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Mostrando postagens de Janeiro, 2011

TUDO NOVO DE NOVO >> Kika Coutinho

Estamos em abril de 2009. Encostada na pia de um banheiro pequeno, observo um teste de farmácia, aguardando a segunda listra. Não vai aparecer, penso. Não vai aparecer, repito em voz alta, já me mexendo, destrancando a porta e, antes de sair, olho mais uma vez para o teste. Apareceu. É um milagre, digo para mim mesma, antes de gritar: Estou grávida!

Estamos, agora, em novembro de 2010. Acordo cedo e já abro o pacotinho, rebolando pra prender o xixi. Tem que ser o primeiro da manhã, penso, já com o teste em mãos. Faço meu xixi e assisto à primeira listra aparecer, enquanto penso que, claro, a segunda não vai aparecer. Tenho a impressão de ouvir minha filhota resmungar no quarto ao lado. Já está acordando, noto, enquanto olho o teste de novo. Apenas uma listra. Melhor assim, ela nem fez um ano, falo para mim mesma, enquanto deixo o teste de lado. Entro no chuveiro, tentando aproveitar o que me resta da manhã, antes que ela acorde de vez.

Imagine só, um segundo bebê, vou pensando enquan…

AULAS, PRA QUE VOS QUERO?
>> Eduardo Loureiro Jr.

As férias escolares estão acabando. A maioria das escolas retomará as aulas essa semana. Benza Deus! Benza Deus! Benza Deus! Esse monte de delinquentes desocupados que invadiu as ruas, praças, praias e shoppings da cidade retornará à sua reclusão.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber a semelhança entre locais de trabalho, prisões e escolas. Nesses três espaços institucionais, depois que a pessoa entra, fica submetida a uma autoridade e não tem mais liberdade de sair na hora em que quiser. São espaços em que o tempo de quem entra fica sob controle das autoridades da instituição: patrões, policiais e professores.

Assalariados, presidiários e alunos recebem tratamentos levemente diferenciados, de acordo com o grau de incômodo que causam para a sociedade.

Os assalariados são aqueles que, se não estivessem trabalhando, estariam na ociosidade, coisa não vista com bons olhos em nossa sociedade. Como seu pecado não é crítico, é mais um desconforto do que uma ameaça, os ex-preguiçosos …

UM DIA DE JAVIER BARDEN
[Cristiane Magalhães]

O encontro em questão aconteceu em meados de 2008. Naquela época, eu lecionava no ensino fundamental, com uma pesada carga horária semanal que incluía reuniões chatíssimas. Como acontecia diariamente, voltava para casa ao entardecer depois de um dia tumultuado na escola, quando ao entrar no ônibus eu o vi. Não tinha como não reconhecê-lo, era o Javier Barden. “Devo estar ficando maluca”, pensei enquanto tentava encontrar um lugar para sentar. O ônibus encheu ainda mais do que estava e eu fiquei entalada em meio a um aglomerado de crianças e adolescentes barulhentos e cheios de energia na parte da frente do ônibus. Ele ficou lá no fundo, impassível, no lugar onde estava. Em meio àquele empurra-empurra, aperta-aperta, e com o cansaço do dia, às vezes eu me esquecia dele durante a viagem. Mas o trajeto entre a escola e o meu bairro era longo e, de tempos em tempos, eu lembrava e virava para trás para verificar se meus olhos não tinham se enganado, mas não havia discussão: aquele só podia…

TRÊS ROLINHAS >> Leonardo Marona

Meu dia na praia não tinha sido bom depois de quatro meses longe. A areia tinha entrado nos lugares errados, o mate de galão não tinha passado, o queijo coalho parecia coalhado. Tinha resolvido ir de bicicleta do Flamengo até Ipanema, o diabo sabe por quê. Chegando lá, imediatamente começou a chover. O dia estava maravilhoso: cinzento, pesado, solene. Era um dia que te exigia atenção. Mas pegar chuva em cima da bicicleta valia pelas tuas duas bolas do saco amassadas. De qualquer forma, não havia o que fazer. Calcei os tênis, meu pé estava molhado e cheio de areia. Respirei fundo. Olhei para os tênis. Eram brancos, estavam escuros, com dois rasgos dos lados da sola, os cadarços esfolados, cheiravam a chorume. Joguei fora os tênis na primeira lata laranja e montei na bicicleta. O pedal tinha pontas de plástico que me foderam a paciência e as solas do pés. Voltei à lata laranja. Os tênis estavam virados de cabeça para baixo sobre uma gosma esverdeada, com uns fiapos de espaguete presos a…

