segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PRESENTES PASSADOS
>> Albir José Inácio da Silva

Presente não é brincadeira. Não para ela. Nada a aborrece mais do que a displicência com que certas pessoas tratam o assunto. Na compra de um presente deve-se colocar alma, amizade, carinho.

Nunca se esqueceu de como os presentes a fizeram sofrer. Presentes que nunca vieram ou dados de má vontade, mal escolhidos, só para se livrar da incumbência. Deram-lhe roupas grandes, sapatos pequenos, brinquedos que assustavam mais que divertiam. Passou a infância desejando presentes que não ganhava e recebendo presentes que não queria. Seus natais nunca tiveram Noite Feliz, Jingle Bells e outras canções melosas. Sua música natalina sempre gemia: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...”

Presente nunca mereceu o devido respeito, pensava, mas, ultimamente, os presenteadores enlouqueceram: vale-presente, cartão-presente e outros absurdos. Preguiçosos e incapazes há muito tempo já recorrem à imoralidade de perguntar o que a “vítima” quer ganhar. É o mesmo que dizer: não sei nada sobre você, não quero saber e me ajude a comprar seu presente já que eu tive o desprazer de tirá-lo como amigo oculto.

De sua parte, não. Gastava dias na busca de um presente. Presente tinha que ter, dizia, a cara de quem recebia. Não bastava servir, tinha que fazer brilhar o olho do presenteado. Revirava lojas, catálogos, barracas e camelôs, retornando várias vezes até ter certeza de que aquele era o presente certo. Do brinquedo do filho à lembrancinha do porteiro, tudo era um parto.

O presente para sua amiga, por exemplo, custou-lhe quilômetros de caminhada. Procurara dois dias sem achar algo que fizesse justiça a sua amizade. Achou roupas que todos usavam, sem personalidade, quinquilharias inúteis e, nas lojas mais requintadas, bolsas caras e feiosas. Sugeriram livros. Mas que livro? “Um que você goste”. Ora, o presente não era para ela, não era ela que tinha que gostar. Os palpites só serviam para irritá-la e a agonia durou até o dia de natal. Voltando às lojas, achou uma saia diferente e ousada – a cara da sua amiga - e não teve dúvidas. Era o que procurava.

Infelizmente quem a tirou de amigo oculto não teve o mesmo zelo. E agora, passadas as festas, ali estava ela na fila de trocas, com esperança de levar alguma coisa que pudesse usar sem sofrimento. Murmurava sua musiquinha triste sobre nem todo mundo ser filho de Papai Noel, quando reconheceu a voz que esbravejava no balcão. Era sua amiga que brandia, amarrotada, a saia que lhe custara tanta dedicação.

- ... então me dê qualquer coisa! Pares de meias, por exemplo! Qualquer coisa é melhor que isto!

Saiu da fila antes que fosse vista. Já na calçada, jogou fora o presente e comprou uma caixa de chocolates. Foi combatendo na boca o amargo das injustiças do mundo.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tava se achando, a pobre coitada. :)