quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TRILHOS >> Carla Dias >>

Sem querer, um pensamento, daqueles que deveriam permanecer secretos, escapa-lhe pela voz. O outro o escuta, perfeitamente, erguendo a sobrancelha direita, como se perguntasse e respondesse ao mesmo tempo a própria pergunta, impregnado da sabedoria de que tem a chance de presenciar um deslize alheio. Uma sabedoria cortejada pela displicência.

Ele revira os olhos, o homem que perdeu para a voz o pensamento, tentando convencer seu espectador que fora apenas um infeliz comentário, e não por covardia para defender esse pensamento, mas cansaço por já tê-lo feito, e por tantas vezes, sem qualquer sucesso.

Seu companheiro de viagem de trem, um homem muito elegante, um conhecido desde vinte e poucos minutos, boceja um sono inventado. É o desfecho antecipado do que deveria ser uma viagem de trocas, na qual o intelecto de um desafiasse o do outro, transformando os trilhos em conquista pessoal. Mas o pensamento fugiu de um, e se esparramou pela paciência do outro, tornando-a irritada, devota do conforto de quem se nega a mergulhar em confronto.

Ao lado do libertador de pensamento censurado, um outro homem, já de idade adiantada, observa a tudo com a curiosidade de quem não está envolvido na trama, mas adoraria ser convidado a participar dela. Sorri, salutar sorriso, ao homem que perdeu o pensamento, e faz um gesto com a cabeça que diz "eu concordo", ou seria "eu concordo em discordar"?. Os olhos do outro brilham, como se ao ser notado, a vida lhe voltasse à alma, e as palavras ao silêncio de si. Ao anonimato da voz.

Olha pela janela, desferindo um olhar mais delicado à paisagem. A sua frente, seu companheiro de viagem está de olhos fechados, negando qualquer contato com o homem de pensamento desprendido da lógica. Para ele, na escuridão das cortinas baixadas, pálpebras em descanso, há menos a se fazer do que encarar uma discussão filosófica que a nada levará, causando aborrecimento e desventura. Acredita que melhor é ficar à revelia de qualquer confissão indesejada.

O senhor continua a observar o homem das palavras sequestrada pelo som. E quando ele encara seu observador, escapa-lhe também um sorriso de troca, de sintonia. O senhor não hesita em lhe perguntar de onde saíra tal pensamento.

"Do dentro do meu dentro... Das bordas e dos inícios... Do lar dos segredos".

E o senhor se aventura a tecer perguntas ao homem de pensamento desgarrado, buscando na sua curiosidade certo entendimento com a realidade, a vedete da vida. E assim compreende a compreensão do outro, e mesmo questionando alguns pontos da tal, é de uma delicadeza incapaz de ofender ou reprimir.

O preguiçoso para assuntos mais delicados, mais humanos e profundos, arregala os olhos para ouvir a conversa dos outros. Isso mesmo... Ele tem de ver para acompanhar o dito. É do tipo que se atém aos livros com figuras, e acaba rindo dos infortúnios alheios, mesmo quando há apenas miséria.

Fim da viagem, e os elegantes homens desembarcam, indo em busca das suas bagagens. Cada um pegará um rumo, cada qual se encaixará no lugar no qual cabem seus pensamentos.

E o senhor, já segurando sua mala, aproxima-se do jovem que se arrependeu de baixar a guarda ao pensamento rebelde. A feição do senhor é leve, solta, das que convidam para o apreço. O jovem lhe estende a mão, o senhor atende ao cumprimento, mas não sem dizer:

"Se a cada viagem você soltar um pensamento deste, tirá-lo do baú dos seus segredos, lançá-lo ao mundo, quem sabe consiga trazer para o debate, daqueles que geram conhecimento, os que ignoram completamente a importância de se escutar, saborear a impressão do outro, concordar, mas nem sempre com tudo, discutir, mas não sem perder a razão através do destempero".

O moço do pensamento escapado do seu dentro guardou com ele o conselho daquele distinto senhor, e deu de lançar pensamentos a cada viagem de trem que fazia. Às vezes, o silêncio após dito era completo, mas em outras havia quem o desafiasse a repensar o dito, quem desejava saber como ele chegara a tal pensamento, e até mesmo quem suspirasse profundamente, e depois soltasse o ar, sem nada dizer.

E assim ele se tornou conhecido pelos pensamentos soltos, desnudos de pudores, muitas vezes embargado de tanta emoção. Ficou conhecido e seus pensamentos reconhecidos. Talvez se torne filósofo, escritor, diplomata, presidente. Talvez continue sendo um comerciante da área da saúde, ou apenas um viajante com uma vontade tamanha de aprender com o outro, ainda que ele arqueie sobrancelhas, feche os olhos, finja dormir.

carladias.com


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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, dia desses conheci um senhor assim. São divertidos os senhores que dessilenciam pensamentos.

Bárbara disse...

Eu estava precisando ler algo assim... Que haja cada vez mais pessoas com pensamentos escapados!!

Carla Dias disse...

Eduardo... Sim! Divertidos, inspiradores, interessantes...

Bárbara... Que bom que meu texto coube na sua necessidade de ler algo feito ele. Obrigada por deixar seu pensamento escapar no seu comentário.

albir disse...

Carla,
ainda bem que você recolhe e traduz pensamentos soltos.

Carla Dias disse...

Albir... Não queria revelar, mas pra você eu conto: eu recolho e traduzo pensamentos soltos pra não cair num auto-esquecimento.