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Mostrando postagens de Maio, 2014

BRINCANDO COM O TEMPO >> Paulo Meireles Barguil

Nas últimas vezes, eu tentei, mas, somente hoje, consegui: comecei a escrever a crônica no dia em que ela será postada!

Não precisarei, pela primeira vez, programar a sua publicação. Esta, portanto, é uma crônica bem quentinha. Quer dizer, para mim, que estou escrevendo, pois não sei quando você irá lê-la...

Sim, eu confesso: durante o meu passeio no Planeta azul, eu tenho brincado com o tempo de várias maneiras, principalmente de corrida. Às vezes, ela é chata, pois eu costumo perder. É difícil fazer algo com prazer quando o resultado — para nós desfavorável — é conhecido antes do final, melhor dizendo, quase isso, uma vez que todos os ponteiros apontam para o mesmo resultado.

Por exemplo, assistir às corridas da F1 quando o Senna competia era muito legal para os brasileiros, pois ele ganhava muitas vezes e foi três vezes campeão mundial. Para quem torcia por outro piloto, elas eram um porre. Nos últimos 22 anos, temos experimentado uma dolorosa inversão de papéis, pois somente pilot…

POR UM INVERNO FACULTATIVO >> Mariana Scherma

Na primeira semana mais gelada do ano, não me ocorreu nenhum outro tema pra escrever a crônica de hoje. Desculpe. Pode ser que eu até já tenha detonado o inverno neste espaço (mais de uma vez), mas não custa deixar mais claro ainda o quanto eu desprezo essa temporada. Frio deveria ser facultativo. Você quer se sentir congelado? Sim? Ok, vá em frente. Não? Eis aqui sua passagem para o nordeste. Fique lá até o inverno ir embora. Mesmo ainda sendo outono... O que me deixa irritada no frio é que tudo fica mais difícil — tirando dormir, obviamente. Como não dá pra hibernar feito urso (alô, deuses, vamos conversar sério na próxima encarnação), achei digno listar minhas maiores dificuldades nessa fase. Você pode concordar ou só achar que eu sou reclamona mesmo. Fique à vontade.

Não existe abrigo pra tudo. Você se enche de casaco, põe meia de lã, luva, touca, mas... o nariz segue gelado. Porque ainda não inventaram nada que permita respirar e deixe o pobre nariz numa temperatura que não seja …

MEDITAÇÃO >> Carla Dias >>

Há esse eu vivendo dentro de mim, só que meio estrangeirado, que eu não entendia o que o tal dizia, ele que vivia encolhido num canto do mapa do meu pensamento, nos arrabaldes do meu espírito. Houve tempo que desejei conhecê-lo, como se ele fosse aquele artista de quem se gosta tanto, mas de um tanto, que se sente o desejo pungente de encontrá-lo pela manhã e pedir para que confesse seus sonhos, assim, entre um gole de café e uma mordida no croissant.

Meu cárcere é público Uma vitrine de dolências Onde me reviro até alcançar o avesso E nem sempre é o meu
Percebe?
Como se percebe um quadro torto Numa parede torta Trazendo à tona Sentimentos tão tortos quanto o quando
Só que ele fala em dialeto por mim desconhecido, às vezes até berra as palavras que soam feito urgências, mas quais? Não é apenas o fato de não me entender com ele, ou entendê-lo, ou ser capaz de olhar em seus olhos e fisgar ajustes, em vez de delegar ao destino o direito de impor ao meu eu forasteiro a solidão. Há mais por detrás…

SERVE CHITÃOZINHO E XORORÓ? >> Clara Braga

Técnicas para evitar sequestro relâmpago é o que não falta na internet e nos jornais. Entre e saia rápido do carro. Evite andar sozinho. Dê uma volta com o carro antes de estacionar e observe se não tem ninguém suspeito por perto. Caso tenha alguém te esperando, avise que está chegando, para todo mundo ficar de olho. Procure estacionar em locais iluminados. Enfim, por último, caso esses atos não evitem uma abordagem, não reaja!
Porém, tem uma nova técnica que as pessoas não estavam comentando até pouco tempo. Aparentemente, uma mulher se livrou de um sequestro relâmpago cantando música sertaneja para o sequestrador! Sim, ela cantou para acalmar o rapaz que parecia estar drogado e oscilava frequentemente o humor.
Seria cômico se não fosse trágico. Mas admirei a frieza da mulher, no lugar dela eu não conseguiria nem pensar, imagine cantar. Só me pergunto se serviria outro estilo musical, não conheço nada de sertanejo. Já pensou eu começando a cantar um rock'n'roll e irritar mai…

PALAVRAS DESENHADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Meus primeiros poemas foram escritos com caneta sobre papel. Minhas primeiras crônicas foram escritas em um computador. Estas palavras que você está lendo agora estão sendo escritas em um telefone celular. Não, eu não estou catando milho no teclado. Estou — acredite se quiser — deslizando meu dedo indicador direito sobre a tela, ligando rapidamente uma letra a outra letra, como se fosse uma criança fazendo as primeiras garatujas. A diferença é que o aplicativo que estou usando transforma meus rabiscos em palavras.

