domingo, 12 de janeiro de 2014

UM OLHO NO AZUL DO MAR. E O OUTRO NA CARTEIRA. >> Sílvia Tibo


Quando o Brasil se candidatou a sediar a Copa do Mundo de 2014, torci muito para que fosse o escolhido, na esperança de que, em razão do compromisso assumido, nossos líderes políticos fossem obrigados a promover melhorias significativas na infraestrutura do país, o que, em médio prazo, repercutiria diretamente na qualidade de vida da população. 

Na minha mente maluca e ingênua, se, ao longo da História, pouco ou quase nada se fez por aqui, agora não restaria ao poder público outra saída. Dessa vez, nem que fosse pra posar de bonito para o mundo, o Brasil, invariavelmente, teria que evoluir. Afinal, pensava eu, país nenhum quer fazer feio num evento dessa estirpe. 

Passados mais de seis anos desde que fomos nomeados anfitriões da Copa de 2014 e a apenas cinco meses de sua abertura, o fato é que quase nada de novo (e proveitoso) se vê por aqui, além da reforma ou construção dos estádios onde ocorrerão as partidas de futebol.

Há poucos dias, na virada do ano, enquanto andava, de férias, por Salvador, dei de cara com a Arena Fonte Nova, que, se nas visitas anteriores à cidade me passou quase despercebida, dessa vez, prendeu toda a minha atenção por alguns minutos. 

O estádio, sem dúvida, está lindo! Finamente reformado, estrategicamente posicionado sob o sol contagiante e esplendoroso da Bahia, a uma distância curtíssima da areira do mar. Prontinho, enfim, para recepcionar, com todo o requinte que se espera, os jogos importantes que ali ocorrerão. 

Mas o turista que, como eu, resolver estender o trajeto pela cidade, indo além da visita à Fonte Nova e chegando até o Centro Histórico, para encher os olhos com o belo artesanato vendido no Mercado Modelo, vai se espantar com a situação de abandono em que se encontra a maior parte dos prédios da região, que é um dos principais pontos turísticos de Salvador. 

Se, não satisfeito, o turista corajoso optar, ainda, por pegar a (desorganizada) fila do Elevador Lacerda, dirigindo-se à Cidade Alta, será, sem dúvida, premiado com uma vista estupenda do mar. Mas, para apreciar a bela paisagem, precisará, de algum modo, cerrar as narinas, a fim de suportar o mau cheiro que exala por todos os lados. E é bom também que mantenha um olho no azul do mar e o outro na carteira, pelo bem de sua saúde financeira. Afinal, o que não faltam por ali são espertinhos de plantão, prontos a atacar gringos distraídos, enquanto os convencem a tirar uma foto com a moça fantasiada de baiana. E quando não os atacam diretamente, avançando sobre seus bolsos, dão um jeitinho de agir de outras formas, triplicando, por exemplo, o preço da água mineral, que, se para um nativo custa dois reais, para o branquelo de olhos azuis e língua enrolada não sai por menos de seis. Extorsão explícita!

Não tenho intenção alguma, aqui, de denegrir a imagem da Bahia, Estado em que, por sinal, passei a maior parte da minha infância. Até porque cenas como essas não acontecem apenas em Salvador. 

O descaso com o patrimônio público, a violência direta ou disfarçada e o desrespeito ao turista são problemas que, em maior ou menor grau, existem em todo o território brasileiro e, inclusive, são noticiados frequentemente em rede nacional. 

Que o Brasil foi agraciado com belezas naturais, sol estonteante na maior parte do ano e gastronomia incrível não é novidade pra ninguém. Mas daí a querer varrer pra debaixo do tapete toda a sujeira que assola o país, passando para o mundo a falsa imagem de que por aqui vivemos bem e felizes, e, ainda, de que estamos aptos a receber o turista com educação e decência, é outra história.  

Pra mim, felicidade rima com dignidade. Que não rima, mas combina com segurança, com escola, com hospital, com metrô, com estradas transitáveis, com o uso adequado do dinheiro público. E não tem nada a ver com suntuosos estádios de futebol, que, em si mesmos, não representam qualquer benefício social.  


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3 comentários:

albir disse...

Parabéns, Ana, pelo texto. Continue traduzindo prá nós esses malfadados preparativos e dando voz à nossa indignação.

albir disse...

Parabéns, Ana, pelo texto. Continue traduzindo prá nós esses malfadados preparativos e dando voz à nossa indignação.

Juraci disse...

Excelente sua abordagem dos preparativos da Copa.
É o reclamado padrão Fifa que falta para os nossos serviços públicos.
Parabéns, filhota.