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Mostrando postagens de Maio, 2016

NÃO É SÓ, MAS É TAMBÉM >> Clara Braga

Fui lá e fiz! Completei meus primeiros 21km na meia maratona do Rio de Janeiro.

Parece muito, e realmente é, mas é tanta coisa envolvida que é até difícil explicar.

Não é só pelos 21km, é pela paisagem maravilhosa do sol nascendo no mar enquanto as ondas batem nas pedras e você está ali para presenciar.

Não é pelos 21km, é pela vontade de estar com aquelas pessoas que têm um objetivo em comum e que se apoiam a cada km, seja da prova, dos treinos ou de qualquer outro momento necessário.

É pela sensação de superação, de adrenalina.

Não é pelos 21km, é por cada treino que foi difícil de completar por menor que ele fosse, mas a gente vai aprendendo a não desistir.

Não é pelos 21km, é por cada momento que o corpo quis desistir, avisou que não estava aguentando, mas a cabeça foi mais forte e fez o corpo seguir em frente mais um pouco.

Não é pelos 21km, é pelos 5km, pelos 10km, pelos 15km que um dia pareciam impossíveis de serem alcançados.

É pelo aprendizado de que impossível pode ser um co…

SOBRE FAZER CAFÉ E MEDITAR >> Cristiana Moura

Penetra-me as papilas gustativas ao mesmo tempo em que escorrega-me corpo a dentro. Aqueço-me do líquido negro. Aconchego-me em seu sabor, em seu aroma, em seu frescor. Por um instante cerro os olhos e ainda o sinto lá no fundo da língua, como se quisesse ser um chocolate dos mais amargos. Não. Compará-lo deve ser coisa de memória pessoal. Ele não quer ser. Café é café. Um prazer negro, aromático, longo.
— Um expresso por favor!
Até agora há pouco, este era um pedido cuja resposta me parecia simples. Alguém aperta um botão e o café sai da máquina mágica. Por passatempo decidi fazer um curso de barista. Já que tomo frequentes cafés, por que não fazê-los?
Ah, a máquina não faz parte de uma fábula. Há de se conhecer o café. Há de saber moer. E para tanto é preciso saber o tempo certo, encontrar a textura desejada e a quantidade minuciosa. São de dezoito a vinte gramas para um café expresso. Minuciosidade esta escondida do cliente. Há de prensar com a força exata o café já moído. Só entã…

CÓDIGO MATERNO >> Paulo Meireles Barguil

No final do dia, para fugir do calor confinado nas casas, muitas pessoas iam para a praça, o que possibilitava que as crianças gastassem um pouco da sua infinda energia.

Dentre elas, estavam Maria e sua filha Emília.

Instantes depois de chegarem à praça, a menina pediu à sua genitora:

— Eu posso ir brincar com a Glaucinha? — apesar do receio no veredito, ela acreditava que seria positivo, pois a convidada era filha do dentista da família.

— Pode ir — respondeu a mãe, sem demonstrar qualquer contrariedade.

Depois de poucos minutos, Maria chama a rebenta e anuncia:

— Vamos voltar agora para casa!

A criança a obedeceu, mesmo sem entender o motivo do retorno tão prematuro ao lar.

Quando chegaram em casa, a mãe explicou para Emília:

— Quando eu disser "Pode ir" é porque não pode ir!

— Eu não sabia! E qual é a sua resposta quando eu puder ir? — indagou-lhe a atônita criança.

— Vá!


[Crônica dedicada à minha avó materna, Maria Nunes Meireles, a mãe da história]

SÓ ACHO >> Mariana Scherma

Eu acho que você anda lendo pouco e sendo ignorante em todas as suas publicações. Quando você se refere à presidenta Dilma, eleita pela maioria do povo, de vagabunda, você perde qualquer direito de retórica. Você também me faz começar a pensar em unicórnios nessa hora, porque eu não vou perder meu tempo discutindo com quem gosta de ser ignorante. A verdade é que você fica no rasinho da discussão política e acha que todo o mal envolve só o PT. O PT fez cagadas, sim. Mas você fez mais e mais fedida ao apoiar um governo só de gente corrupta.