O leitor talvez nem consiga imaginar a que estou me referindo. Confesso que um vídeo seria mais esclarecedor do que estas minhas palavras. Mas fazer o quê? Não sou cineasta, sou escritor.

Tudo bem, o aplicativo não é perfeito. Não conhecia a palavra "garatujas", por exemplo, então tive que digitar letra por letra, à moda antiga. Às vezes, o aplicativo também não entende direito o que desenho: quando intencionei desenhar "escritor" pela primeira vez, ele e…

DUAS HISTORINHAS DE AMOR BANAIS. MAS FELIZES
>> Zoraya Cesar

Todos queremos viver uma história de amor. Ou duas, ou três. Aquele encontro mágico que vai transformar nossa vida e dar-lhe um sentido além das aparências, além do cotidiano, além da morte. Além das decepções, do trabalho chato, da falta de dinheiro para todas as contas, de ver os sonhos murcharem com o passar dos anos. 
Tudo isso fica pequeno quando vivemos uma história de amor. 
Primeira história
Artur era romântico e casara por amor. O casamento, no entanto, fora um desastre tão escandaloso quanto surpreendente, pois ele descobriu que a mulher tinha caso com o próprio primo, e toda a família dela sabia. Aliás, ele desconfiava, amargurado, que o mundo inteiro sabia, menos ele. 
Separação, desconforto, humilhação, você fica com isso e eu com aquilo e o advogado dela era melhor, ele ficou com as roupas do corpo e voltou para a casa da mãe. Arrasado, pois acreditava em almas gêmeas, amor eterno, queria casar, não era um homem singular, era plural. 
Vida que segue aqui, vida que segue …

MENSAGEM AO PASSADO >> Fernanda Pinho

Há algumas semanas, vejo pessoas compartilhando nas redes sociais uma pergunta que me intriga: “Se você pudesse enviar uma mensagem de apenas duas palavras para si mesmo quando mais jovem, o que escreveria?". Não ouso entrar na brincadeira pois me reconheço incapaz de enviar uma mensagem de apenas duas palavras para quem quer que seja.  Muito menos para minha versão mais jovem que, possivelmente, é a pessoa para quem eu mais tenho vontade de dizer coisas. Muitas coisas. Talvez, mais apropriado seria escrever uma carta.
Querida eu,
Em primeiro lugar, informo que talvez você não tenha me encontrado num bom dia. Estou levemente irritada, já que estou há dias vivendo a base de suco de soja, queijo cottage, pão integral e outros alimentos que estão muito, mas muito longe de serem os meus preferidos. Considerando que tenhamos a possibilidade de reajustar as coisas, o que você poderia fazer para evitar que eu chegue nesta situação é: parar de comer. Ou simplesmente parar de comer tanto…

SUPERFÍCIES >> Carla Dias >>

Colecionador dedicado de amores vãos, ultimamente anda por aí arrastando silêncio, jurando em pensamento, e em nome de todos os santos, que vai mudar.

Prometeu a si, em momento de rendição — e de esvaziamento de uma garrafa de seu vinho da preferência —, que deixará de ser a pessoa que se acostumou a assumir o cargo de espectador de felicidade alheia.  Na sua cabeça, enxerga a si como um cavalheiro apto a vencer acirrada batalha. Mas dê-lhe cinco minutos, talvez menos, que ele vergará ao suspiro do desolamento, que não foi criado pela sua tia, por parte de pai, para ser homem desonesto com o sentimento.

