quarta-feira, 14 de maio de 2014

AQUELE SONHO E AQUELA MÚSICA DO LED ZEPPELIN
>> Carla Dias >>



Noite passada, sonhou que estava bem longe do seu apartamento de quarto, sala, cozinha, banheiro e minúscula área de serviço, situada no centro de bairro pelo qual se apaixonou há quase duas décadas. Sonhou que seus pés pisaram neste lugar que tinha como quintal o mundo, e inteirinho, espaçoso, com direito à grama verdinha e uma vista de inspirar suspiros.

Acordou do sonho, estava pronta para fazer as malas e se mudar para aquele lugar. Onde seria mesmo? Ah, que a memória anda capenga, com tantos dados, estratégias a serem analisadas e aplicadas, relações diplomáticas a serem sustentadas por positivismo decorado de lista com as principais frases de autoajuda.

Quando foi mesmo que a vida ficou entremeada com armadilhas?

Ao comentário recorrente “o tempo anda passando tão depressa”, nunca deixa de dizer o que pensa a respeito, talvez em uma tentativa de justificar o tanto de tempo que dispensa com o que talvez não mereça assim tanta atenção. Para ela, não é o tempo que anda passando depressa, mas nós que só fazemos é acumular funções, profissionais e pessoais, que mal cabem nas vinte e quatro horas do dia.

Só sabe sossegar a cabeça assistindo novela, que é calmante para os muitos pensamentos que a assaltam, quando bate cartão em casa, depois de um dia com lista de afazeres não concluídos. Chá de camomila ajuda, mas não nesse calor que só a faz rezar para que o inverno chegue logo, que o frio sempre a faz se sentir mais feliz.

Durante uma cena, muito mal dirigida, por sinal, da novela-calmante, ela se desliga do agora e tenta acessar o tal sonho. A curiosidade sobre que lugar era aquele, onde ela se sentia pertencente ao universo, e não apenas à lista de clientes da tevê a cabo, dos fadados a receber telefonemas do telemarketing, diariamente. Outro dia, a atendente perguntou por ela em um tom tão íntimo, que ela pensou que fosse uma amiga, e respondeu um “há quanto tempo!” todo saudoso. A moça continuou no engano, mas somente durante o cabeçalho do texto decorado. Bastou entrar no assunto “a senhora foi selecionada para ser beneficiada pela promoção...”, que ela amiudou, pediu desculpas e nem esperou a insistência da atendente para desligar o telefone. Não é de desligar telefone na cara de ninguém, mas a atendente passou do limite.

Foi para a cama mais cedo, mas não sem antes deixar a iluminação do quarto aprazível, acender um incenso – mirra, sempre – e colocar um CD que veio de brinde em uma revista de meditação, que ela ganhou por ter feito mais de R$ 300,00 em compras no supermercado. Aliás, ela comprou quase nada nesse dia, e pensa em como a vida anda cara.

Acontece que o sono foge dela, que apaga a luz para ver se isso a ajuda a dormir, que tem reunião amanhã cedinho, precisa estar bem vestida e com o sorriso a tiracolo, as palavras afiadas e o charme decorado. Daí que se irrita com a música de meditação, pega os fones, para escutar música e abafar o barulho dos meninos do skate da madrugada, que aproveitam a rua vazia para treinar as suas manobras e endoidecer os que precisam dormir. “When The Levee Breaks” não é canção de ninar, mas Led Zeppelin é tão bacana que ela prefere ficar acordada em boa companhia.

A reunião segue, com cada um dos presentes defendendo a sua parte do negócio. Ela está distraída, que passou a noite em claro, tentando se lembrar do sonho, que já começa a pensar ter sido uma memória, que ela sente o cheiro da terra, quando a chuva cai, e escuta o vento se esticar rumo ao horizonte. E quando alguém lhe pergunta sobre o que dizem as estatísticas, ela o encara, em silêncio. É que, neste momento, a única coisa que reverbera em sua cabeça é a música do Led Zeppelin.

Ela sorri para pessoas que não entendem sorrisos quando precisam da seriedade para endossar profissionalismo. Ela sorri, porque se é para dar branco, que seja com uma música do Led Zeppelin de trilha sonora.


WHEN THE LEVEE BREAKS - LED ZEPPELIN



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2 comentários:

Zoraya disse...

Carla, sensacional essa, maravilhosa, como sempre, aliás, né? E colocar Led Zeppelin é covardia!
Beijos

Carla Dias disse...

Zoraya... Não colocar Led Zeppelin seria pecado, então... Beijos.