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Mostrando postagens de Janeiro, 2014

VIÚVA NEGRA >> Zoraya Cesar

Elza sempre fora chamada de Elzinha, e não poderia ser diferente. Tão magra que mais parecia um daqueles gravetinhos que caem ao chão à mais leve brisa, e fazem crec-crec quando pisados. Era uma frágil donzela, sempre doente, tímida e feia. Não feia horrenda, mas feia feinha, sem graça e sem jeito. E esquisita também, vivia falando em magia negra, mortos-vivos, feitiçarias do Além. Acreditem em mim, Elzinha era desprovida de encantos outros que não sua inteligência e delicadeza – parecia incapaz de fazer mal a quem quer que fosse, nem carne comia. Seu destino, comentado à socapa por toda a família, era o de morrer solteirona - isso se vivesse muito, diziam.

No entanto, Elzinha tinha um encanto bastante sedutor: era rica.

E, como era de se esperar, acabou encontrando quem quisesse casar. Afinal, beleza não põe mesa, mas dinheiro sim. E porque Marcos Patrício iria se importar com o constante estado adoentado de Elzinha, seu olhar meio parado, seus dentes fora de ordem, suas manias? Ela er…

PELO DIREITO À CERVEJINHA >> Fernanda Pinho

Meu marido não toma bebida alcoólica. Refrigerantes? Gosta de poucos. Geralmente opta pelos de laranja ou por suco. Eu também vivo tranquilamente sem álcool, mas não resisto a uma cervejinha gelada num dia quente ou a uma tacinha de vinho num dia frio (usar o clima como desculpa. Quem sempre?). Foi assim que a cena se tornou um clássico em nosso relacionamento: temos o hábito de apenas um dos dois fazer o pedido quando chegamos a um bar ou restaurante. Poder ser ele, pode ser eu. Depende da disposição de cada um.Sem saber quem pediu o que, o garçom invariavelmente faz a mesma dedução: o chopp pra ele e o suco de abacaxi com hortelã pra mim (eca! Odeio abacaxi com hortelã). A gente ri e destroca os copos, sempre com o cuidado de fazê-lo diante dos garçons. Adoro ver as caras envergonhadas.
Na hora de pedir os pratos, a cena se repete. Eugosto é de carne e massa e, por mais que eu tente ousar nas minhas escolhas vez ou outra, é uma pizza com borda recheada de catupiry que faz meu cora…

ATÉ QUE A VIDA NOS AMPARE >> Carla Dias >>

Tire os sapatos, desarrume os cabelos dançando pela sala, desarrume a casa com a sua alegria, descanse olhando o mundo pela janela. Lançar-se à felicidade não se resume a sorrir para a foto, a posar para a situação, a fazer de conta que está bom como está. Lançar-se à felicidade é, primeiramente, um desafio que demanda ousadia.

A ousadia de considerar a felicidade quando tudo anda meio mais ou menos.

Como lhe deixa mais ou menos não ter o emprego que gostaria, e por isso você acumula horas de reflexão sobre como seria bom estar em outro lugar, fazendo outra coisa, sendo outra pessoa. Só posso lhe dizer o seguinte: dê uma segunda chance a um disco que você ganhou e do qual não teve coragem de escutar mais de uma música. Permita-se deslumbrar pela beleza de um fim de tarde, mesmo que o observe da janela do escritório. Beba um café fresco, porque ele sempre deixa o dia mais animado. E saiba que, talvez, seja hora de descartar a sensação de estar no lugar errado e começar, se não a aceit…