Ele se sente extremamente desconfortável com a sua realidade. Sonhou em se tornar esportista, e então radicalizar e escalar o Monte Everest. Assim teria uma fotografia que poderia dispor, orgulhosamente, em porta-retratos presenteado pela tia-mãe, ocupante de seu criado-mudo. Um desejo assim, ousado para um homem que se acostumou a trabalhar sentado a uma escrivaninha, fazendo contas …

FAMOSO QUEM? >> Clara Braga

Eu tenho um vício, amo assistir premiações! Não interessa se é brasileira ou não, se é de cinema ou se é de música, se tem alguém de quem eu gosto concorrendo, se é reprise ou ao vivo, não interessa, eu gosto mesmo é de assistir. Não esperem que eu explique, aliás, nunca esperem que alguém explique um vício. Essas coisas são assim, quando a gente percebe já está assistindo a terceira reprise como se fosse ao vivo e torcendo na esperança de que algo mude, mesmo sabendo que não vai mudar.
Sim, esse meu vício é antigo, mas confesso que algumas coisas mudaram. Antes eu mal sabia o nome dos atores que estavam concorrendo ao Oscar e não assistia nem metade dos filmes mais falados. Mas se me perguntassem quem estava concorrendo na categoria de melhor cantor do MTV Music Award, eu não só te dava a lista completa como explicava o porquê da probabilidade de fulaninho ganhar e fulaninho perder.
Hoje em dia participo de tudo quanto é bolão do Oscar e tenho me saído muito bem, mas assistindo ao B…

SODAMA IV >> Albir José Inácio da Silva

Seu Ernesto lamentou o desaparecimento de “tão aguerrido adversário” e redobrou seus esforços de campanha.

Era hora de voltar às ruas, de onde saíra depois de ouvir até xingamentos provocados pelo discurso de ódio de Manassés. Sacudiu a poeira pra retomar passeatas, santinhos, doações e entrevistas. Puxa-sacos, jagunços e desocupados foram arregimentados para a empreitada. Voltaram os elogios e os tapinhas nas costas, os filhos eram trazidos para a bênção do Seu Ernesto. Gentinha mais sem-vergonha!, pensou ele.

Dessa vez só não podia haver faixas e cartazes no Sodama. Precisava cortar os laços que ainda o ligavam àquele lugar. Assumiu novo gerente, um tal de Lucão, pessoa de sua confiança, suficientemente discreto para não lhe causar embaraços.

As meninas é que não iam bem. Aumentavam os rumores de que a casa seria fechada e agora elas tinham aquele gorila como gerente. Qualquer reclamação de cliente e ele multava, o que fazia aumentar a eterna dívida das meninas. Além disso, nos cor…

DE MARÉ, MARÉ, MARÉ >> Eduardo Loureiro Jr.

Minha resolução de ano novo foi ser mais natural: comer mais frutas, verduras, grãos; trocar ambientes artificiais pelo contato direto com a natureza; locomover-me menos a motor e mais com a própria energia de meu corpo. O objetivo está sendo realizado a contento, mas essa semana descobri um efeito colateral...

Percebi-me alternando períodos de ânimo com períodos de desânimo, dias tristes e dias alegres. Não é de hoje que tenho uma certa tendência para o transtorno bipolar ou, usando uma denominação mais antiga, para a psicose maníaco-depressiva. Mas esses próprios nomes, tão pomposos, não seriam apenas uma expressão desse nosso distanciamento científico em relação à natureza? Pois o que tenho sentido, nesses tempos recentes, é que essa alternância de ânimo e de temperamento não é uma mudança brusca e imprevisível, mas um movimento contínuo e cadenciado. Ocorreu-me que talvez se trate de uma maré interna.

Levei muitos anos para saber de que se tratavam as marés marítimas. Se houve exp…

EU NÃO SEI! >> Paulo Meireles Barguil

Descobri, há pouco tempo, quão libertador é poder dizer "Eu não sei!" com convicção e sem qualquer vergonha.

É verdade que, para um professor, essa declaração pode, a depender do contexto, ameaçar sua reputação, a qual foi construída com muito estudo e renúncia. Por isso, eu só recomendo proclamá-la após o estágio probatório ter sido aprovado, no caso de servidor público. Para os que lecionam no sistema privado, recomendo que se acautelem na verbalização da mesma!

Comparo-a a um mantra (do sânscrito Man, mente,Tra, controle), que deve ser repetido pelo fiel várias vezes, com objetivos múltiplos: meditar, energizar, adormecer, acordar...

No meu caso, acredito que essa oração se constitui num divisor de águas: tal como Moisés que, após tantos anos de escravidão, atravessou o Mar Vermelho fugindo do exército egípcio, ela me conduzirá à terra prometida.