Eu acho que você, pessoa da classe C, D, E... Z, não está percebendo que este governo ilegítimo não foi pensado em você. Diminuição do SUS. Cortes no Minha Casa, Minha Vida. Mensalidades para universidades públicas. Passaportes diplomáticos para pastores. Cortes na Educação. Se você tem casa própria e plano de saúde, desculpa, mas se não tem... Repense. Você não está sendo nada beneficiado. Andam fazendo no governo uma festa estranha com gente esquis…

SALA ESCURA >> Carla Dias >>

Houvesse alguma divindade disposta a atender desejos apimentados pela necessidade de saber a respeito, esse contemplador que sou — e que não tem mais o que fazer, a não ser cultivar curiosidade sobre o que não lhe cabe mudar — a tiraria de lá.

Daquele lá onde ela resiste, pausando acontecimentos no ponto em que eles deveriam enveredar pela mudança necessária. Eu sei, atento que sou aos detalhes, que mudanças também podem ser tratadas como item cosmético, apenas para se ajeitar aqui e ali, até que a coisa toda fique aprazível aos olhos, e o resto dos sentidos que se danem. Porém, não é o caso...

Ela vive em sua caixa, como se fosse boneca à espera de se tornar presente para alguém que a tirará desse lugar ao qual pertence em solidão de dar nó. Quando sai para tomar ar, age como personagem em episódio de série estrangeira, som original, sem legenda, assistida em televisor de tubo, valendo-se da falta de tecnologia para se esconder dos olhares, do pertencimento a um mundo de pessoas que…

UM OUTONO CATARINENSE >> André Ferrer

Três ou quatro horas antes, em plena madrugada, havia tirado o último peixe da grelha. Entrou, puxou um dos bancos e sentou diante da churrasqueira onde, aqui e ali, a brasa permanecia viva. Por este motivo, a temperatura estava tão agradável na cozinha.
Era sábado e os amigos voltariam, em torno das nove, conforme o combinado.
A ideia partira de Chris, o filho do senhorio. Edu, que morava no térreo, arvorou-se de pronto, desceu as escadas e trouxe os seus apetrechos. Luís Bernardo concordara, mas agora, com o corpo bem aquecido, julgava ter sido uma estupidez. Após vinte dias, a primeira semana livre de avaliações na faculdade estava para começar. Haveria um bom intervalo antes das últimas provas semestrais, no final de junho, e ele já tinha planos para aqueles dias frios.
Luís Bernardo se levantou e espalmou as mãos na tepidez agradável do braseiro. Em seguida, abriu a janela e admitiu que o frio sentido, há pouco, entre o quarto e a cozinha — e também na rápida escala no banheiro —, …

COMO ESCAPAR DESTE MUNDO (01): JOGOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Nasci a fórceps. Isso talvez explique minha resistência a este mundo e minha vontade de escapar. Esta é uma forma de ver a minha vida: uma série de tentativas de escapar deste mundo. Comecei pelos jogos, depois descobri os filmes, os livros, a matemática, a música, as paixões, a espiritualidade, o sono, a morte, a astrologia, o futuro, o saudosismo e outras coisas que devo estar esquecendo no momento.

Vou tentar recuperar uma pouco dessa trajetória de tentativas de fuga. Em si, esta recuperação de memória é também uma tentativa de fuga: escrever sobre o passado com um fone de ouvido gotejando anestésica música em minha mente é uma fórmula infalível para escapar por alguns minutos. Começarei pelos jogos...

Minhas memórias mais antigas envolvem jogos.

Lembro de jogar damas e firo com tabuleiros artesanais, feitos por minha avó, e talvez também por uma de minhas tias, desenhados em grosso papelão, tendo tampinhas de tubo de pasta de dente ou mesmo caroços de feijão e de milho como peças.

NA PROFESSOR MOREIRA >> Sergio Geia

No 327 da Professor Moreira existe um prédio largo, vistoso, com muitas janelas, pintura nova, piso de granito, flores, jardim e um brasão. Na frente, um letreiro informa de que se trata tão pomposo imóvel: Mitra Diocesana de Taubaté.

