sábado, 29 de janeiro de 2011

UM DIA DE JAVIER BARDEN
[Cristiane Magalhães]

O encontro em questão aconteceu em meados de 2008. Naquela época, eu lecionava no ensino fundamental, com uma pesada carga horária semanal que incluía reuniões chatíssimas. Como acontecia diariamente, voltava para casa ao entardecer depois de um dia tumultuado na escola, quando ao entrar no ônibus eu o vi. Não tinha como não reconhecê-lo, era o Javier Barden. “Devo estar ficando maluca”, pensei enquanto tentava encontrar um lugar para sentar. O ônibus encheu ainda mais do que estava e eu fiquei entalada em meio a um aglomerado de crianças e adolescentes barulhentos e cheios de energia na parte da frente do ônibus. Ele ficou lá no fundo, impassível, no lugar onde estava. Em meio àquele empurra-empurra, aperta-aperta, e com o cansaço do dia, às vezes eu me esquecia dele durante a viagem. Mas o trajeto entre a escola e o meu bairro era longo e, de tempos em tempos, eu lembrava e virava para trás para verificar se meus olhos não tinham se enganado, mas não havia discussão: aquele só podia ser o Javier Barden!

“Mas o que o Javier Barden estaria fazendo dentro de um ônibus em Belo Horizonte?”, tentava raciocinar, e cada vez achava mais absurda aquela estranha visão. Seria uma alucinação? Recordo que tinha assistido naqueles tempos ao filme “Onde os fracos não tem vez” e tinha ficado completamente encantada por ele. Sim, aquilo só podia ser um desatino da minha cabeça, influência do filme. Lembro-me vagamente que, quando desci do ônibus, ainda fiquei um tempo refletindo se seria ou não o Javier Barden. Não sei se ele desceu antes ou depois de mim, porque quando passou na região central da cidade o ônibus lotou de vez e não tinha como pescoçar mais nada.

Como fazia todo dia para espantar a chateação e o cansaço do trabalho, colocava a roupa de caminhada e ia dar umas voltas na praça do bairro. Assim o fiz naquele dia como era costumeiro. Estava lá na praça há algum tempo, ouvindo distraidamente uma música do mp3, totalmente absorvida com o fim da tarde e o início da noite, quando eu o vi novamente. Não, não podia ser uma alucinação repetida! O mesmo Javier Barden que estava no ônibus caminhava lentamente na calçada oposta à praça. A mesma roupa, uma mochila preta nas costas e um certo ar sorridente e leve. Claro, eu devia estar mesmo maluca. Olhei para os lados para ver se alguma outra pessoa estava vendo o que eu via, mas nada. Todos estavam absorvidos em seus próprios pensamentos, rodando, rodando ao redor da praça. Atordoada, eu não sabia o que fazer. Pensei em gritar: “gente, olha, é o Javier Barden!”. Cogitei ir atrás dele enquanto o sujeito sumia calmamente pela rua, mas o que eu diria? “Ei, você é o Javier Barden?”, o moço ia rir da minha cara, óbvio. “Javier Barden, o que você estava fazendo no meu ônibus e agora no meu bairro?”, imagina a cena ridícula. Maluquice total, eu raciocinava enquanto ele dobrava a esquina e desaparecia. “Deus do céu”, eu pensava, “que disparate foi este? O Javier Barden no ônibus e agora aqui no bairro? Duas vezes num dia só, encontrar com a mesma pessoa?”, pensava, pensava sem chegar a um consenso racional para a situação.

Quando voltei para casa mais tarde, comentei com B.: “vi o Javier Barden hoje, duas vezes!”. Ele fez alguma piada que não lembro qual foi. Eu disse que jurava que era verdade, que tinha visto o Javier Barden e ele ouviu meio desconfiado a minha história. “E se fosse mesmo o Javier Barden?”, comentou distraidamente. Bom, devíamos estar os dois malucos para ao menos considerar uma hipótese daquela.

O que sei é que nunca mais avistei o tal Javier Barden. Continuei pegando o ônibus no mesmo horário, fazendo as mesmas voltas repetidas na pequena praça do bairro, sem me deparar com aquela figura. Muito tempo depois, eu ainda ficava ponderando o que teria acontecido. Seria alguém muito parecido com ele e que numa dessas coincidências malucas a gente encontra em dois lugares diferentes no mesmo dia? Ou será que tive mesmo uma visão do Javier Barden e, se tivesse corrido atrás dele num impulso de loucura, ele teria sumido como uma fumaça diante dos meus olhos? Por fim, a última hipótese, se de fato, inequivocamente, fosse mesmo o Javier Barden e eu, uma reles criatura, o tivesse descoberto em uma espécie de “viagem anônima pelos recantos do mundo”? Javier Barden... andando sem destino específico pelas ruas de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, estado brasileiro onde nasceu Pelé, Drummond, Clara Nunes e Dilma Roussef. Talvez fosse apenas um capricho, ou a manifestação do desejo de liberdade de transitar por lugares cujos nomes importam menos que a sensação que os sentidos fornecem de cheiro, cor, umidade, costumes, arquitetura, beleza, feiúra... Javier Barden... Longe dos holofotes de celebridades, gozando de uma necessidade tão humana quanto elementar que a carreira que o tornou conhecido agora lhe priva... Viajar... viajar... assim como eu viajei naqueles traços tão expressivos de homem.


Cristiane escreve no blog Palimpsesto

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2 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Cristiane? E quem dirá que não? rsrs.

Acabei viajando através de sua crônica. Lembrei-me de Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Um abraço. Paz e bem.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que bom relê-la por aqui, Cris. :) Fiquei que nem você com o Javier: "Mas será que é a Cristiane mesmo? Ou estou tendo uma alucinação?" Embarquei no seu ônibus literário. :)