Para um aprendiz de cientista, que adora brincar de entender a vida, as pessoas, o mundo, essa admissão poderia soar como a des…

SOFÁS, SONHOS E (ZERO) LOUCURA
>> Mariana Scherma

Das frustrações da minha vida: eu nunca me lembro dos meus sonhos. Não estou me referindo aos sonhos de vida, como ganhar na Mega-Sena e ser vizinha do Adam Levine pra vê-lo todo dia passeando sem camisa com o cachorro. Falo dos sonhos de quando dormimos mesmo, do nosso subconsciente em ação. Tem gente que perde vários minutos do dia contando histórias que nem a melhor das imaginações poderia criar. Aquele tipo de história de filme louco francês que você só dá conta de pensar “ahn?”. Eu nunca tenho esse tipo de relato maluco pra contar. E, veja bem, eu amo contar uma história doida.
Uma vez, ao entrevistar uma médica psiquiatra que estuda o sono, fiquei sabendo que todo mundo sonha, sem exceção. A diferença é que as pessoas que podem se gabar de contar suas aventuras oníricas acordam várias vezes à noite e, aí, o cérebro acaba relembrando algumas partes do sonho. As pessoas, como eu, que não têm meia frase de loucura pra contar quando acordam, devem esse fato ao sono profundo. Não acor…

AQUELE SONHO E AQUELA MÚSICA DO LED ZEPPELIN
>> Carla Dias >>

Noite passada, sonhou que estava bem longe do seu apartamento de quarto, sala, cozinha, banheiro e minúscula área de serviço, situada no centro de bairro pelo qual se apaixonou há quase duas décadas. Sonhou que seus pés pisaram neste lugar que tinha como quintal o mundo, e inteirinho, espaçoso, com direito à grama verdinha e uma vista de inspirar suspiros.

Acordou do sonho, estava pronta para fazer as malas e se mudar para aquele lugar. Onde seria mesmo? Ah, que a memória anda capenga, com tantos dados, estratégias a serem analisadas e aplicadas, relações diplomáticas a serem sustentadas por positivismo decorado de lista com as principais frases de autoajuda.

Quando foi mesmo que a vida ficou entremeada com armadilhas?

Ao comentário recorrente “o tempo anda passando tão depressa”, nunca deixa de dizer o que pensa a respeito, talvez em uma tentativa de justificar o tanto de tempo que dispensa com o que talvez não mereça assim tanta atenção. Para ela, não é o tempo que anda passando de…

SERÁ QUE EU VOU? >> Clara Braga

Essa semana li uma notícia que me fez rir de nervoso. Governos internacionais alertam seus cidadãos: se forem para a copa no Brasil, levem separado o dinheiro do assaltante. É sério isso? Só esse alerta seria o suficiente para eu pensar várias vezes antes de tomar a decisão de vir para a copa. Imagina se eles fossem alertar outras coisas como...

Caso seja assaltado, cuidado com o policial com quem você vai falar, ele também pode ser um assaltante.
Não ande com joias, máquinas fotográficas, colares, anéis, nem nada que possa chamar muita atenção. Mas também não ande completamente desarrumado de forma que possa parecer um provável assaltante, pois se os tais justiceiros da rua decidirem que você pode oferecer risco, podem te espancar até a morte.
Nunca ande sozinho. Mas evite grupos grandes, pois vocês podem ser surpreendidos pela polícia e sofrerem agressões ao serem confundidos com manifestantes ou com um grupo que está fazendo um rolezinho.
Não faça compras, no seu país tudo é mais bara…

COURO DE LOBISOMEM >> André Ferrer

Quando surgiu no cenário internacional, Lula causou certo movimento na imprensa. Trataram-no mesmo como uma versão tropical do Lech Wałęsa. Um prato cheio para a eterna campanha política do PT no Brasil. Hoje em dia, está claro que foi mais pelo exotismo da figura do ex-presidente do que pelo seu conteúdo. Quem vai às fontes originais, na imprensa internacional, e sabe filtrar as mentiras e distorções incorporadas às notícias vindas de fora, está consciente de que se tratou de uma chuva de verão.

Recentemente, Lula foi a Portugal, onde declarou que o Poder Judiciário brasileiro conduziu o julgamento do Mensalão de forma duvidosa. “O tempo vai se encarregar de provar que no mensalão você teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica” disse à emissora de TV RTP.

Algumas semanas depois, no mesmo programa e no mesmo canal, Ney Matogrosso criticou o governo brasileiro e, principalmente, os caminhos escolhidos para o tão propalado combate à pobreza.