Há uma mesa logo após a porta de entrada, uma funcionária bem vestida carrega pastas; deve cuidar da burocracia da igreja. Há também uma placa, um pouco menor, com o horário de funcionamento: das 8:00 às 12:00 horas e das 13:00 às 17:00 horas; uma boa garagem; grandes portões cerrados.

Lembro-me de que ali funcionava um pensionato de freiras, cujos quartos, amplos e aprazíveis, eram alugados para moças estudantes que chegavam a Taubaté, atraídas por faculdades. Ali encontravam um teto decente; para pais e família, decente e gerenciado por freiras, o que é bem melhor.

O prédio fica numa região privilegiada, com fundos para a Professor Moreira e frente para a Praça Santa Teresinha. A poucos metros dali está a faculdade de medicina, a faculdade de educação…

A BOA SOGRA >> Zoraya Cesar

O rapaz caíra doente de repente. A prostração foi num crescendo até que passou a não reconhecer as pessoas ou a andar e comer sozinho, numa estranha e inexplicável inconsciência.
Os médicos desistiram, era mais uma daquelas doenças sem nome, sem lenço e sem documento que surgem do nada e desaparecem junto com a vida do desinfeliz. 
Assim que o rapaz apresentou os primeiros sinais de decadência, sua mulher entrou em pânico, não estava acostumada a lidar com doenças. Monica chamou a doce sogrinha para morar com eles e ajudá-la a cuidar do acamado — remédios, alimentação, higiene, atenção e o que mais fosse. Esse acerto trazia duas grandes vantagens à Monica: a consciência tranquila de ver o marido bem cuidado; e a liberdade de viver a vida. Pois era jovem, bonita e rica. E, embora gostasse dele, não estava muito disposta a passar o resto da vida ao lado de um enfermo que sequer a reconhecia. 
Decidiu esperar alguns poucos meses antes de se separar, ou pegaria mal, socialmente falando, aban…

CULPA DA ADÉLIA PRADO >> Analu Faria

São meus dias de Adélia. Olho o moço sem paletó — nunca o vi sem paletó — e penso: põe de volta, moço, põe de volta...

Sem paletó, o moço mostra a tatuagem mal escondida por uma camisa. E tatuagem costuma arredondar meu quadril. A aliança no meu dedo é de ouro, brilha até quando eu não quero.

Imagino Adélia vendo o moço que acaba de almoçar . Adélia é de Minas, como eu. Adélia vai à igreja e olha moços, como eu. Adélia, sempre fascinada pelo divino, como eu também sou.  Adélia, que tem coração de cadela, como eu tenho.

Um dia vou encontrar Adélia. Quero perguntar se Adélia também é tímida como eu e se consegue conter Eros e Tânatos dentro dela. E se sim, como o faz. Quero saber se Adélia acorda descabelada e xingando a si mesma por ter preferido aquele corte de cabelo totalmente errado para quem tem a juba volumosa. (Procuro fotos de Adélia na Internet, para conferir se tem cabelos volumosos.) Quero saber se Adélia fica olhando os próprios pés e se perguntando como conseguem resistir …

MAIS SIMPLES >> Carla Dias >>

A vida anda mais complicada do que nunca. Quer dizer, nós andamos mais complicados do que nunca. Mesmo quando optamos pela simplicidade, baseados na lógica, no que se mostra, cometemos lá nossas complicações.

Complicar faz parte de nós.

Até buscar pela simplicidade complica tudo. Se tivermos de repensar quem somos e as escolhas que fizemos. Se tivermos de aceitar que a ideia que tínhamos sobre determinado aspecto da vida não está bem embasada e pede por reflexão e mudanças. Se tivermos de lidar com os erros que cometemos, na maior clareza, então que o processo que deveria simplificar tudo se tornará bem complicado.

O que aconteceria se aceitássemos que complicamos, mesmo quando a questão é simples?

Eu sou das que complicam o simples. Sofro por antecipação, quero eu mesma resolver o que não dá para resolver sozinha, principalmente porque não quero dar trabalho ao outro. Sou ansiosa a respeito do que acredito ser óbvio para qualquer ser humano quando se trata de direitos e deveres. Não…

SOBRE TRABALHAR COM CRIANÇAS >> Clara Braga

Sempre ouvi aquele clichê de que se aprende muito com crianças. Que demora muito até que a gente tenha maturidade suficiente para se deixar ser um pouco criança. Bom, por mais bonito que eu achasse esse discurso, esse é um daqueles clichês que é difícil entender quando você não passa pela experiência.

