Pular para o conteúdo principal

CULPA DA ADÉLIA PRADO >> Analu Faria

São meus dias de Adélia. Olho o moço sem paletó — nunca o vi sem paletó — e penso: põe de volta, moço, põe de volta...

Sem paletó, o moço mostra a tatuagem mal escondida por uma camisa. E tatuagem costuma arredondar meu quadril. A aliança no meu dedo é de ouro, brilha até quando eu não quero.

Imagino Adélia vendo o moço que acaba de almoçar . Adélia é de Minas, como eu. Adélia vai à igreja e olha moços, como eu. Adélia, sempre fascinada pelo divino, como eu também sou.  Adélia, que tem coração de cadela, como eu tenho.

Um dia vou encontrar Adélia. Quero perguntar se Adélia também é tímida como eu e se consegue conter Eros e Tânatos dentro dela. E se sim, como o faz. Quero saber se Adélia acorda descabelada e xingando a si mesma por ter preferido aquele corte de cabelo totalmente errado para quem tem a juba volumosa. (Procuro fotos de Adélia na Internet, para conferir se tem cabelos volumosos.) Quero saber se Adélia fica olhando os próprios pés e se perguntando como conseguem resistir ao uso contínuo dos scarpins tamanho 35.

O moço pôs de volta o paletó. Mas como Adélia me abriu, há um tempo, o caminho das palavras, vi na tatuagem escondida meu quadril saliente, apontando na direção de um poema concreto. Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne.

Vou à missa e rezo. Graças a Adélia, o moço vive em rima no meu quadril, sem que tivesse me tocado uma só vez. Quando pego o terço, sei que todas as santas me entendem: sou quase sem pecado.



Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida apenas como Adélia Prado, é escritora, educadora e filósofa brasileira. 

Comentários

Zoraya disse…
Sensacional, Analu! Digno mesmo de Adélia Prado, sem tirar nem pôr. "Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne." foi maravilhoso!
albir silva disse…
Muito bom, Analu! Exige mais de uma leitura e mais de uma lida.
Analu, sua prosa adelina está de encantar Jonathan. :)
Muito bom. Fez a tarefa de casa na leitura de Adélia. Sensacional.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …