico? Essa vida em sociedade que você chama de sacada, porta fora a vida é selvagem, né? Você cheio de medo e o mundão pianinho lá, na dele, bom, mas em segredo.  Nem se mete na ousadia que virou a interação, tá 'guentado, e justifica, mantém receio - a noite longa é uma vigília constante, fugindo sabe-se lá do que:  já se perdeu na ansiedade qualquer razão que um dia foi justa. Clausura é necessidade mais que condição agora, transcendeu aos motivos,  destacou o fim em si e a gente sempre evita andando em círculos: é cômodo, não demanda repertório de solução. A existência acontece quase vazia, ausente dos partícipes - e eu aqui fora esperando, chamo na porta fechada, pro silêncio de pânico que barulha escondido dentro de casa, pra distância que aumenta e eu que não dei um passo que fosse. Tudo acaba pequeno. Ensimesmado num egoísmo honesto, a relevância do que une é subjetiva demais pra um momento co

O VELHO CANTOR >> Sergio Geia

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  O gancho emborrachado do apoio o envolve com firmeza. Seu olhar, vejo, está na parede do quarto, parece um pouco confuso. São anos que não o retira de lá. Não há mais tempo, justifica-se. Miúdo, sequer alcança as atividades do dia. E quando está em casa, já livre do trabalho da construção, a última coisa em que pensa é nele.  Mas às vezes, no escuro, em meio ao sono atribulado, ele se pega procurando na parede do quarto a sombra do violão, é quando bate as saudades de um tempo em que andavam juntos.  Indeciso ainda, talvez atiçado pelo álcool, ele enfim arrisca retirá-lo da parede, o toma pelas mãos, percebemos o enorme cuidado no gesto. Há uma lâmina grossa de poeira pelo desuso. Ele encosta os dedos no cavalete, no rastilho, parece admirá-lo. Depois toca o braço, um a um os trastes, torce as tarraxas, sente o movimento. Em seguida o nylon, desliza o dedo indicador suavemente na horizontal. Nota a ausência da corda ré , mas não importa. Tomado de emoção, ele respira fundo. Então faz

PENDÊNCIAS >> Paulo Meireles Barguil

Cada pessoa tem as suas, que variam em quantidade, duração e importância. A elaboração de lista não indica um compromisso e um desejo de saná-las, pois aquela pode ser apenas uma dissimulação para si e/ou para os outros. Superada esta preliminar, há de se considerar que, muito raramente, a ordem indicada é cumprida. A quantidade de itens relacionados ressoa diferentemente nos indivíduos: há quem se sinta perdido diante de poucas tarefas, enquanto há quem se paralise quando mira vários trabalhos.  A duração estimada na solução também é uma variável nesta equação, uma vez que tendemos a refutar situações que demandam muito tempo e privilegiar as que requerem pouco.  A importância é um aspecto paradoxal: a relevância de uma missão influencia na sua escolha, pois, a depender da configuração psíquica do indivíduo, que é majoritariamente desconhecida, ele poderá adiar ad eternum  o desfecho daquela. Infelizmente, não são poucas as pessoas que optam por resolver as menos relevantes, que não i

SERENDIPIDADE >>>Nádia Coldebella

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  “ Quando você olha o veludo azul que cobre sua cabeça todos os dias, nem imagina que ali se encontra um fino véu, trançado e opaco, que pode ser facilmente rasgado. Eu era criancinha ainda e esticava minha mãozinha para o céu, tentando modelar as nuvens de algodão. Nunca acreditei quando diziam que o que estava lá era inalcançável. Nunca desisti de levantar minhas mãos, pois o céu estava ali, ao alcance delas”.    A jovem Aislin levantou os olhos do diário, pensativa. O livro parecia ser muito antigo. Tinha as páginas amareladas e era encapado com uma espécie de couro velho. Na capa estava escrito seu nome em letras grandes e douradas e, embaixo dele, a palavra sonho, que era o significado desse nome excêntrico escolhido por sua mãe.  Ela não sabia como o diário chegara às suas mãos, apenas acordou pela manhã e ele estava ali, perto da caixinha de música que ganhara no aniversário de sete anos. Como uma coisa esquecida que ao lembrar percebemos que sempre esteve ao nosso alcance, Ais