Só depois que eu comecei a conviver com crianças diariamente no meu trabalho foi que eu entendi que sim, todos deveríamos deixar nosso lado criança aparecer mais.

Com meus alunos, eu aprendi as lições mais básicas da vida, mas que a gente insiste em deixar de lado. Por exemplo, se alguém te pede desculpas e você aceita, é porque você de fato desculpou a pessoa. Parece óbvio, mas nem todo adulto consegue agir assim. Temos a mania horrível de ficar ruminando aquilo que a pessoa fez até nem lembrarmos direito o que nos deixou chateados. Crianças pedem desculpas e vão brincar. Por que elas brigaram? Não importa, é passado.

Segunda lição: eu tenho direito de estar triste. Todo mundo tem probl…

PLACAS >> Albir José Inácio da Silva

Um apetitoso naco pode significar não um deleite ao paladar, mas a morte, se pensarmos em caça e pesca. Belas e escorreitas palavras podem ser armadilhas que escondem interesses e perigos só revelados quando já é tarde para qualquer defesa.

Se alguém de troça, má-fé ou santa ignorância, considerando possível tamanha ingenuidade, trocasse a placa da jaula do leão por uma onde se lesse gato, quem entraria aí com um pires de leite na mão?

Mas o que é óbvio quando falamos de feras e animais domésticos pode não ser tão simples se pensarmos em ideologia e manipulação. O nazismo não convenceu milhões de pessoas por seu conteúdo, execrável sob qualquer interpretação, mas por sua forma, por sua embalagem, sua retórica.

É obvio que o nome está contido na retórica.  Por má-fé ou inocência, é comum encontrarmos afirmações de que Hitler era de esquerda porque o nome do partido era Nacional Socialista. Isso não é casca de banana acidentalmente caída na rua da história.

É placa que foi colocada, e t…

SE A DILMA FOSSE EU >> Eduardo Loureiro Jr.

Mal a presidente Dilma foi afastada, a hashtag #SeEuFosseADilma estourou no Twitter. Se os internautas brasileiros fossem a Dilma, fariam as coisas mais esdrúxulas no Palácio do Planalto: desceriam a rampa de patinete, mudariam a senha do wi-fi, demitiriam todo mundo, dariam cotoco para as câmeras de televisão, começariam uma guerra bruxa e resolveriam o assunto na base da varinha, etc.

Divertido, sem dúvida, mas fiquei me perguntando o que a Dilma faria, em 140 caracteres, se fosse eu...

#SeADilmaFosseEu, acordava sem despertador, se espreguiçava um pouco na rede, dormia um pouco mais na cama e só então levantava.

#SeADilmaFosseEu, bebia um copo d'água, comia uma laranja, esquecia do regime e comia também uma tapioca.

#SeADilmaFosseEu, não acessava mais sites de notícias. Acabou, acabou, ia cuidar da vida.

#SeADilmaFosseEu, ia à praia: pegava o avião presidencial e vinha curtir os verdes mares aqui no Ceará.

#SeADilmaFosseEu, fazia um programa com a família e com os amigos sem fa…

CIFRANAVA: UMA GRANDE AVENTURA
>> Paulo Meireles Barguil

Entre frutas e bichos, o Homem, há milênios, aprendeu a representar o que tinha.

Em cada sociedade, distintos símbolos e modos para fazê-los e agrupá-los.
Alguns desses são ainda conhecidos.

No Ocidente, prevalece, após vencer o Sistema Romano numa secular batalha — epistemológica e com fortes pigmentos religiosos —  aquele que foi criado pelos Hindus e difundido pelos Árabes, motivo pelo qual é nomeado como Sistema Indo-Arábico.

Sua aprendizagem é motivo de sofrimento para muitos e de júbilo para poucos.

Os mestres, infelizmente, na maioria das vezes, em virtude dos seus fragmentados e, por vezes, confusos conhecimentos, não auxiliam os estudantes na aprendizagem desse fantástico produto cultural, cuja autoria é coletiva.

