quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LIVRO DE PONTO >> Carla Dias >>


Inspirado no olhar de Lucas Dupin



Navego, mares distantes, lonjuras homogêneas, barcos arfantes sem direito a porto. Tudo o que já disse sobre a vida foi apenas um ensaio, a sombra, o contorno. Não chegou nem mesmo às bordas do seu significado, conforme reza esse meu dicionário de buscas.

Sei que minhas buscas, a você, que na falta de atividade mais acolhedora, permite que seu olhar encare minhas palavras, pouco importam. Então, apresento meus esquetes emocionais, eles sempre tão intrincados, em cenas de filme que você jamais assistirá, senão na tela do meu dentro.

E sem título... Sem rótulo... Sem ficha técnica, apenas vínculo.

Navego os pés na água da piscina, e no destempero do outro, que ao ser contrariado, aperta os dentes, como se mordesse a carne para garantir o alimento ao rebento faminto.

Há tanta fome no mundo. A minha, agora, neste imediatamente, é por adormecer.

E fome matada, enquanto durmo, como raramente encaro o sono, pesadamente, como se fosse uma dormidora profissional, não perco o eco da existência, enquanto ela constrói em terrenos descampados, árvores ziguezagueando e construindo a paisagem, as cores dançando neste sonho como se fossem divindades em seu momento de questionamento. E nessa dança, meu caro, há mais beleza do que se imagina quando, ao se envolver em um naufrágio.

Estou aqui para aprender, mas agora não sei o quê. Não há no semblante das coisas e causas e faltas e tolices e amores perdidos o que me ensine a reconhecer o tema de tal jornada.



Saio à caça do saber o que sequer sei se desejo, ou se algum dia desejarei. Noite pintada de calmaria, algozes saboreando um quase perdão. A luxúria de poder escolher um desfecho que seja. Aprender a abotoar a camisa sem sentir saudade dolente de quem um dia a desabotoou para mim.

Será que desejarei aprender as amarguras a fim de exorcizá-las?

De acordo com a cronologia da minha história, morri quase mil vezes, antes de conceber o fascínio pela vida. E com este nascimento, vieram as doidices que alguém feito eu tem de cometer para sentir o pulso, o sol queimando a pele, pelos eriçados, para perceber as emoções esquadrinhadas no silêncio, assim como o torpor estampado nos quadros dependurados no fim do mundo.

Posso perder a bússola, o endereço, a roupa do corpo, o dinheiro do banco. Porém o rumo, este não preciso perder, porque declaro-me, aqui, neste agora acanhado, porém competente, uma dessas pessoas que sabem como viver o destino, ainda que ele não bata com o desejado, com a leitura das cartas, com o que diz o mapa astral, com as profecias feitas pelas tias em dia de chá da tarde, com os cartões de felicitações, com as previsões do tempo, com as cartas de amor rasgadas, tampouco com o passado embrenhado nas fotografias.

Que venha o destino, com suas mãos equipadas com pedras, e penas, e tapas, e afagos. Eu o espero, enquanto contemplo a vida, meus pés em uma poça d'água, em dia de chuva, enquanto tomo banho na avenida... Ou enquanto tomo sol, sabe-se lá...

Imagens: Lucas Dupin >> http://www.flickr.com/photos/lucasdupin

carladias.com

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, às quartas-feiras eu bato ponto nas suas palavras. É a única concessão que faço aos relógios de ponto. :)

albir disse...

Que bom te ler, Carla. Sempre.

Carla Dias disse...

Eduardo e Albir... Vocês sempre gentis com as minhas palavras. Beijos!