CONTE SUAS HISTÓRIAS >> Carla Dias

"Reading Giovanni Battista Niccolini, National Gallery of Art (Washington, DC)" by takomabibelot is marked with CC0 1.0

No armário da cozinha, ela armazena um bálsamo exclusivo para os dias em que seu corpo se torna incapaz de grandes feitos como alongamentos, caminhadas, conversa fiada na fila do banco, encontrar sem querer o vizinho do apartamento de baixo, que adora tê-la como espectadora do seu monólogo do dia.

Quando me designaram para esse trabalho, não imaginei que se tornaria uma missão. Por mais que o voyeurismo me apeteça, que eu viva dele e com ele pague as minhas contas de carma, dessa vez o arrastar desse enredo é um requisito. 

Ela mantém um ritual para o dia de consumir seu bálsamo de preferência. Um banho contraventor, pois demora mais do que deveria durante um racionamento. Paga esse pecado parcelado, porque é ótima em banhos bem tomados, porém rápidos.

Em seguida, esgueira-se por ele, o vestido-bálsamo, até que o tal se aconchegue em seu corpo. Escorrega os pés para dentro dos sapatos mais bonitos que já teve, necessariamente confortáveis. Mesmo tendo nada contra, é das sem talento quando o assunto é se equilibrar na beleza dos saltos altos. No entanto, isso ocorre somente quando se trata de sapatos. Em outros tipos de saltos, ela não encara indecisão e se joga nos braços deles, mesmo sabendo que pode dar com a cara no chão. 

Meus superiores tentaram me colocar no meu lugar. Era para ser um corretivo em forma de missão. Lidar com meu intrometimento tem sido desafiador para eles, que não são temerários a ponto de me descartar de vez.

Amarra os cabelos com um lenço que ganhou há mais de sete anos, que faz de tudo para conservar, porque não quer que ele acabe. Ela se maquia: tons neutros que não conseguem aprisionar a tenacidade da tristeza que mora nela. 

Ninguém quer se responsabilizar por dar fim à facilidade do meu envolvimento com os personagens. Sim, às vezes eu preciso lhes dar uma sacudida, antes que me matem de tédio.

Não é o caso aqui.

Ela faz a mesma coisa, na mesma data de cada ano. Ontem, sofreu tanto que quase lamentei por ela. Mas logo vi que não era o meu lamento que ela merecia. Continuei assistindo à moça feito filme e cogitei de ela ser alguém que precisa de ajuda. Acontece de eu sentir certa preguiça ao ter de trabalhar com personagens que precisam de ajuda. Imagine meus sentimentos em relação aos autores.

Aqui é diferente.

Observo a moça na sua montagem. Seria uma cena que ela escreveria sem dar a mim, sua narradora de plantão, qualquer trabalho. Ela sabe o valor das palavras para gritar insanidades que a vida oferece, a fim de vitalizar a importância da morte. 

Ela sabe mais do que eu desejaria que soubesse.

Na sala, o equipamento está sempre montado, mas funciona somente uma vez ao ano. Ela se senta no chão, o vestido desempoeirando tacos. A posição inadequada das pernas, considerando qualquer grau de bons modos. Encosta-se no sofá e abre a garrafa de uísque confiscada do armário da cozinha.

Bálsamos me perturbam.

Talvez a única vantagem dos meus superiores seja o agora que experimento. Desde ontem que estou às voltas com o silêncio na casa, quebrado somente pelo choro desgovernado e os barulhos de copos estilhaçados, após tocarem as paredes. 

Nenhuma palavra.

Ela bebe uma dose caprichada do uísque. Quando penso que irá se servir de outra, ela tampa a garrafa. 

Sento-me ao lado dela, sentindo a história me invadir. Os escritos dos autores com os quais trabalho me chegam como palavras projetadas nas paredes da minha percepção. Uma dança de trocas sem movimento, um ocorrido desabonado de detalhes. É minha função ajudar o autor a narrar o que importa para que os leitores se conectem às histórias dos personagens – de outras pessoas. Nem sempre dá certo, mas nunca me nego a fazer a minha parte.

Na parede, a projeção de imagens e filmes a faz sorrir, chorar, gritar. A saudade quase se torna a terceira pessoa no recinto; a segunda no contexto “estar aqui, mas não estar”. 

Dizem que para criar um bom personagem é preciso que o escritor acesse as próprias emoções. Ela não faz isso. Revisitar essa dor, uma vez ao ano, é a forma que encontrou para restabelecer a conexão consigo, com o sentir intensamente. No diariamente? Sentir assim seria insuportável.

Ela fecha os olhos por alguns segundos. As imagens não param de ser estampadas na parede. Ela fecha os olhos porque a dor é atroz. 

Se eu pudesse, perguntaria sobre aquela pessoa projetada na parede, contracenando com outros que parecem apreciá-la profundamente. Se eu pudesse, questionaria sobre o motivo desse ritual anual de desolação. Sim, eu sei do que se trata. No entanto, narradora que sou, gostaria de escutá-la dizer... ou observá-la escrever.

Sentada ao lado dela, assisto parte da vida de outra pessoa. Por mais que haja aspectos das vidas dos autores nas suas histórias, sou narradora de ficção, minha gente! Não sou biógrafa, psicóloga, melhor amiga. 

Ela conversa com as imagens e espera respostas que nunca chegarão. Diz que, se fosse possível, daria um jeito de trazer a pessoa de volta. Alguns tentam e até determinam que o farão em poucos dias. Consigo compreender que o desejo dela é esse, a volta de quem jamais voltará. 

Ela sabe que não há mágica de trazer pessoas de volta à vida. 

Começa a contar sobre quem foi aquela pessoa, o que aconteceu a ela de bom, de ruim, de fim. Conta a si mesma a respeito de quem não consegue se despedir.

Falar sobre quem partiu, de quem a ausência inspira uma objeção pujante à despedida e cria espaços para a saudade, é trazer essa pessoa de volta à vida, ainda que por alguns instantes.

Passado o dia de catarse, a autora voltou à escrita. Meu intrometimento tentou se intrometer o menos possível. Para o horror dos meus superiores, não foi algo infernal para mim. Aquela ficção pedia por um toque de emoção real. Ao se perguntar mais vezes sobre ausência, morte e saudade, a autora compreendeu que falar sobre quem partiu é importante, porque histórias são um tipo diferente de mágica.

Me deu vontade de uma canção.

Essa mesmo.




Imagem: Reading Giovanni Battista Niccolini, National Gallery of Art (Washington, DC) © takomabibelot is marked with CC0 1.0

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Essa história foi inspirada neste post, compartilhado comigo pela Zoraya Cesar, que sugeriu escrevermos sobre o mesmo tema.

Para ler a história dela, O ENCANTAMENTO DOS MORTOS:





carladias.com 

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Só posso me abismar de espanto ao ver o primor de texto q surgiu de um post tão singelo. Preciso dizer q amei?
Albir disse…
O metatexto se bastava, mas com suplemento musical atingiu a perfeição. É Carla Dias!
Anônimo disse…
Você é incrível Carla, amo seus textos.
Carla Dias disse…
Zoraya, minha cara... depois de enrolar toda com a proposta feita pela sua pessoa, tive de trabalhar pra entregar algo bom. Fico feliz que tenha gostado.

Ah, Albir, a música, a velha e tão importante companheira das minhas viagens interiores,

Anônimo, obrigada por ler e amar os meus textos. Eles se sentem mais felizes agora. Abraço!

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