O ENCANTAMENTO DOS MORTOS - 2ª e última parte >> Zoraya Cesar



Sei que alguns podem estar curiosos, mas me recuso a revelar como foi feito o encantamento. Mesmo o conhecimento deve ser divulgado de maneira responsável. No entanto, digo duas coisas: que Ulaan teve de ceder à Sra. Branca-Nyeupe parte de sua beleza, 21 meses de juventude e um ano de sua vida; e que o encantamento deu certo. 

Bem, deu e não deu, como sabe – ou deveria saber - qualquer um que entenda um pouco de Magia. Pois há sempre algo que esse tipo de Encantador não fala… 

Mrtav voltou. Em carne e osso – mas não sangue. E, sem sangue, o coração resta inerte: a doçura, a comiseração e o comedimento vão sumindo pouco a pouco. 

O amor, o afeto e o sexo eram o sonho do qual Ulaan lembrava e sentira falta. Mas, a cada dia, Mrtav se excedia nos defeitos que tivera em vida. Bebia, jogava, brigava, caçava como nunca antes. Mrtav fora muitas vezes desonesto, ladrão, desordeiro, mas não passava de um aventureiro romântico, nunca tivera o instinto assassino que ela agora via em seus olhos. A sede de viver de Mrtav, que desde sempre a seduzira, tornara-se viciada em morte. E ele, que, vivo, era desmedido, redivivo tornara-se incontrolável. 

Ulaan ainda o amava profundamente, pois, com ela, Mrtav era o mesmo. No entanto, ela sabia. Aquele não era o Mrtav que ela amara. 

Viviam escondidos no meio da floresta, mas as incursões de Mrtav às tabernas, as confusões e os roubos acabariam por revelar o segredo da desesperada Ulaan. Não tinha com quem falar, não conseguia mais controlá-lo. Ele não demoraria a matar alguém. 

Precisava desfazer o desfeito. Mas a Sra. Branca-Nyeupe garantira que o Tríplice Acordo era irrevogável e irreversível. Estava quase conformada com sua desgraça quando, um dia, Mrtav chegou dizendo que encontrara, além do Pântano das Lamúrias, uma velha Encantadora dos Portais. Uma esperança envergonhada remexeu-se no peito de Ulaan. Se havia alguém que poderia desfazer o feitiço da poderosa Sra. Branca-Nyeupe era uma não menos poderosa Encantadora dos Portais!

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Ulaan atravessou o Pântano das Lamúrias, a fim de encontrar a mulher que poderia salvar-lhe a vida. Durante a travessia, pernilongos bicudos procuravam veias e artérias para sugar o sangue dos viventes, provocando feridas purulentas que custavam a cicatrizar. Cópias de espíritos das pessoas mortas que o passante conhecera tentavam pará-lo para conversar, pedir ajuda… Quem cedesse afundava no esquecimento eterno e por lá morria, devorado pelos monstros de boca larga que viviam sob a superfície. Somente os de firme intenção conseguiam chegar ao outro lado. E Ulaan queria desesperadamente livrar-se de Mrtav. 

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A casa estava gasta pelo tempo, mas sua decadência era perfumada, doce,  aconchegante. A luz entrava pelas frestas das paredes e teto de madeira clara. Abelhas, pássaros e insetos entravam, livres, pelas janelas escancaradas. O jardim era desarranjado e florido, numa alegre descombinação de cores e formas. O caos mais bonito que alguém já vira. 

Marcas do tempo ornavam o rosto severo da mulher; suas mãos finas e macias eram nodosas e manchadas. Mas a decrepitude era desmentida pelo fulgor juvenil dos olhos castanhos, brilhantes como pedras ao sol. Ofereceu à ofegante e ferida Ulaan pomada para as feridas e chá para acalmar os nervos. Ouviu todo o caso. Suspirou. As pessoas não aprendem a deixar passar o fluxo da vida!

- Minha filha, para ser desfazer o Tríplice Acordo, precisamos de três coisas: uma vontade resoluta e um arrependimento amargo. Você já provou que os tem ao passar pelo pântano. - Ulaan interrompeu, ansiosa:

- Mas me foi dito que minha alma se esgarçaria infinitamente!

A Encantadora dos Portais riu, os dentes estranhamente perfeitos em relação à velhice do corpo. 