O QUE IMPORTA >> Carla Dias

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O que importa desperta. Há quem diga que não e se atreva a participar de pelejas para provar um contrário que nem contrariado merece ser. Porque o que importa se remexe no bojo do seu aprisionamento, atuando, mais vezes do que deveria, como protagonista da emoção indigesta que é o desolação. Ao se desolar – por puro descabimento de quem não se pronuncia em sua defesa –, o que importa se abate, como se tivessem extraído os seus barulhos, mas suas excitações recusadas não se contraem em solidão, só porque já não lhe reconhecem mais as facetas e os temperos.  Leva um tempo de recuperar fôlego debaixo da água. É uma luta que de batalha tem nada, porque gritos são calados para não atrapalhar a soneca da miséria travestida de tranquilidade, péssima atriz essa, das que se valem de olhares sedutores e fendas nas roupas para distrair quem não anda com desejo de acordar para o que importa e desperta. Acredita nela quem não tem mais em que acreditar ou escolheu não se importar. Porque o que impor

KISITO - final >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 04/10/2021) Isso chegou aos ouvidos da mãe, que ficou de cama, despedindo-se a cada dia, e ele na cabeceira se culpando.   A velha só melhorou quando ele prometeu.   Como tinha quase matado a mãe de desgosto, passou no vestibular pra medicina. As aulas práticas eram as mais dolorosas, mas tudo ele suportou com estoicismo.   Na formatura a mãe era a pessoa mais alegre e ele, a mais triste. Ela enxergava um futuro glorioso com consultas diárias e cuidados redobrados.   Ele adivinhava o que seriam seus plantões no hospital. Os irmãos desdenhavam: - outro fracasso!   Esgueirava-se Quisito pelos corredores do hospital na tentativa de fugir de pacientes, sangue e gemidos da Emergência, quando esbarrou num grupo formado por dois diretores, o chefe da cardiologia e um gringo louro e desgrenhado.   Os quatro não se entendiam, apesar do inglês razoável dos brasileiros. A conversa era sobre um equipamento milionário que haviam importado. Balançavam a cabeça negativ

ELAS SANGRAM >> Sandra Modesto

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Nos anos 70, não existia a palavra menstruação. A gente ficava mocinha ou a gente ficava de Chico. Sim. Pra vocês terem uma ideia, na minha casa, éramos sete mulheres. Eu, minha mãe, minhas quatro irmãs e minha tia- irmã. Eu queria muito ficar mocinha. Afinal, minha irmã do meio e a mais nova, ficaram mocinhas aos 11 anos. E eu? Aos 13. A gente sangrava e usava toalhinhas de pano. Horrível! Cheias de sangue manchado, minha mãe fervia aquilo. Era muito louco. E tinha restrições. Quem ficava de Chico, não podia comer comidas gordurosas, não podia lavar os cabelos, entre outras. Meu pai, maravilhoso, comprou absorventes higiênicos e mandou entregar pra gente. A vida ficou melhor sem toalhinhas. A partir daí absorventes espalhados por todos os quartos e gavetas. Por isso, é muito cruel a suspensão do kit de absorventes para adolescente em vulnerabilidade social. A pobreza menstrual é triste e real. Eu fico imaginando colocar papel higiênico, papel de jornal e o sa

O ENCANTAMENTO DOS MORTOS - 2ª e última parte >> Zoraya Cesar

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Sei que alguns podem estar curiosos, mas me recuso a revelar como foi feito o encantamento. Mesmo o conhecimento deve ser divulgado de maneira responsável. No entanto, digo duas coisas: que Ulaan teve de ceder à Sra. Branca-Nyeupe parte de sua beleza, 21 meses de juventude e um ano de sua vida ; e que o encantamento deu certo.  Bem, deu e não deu, como sabe – ou deveria saber - qualquer um que entenda um pouco de Magia. Pois há sempre algo que esse tipo de Encantador não fala…  Mrtav voltou. Em carne e osso – mas não sangue. E, sem sangue, o coração resta inerte: a doçura, a comiseração e o comedimento vão sumindo pouco a pouco.  O amor, o afeto e o sexo eram o sonho do qual Ulaan lembrava e sentira falta. Mas, a cada dia, Mrtav se excedia nos defeitos que tivera em vida. Bebia, jogava, brigava, caçava como nunca antes. Mrtav fora muitas vezes desonesto, ladrão, desordeiro, mas não passava de um aventureiro romântico, nunca tivera o instinto assassino que ela agora via em seus olhos. A

