domingo, 9 de janeiro de 2011

POSITIVO E (quase) OPERANTE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Aconteceu o que eu temia. E não foi surpresa nenhuma. As coisas que mais tememos costumam acontecer com uma frequência nada assombrosa. O medo é o mais poderoso magneto para se atrair o que quer que seja. O medo é o desejo condensado, pronto para acontecer a qualquer momento.

Esses dias, minha enteada perguntou como deveria rezar.

— Para conseguir o que você quer? — me certifiquei.
— Isso — ela confirmou.

E passamos quase uma hora num bom bate-papo existencial que teria durado poucos segundos se eu dissesse apenas:

— Tenha medo, muito medo, de conseguir o que você deseja, e o seu desejo se realizará como num passe de mágica. O medo é a reza mais eficiente que existe.

Pois comigo aconteceu. Os primeiros sintomas, eu nem percebi direito: o trabalho ininterrupto entrando pela madrugada, o prazer do esforço criativo, a insônia, a cabeça ricocheteando ideias, a falta de vontade de tirar o cochilo depois do almoço.

Aconteceu quando eu resolvi fazer algo que estava adiando há uns 10 anos: editar um livro com os textos do Crônica do Dia; fazer uma antologia das milhares de crônicas publicadas aqui neste espaço por centenas de autores.

— Eduardo, por que você não lança um livro do Crônica do Dia?

Ouvi muitas vezes essa pergunta, às vezes quase uma intimação, tanto de escritores quanto de leitores. E sempre respondi: "Não".

Desde que editei um primeiro livro, também uma antologia, só que de cartas, de forma independente, há 15 anos, jurei que não repetiria a aporrinhação. Fiquei decepcionado comigo mesmo pelo resultado: um livrinho feio, embora com um conteúdo tão maravilhoso que de vez em quando, apesar dos ácaros, eu ainda me pego folheando encantado. Mas nunca mais. Eu não dou pra isso. É muito esforço e muito gasto para um resultado frustrante. Melhor deixar os textos apenas no Crônica do Dia, no virtual, sem precisar fazer seleção, contatos, orçamento, contratos, revisão, provas, transporte, lançamento, estoque, notas fiscais, prestação de contas, etc.

Mas eis que então, de tanto medo que deu, aconteceu. Não sei se foi um acesso de euforia, um sonho bem dormido, uma boa transa, o recebimento de um dinheiro atrasado, um filme inspirador... Deve ter sido uma dessas coisas que tira a gente do sério e faz a gente pensar que a vida é um lugar propício à realização de sonhos. Fiz o convite aos autores e vários deles responderam com a mesma expressão: "positivo e operante". Deve ser moda, alguma fala de personagem de novela, ou então muita coincidência, perseguição, o universo pirando e conspirando a meu favor. E começou uma espécie de apaixonamento, não por outras pessoas, mas por ideias.

Como as ideias não têm moral exclusivista nem sofrem de ciúmes, outras ideias começaram a tocar a campainha e a coisa virou um bacanal de ideias, uma suruba mental que tanto excita quanto preocupa, afinal o que é que vão dizer os vizinhos?

Como meus cultos leitores devem saber, criação tem tudo a ver com sexo, sexo tem tudo a ver com violência, e sai de baixo, e monta em cima, e não adianta dar as costas porque também rola por trás. Aí eu viro um samba do crioulo doido que tanto tem ideias para fazer jogos de tabuleiro infantis quanto tem vontade de esbofetear as crianças que frequentam o Parque Olhos d'Água e usam, inapropriadamente, os equipamentos dos adultos.

É um mundo em guerra o mundo da criação. Os empregos normais, de bater ponto, ficam todos ameaçados. A vontade é largar o ganha-pão e fazer o que der na telha. Uma loucura, meus amigos. A vontade de dizer "eu te amo" é a mesma de dizer "vá para a puta que o pariu".

E eu fico pensando que das duas, uma: ou boto tudo pra fora, jogo tudo por água abaixo, correndo o risco de desagradar a galegos e candangos; ou me contenho, me refreio e espero a onda passar para voltar à minha vidinha.

Enquanto isso, melhor ninguém chegar perto. De um jeito ou de outro, quem se aproximar será contaminado: pelo meu violento entusiasmo ou pela minha zen indiferença. Me deixem de quarentena. Me poupem das coisas banais. Eu não estou para coisas banais. Eu só estou querendo coisas grandiosas, que entrarão para a história, tudo do bom e do melhor. Tudo positivo, mas como é que isso pode ser operante? Estou paralizado de ideias, vontades e prazer. Estou sofrendo de catalepsia justo na hora do coito. Chamem um médico, um psiquiatra, uma parteira, uma Mãe Sara da vida que traga minha normalidade de volta. O caso é grave.

"Estou a dois passos do paraíso. Não sei se vou voltar."

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4 comentários:

Lcardoso disse...

E eu como leitora e fa numero 1, certa que chegarei ao paraiso traduzido pelos escritores da CRONICA DO DIA, fico esperando pq SEI QUE VOU VOLTAR!

albir disse...

Edu,
lamento se essas suas crises forem dolorosas. Mas que elas são produtivas, isso são.

Anônimo disse...

Nao sou sempre operante, mas me considero sempre positiva. Nesse caso, enfim, juntei os dois. Positivíssimo. Super operante.
beijos
Kika

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gente querida, assim vocês me deixam definitivamente operante. :)