- Você foi enganada. Isso só ocorreria se deixasse o redivivo por conta própria, sem se responsabilizar por ele. 

- E quanto ao que paguei à Sra. Branca-Nyeupe? Beleza, juventude, vida?

A Velha Encantadora dos Portais sacudiu a cabeça. Trato é trato e deve ser honrado. Tendo a feiticeira e os Espíritos cumprido sua parte, o pagamento é irreversível. Ademais, ela explicou, esse é o castigo para quem interfere com o rio da vida. É muito egoísmo impedir o Caminho de outra pessoa. Não há o que fazer. Sinto muito.  

- Por fim, a terceira exigência: você precisa de, num ato de genuína generosidade, se desfazer de algo que lhe é muito estimado e lhe fará falta, mas será útil a outra pessoa. Feito isso, esteja aqui ao meio-dia. Não demore. Quanto mais tempo seu amado passa entre os vivos, mais difícil será devolvê-lo. E você nunca se libertará. 

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Ulaan tinha um jarro de cristal da Montanha das Cornucópias. Quem o possuísse e bebesse de sua água teria saúde para si e para seus filhos e também sogras amorosas. Quem o doasse jamais teria outro (a magia tem uma lógica que escapa à nossa compreensão). Ulaan não sabia se teria filhos ou sogras, mas conhecia a quem a jarra seria útil. 

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Se não pude revelar como trazer um morto de volta à vida, também não posso revelar como devolvê-lo ao fluxo do rio da existência. Divulgar magia exige responsabilidade.


Posso dizer, no entanto, que o encantamento começou ao meio-dia e terminou às onze da noite; que tudo deu certo. E que, exaustas, sentaram ao lado da fogueira,comeram pão, beberam vinho. A Velha Encantadora afagava uma raposa de pelo tão vermelho que refulgia à luz do fogo. 

- Quer dizer que, realmente, não há permissão mágica para trazer meu amado de volta à vida…

- Bem... na verdade sim. Por que não me conta tudo sobre ele?

Ulaan olhou espantada para a Encantadora dos Portais. Sério? Como? Falar sobre Mrtav o traria de volta, dessa vez da maneira certa?

- Sim. Por alguns momentos. Para você e para mim. Histórias são um tipo diferente de magia.

Ulaan entendeu. E começou a contar das risadas estrondosas, do abraço apertado, do sorriso irresistível, da vida cheia de vida de Mrtav. 

Essa história foi inspirada nesse post  (ao lado, uma tradução livre). Mas isso não quer dizer que não seja real...



A todos, muito obrigada pelos comentários! E lembrems-se, por mais que a dor seja grande, deixemos que o rio da vida siga seu curso. Tentar subverter o Caminho dos Mortos nunca dá certo.

Leiam tb o excelente texto de Carla Dias, Conte suas histórias, inspirado nesse post, que ela, gentil, sempre, mencionou:

http://www.cronicadodia.com.br/2021/10/conte-suas-historias-carla-dias.html

Comentários

Marcio disse…
Que final espetacular!
Mas Zoraya, você tem certeza de que a Ulaan não falou sobre o Mrtav do B, o redivivo?
branco disse…
não poderia esperar menos. a concisão, o brilho narrativo e principalmente aquilo que existe no entrelinhas de seu final. deliciosamente belo!
Érica disse…
Esse foi o melhor final dos finais..."Histórias são um tipo diferente de magia."... Realmente, não dá pra fazer voltar atrás o fluxo da vida! O segredo é vivê-la enquanto ela flui... O rio que corre hoje jamais será aquele que passou ontem.As águas sempre serão outras.. um dia mais claras, outro mais turvas... Amei muito o final dessa história!
Ah, minha linda flor... garanto que o pessoal da "Pata do Macaco" se arrependeu amargamente de não ter lido este post naquela época...

Mas está história não merece a ironia dos finais habituais, que todos nós sejamos histórias para nossos queridos e que possamos sempre nos encantar com histórias dos que serão amados para sempre!
Nadia Coldebella disse…
Ah, querida Zô! Vc sabe que uma das características q ué mais gosto em vc é a sensibilidade romântica em meio ao terror! Que história mais linda, aterrorizante, sensível e inocente! Não poderia esperar menos!

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