NÃO EM PÚBLICO! >> Carla Dias >>

Eu não choro em público, ainda que seja para o mirradinho, um espectador, uma única testemunha. Não que nunca tenha acontecido. Às vezes, o choro se solta da gente, aí não tem jeito. Ele precisa ganhar o mundo.

Tenho inveja de quem chora, sem qualquer constrangimento, diante da emoção despertada pelo filme, pela novela, pelo livro, pela canção, pela confissão, pelo outro, pela simples contemplação da possibilidade, sem se importar se está só ou acompanhado.

Não digo que não caio no choro nessas ocasiões, até mesmo em outras. Digo apenas que eu não choro em público, que já estou no estágio avançado de protelar o emaranhar os olhos. Sou quase profissional em evitar o feito.

Mas, definitivamente, eu choro. Não pensem que sou território árido, que em mim o sentimento morre, antes de cruzar a alma e lacrimejar. Apenas choro na distância dos olhares alheios.

Outro dia, liguei para um amigo, e duas palavras depois da minha pergunta, “tudo bem?”, ele começou a falar de um jeito, sabe? Quando as p…

PRATICANDO ELOGIOS >> Clara Braga

Acho que as pessoas esqueceram como se faz um elogio. É curioso, mas parece que estamos vivendo em um mundo onde qualquer pessoa ao seu lado tem que ser vista como seu concorrente ou inimigo. É comum ouvir pessoas falando que já não se pode confiar nem na própria sombra. Como isso é triste, que tipo de relação se pode ter com qualquer pessoa se já não se pode confiar nem em si mesmo? E é verdade, as pessoas perderam mesmo a confiança em si.

Proponho um teste. Se você tiver que dizer uma qualidade e um defeito seus, vai perceber que é muito mais fácil falar dos defeitos. Por quê? Não deveria ser tão difícil assim lidar com coisas boas.

Ouço várias pessoas dizendo que não gostam de elogiar e dizer as qualidades de outra pessoa para que ela não fique metida. E é assim mesmo. Se alguém é cheio de si, já é tachado de metido. Acho que a confusão pior é achar que não gostar de si tem algo a ver com humildade. Que besteira!

Tem ainda o caso dos relacionamentos amorosos. Muitos afirmam que não…

O VERBO >> Albir José Inácio da Silva

- Seu marido foi embora, né?

- Como é que a senhora sabe? Eu ainda não falei nada.

- Iemanjá sabe tudo, minha filha.

- E o que mais diz Iemanjá?

-Iemanjá diz: “trago seu homem em três dias”.

Pagou, beijou a mão da madame e saiu com o coração aos pulos. Será? Deve ser. Iemanjá não mente. Devia ter vindo antes. Tantos meses de sofrimento.

Um dia ele pegou a mala e disse vou pra São Paulo. Não teve choro nem desmaio nem pergunta que ele respondesse. Viu quando entrou no ônibus sem se virar. Andou como louca pelas ruas, depois foi pra casa e chorou todos os dias.

Não é que não acreditasse. É que sua desgraça era tanta que achou que não tinha jeito. Só com muita falação das comadres é que resolveu fazer a consulta. Agora era esperar. Três dias.

No primeiro dia vieram dizer que ele tinha chegado no ônibus das seis. Arrumou a casa , fez o peixe e comprou a cachaça. Ele não veio.

No segundo, soube que ele perguntou por ela. Lavou os cabelos, botou perfume, e ele não veio.

