quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PODE NÃO PARECER, MAS ESSA É UMA HISTÓRIA DE AMOR >> Carla Dias >>


Pede que lhe ensine essas coisas, que hoje está com apreço pelo aprendizado amplificado. Insiste para que lhe revele a origem da pergunta certa para a resposta exata com a consequência perfeita. Disseram-lhe que bastava que ficasse aqui, mantendo cabeça e coração abertos, que talvez lhe tirassem essa dúvida, que há tempos tenta descobrir o nascedouro dessa armadilha onde se misturam adjetivos aos quais não credita importância: certo, exato, perfeito?

Parece-lhe certo, mas sem certeza, pedir algo tão importante a alguém tão diferente dele, que sempre foi cuidadoso para não pisar em devaneios, tampouco embarcar neles. Não esperava esbarrar em criatura tão silente, capaz de lhe causar um barulho interno que preferiu chamar de canção. E se admirava, a cada olhar, pela forma gentil com que conduzi as poucas palavras ditas, mesmo quando o tema era dolente.

Vem esbarrando em questionamentos, desde que seus desejos deixaram de definir certezas, que suas escolhas decidiram pela inexatidão e a perfeição da justificativa sobre os sonhos cultivados ficou embaralhada. Fez-se de desinteressado em si, permitindo ser levado pelas decisões alheias. E não tardou até se sentir ocupado somente por dúvidas e esperas.

Disseram-lhe para não duvidar do dito, que havia nela a capacidade indubitável de desvendar abismos particulares. Por isso tentou acessar a tranquilidade quando ela se curvou sobre ele, para lhe assoprar palavras no ouvido: “um pouco de paciência pode aquietar algumas urgências”. Só que o coração desembestou a bater em um aceleramento daqueles que faz uma pessoa pensar que todos estão escutando a batucada.

A forma como se apoiou em seus ombros apenas serviu para agitá-lo ainda mais interiormente. Tentou pensar nas tardes que costumava passar com seus sobrinhos, jogando bola e conversa fora, rindo de bobagens dóceis. Por um instante, abraçou aquela lembrança, emocionou-se com ela. Embarcou na melancolia dos que arquivaram os melhores momentos em um lugar tão escuro de si mesmos, que eles pareciam inventados. Mas só até ela lhe tocar a face, de jeito que pudesse olhar nos olhos dele. Daí o batuque voltou ainda mais cheio de energia, escandaloso na sua alegoria. E ela sorriu, e ele sentiu uma agonizante vergonha, certo de que ela escutara tudo que seu coração dissera.

Nesse tudo, ele sabia que cabiam os dias em que desacreditou, quase que absolutamente, a importância da sua existência. Para que servia um homem que não tinha a habilidade das construções, que se arrastava à sombra da felicidade de outros? Um homem tão certo de que merecia muito da vida, enquanto fazia tão pouco por ela. O centro, o ponto nevrálgico, o absolutismo, a intensidade desmedida estrangulando a leveza.

Disseram-lhe que seria assim, um despertar que reviraria meu dentro. Uma jornada interessante para um homem desinteressado pela vida. Interessante e repleta de nuances, que suas mãos tremem quando ela as segura entre as dela, enquanto entoa uma canção da qual ele não entende uma palavra. Sua voz é miúda e desafinada, ainda assim, evoca a beleza dos que cedem tempo e sorrisos ao outro, ao necessitado de presença e alegria.

Ela conta a ele uma breve história, da qual ele não entende muita coisa, ocupado que está a passear o olhar da boca aos pés nus dela. E sente um prazer inédito ao percebê-la lhe oferecer sabedoria e diligência – o que ele estava ali para receber -, enquanto ele só pensa em como seria se pudesse aninhar seu corpo no dela, em um abraço desancorado do tempo, que poderia durar a tarde toda, esbarrar na noite, atravessar a madrugada, esticar-se pela eternidade.

Imaginar é arte que para ele andava adormecida. Agora desperta, ela faz com que ele sinta, pela primeira vez em muito tempo, que vazio é para ser preenchido, e de preferência com a felicidade.

Se ela conseguiu desvendar seu abismo particular, ele realmente não sabe. Mas com certeza ela saltou nele, voltando à superfície com possibilidades que ele não saberia identificar sozinho. Disseram-lhe que muitos a procuram buscando ajuda para curar seus desesperançados espíritos. O dele ainda carece de remendos, mas ele não se assusta mais com isso. Amanhã ele voltará para escutar o que ela tem a dizer. E mesmo com o olhar indócil, e um tanto deslumbrado com a sinuosidade do amor, agradecerá aos deuses e aos mestres, enquanto a deseja cada vez mais tempo ao seu lado.





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3 comentários:

albir disse...

Seus textos sobre encontros são feitos para serem assistidos.Dá vontade estar presente.

cronica tijucana disse...

cara carla dias

por falta de tempo pouco apareço por aqui
mas
quando apareço me deparo com estes textos de gente grande que me emociona.

muiiiito bom!

enio.

Carla Dias disse...

Albir... Acho que é porque, ao criá-los, sinto-me vivendo a situação :) Um beijo.

Enio... Sempre feliz em recebê-lo. Obrigada pela leitura, por voltar sempre que pode. Grande abraço.