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO EM FULL HD >> Clara Braga

Muita gente talentosa vive no anonimato enquanto outros, não tão talentosos assim, são pessoas extremamente idolatradas e famosas. Vocês diriam: é Clara, a vida não é justa. E de fato não é, hoje em dia não necessariamente é reconhecido quem é bom, mas sim quem vai vender mais. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero escrever. O que eu quero dizer é que me preocupa o fato de que pessoas aleatórias estão se tornando referência para crianças e adolescentes.
Esse final de semana, enquanto assistia ao jornal, passou uma longa reportagem sobre a prisão de Justin Bieber. Já fiquei impressionada com o tamanho da reportagem, mas o que mais me chamou a atenção foi o depoimento de uma adolescente que chorava enquanto dizia: o que mais dói é saber que a pessoa que você ama está sofrendo e você não pode estar ao lado dela para segurar sua mão e dizer coisas bonitas.
Bom, eu já fui adolescente e tive minha época de "fanatismo musical". Mas meu fanatismo chegou apenas ao ponto de sa…

INVEJA E MALEDICÊNCIA >> Albir José Inácio da Silva

A inveja tem me levado à maledicência, numa combinação de pecados que muito provavelmente vai me conduzir às profundas do inferno.

Minha cara encarquilhada e minha boca murcha não param de denegrir rostos luzidios e lábios grossos, chamando-os de caras de empada e beiços de gamela, como se fossem crimes os milagres estéticos com que a modernidade nos presenteia. No fundo me consome a inveja da coragem com que esses intrépidos enfrentam os procedimentos com agulhas e bisturis, além da inveja óbvia pelas diferenças alcançadas.

Se me virem falando mal de alguém, podem procurar porque lá no fundo vão descobrir a acidez da inveja. Sou, de regra, bonachão, compreensivo, perdoo quase tudo, faço discurso bonito de compaixão. Mas se me pica a inveja, qualquer sucesso alheio vira vexame e qualquer nobreza, escândalo.

Mas minhas inveja e maledicência não se limitam às decepções estéticas que sofro no espelho. Alcançam assuntos mais sérios, como administração pública, de que eu deveria manter res…

A FARSA >> Whisner Fraga

Como em toda república, devíamos respeitar as regras aprovadas em assembleia: jamais se envolver com a diarista, não comer o último bife da panela, obedecer os mais antigos de casa, divulgar as festas do dia, não filar as guloseimas do próximo e não apelar com as brincadeiras sacanas dos colegas. É claro que honrávamos uma ou outra, de acordo com o humor do dia, e isso não causava grandes atritos. A norma mais complicada de acatar era a que dizia respeito aos doces alheios.

Íamos para casa: Ituiutaba, Caçapava, Ribeirão Preto, com certa frequência e, como todos sabem, as mães são muito parecidas umas com as outras, mudando apenas, como dizem, de endereço. Também é sabido que elas não gostam de ver seus filhos passarem fome. Assim, nada mais natural que voltássemos de casa com as malas cheias de petiscos.

A questão que surgia nos dias seguintes era angustiante: dividir a lambiscaria com os amigos ou esconder tudo e aproveitar sozinho? Vejam bem: é mais do que uma questão moral, é uma q…

O PODER DA FOFOCA >> Mariana Scherma

Ser jornalista, ter perfil em redes sociais e o simples fato de morar no planeta Terra são os principais fatores que me fazem estar sempre por dentro de algumas notícias de celebridades. Por mais que eu não queira saber, eu sei. Por mais que eu não queira comentar, de repente, solto algumas fofoquinhas e meu pai vem com uma exclamação “como você sabe desses assuntos, né?”. É, pai, eu sei. E eu também sei que ele não fica superorgulhoso desse meu tipo de sabedoria popular, enfim...
Mas vamos à questão. Como jornalista, desconfio de todas as fofocas e também acredito que onde há fumaça pode ter um show de reggae, quer dizer, pode ter fogo, sim. Por isso, quando fizeram todo aquele anúncio sobre o caso Cauã Reymond, Grazi e Isis Valverde, eu desconfiei de que era nada a ver e, depois, achei que tinha tudo a ver. Porque só porta não muda de opinião, né? Quando vi que a minissérie se chamaria Amores Roubados, achei piada pronta. Mas aí suspeitei de um complô pela boa audiência. No fundo, eu…