No terceiro dia, f…

ENQUANTO O ASSUNTO NÃO VAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

O assunto disse que ia ali.

— Ali onde? — eu quis saber.

— Por aí...

— Volta que horas?

— Tá pensando que é meu pai?!

— Sou seu escritor.

— Te vira.

— Que é isso, mano? Tem gente esperando por nós.

— Nessa época do ano? O pessoal trocou a internet pela praia, homem! Tá todo mundo de férias. Você deveria tirar umas férias também.

— Há os leitores fiéis. Eles sempre vêm aos domingos.

— Se forem fiéis mesmo, vão compreender. Quer ir comigo?

— Para onde?

— Por aí?

— Por aí onde?

— Você tem sempre que ir para algum lugar? Por aí, porra! Por aí, à toa.

— Tenho muito o que fazer. E tenho que escrever a crônica da semana. Não posso...

— Por que não pode?

— Ahn?

— Por que não pode?

— Por que não posso o quê?

— Por que não pode isso aí que você ia dizer?

— Mas você nem sabe o que eu ia dizer.

— Não importa. Por que não pode?

— Sei lá, não posso, não acho certo.

— Acha que vai ser punido, é?

— Punido por quem? Onde? Cadê?

— Você que me diz que chicote é esse que você está vendo, porque eu só est…

ARTE QUE IMITA VIDA [Debora Bottcher]

Houve um tempo, quando eu era uma simples estudante, que eu não perdia um capítulo de uma novela - geralmente, a das seis. Protagonistas como Malu Mader e Maitê Proença eram minhas referências femininas.

Mais tarde, quando comecei a trabalhar e estudar, deixei as novelas de lado e não acompanhava nem quando tinha algum tempo livre.

Já adulta e casada, passei a ver as novelas das nove (antes chamadas 'das oito') por pura conveniência: aqui em casa, janta-se entre o Jornal Nacional e o começo da novela, e como a sala de jantar é uma extensão da sala de TV, a gente vai seguindo o olhar pela programação, num movimento que é automático. Claro que não nos prendemos a acompanhar diariamente - não é aquilo de 'só sai depois da novela' - mas posso dizer que é uma programação, digamos, regular na casa e é inevitável, então, se 'conectar' a uma história fictícia, emocionar-se, discutir, questionar os rumos das tramas.

Há alguns anos, o autor Silvio de Abreu declarou nu…

JAZZ >> Leonardo Marona

Não era saudade. Não era esse o sentimento. Não era nostalgia, era pertencer ao tempo errado. Era poder olhar. E olhar é não pertencer. Estava apenas tendo uma atitude mitológica: “a saudação ao provedor do amor”. Quantos dirão que isso significa que lá estava o pai da minha namorada, e que ela seria muito em breve uma antropóloga e sabe-se lá quantas estruturas não desabariam em breve diante de nós, a partir dos questionamentos sobre causa humana?

Antes fosse esta a real questão. Porque existe o real, tanto que tivemos que inventá-lo. Mas o problema verdadeiro e a parte mais intrínseca do problema é que se tratava do pai da minha namorada, futura antropóloga, que aqui dorme aos meus pés, e esse pai era acima de tudo um baterista. Se existe uma idéia de coração para a música, o piano não passaria de um rim. Como é técnico o amor de duas mãos sozinhas com teclas. Estou aqui e sei o que estou dizendo. E quem lê este texto sabe também o vício de que sofre, no mínimo, alguém que admira tal…