EVIDÊNCIA >> whisner fraga

minha terra fenece, não basta mais o enigma de saudades, minas se dissimula em resquícios, a igreja ainda estampa rangidos de sinos?, as casas de tijolos à mostra, untadas de sol?, a ponte ainda se agasalha com ferrugens?, os bichos regateados nas feiras de domingo?, minas arqueada em um progresso estúpido, um boi que dança sobre o próprio sangue, minas é uma encruzilhada nua de oferendas, o galo rodopia o corte definitivo, ninharias esquartejam minha terra, minas é uma trégua se despedindo em mim, uma conciliação de paetês tragada pelo desamparo, um armistício de hipocrisias, feito um voo rumo ao suicídio.

VELOCIDADE >> Carla Dias

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Uma vida minha por um instante seu. Quem sabe negociar promessas, rezas, vontades e alegrias quaisquer. Filho que nasce, flor que nasce e a nascente da palavra-poesia. Qualquer coisa que me livre dessa casca, da máscara e da revelia que me dói nos ossos e desconjura consciência. O que me ensine a extrair canções do pôr do sol e emoções estandartes do toque ágil de dia de chuva repentina. Não há como desviar o olhar da coreografia do gesto: mão a amansar os cabelos da partida. E reconhecer o gosto da saudade amanhecida na boca, inundando a alma.  Há velocidade conduzindo o tempo que marca a nossa pele, e que, de tempos em tempos, redecora a nossa filosofia. Não nos abandona, não nos acorrenta, mas não consegue evitar de nos arremessar à vida. Seja ela mansa, atropelada ou invadida pelo olhar de um anjo de asa partida, desconfiado que anda das preces negociadas no ventre do medo. Há velocidade na necessidade de cavoucar poros do dia de aclarar ideia de antes perdida. Aquela que sabe real

DESCE DOIS... DESCE MAIS >> Clara Braga

Pela primeira vez inscrevi meu filho nesses programas especiais de contraturno. O pessoal do local onde ele faz natação organizou uma semana de evento em comemoração ao dia das crianças e achamos que seria legal para ele participar. Na hora da inscrição, recebi uma ficha para preencher. Normal, informar os dados faz parte da inscrição de qualquer evento, seja criança ou não. Comecei a preencher: nome, endereço, nome dos responsáveis, telefone, cpf e assim acabou a primeira página. Na segunda página, a coisa começou a ficar mais específica: tem alguma alergia? Pergunta normal e esperada, já que ele vai lanchar lá e participar de atividades nas quais vai manipular corante, faz sentido. Depois disso, pediram o número da carteira do plano de saúde! Já fiquei tensa, mas ainda achando normal. O problema para mim foi a hora que pediram o tipo sanguíneo! Sério mesmo? O que poderia acontecer que eles precisariam do tipo sanguíneo do meu filho? Na folha seguinte estavam todas as atividades que s

Indiferença >> Alfonsina Salomão

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  Um homem sentado num banco de praça lendo jornal. Quase velho, quase careca, quase gordo. Os cabelos restantes são quase todos brancos e um par de óculos retangulares se equilibra na ponta do nariz. Está na idade em que os braços parecem ficar curtos, penso.   O dia está bonito, nem muito quente, nem muito frio. O sol da tarde ilumina o banco, reflete nas folhas da árvore cujos galhos compridos se balançam acima do homem. Um pombo faz cocô, a pasta branca cai ao seu lado. Ele continua a leitura, imperturbável. Me pergunto o que pode ser tão instigante. Normalmente não encontro nada que o valha nos jornais. Passo os olhos pelos títulos sangrentos, espio as fotografias traumatizantes, leio com ceticismo o horóscopo do dia e busco sorrir quando chego aos quadrinhos. Então fecho a página e ponho o jornal de lado, ranzinza, insatisfeita com a perda de tempo.   A postura do homem é tão diferente que não resisto: passo por trás do banco e tento ler por cima dos seus ombros. Não distingo nad

MOINHOS >> Fred Fogaça