quinta-feira, 19 de maio de 2016

CULPA DA ADÉLIA PRADO >> Analu Faria

São meus dias de Adélia. Olho o moço sem paletó — nunca o vi sem paletó — e penso: põe de volta, moço, põe de volta...

Sem paletó, o moço mostra a tatuagem mal escondida por uma camisa. E tatuagem costuma arredondar meu quadril. A aliança no meu dedo é de ouro, brilha até quando eu não quero.

Imagino Adélia vendo o moço que acaba de almoçar . Adélia é de Minas, como eu. Adélia vai à igreja e olha moços, como eu. Adélia, sempre fascinada pelo divino, como eu também sou.  Adélia, que tem coração de cadela, como eu tenho.

Um dia vou encontrar Adélia. Quero perguntar se Adélia também é tímida como eu e se consegue conter Eros e Tânatos dentro dela. E se sim, como o faz. Quero saber se Adélia acorda descabelada e xingando a si mesma por ter preferido aquele corte de cabelo totalmente errado para quem tem a juba volumosa. (Procuro fotos de Adélia na Internet, para conferir se tem cabelos volumosos.) Quero saber se Adélia fica olhando os próprios pés e se perguntando como conseguem resistir ao uso contínuo dos scarpins tamanho 35.

O moço pôs de volta o paletó. Mas como Adélia me abriu, há um tempo, o caminho das palavras, vi na tatuagem escondida meu quadril saliente, apontando na direção de um poema concreto. Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne.

Vou à missa e rezo. Graças a Adélia, o moço vive em rima no meu quadril, sem que tivesse me tocado uma só vez. Quando pego o terço, sei que todas as santas me entendem: sou quase sem pecado.



Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida apenas como Adélia Prado, é escritora, educadora e filósofa brasileira. 

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4 comentários:

Zoraya disse...

Sensacional, Analu! Digno mesmo de Adélia Prado, sem tirar nem pôr. "Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne." foi maravilhoso!

albir silva disse...

Muito bom, Analu! Exige mais de uma leitura e mais de uma lida.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Analu, sua prosa adelina está de encantar Jonathan. :)

Edivaldo Ferreira dos Reis disse...

Muito bom. Fez a tarefa de casa na leitura de Adélia. Sensacional.