QUEM MEXEU NO MEU SIGNO? >> Fernanda Pinho

Naturalmente foi uma ariana típica – com cabelo vermelho-fogo e tudo – quem começou o alarde. Era Lili, com sua natureza bélica, protestando Internet afora que, para ela, não fazia o menor sentido ser uma pisciana. Alheia ao motivo da revolta da Lili, fui me assuntar. O trem era sério mesmo. Estava até no site da Folha de São Paulo a notícia de que um certo Parke Kunkle anda defendendo a teoria de que, em função das alterações no alinhamento da Terra, as datas de alguns signos do zodíaco como conhecemos mudaram.
O que isso muda na prática – além de ter que se acostumar a ler outro horóscopo no jornal – eu não sei. O fato é que rapidamente formou-se um rebuliço e foi revelado um surpreendente corporativismo astrológico. Arianos indignados; sagitarianos revoltados por agora serem serpentarianos (what the hell is Ophiuchus????); piscianos aos prantos, escorpianos tramando vingança; geminianos amando a ideia, odiando a ideia, amando a ideia, odiando a ideia; librianos na dúvida se a mudan…

LIVRO DE PONTO >> Carla Dias >>

Inspirado no olhar de Lucas Dupin


Navego, mares distantes, lonjuras homogêneas, barcos arfantes sem direito a porto. Tudo o que já disse sobre a vida foi apenas um ensaio, a sombra, o contorno. Não chegou nem mesmo às bordas do seu significado, conforme reza esse meu dicionário de buscas.

Sei que minhas buscas, a você, que na falta de atividade mais acolhedora, permite que seu olhar encare minhas palavras, pouco importam. Então, apresento meus esquetes emocionais, eles sempre tão intrincados, em cenas de filme que você jamais assistirá, senão na tela do meu dentro.

E sem título... Sem rótulo... Sem ficha técnica, apenas vínculo.

Navego os pés na água da piscina, e no destempero do outro, que ao ser contrariado, aperta os dentes, como se mordesse a carne para garantir o alimento ao rebento faminto.

Há tanta fome no mundo. A minha, agora, neste imediatamente, é por adormecer.

E fome matada, enquanto durmo, como raramente encaro o sono, pesadamente, como se fosse uma dormidora profissional, nã…

QUANDO VOCÊ ACHA QUE NÃO VAI FICAR PIOR...
>> Clara Braga

Em todos os meus relacionamentos, eu sempre tive uma grande dificuldade: conhecer a família da pessoa. Para mim, não existe situação mais embaraçosa que essa. Todas as vezes que eu fui conhecer os pais de um namorado, eu acabei falando alguma besteira.

Teve uma vez, depois da minha mãe morar em Portugal e eu ir visitá-la e aproveitar para conhecer Madri e Barcelona, que eu fui conhecer a mãe de um namorado e ele me pediu para dizer a ela qual o lugar da Europa que eu tinha gostado mais, e eu disse que nunca tinha ido à Europa, mas dos lugares que eu tinha visitado, o melhor tinha sido Barcelona. Não preciso nem dizer que o namoro não durou e que, no mínimo, a mãe dele pensa até hoje que eu fui colega de classe da Carla Perez. Mas, enfim, depois dessa eu decidi que não conheceria a família de ninguém antes de, no mínimo, 6 meses de relacionamento, isso sendo otimista.

Decisão tomada e o atual namoro apareceu. Eu temia pelo dia em que ouviria a frase: “Vamos lá para casa!”. Depois de te…

VIVA A IMPERFEIÇÃO >> Kika Coutinho

Dia desses, Sofia deu aquela habitual trabalho para dormir. Era uma noite em que eu estava sozinha, o marido atrasou no trabalho e restou a mim o trabalho – árduo – de lidar com uma criança insone.

Chorava, eu pegava. Parava. Quase dormia. Quando eu punha no berço, acordava. E chorava. Eu pegava. Não imediatamente. Deixei chorar por 5 minutos, 10, meia hora. Pegava. Parava. Punha no berço, chorava. Quatro horas se passaram, e chorávamos juntas: “Filha, mamãe tá cansada, por favor, me ajuda, eu não sei mais o que fazer.” Nesse meio tempo, dei mamadeira, dei água, dei colo, dei bronca, dei camomilina C – vai que é dente - troquei fralda, fiz massagem na barriga, nos pés, troquei roupa – pode ser o calor. Depois achei que era frio e liguei o aquecedor. Desliguei o aquecedor, pus Baygon no quarto – vai que é pernilongo – tirei o Baygon – vai que ela tá sentindo o cheiro – aspirei o nariz, fiz inalação, cortei a etiqueta do pijama – vai que tá incomodando – e o resultado disso éramos nós, …

VIDA É JOGO >> Eduardo Loureiro Jr

Tem gente que acha que a vida deveria ter manual.
Ela tem. A vida tem manual. Mas quem lê manuais?

