segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

VIVA A IMPERFEIÇÃO >> Kika Coutinho

Dia desses, Sofia deu aquela habitual trabalho para dormir. Era uma noite em que eu estava sozinha, o marido atrasou no trabalho e restou a mim o trabalho – árduo – de lidar com uma criança insone.

Chorava, eu pegava. Parava. Quase dormia. Quando eu punha no berço, acordava. E chorava. Eu pegava. Não imediatamente. Deixei chorar por 5 minutos, 10, meia hora. Pegava. Parava. Punha no berço, chorava. Quatro horas se passaram, e chorávamos juntas: “Filha, mamãe tá cansada, por favor, me ajuda, eu não sei mais o que fazer.” Nesse meio tempo, dei mamadeira, dei água, dei colo, dei bronca, dei camomilina C – vai que é dente - troquei fralda, fiz massagem na barriga, nos pés, troquei roupa – pode ser o calor. Depois achei que era frio e liguei o aquecedor. Desliguei o aquecedor, pus Baygon no quarto – vai que é pernilongo – tirei o Baygon – vai que ela tá sentindo o cheiro – aspirei o nariz, fiz inalação, cortei a etiqueta do pijama – vai que tá incomodando – e o resultado disso éramos nós, mais de meia-noite, assistindo Cocoricó na sala. Eu cedi ao DVD com tanta dor e remorso que a situação ficou ainda pior. Meu Deus, bem eu, a rainha da rotina, a senhora tem-que-dormir-na-hora-de-dormir, só faltava agora eu por coca-cola na mamadeira. Eu estava enlouquecendo, pensei.

Foi quando ela riu com as aventuras do Júlio que eu me dei conta. De que adiantava? De que adiantava ceder com tanta dor e dúvida? Estávamos lá, eu não tinha conseguido ser a mãe perfeita naquela noite (e provavelmente nem nos dias). Qual o problema?

Por um instante, senti um alívio. Libertei-me de mim mesma, das minhas próprias regras e normas, das minhas incansáveis leituras didáticas, dos meus livros e lições. Chega, eu era normal. Agradeci por não ter drogas na residência, eu estava quase dando um comprimido para a bichinha dormir, mas não. Ainda tinha algum limite.
Sofia assistiu o seu DVD predileto, eu comi um chocolate, tomei meu refrigerante não diet e notei que estava viva, com inúmeras falhas, celulites e dúvidas.

Foi quando meu marido chegou, firme e são, que ela acalmou-se e, no colo dele, adormeceu. Junto com o peso do cansaço, senti a leveza de um aprendizado novo. A liberdade de me permitir adentrar no caos, de repente, foi açucarada – calórica, mas doce. Como as melhores coisas da vida.

www.embuchada.blogspot.com

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tá aprendendo tão rápido quanto a Sofia. :)

vivi disse...

Kika, tem noites que tbm passo por isso. Mas a Duda, não se rende ao Cocoricó, ela quer rebolar mesmo, seja com qual música for.

Beijos querida
vivi