Na opinião dele (qu…

A VOLTA >> Whisner Fraga

Depois de uma semana fora, me lembrei que não há melhor lugar no mundo do que minha casa. Viajar é bom, conhecer lugares novos é ótimo, mas parece que a estrada só serve para nos mostrar que a saudade exige que retornemos. Até Helena não aguentou e hoje pediu para vir embora. Como é dia de Parada Gay, decidi que sairíamos bem cedo, para evitar um possível congestionamento.

Na altura do quilômetro 80 da Rodovia Bandeirantes, porém, surgiu uma enchente de carros e motos. Como o plano era uma parada no Posto 56 para um almoço, ponderei que ainda poderíamos escapar. Cabeça fria. Paramos, enchemos o tanque, esticamos as pernas. E seguimos para o restaurante. A comida é boa, mas muito cara, como de praxe em todo estabelecimento de beira de estrada.

Saímos da Flipoços para a casa dos sogros. Em Poços, tive a oportunidade de me reconciliar com a literatura. Vinha meio arredio. Vocês sabem, né, o Brasil não é nem de longe o país das letras e, lá fora, ninguém se interessa muito pelo que escrev…

SOBRE LENÇOS DE PAPEL E ARMÁRIOS >>
Cristiana Moura

Tirei rápido a mão da bolsa. Ai, ai, ai. Uma bagunça. Mão e bolsa meladas por uma pomada cujo tubo se perdeu da tampa.

— Ana, você com essa bolsa grande tem guardanapo, papel higiênico, lenço de papel ou algo assim?

— Tenho lenço de papel. É que sempre alguém chora perto de mim.

Nesse instante, deixei de ouvir a música e a multidão do show. Sua fala me encantou daquele jeito que só os pequenos acontecimentos que alteram o fluxo da respiração e do cotidiano são capazes de encantar. E ela continuou:

— Em qualquer lugar, no trabalho, num passeio, sempre alguém chora perto de mim. Então eu trago os lencinhos.

Quase choro também de uma emoção leve e livre que borbulhou entre o esôfago e a face. Senti, por dentro, um sorriso daqueles que são fruto de cócegas bem vindas, me fazendo acreditar que, se as lágrimas tivessem escapulido, teriam virado bolhas de sabão.

Não, não chora! Põe um sorriso neste rosto! Vai chorar agora? Aqui não, não, não chora. São frases que se diz e que se ouve. Por ve…

TRATO FEITO - PARTE II >> Zoraya Cesar

Leia Trato Feito Parte I
Paciência, eis a arma dos fortes, filosofava a loura Michelly. O plano que Jorge traçara para viver às custas do casal até o último centavo estava funcionando. Ela conseguira convencer o ex-marido de Heloísa que esta não era nenhuma santa e o traía há muito tempo, fora tudo um plano para ele sair de casa de mãos abanando. 
Heloísa estava mal. O atual companheiro só gastava e o ex-marido a perseguia, acusava e ameaçava, exigindo a divisão de bens – dos bens dela, bem entendido. Foi nessa época que lhe chegou às mãos um envelope, sem identificação, contendo diversos documentos e uma carta. Nela, o anônimo missivista revelava que Jorge era estelionatário escorregadio e perigoso, que já tentara matar uma de suas vítimas. A polícia procurava há tempos as provas que Heloísa agora possuía, junto com a oportunidade de vingar todas as mulheres que o miserável deixara na pobreza ou aviltamento.
Nervosíssima, ela entrou em contato com o aposentado advogado criminalista …

EFUSIVOS INCOMPREENDIDOS >> Fernanda Pinho

Já li vários textos escritos por pessoas introspectivas, manifestando para o mundo suas dificuldades e também as vantagens que encontram levando uma vida mais, digamos, recolhida. Naturalmente, são textos excelentes posto que grande parte das pessoas que desenvolvem a aptidão para escrever geralmente o fazem por isso: porque são introspectivos edescobrem na escrita uma forma de se expressar.
Por outro lado, dificilmente vejo alguém escrevendo alguma defesa às pessoas mais expansivas e é isto o que me trouxe à crônica de hoje. Não estou negando minhas origens nem nada. Sei que, num passado remoto, comecei a escrever – cartas, diários e histórias – porque tinha uma certa preguiça de me relacionar de outras formas com o mundo. Mas a preguiça passou, a genética entusiasmada falou mais alto, pendurei meu casulo e hoje acho que faço parte do grupo que estou chamando de efusivos incompreendidos.
Antes de falar da incompreensão, porém, preciso falar dos nossos sofrimentos. Pode parecer exa…