Tem gente que reclama de injustiça.
Não há injustiça: está tudo previsto no manual.

Fica mais fácil se pensarmos a vida como um jogo. O manual são as regras.

Depois de uma breve introdução, que coloca o jogador na temática do jogo — Sol, Lua, estrelas, fogo, ar, terra, água, pedras, plantas, bichos, gente —, as regras indicam o objetivo do jogo, ou seja, a forma como o jogo acaba. Há que se começar pelo fim para que a coisa tenha sentido. O jogo — a vida — acaba quando o objetivo é atingido — embora sempre tenha algum jogador impaciente que resolva encerrar o jogo no meio, cometendo suicídio. São pessimistas os suicidas: o jogo nem acabou e eles acham que vão perder. Ou simplesmente ficaram entendiados — sem motivo, claro, porque o que não falta nesse jogo é animação. Mas, a se acreditar em reencarnação, os suicidas terão a chance de disputar novas partidas.

Para que o jogo acabe, é pre…

IMPACIENTES PELO BUQUÊ
DO INSTANTE RALO
>> Leonardo Marona

São doses de álcool e eu, espinha repentina, sou portanto. Que me envergonhe de mim mesmo é o mínimo. Como posso me vangloriar do que tenho certeza? Primeiro que é ridículo gritar no vácuo. Digo: como posso dizer a palavra certeza em meu benefício? Cadafalso, cadarço juvenil, relação peso-quadril. Se a derrota não é certa na cabeça, mas conivente na atitude, que importa mergulhar nas horas que te fazem traquéia escura de sangue? Qual a relevância em pensar nas realidades inevitáveis (se criamos a realidade astuciosa em rugas)? Existem perguntas que eu faria a noite inteira, em busca de olhos vivos, ou cômodos embranquecidos para morrer em crase. Mas é mentira: olhos mortos – a criação do vento escolhe não ser areia – todos vivos apenas em frases comportamentais. Trata-se apenas de um erro típico do fim de tudo, conjugado simples como as costas dela infladas ao sono madrugado em sexo, confiscado de rito soprado pelo escudo do tempo, rajada de sem comício em lona, olho de luz branca, se…

APRENDENDO A SURFAR >> Fernanda Pinho

- O que você faria diante de um tsunami? – perguntei por perguntar. - Surfaria. Eu morreria de qualquer jeito.
A resposta veio rápida e rasteira, revelando uma lucidez surpreendente. Foi uma pergunta à toa. Não era para me jogar na cara uma resposta que me disparou vários alarmes internos. Mas ele o fez, displicentemente. Não era, afinal, um velho sábio chinês querendo me aplicar a moral de uma fábula. Era só meu primo, de dez anos, confirmando aquilo que eu já suspeitava: ele aprendeu a viver muito antes de mim.
Chegou a me devolver a pergunta, mas disfarcei e encerrei o assunto. Primeiro porque fiquei sem jeito de admitir que, diante de um tsunami, eu provavelmente choraria e gritaria desesperada, sem conseguir sair do lugar e morreria do coração antes que a onda me pegasse. Segundo que, a essa altura, meus pensamentos já tratavam de ruminar, mais uma vez, todas as minhas crises existenciais. Agora, sob a luz da filosofia do pequeno Romano.
Era dia 2 de janeiro e, no dia anterior, eu…