PODE NÃO PARECER, MAS ESSA É UMA HISTÓRIA DE AMOR >> Carla Dias >>

Pede que lhe ensine essas coisas, que hoje está com apreço pelo aprendizado amplificado. Insiste para que lhe revele a origem da pergunta certa para a resposta exata com a consequência perfeita. Disseram-lhe que bastava que ficasse aqui, mantendo cabeça e coração abertos, que talvez lhe tirassem essa dúvida, que há tempos tenta descobrir o nascedouro dessa armadilha onde se misturam adjetivos aos quais não credita importância: certo, exato, perfeito?

Parece-lhe certo, mas sem certeza, pedir algo tão importante a alguém tão diferente dele, que sempre foi cuidadoso para não pisar em devaneios, tampouco embarcar neles. Não esperava esbarrar em criatura tão silente, capaz de lhe causar um barulho interno que preferiu chamar de canção. E se admirava, a cada olhar, pela forma gentil com que conduzi as poucas palavras ditas, mesmo quando o tema era dolente.

Vem esbarrando em questionamentos, desde que seus desejos deixaram de definir certezas, que suas escolhas decidiram pela inexatidão e a…

VOU DE TÁXI >> Zoraya Cesar

Ser passageiro de táxi às vezes pode ser a solução; ser motorista, nem sempre. 
TÁXI UM – El Bigodon 
Há fases na vida de uma mulher em que ela se descuida da aparência. Maria Tereza estava deprimida por conta da associação maligna entre uma hérnia de disco extremamente dolorosa (que a obrigava a usar um colar cervical deveras desconfortável), um término de namoro e a conta bancária no vermelho. A última de suas prioridades, no momento, era a vaidade. As olheiras, provocadas pelas noites insones, estavam tão azuis quanto seus olhos; e seus cabelos louros, mechados de impertinentes fios brancos, que, aproveitando-se do estado mental da cabeça que habitavam, nasciam aos magotes.
Dizem que nada está tão ruim que não possa piorar, e que, quanto mais você reza, mais assombração aparece...
Dizem muita coisa por aí, nem todas devem ser levadas a sério.
Pois o fato é que Maria Tereza, impossibilitada de pegar transporte público, só andava de táxi. E eis que, num dia em que estava especialment…

VIDA PERFEITA #SQN >> Fernanda Pinho

Acordou atrasada e poderia ter atribuido à pressa o fato de a saia lápis 38 ter rasgado quando tentou vesti-la. Mas seria injusto com a pressa. Já havia se pesado secretamente e sabia que as festas de fim de ano lhe haviam trazido quatro quilos de volta. Optou por uma calça de cintura alta 40. A primeira que viu pela frente, já que não havia tempo para a escolha. Tudo bem. A calça também fazia um belo par com a blusa amarela de seda que estava usando pela primeira vez. Primeira e última, conforme lhe passou pela cabeça quando, ao chegar no escritório, sentiu o calor do café da mocinha do almoxarifado inundar sua barriga depois de um esbarrão inesperado. Diante do incidente, aceita emprestada de um colega uma camisa branca de malha, sem graça e masculina. Melhor que passar o dia melada de café. Tenta se concentrar no trabalho, mas sabe que não irá render enquanto não fizer aquilo. Vai ao banheiro e liga. Ele demora, mas atende. Ela despeja tudo o que havia ensaiado durante a noite de …

BARULHO >> Carla Dias >>

Sempre foi de ficar de longe, percebendo arredores, contemplando gestos que, na correria do diariamente, passavam despercebidos. Ficar de longe, não se enturmar com o acontecimento é praticamente sua profissão, mas também já lhe rendeu apelidos não muito amáveis, que finge não terem lhe ferido da forma tão profunda que o fizeram.
Do que gosta mesmo é de dia de feriado no meio da semana. As pessoas dormem até mais tarde, e a cidade fica vazia por mais tempo que uma quarta-feira comum permitiria. Quarta-feira que é feriado faz com que pule cedinho da cama, para escutar o silêncio em dia de semana que, normalmente, berra buzinas e aforismos.
Foi em uma quarta-feira de feriado que saiu para um passeio às seis horas da manhã. Sabia que teria tempo para um longo passeio, antes que a cidade acordasse de vez e fizesse barulho de feriado. Porém, bem lá no fundo, sabia que queria mesmo era espiar. E assim o fez: ponta dos pés, muita cautela para não ser descoberto, um pouco de força para se se…

