INVEJA E MALEDICÊNCIA >> Albir José Inácio da Silva

A inveja tem me levado à maledicência, numa combinação de pecados que muito provavelmente vai me conduzir às profundas do inferno.

Minha cara encarquilhada e minha boca murcha não param de denegrir rostos luzidios e lábios grossos, chamando-os de caras de empada e beiços de gamela, como se fossem crimes os milagres estéticos com que a modernidade nos presenteia. No fundo me consome a inveja da coragem com que esses intrépidos enfrentam os procedimentos com agulhas e bisturis, além da inveja óbvia pelas diferenças alcançadas.

Se me virem falando mal de alguém, podem procurar porque lá no fundo vão descobrir a acidez da inveja. Sou, de regra, bonachão, compreensivo, perdoo quase tudo, faço discurso bonito de compaixão. Mas se me pica a inveja, qualquer sucesso alheio vira vexame e qualquer nobreza, escândalo.

Mas minhas inveja e maledicência não se limitam às decepções estéticas que sofro no espelho. Alcançam assuntos mais sérios, como administração pública, de que eu deveria manter respeitosa distância, recolhendo-me à bagatela, em vez de sair por aí reclamando de coisas que deveria aplaudir, como os trens, por exemplo.

Para quem não é do Rio, devo informar que os ônibus não são melhores que os trens. Ambos transportam pessoas como se fossem gado, com temperaturas de forno crematório, em carros velhos, sujos e perigosos, que não respeitam horários nem pessoas. Mas os empresários desse setor contam com poderosos lobbies que se infiltram nas casas legislativas, impedem comissões de inquérito e garantem a continuação do descalabro. São intocáveis em seus lucros, mas sempre perdoáveis em seus desatinos.


Diga-me, leitor, existe ato de maior coragem para um administrador público, candidato às próximas eleições, que declarar alto e bom som que “está muito satisfeito com a Supervia”, um serviço que ele deveria fiscalizar, que maltrata e humilha centenas de milhares de eleitores todos os dias?

É preciso ter muita fibra. Porque seria mais fácil fiscalizar, punir, descredenciar, cassar, proscrever da contratação com o poder público, já que assim contaria com apoio do povo, teria respaldo legal, cumpriria com o seu dever e, sobretudo, atenderia à moral e à dignidade. Mas não. Ele faz o mais difícil.

E são esses gestos assim, ousados, grandiosos e despojados - ele não pensa nem na própria eleição - que deflagram minha inveja e maledicência. Maledicência de que esta crônica é exercício, como você já percebeu.

Tive cólicas com a coragem demonstrada pelo senhor vice-governador ao vir a público defender a incompetência e elogiar quem deveria punir. Sempre ouvi que suicídio é pecado e covardia. Por isso, só de mim pode partir a sugestão pusilânime para que o ilustre governante se desculpe à moda japonesa nos casos de desonra: o haraquiri.

Mas o verdadeiro, o de faca nas tripas. Porque o político ele parece que já tentou.

Comentários

Zoraya disse…
Textaço, aço, aço, Albir. Deveria ser colocado em todos os outdoors da cidade. Lavou minha alma. Valeu.

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