ATINADO >> Carla Dias >>

Com seu olhar amarrando distâncias, a voz quase calada de vez, tem por hábito tecer os dias com as novidades inventadas. Pensa em poesia para dizer cruezas da realidade. Cria versos com lágrimas e gargalhadas. Acredita ser curandeiro, e com seu talento, fazer a tristeza aquietar. Soletra palavras quaisquer para melindrar ritmos: b-á-l-s-a-m-o é das que mais gosto de ouvir, assim, fragmentada.
Eu costumo esquecer da vida quando ele está por perto, porque a minha realidade é atingida em cheio pela cumplicidade doidivanas dele. Leva-me, quase sempre, de encontro aos meus fantasmas, eles que seguram cartazes com ameaças coloridas: há de chegar o dia, minha cara, que nenhuma máscara sua suportará a verdade de quem é você.
Eu rezei aos deuses, e foi mais de mil e tantas vezes, pedindo para que ele me goste diferente. Assim, eu o teria tatuado na minha rotina reticente. Haveria, enfim, uma boa chance de eu despetalar amor sem parti-lo ao meio, vide esse adjetivo que é um dos que me definem: de…

C.C.L >> Clara Braga

Eu confesso, sou uma C.C.L (Compradora Compulsiva de Livros). A princípio, isso não parece ser um problema, a não ser para o meu bolso, o único que realmente sofre. Porém, nessa época de faculdade, que é a minha fase atual, é complicado comprar os livros que eu bem entendo e curtir pelo simples prazer da leitura. Estudar exige muita leitura, porém leitura de textos técnicos, textos de cada área que está sendo estudada, o que os pensadores falaram e falam sobre seu curso etc. Mas mesmo com todas essas coisas de faculdade para ler, não consigo evitar entrar em uma livraria atrás de uma boa Adriana Falcão ou até de uma engraçada Marian Keys.

Nas minhas últimas idas à livraria, percebi que está mais do que na moda o tipo de livro que eu gosto de chamar de “livro manual”. O que eu chamo de livro manual é aquele que até tentou ser um auto-ajuda, mas não conseguiu. E já existem vários manuais por ai, manual de como criar seu filho, como enriquecer, como ser poderosa, como conquistar aquele c…

PRESENTES PASSADOS
>> Albir José Inácio da Silva

Presente não é brincadeira. Não para ela. Nada a aborrece mais do que a displicência com que certas pessoas tratam o assunto. Na compra de um presente deve-se colocar alma, amizade, carinho.

Nunca se esqueceu de como os presentes a fizeram sofrer. Presentes que nunca vieram ou dados de má vontade, mal escolhidos, só para se livrar da incumbência. Deram-lhe roupas grandes, sapatos pequenos, brinquedos que assustavam mais que divertiam. Passou a infância desejando presentes que não ganhava e recebendo presentes que não queria. Seus natais nunca tiveram Noite Feliz, Jingle Bells e outras canções melosas. Sua música natalina sempre gemia: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...”

Presente nunca mereceu o devido respeito, pensava, mas, ultimamente, os presenteadores enlouqueceram: vale-presente, cartão-presente e outros absurdos. Preguiçosos e incapazes há muito tempo já recorrem à imoralidade de perguntar o que a “vítima” quer ganhar. É o mesmo que dizer: não sei nada sobre…

POSITIVO E (quase) OPERANTE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Aconteceu o que eu temia. E não foi surpresa nenhuma. As coisas que mais tememos costumam acontecer com uma frequência nada assombrosa. O medo é o mais poderoso magneto para se atrair o que quer que seja. O medo é o desejo condensado, pronto para acontecer a qualquer momento.

Esses dias, minha enteada perguntou como deveria rezar.

— Para conseguir o que você quer? — me certifiquei.
— Isso — ela confirmou.

E passamos quase uma hora num bom bate-papo existencial que teria durado poucos segundos se eu dissesse apenas:

— Tenha medo, muito medo, de conseguir o que você deseja, e o seu desejo se realizará como num passe de mágica. O medo é a reza mais eficiente que existe.

Pois comigo aconteceu. Os primeiros sintomas, eu nem percebi direito: o trabalho ininterrupto entrando pela madrugada, o prazer do esforço criativo, a insônia, a cabeça ricocheteando ideias, a falta de vontade de tirar o cochilo depois do almoço.