Algarismo, numeral e número: afinal, o que é cada um?

Ah!, você nem imagina o embaraço cognitivo e o pedagógico do professor diante desses conceitos.

E o que balbuciar, então, sobre a mistura que acontece nas crianças?

Essas, entre cópias e recitações, vão entenden…

PSIU! SILÊNCIO >> Mariana Scherma

Medo de ficar sozinho é fato que muita gente tem. Eu tenho. Aquela história de passar a velhice sem ninguém e, em um dia, sair dessa pra melhor e só ser descoberto depois de uma semana por conta do cheiro. Não queria começar depressiva, mas talvez seja bom causar um impacto. O negócio é que ter medo da solidão, ok. Mas sentir medo do silêncio, ah, não. Eis um medo desnecessário. Mas aí vem você falar: não tenho medo do silêncio — nem conheço alguém que tenha. Será?

Vamos testar. Você está em uma fila, não conhece ninguém e começa a falar coisas aleatórias (tá calor, tá frio, e essa chuva, e o impeachment, tá tudo caro no supermercado...)? Ou você se senta na sala de espera de um médico e começa a ligar pra toda sua lista de contatos para tratar de assuntos nada importantes (sim, porque não dá pra ficar parado pensando na vida ou folheando uma revista de 2007, melhor é falar um monte sobre nada)? Você está no banheiro da academia tomando banho e começa a destilar seu rol de assuntos al…

DISTRAÇÕES | 3 DE 3 | ELES >> Carla Dias >>

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE DISTRAÇÕES | 2 DE 3 | ELA
ELE | Sentado na cama de quarto de hotel, olhando para o chão, a respiração revelando o ritmo de quem se perdeu no caminho. A mãe tem dito, sempre que o filho dá sinais de cansaço, que acontece sim de as escolhas nos escolherem. Que pensar que somos donos de todas as escolhas que fazemos é renegar as influências que sofremos a cada dia. Elas nem sempre cabem no nosso desejo por sim. Acontece de sermos contra ao que nos acontece, apesar de serem resultado das nossas escolhas.

Ele não escolheu ser esse homem sentado em cama de quarto de hotel, sofrendo de taquicardia, porque tem crises de pânico a cada palestra. Aliás, como chegou até aqui? Seu pai, se fosse vivo, diria que ele pegou a sua capacidade de ser falastrão na sala de estar de casa e levou para os palcos do mundo. O que ele não sabia, era do quão difícil seria olhar nos olhos de tantos e ao mesmo tempo. E ter de escutar suas histórias, algumas impossíveis de se imaginar como p…

A SALVADORA DANÇA ACROBÁTICA >> André Ferrer

Joaquim catava material reciclável nas ruas. Há dois meses, ainda era o Mickey. Depois, as coisas mudaram, conforme ele tentava explicar para o senhorio, que também administrava a Lancheria Satisfaction.

"Garçom. Posso trabalhar aqui em troca do aluguel."

Do outro lado da rua, doze jovens aguardavam numa fila. Vinte e quatro pés equilibrados numa tira de sombra. Às três da tarde, o sol não perdoava.

O dono da Satisfaction coçou o queixo.

"Queira me desculpar", disse o homem. "Dois meses de atraso. Eu sinto muito, Quim."

O ex-Mickey assentiu.

"Tudo bem. Assim que arrumar o dinheiro, pago."

"É como eu disse: você pode pagar quando puder. Apenas, agora, preciso do lugar desocupado."

Joaquim sinalizou com o polegar e caminhou até a porta. Rubens, o ex-patrão, naquele exato momento, dava as caras do outro lado da rua. Como um pastor, apascentou metade dos candidatos até a entrada do seu escritório. Os outros ainda lá fora. Imediatamente, ou…

A MORTE >> Sergio Geia

A morte andou a me espiar. Primeiro na padaria. Cheguei, sentei na única mesa vazia, uma mesa de canto, escura, apertada, chamei a mocinha. Estranhei o movimento. Frequento a padaria regularmente e nunca esteve tão cheia. Sempre encontro mesas vazias, tranquilidade, ou mesmo o balcão, que bem me serve. Naquele dia, porém, não. Tudo tomado. A mocinha que sempre me atende veio como a notícia: “É o velório”, ao que prontamente respondi: “Ah, sim, o velório. Que Deus o tenha”. Havia um morto a me atrapalhar o café. A família, que de morta não tem nada, tratou de encher a barriga.