TEM GLITTER NO CÉU >> Clara Braga

Na noite de ano novo, durante a queima de fogos, ouvi uma menina comentar com alguém da família dela: uau, parece até que o céu está cheio de glitter! Acho muito interessante observar esse poder mágico que as luzes, sejam as dos fogos ou as de natal que enfeitam as cidades, tem sobre as pessoas. Ficam todos encantados, observando cada momento e aplaudindo aquele em que um dos fogos estourou e clareou o céu de uma forma que mais parecia glitter mesmo.
É bem verdade que, como tudo na vida, não dá para generalizar. Tinham uns espertinhos que se aproveitavam desse momento de concentração das pessoas para atirarem cabeções perto delas e assustá-las com aquele barulho horroroso que te deixa um pouco surdo por um tempo. E tem também aqueles que se aproveitam desse mesmo momento para roubarem os pertences dos mais distraídos. Realmente, existe uma parcela um pouco menos sensível que não vai se encantar com o céu e nem com nada, mas a grande maioria, eu garanto, estava com o pensamento bem pr…

A FILHA DA MÃE >> Albir José Inácio da Silva

Jerusa posa de quem cumpriu o seu papel. Não que tenha se dedicado ou acarinhado a velha, mas tinha representado bem. Isso a deixa confortável, quase alegre, quando a última pá de terra é jogada. Óculos escuros escondem olhos secos, que passeiam pelos presentes a perscrutar-lhes os pensamentos, enquanto a voz simula emoção adequada à ocasião.

Foram doze anos aturando o mau humor e as reprimendas por causa de namorados, porque abandonou a escola e não parava em nenhum emprego. Doze anos ouvindo que gastava demais e não ajudava nos trabalhos da casa. Doze anos escutando ameaças de que tudo seria vendido e o dinheiro entregue a instituições de caridade.

Agora acabou o tormento. Já ia tarde. Dava-lhe nos nervos há tempos aquele monte de ossos entortados, aquela pele rançosa, aquele cheiro de mofo. Dali já avistava a saída do cemitério. Acabava de enterrar seu passado. Era vida nova. Sua vida e seus bens.

Um pouco à frente do cortejo percebeu olhos que a encaravam. Era Tica, a filha da vi…

UM OLHO NO AZUL DO MAR. E O OUTRO NA CARTEIRA. >> Sílvia Tibo

Quando o Brasil se candidatou a sediar a Copa do Mundo de 2014, torci muito para que fosse o escolhido, na esperança de que, em razão do compromisso assumido, nossos líderes políticos fossem obrigados a promover melhorias significativas na infraestrutura do país, o que, em médio prazo, repercutiria diretamente na qualidade de vida da população. 
Na minha mente maluca e ingênua, se, ao longo da História, pouco ou quase nada se fez por aqui, agora não restaria ao poder público outra saída. Dessa vez, nem que fosse pra posar de bonito para o mundo, o Brasil, invariavelmente, teria que evoluir. Afinal, pensava eu, país nenhum quer fazer feio num evento dessa estirpe. 
Passados mais de seis anos desde que fomos nomeados anfitriões da Copa de 2014 e a apenas cinco meses de sua abertura, o fato é que quase nada de novo (e proveitoso) se vê por aqui, além da reforma ou construção dos estádios onde ocorrerão as partidas de futebol.
Há poucos dias, na virada do ano, enquanto andava, de férias, por…