Aconteceu quando eu resolvi fazer algo que estava adiando há uns 10 anos: e…

SÍNDROME EMOCIONAL [Debora Bottcher]

Não consigo evitar: todo começo de ano uma melancolia me assola. Começa logo no segundo dia: tenho pesadelos durante a noite e, pela manhã, penso que não vou conseguir me levantar da cama.

Não é tristeza, é um estranho inexplicável. Como se esse desconhecido que se apresenta - o Ano Novo -, que detém o destino à espreita, sob seu comando, fosse 'alguém' que oferecesse perigo iminente. Assim, um medo me invade e está decretado o desconforto, que sela os dias seguintes com um quase desespero, e me vejo à deriva num oceano de emoções turbulentas.

Esse costuma ser um processo solitário - como falar disso com alguém? Sendo algo recorrente, quem compreenderia sem julgar-me à beira de um colapso de loucura? E, afinal, quem poderia me afagar o sobressalto e garantir alguma paz?

Acontece que essa semana, com os 'nervos' menos aflorados, pensei se essa sensação seria exclusivamente minha. E ocorreu-me: "E se um monte de gente se sente assim e não compartilha, pelas mesmas ra…

POEMA FELIZ >> Leonardo Marona

estar aqui é recolher as lágrimas
de um drama transposto em muitas cores.
passa um pouco da meia-noite
e é como se fosse a primeira vez.
sinto vontade de escrever algo bonito,
que não seja grandioso, mas faça alguém feliz,
que traga talvez algum primeiro sorriso.
um quadro de Chagall, com minha mãe no centro.
ela tinha um rosto bonito, que justificava a guerra,
um rosto contraditório, presságio de papoulas.
a sensação atual é de patinação no gelo.
penso nos meus amigos, acredito que todos,
de alguma forma, seguem bem seus caminhos
e isso, no frio atípico de uma cidade silenciosa,
me traz um conforto mágico.
onde estarão? será que ainda pensam em mim?
penso neles todos os dias, mesmo com dores no estômago,
e a eles dou de presente uma esperançosa distância.
a proximidade destrói, estou cada vez mais certo disso.
os carros passam velozes e imagino para onde
estarão levando cada tristeza.
ah, meu pai, faça um novo filho, seja feliz,
ande de bicicleta, tome seus iogurtes.
penso em ti enquanto, no cômodo contígu…

TRILHOS >> Carla Dias >>

Sem querer, um pensamento, daqueles que deveriam permanecer secretos, escapa-lhe pela voz. O outro o escuta, perfeitamente, erguendo a sobrancelha direita, como se perguntasse e respondesse ao mesmo tempo a própria pergunta, impregnado da sabedoria de que tem a chance de presenciar um deslize alheio. Uma sabedoria cortejada pela displicência.

Ele revira os olhos, o homem que perdeu para a voz o pensamento, tentando convencer seu espectador que fora apenas um infeliz comentário, e não por covardia para defender esse pensamento, mas cansaço por já tê-lo feito, e por tantas vezes, sem qualquer sucesso.

Seu companheiro de viagem de trem, um homem muito elegante, um conhecido desde vinte e poucos minutos, boceja um sono inventado. É o desfecho antecipado do que deveria ser uma viagem de trocas, na qual o intelecto de um desafiasse o do outro, transformando os trilhos em conquista pessoal. Mas o pensamento fugiu de um, e se esparramou pela paciência do outro, tornando-a irritada, devota do …

DIA NACIONAL DA RESSACA >> Clara Braga

Existem dias do ano que são mortos, normalmente domingos são meio parados. Mas existem dois dias específicos no ano que eu considero completamente inúteis, não tem quem consiga fazer nada direito nesses dois dias.

O primeiro é o dia 25 de dezembro. Todo mundo abusa na ceia, come até não poder mais, faz as trocas de presente, celebra com as pessoas que gosta e tiram o dia 25 para fazer a digestão de tudo isso. Uma semana depois vem o Ano Novo, todo mundo abusa de novo, bebe, come, festeja e então chega ao dia mais inútil do ano, o dia 1º de janeiro. Não tem quem raciocine bem nesse dia, está todo mundo de ressaca, seja ela por causa de bebida, comida ou até a famosa ressaca moral.