No dia seguinte, de novo na padaria. Em outra, agora, na Praça Felix Guisard. Não estranhe, honrado leitor, não estranhe. Sou assim mesmo: um frequentador de padarias. Em alguns dias, tomo café aqui em casa; porém, na maior parte deles, saio pra caminhar e encerro na padaria. Muitos ralham: “de que adianta caminhar?”; porém, nada sabem. Tudo é questão de comedimento. Sejas comedido e terás o mundo. Não mergulho …

O JARDIM MALDITO >> Zoraya Cesar

Combinamos, minha prima e eu, de nos isolarmos de tudo e de todos, num derradeiro e desesperado esforço para passarmos em nossas provas finais para a magistratura.  
Foi assim que alugamos uma casa no cimo da serra, na qual chegamos depois de rodar por horas em uma estrada de terra meio barrenta e movediça. À medida em que nos aproximávamos do local, desapareciam as casas, os pastos, as plantações e as almas vivas, até que, nos últimos quilômetros, só havia matagal e sombras.
Chegamos nessa hora, a hora das sombras, quando o Sol recolhe apressadamente seus últimos raios, como se ameaçado estivesse a dar logo espaço à noite faminta. 
Acendemos os faróis para enxergar o portão, de madeira leve e apodrecida. Ao empurrá-lo, minha prima escorregou, caiu de joelhos e xingou alto. Sua voz espraiou-se pelo ar parado, qual asas negras de corvo, e quebrou o silêncio de maneira tão abrupta, que me arrepiei toda. 
Iluminada pelos faróis do carro, a casa assemelhava-se a uma velha de olhos vazados e b…

A FOFA>> Analu Faria

Detesto ser chamada de “fofa”. Eu sei que a maioria das pessoas diz isso para elogiar. Vá lá: ser fofa é um elogio. O problema é que toda vez que alguém me diz que sou fofa, imagino que a pessoa que me elogiou me vê como uma bola fofa de algodão doce ou como aquele bonequinho da Michelin. É engraçadinho, divertidinho, docinho, tudo inho. Na sociedade capitalista, ser chamada de fofa é mal sinal.

Não consigo evitar. Não posso “desouvir” o “ai, que fofa!” direcionado a mim. Mais ainda: aparentemente, não consigo evitar um quê de fofura em muito do que faço. É claro que tenho um lado que às vezes dá um coice aqui, outro lá, mas estes são raros. O que me sai pelos poros mesmo é esse irritante vomitar de arco-íris, um troço perene, grudado à alma.

Como nesta vida quem tem um megafone para o ego é rei, os “fofos” como eu geralmente são vistos como “inhos” mesmo. Em áreas em que é preciso dinamismo e atitudes fortes, precisamos provar nosso valor dez vezes mais que a categoria dos humanos nã…

DISTRAÇÕES | 2 DE 3 | ELA >> Carla Dias >>

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE

Muito acontece ao seu redor. Nada tem realmente a ver com ela. Tudo a influencia, pouco lhe cabe.

Sacode o casaco, que pela manhã era inverno, mas agora: verão.

As pessoas a observam, talvez por ela atrapalhar a passagem, o que desperta efêmera curiosidade. Alguns comentarão a respeito com os colegas de trabalho: que doida! Naquele chão imundo! Como se tivessem presenciado o mais profano dos pecados.

Ela acredita que alguns pecados fazem bem à saúde.

A irmã anda inconformada. Suplicou para que ela se consultasse com um psiquiatra bem-apessoado, rico e, de quebra, ótimo profissional. Ela declinou, com toda amabilidade, alegando que psiquiatra é o tipo de bom-partido que ela própria prefere escolher, já que será para seu usufruto, e ela que pagará a conta.

Até há pouco tempo, sua vida era alinhada com as expectativas da família e da sociedade. Isso fazia bem à família e à sociedade. Comportava-se com elegância, até mesmo em situações absurdas, que as revistas a…