sábado, 21 de maio de 2016

NA PROFESSOR MOREIRA >> Sergio Geia




No 327 da Professor Moreira existe um prédio largo, vistoso, com muitas janelas, pintura nova, piso de granito, flores, jardim e um brasão. Na frente, um letreiro informa de que se trata tão pomposo imóvel: Mitra Diocesana de Taubaté.

Há uma mesa logo após a porta de entrada, uma funcionária bem vestida carrega pastas; deve cuidar da burocracia da igreja. Há também uma placa, um pouco menor, com o horário de funcionamento: das 8:00 às 12:00 horas e das 13:00 às 17:00 horas; uma boa garagem; grandes portões cerrados.

Lembro-me de que ali funcionava um pensionato de freiras, cujos quartos, amplos e aprazíveis, eram alugados para moças estudantes que chegavam a Taubaté, atraídas por faculdades. Ali encontravam um teto decente; para pais e família, decente e gerenciado por freiras, o que é bem melhor.

O prédio fica numa região privilegiada, com fundos para a Professor Moreira e frente para a Praça Santa Teresinha. A poucos metros dali está a faculdade de medicina, a faculdade de educação física, a faculdade de comunicação social e a faculdade de fisioterapia. Com um pouco mais de esforço, mas nem por isso longe, chega-se ao campus da Ecase, onde funcionam as faculdades de economia, contabilidade, administração e odontologia, de modo que o lugar, além de bem gerenciado, situa-se num ponto favorável da cidade para quem vai frequentar faculdades.

Foi com tristeza que vi aquela casa jovial e alegre de outrora, frequentada por moças bonitas e felizes, ser transformada de uma hora para a outra numa sem-graça Mitra Diocesana de Taubaté, e no seu vai e vem de padres.

Recordo-me de que sempre tinha algo bom de ver por detrás daquelas janelas. Eram divertidas as moças, além de graciosas, e regularmente havia conversa fiada quando estavam a espiar a rua. Certa vez executamos uma serenata que foi muito bem recebida por elas, até que uma das freiras, mal-humorada que só vendo, tratou de nos pôr pra correr. Pois hoje sei que vou olhar pra cima e nada verei além de pobres janelas mortas, quando muito um padre idoso plantado num daqueles aposentos com história.

Mas a vida é assim, o que se há de fazer? Outro dia foi o Colégio Anchieta, que vi parte no chão. A Villa Santo Aleixo, dizem que sai reforma. Na Professor Moreira mesmo, no 267, hoje existe um comércio. Pois ali moraram os Castilhos, nobre família da cidade e meus amigos de longa data. Frequentava aquela casa e sempre fui acolhido como filho. Às vezes víamos filmes. Outras, jogávamos detetive ou truco. Ou corríamos ao centro atrás de propaganda comercial para o serviço de som da igreja.

Eram tempos de vadiagem; bons tempos. Vejo que a saleta da residência dos Castilhos se transformou num abafado escritório. Naquele mesmo lugar de tantas histórias, espio um rapaz perguntando o preço de um seguro qualquer. Saio de lá com aperto no peito.


P.S.: foto da rua Professor Moreira, em Taubaté

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5 comentários:

paulo pereira disse...

Vou discordar de você. Prefiro um belo Museu de Arte Sácra a um mosteiro com donzelas pudicas e freiras rigorosas demais.
Eu acho que fui o único homem a adentrar naquele recinto. Foi profissionalmente.
Uma aluna da medicina estava adoentada e precisou de meus cuidados. Foi um fato inusitado que criou muitos arrepios.

Zoraya disse...

Belíssima crônica memorialista, Sergio! Tocante e delicada. Tá virando especialista.

sergio geia disse...

Dr. Paulo Pereira, não discordamos; ao contrário, concordamos. Obrigado por compartilhar dessa lembrança. Grato mais uma vez, Zoraya.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sergio, até eu fiquei com aperto no peito. Bela crônica!

sergio geia disse...

Obrigado, amigo!