quinta-feira, 12 de maio de 2016

PSIU! SILÊNCIO >> Mariana Scherma

Medo de ficar sozinho é fato que muita gente tem. Eu tenho. Aquela história de passar a velhice sem ninguém e, em um dia, sair dessa pra melhor e só ser descoberto depois de uma semana por conta do cheiro. Não queria começar depressiva, mas talvez seja bom causar um impacto. O negócio é que ter medo da solidão, ok. Mas sentir medo do silêncio, ah, não. Eis um medo desnecessário. Mas aí vem você falar: não tenho medo do silêncio — nem conheço alguém que tenha. Será?

Vamos testar. Você está em uma fila, não conhece ninguém e começa a falar coisas aleatórias (tá calor, tá frio, e essa chuva, e o impeachment, tá tudo caro no supermercado...)? Ou você se senta na sala de espera de um médico e começa a ligar pra toda sua lista de contatos para tratar de assuntos nada importantes (sim, porque não dá pra ficar parado pensando na vida ou folheando uma revista de 2007, melhor é falar um monte sobre nada)? Você está no banheiro da academia tomando banho e começa a destilar seu rol de assuntos aleatórios para banheiro de academia (meu cabelo ressecou, cheiro bom do seu creme, acho que engordei mesmo malhando...)? Vou encarar uma resposta sim como medo do silêncio, duas ou três respostas sim seriam pânico de silêncio, mas não é nada científico, tá? Só necessário para o desenvolvimento desse texto.

Acredito que a gente funciona melhor no silêncio. As melhores ideias vêm do nada e no quietinho do dia ou da noite, mas falo por mim. Sei trabalhar com música e tevê ligados, mas às vezes foco no assunto ou letra da canção e não desenvolvo como pretendia. Gosto de caminhar sem música pra ir tendo flashes de coisas novas. O silêncio funciona como um espaço que você pode preencher. Uma página em branco no meio de um mundo tão rabiscado. Aí o conteúdo de depende de você: ideias, pensamentos nunca antes imaginados, novidades ou tá frio, tá calor, que chuva, caramba. Na fila pra entrar na piscina, uma senhora atrás de mim só fala mesmices: preguiça de acordar cedo, e se a água estiver gelada, e se... Pode parecer sem educação da minha parte, mas parei de responder bobagens.

Hoje, são cada vez mais raros esses momentos em paz com você mesmo. São tantas redes sociais e opiniões rasas que silêncio virou ouro cravejado de diamante.

Já trabalhei de fone de ouvido sem nenhum som ligado várias vezes, só pra abstrair de todo mundo. Meus momentos de silêncio me fazem feliz e me inspiram. E você, já pensou na sua relação com o mute ligado?

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mariana, sua crônica me fez fazer um minuto de silêncio.

Patrícia Romano disse...

Na cidade contemporânea, mesmo que o silêncio desejamos, o barulho é inevitável. Carros, motos, motores, musicas diversas , conversas pessoais, conversas virtuais, telefones, programas de TV nas padarias, rádios nas lojas, broncas às crianças, adolescentes extravagantes, construções em todos os cantos plantando prédios e às 18h o sino a soar. Ah, na cidade o silêncio é utopia que me faz, fortemente o campo desejar, com o meu silêncio ficar, para poder a natureza sua orquestra tocar!