segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PASSOS DE GIGANTE >> Kika Coutinho


Sofia aprendeu a andar. Em definitivo, aprendeu. Não falo isso com orgulho porque, na realidade, temo o andar. Claro, claro que quero o normal, o saudável, o correto. Mas, a cada desequilíbrio, meu coração dispara. Ela ergue as mãozinhas e sai dando seus passos, tão titubeante, tão incerta em suas primeiras caminhadas, que eu corro para dar-lhe a mão. Nem sempre ela quer a minha mão, acha que sabe voar, que não precisa de mim, mas, ali, na frente, ai, uma quina! “Sofia, tem que dar a mão pra mamãe!”, eu repito, agarrando-a pelo bracinho e enxugando uma gota de suor que me escorre da testa. Como suo! Enquanto tento seguir os conselhos alheios, enquanto tento me tranqüilizar e assistir ao aprendizado da minha filhota sem interferir, suo. Suo mentalizando: “Ela tem que aprender, ela tem que aprender, tombo é normal, tombo é normal”. Repito inúmeras vezes até que a vejo desequilibrando e “pá”, no chão. Corro em seu socorro desesperada (eu, mais do que ela) e ergo minha meninota, vendo se está tudo bem. Normalmente está, mas devo emagrecer infinitos quilos nessa busca.

Houve uma vez, recente, que, em uma fração de segundo, ela caiu batendo com a boca no armário. Peguei-a correndo e, quando vi, entre os lábios, sangue. Foi a primeira vez que vi sangue da minha bichinha. Não, aquilo não podia ser normal, onde já se viu, normal deixar a criança se ensanguentar toda, eu pensava, entre um milhão de pensamentos que partiam meu coração. Enxugando as lágrimas dela e vendo as minhas escorrerem, corri para uma pia, comecei a lavar, tentar levantar os lábios. Era o dente, era o lábio, era língua? Não via. Só sangue, sangue, sangue e meu coração dilacerado.

Quando nos acalmamos, consegui ver um minicorte no lábio superior. De biquinho, minha pequenina encostou-se ao meu peito, suspirou fundo, e um misto de conforto e calma me invadiu.

Se o tombo é doloroso, poucas coisas são tão reconfortantes quanto aquele encontro seguinte, quando as mãozinhas que balançam assustadas alcançam o abraço da mãe; e se acalmam. Um instante de paz após a tempestade. Um instante de amor após o que parecia um século de pavor.

Sofia sarou em dois dias. Talvez em um. Aumento um pouco para não soar de toda ridícula.

Eu continuo segurando-a pela mão, a cada pequeno passo. Não importa mais o que digam. Se não for por ela, por mim mesma, que aprendo devagar a doce – e assustadora – caminhada de ser mãe.



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Um comentário:

Carla Dias disse...

Pois é, Kika... Aprender às vezes dói, tanto para a filha quanto para a mãe. Acho que nunca fica mais fácil aceitar os tombos dos filhos... Acho que as mães aprendem e desaprendem, o tempo todo, numa gangorra emcional. Por isso acredito que este é um papel mtão importante. Ser mãe, a que acolhe e ajuda na jornada individual do filho. Nos tombos e nas conquistas.