Mesmo o dia 1º sendo definido pela palavra ressaca, de quatro em quatro anos muitas pessoas trabalham desde muito cedo no primeiro dia do ano, o dia que escolheram para que os eleitos tomassem posse. Para quem acompanhou a posse desse ano, pode ver os olhos pesados de quem não tinha outra opção, tinha que est…

PASSOS DE GIGANTE >> Kika Coutinho

Sofia aprendeu a andar. Em definitivo, aprendeu. Não falo isso com orgulho porque, na realidade, temo o andar. Claro, claro que quero o normal, o saudável, o correto. Mas, a cada desequilíbrio, meu coração dispara. Ela ergue as mãozinhas e sai dando seus passos, tão titubeante, tão incerta em suas primeiras caminhadas, que eu corro para dar-lhe a mão. Nem sempre ela quer a minha mão, acha que sabe voar, que não precisa de mim, mas, ali, na frente, ai, uma quina! “Sofia, tem que dar a mão pra mamãe!”, eu repito, agarrando-a pelo bracinho e enxugando uma gota de suor que me escorre da testa. Como suo! Enquanto tento seguir os conselhos alheios, enquanto tento me tranqüilizar e assistir ao aprendizado da minha filhota sem interferir, suo. Suo mentalizando: “Ela tem que aprender, ela tem que aprender, tombo é normal, tombo é normal”. Repito inúmeras vezes até que a vejo desequilibrando e “pá”, no chão. Corro em seu socorro desesperada (eu, mais do que ela) e ergo minha meninota, vendo se …

TROMBONE E CIÚMES >> Eduardo Loureiro Jr.

Ano novo, vida nova. Resolvi aprender a tocar trombone.

— O senhor não prefere botar a boca na gaita? — sugeriu a secretária da Escola de Música. — É mais simples.

— Fico com o trombone mesmo, obrigado.

Já o professor advertiu:
— Não é um instrumento fácil, os alunos costumam dar com a língua nos dentes.
— Grato pelo conselho, professor, mas vou correr o risco.

Não sei se o leitor tem o mesmo defeito neurológico que eu, mas, quando começo a ouvir uma música instrumental, ouço uma voz — inexistente para as demais pessoais — que vai recitando palavras que se encaixam na melodia da música.

Durante minha primeira aula de trombone, por exemplo, os sons que emiti — com muita dificuldade — diziam mais ou menos assim:

Quase todas as mulheres ciumentas erram o alvo de seus ciúmes: seus homens, maridos, namorados estão interessados em uma pessoa e elas pensam que eles estão interessados em outra. Porque homem está sempre interessado em mais de uma mulher ao mesmo tempo, e ainda não me apareceu n…

DE NOVO, O NOVO... [Debora Bottcher]

A meia-noite anunciou um novo ano. Com fusos-horários diferentes, o mundo comemorou a chegada de 2011 um monte de vezes — como sempre é. O azul marinho do céu, nos quatro cantos, ganhou luzes de todas as cores — e os olhos, de todas as cores, receberam o azul da esperança.

É assim toda vez que o calendário vira: nada muda efetivamente — o amanhecer nos mostra que está tudo no mesmo lugar —, mas dentro de nós há uma voz que fala de otimismo, de renovação, embargada de expectativas. E é no embalo dela que miramos o futuro, ansiando que ele se faça melhor.

Pessoalmente, fecho 2010 com riqueza de bênçãos — ainda que muitos contratempos tenham me assaltado. Não pode ser diferente — e nem é bom que o seja: de outra forma, a gente corre o risco de perder de vista o que realmente importa, ficando à mercê de valores sem qualquer significado.

Para mim, os últimos dois anos têem sido de recomeço e reconstrução e em 2011 esse 'processo' ainda continuará até que, finalmente, meus trilhos s…