sexta-feira, 27 de abril de 2018

É HOJE! >> Paulo Meireles Barguil


– É hoje! – assustado, gritei para mim: são quase 21 horas e preciso publicar a crônica quinzenal.
 
Não é que eu tenha me esquecido: achava que tinha escrito na semana passada...
 
Todos vivenciamos situações em que não nos lembramos de algo importante: seja para a gente, seja para outra pessoa.
 
Em virtude de uma perspectiva sistêmica, que procuro implementar na minha vida, sei que é necessário considerar o contexto, o processo, e não me concentrar apenas no resultado, no produto.
 
Na hora do aperto, o prejudicado não quer saber de álibi, justificativa, desculpa ou análise.
 
Às vezes, a avaria pode ser zerada, outras vezes, diminuída.
 
E quando a situação é irremediável?
 
Ou de restauro quase insignificante?
 
Ignoramos os frutos do que fazemos, mas esses são influenciados pela intensidade do nosso desejo de viver num mundo melhor.
 
É uma tragédia nós ainda sermos tão impolidos e nos ferirmos com tanta frequência.
 
A crença na separação é uma grande ilusão e fonte de muito sofrimento, motivo pelo qual é crucial desenvolver uma sensibilidade que perceba as conexões invisíveis aos olhos apressados.
 
Precisamos de mãos carinhosas, capazes de cuidar e não apenas de demandar, bem como de aceitar o momento de partir.
 
Não falta quem queira aprender a mergulhar: cada um no seu ritmo, tempo e espaço.
 
Entre esquecimentos, lembranças e aprendizagens, o nosso corpo brada: – É hoje!


[Porta Soprana – Gênova – Itália]
 
[Foto de minha autoria. 04 de março de 2013]


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quarta-feira, 25 de abril de 2018

SE EU FOSSE DAS COISAS DITAS >> Carla Dias >>


Que há sim o que eu diria se houvesse tempo e espaço e encontro e vitalidade. Coisas como dane-se!, declaração seguida por uma gargalhada afiada, das que deixam bem claro que a verdade foi dita e com gosto.

Só que me amiúdo em mim, reverberando silêncios e contrabandeando espaços que me separam de desfechos. Longe eu me mantenho, que é para não correr o risco de quebrantar em cinco minutos de conversa fiada, aquele aquecimento necessário para chegar ao que eu diria se tivesse coragem.

Que, nesse momento, consigo nem dizer para mim mesma.

Certa vez, um padre disse: pode contar tudo, minha filha. Foi nesse quando que compreendi que jamais diria a verdade a quem pedisse pelo meu tudo. Ninguém deveria pedir o tudo ao outro. Tudo é matéria que nem mesmo o proprietário dele conhece por inteiro. Então, contei ao padre um tudo forjado pela minha imaginação. Colori e sombreei o que achei cabível. Modifiquei nuances, incrementei com suspiros as minhas declarações.

O padre adorou a história, mas disse que eu era das pecadoras que precisam se dedicar para não cometerem pecados com aguda facilidade e vergonhosa felicidade. E enquanto ele explicava seu ponto de vista, com a benção de Deus, obviamente, eu só conseguia pensar que eu tinha criado, para entregar àquele estranho, um tudo que eu viveria com gosto.

Que a pele sempre desejará ser arada por toques. As palavras escaparão, libidinosas. Os cômodos serão preenchidos com caminhadas na cadência da ansiedade, porque passou da hora do abraço. A curiosidade sempre me levará à próxima pergunta, ao aprendizado seguinte, ao erro inevitável.

Mas eu diria, se eu fosse das coisas ditas, com ênfase na palavra mais arisca, com a convicção de quem quer saber nada sobre dúvidas. E o dito ecoaria de dentro de mim para o fora do mundo. Sairia da obscuridade do conhecimento único para rebater lonjuras ao se esgueirar pela percepção alheia. Compartilharia a coisa que é o que é, onde as invencionices não se colam, tamanha veracidade há em seus dramas.

Não que haveria importância se eu o dissesse. Por mais volúvel que parecesse, entremeado por suspiros e labirintos e urgências. Ainda que tivesse como meta remoçar sentimento, enquanto o tempo envelhecesse corpo. Talvez houvesse muito ali, menos a importância coletiva. É egoísta mesmo. É intransferível. Cabe somente a esse universo que chamo de meu, mas onde outros, com um pouco de habilidade preguiçosa, desafogam suas auguras, depois voltam para suas casas, leves e esperançosos.

E eu fico onde estou, pesada e melancólica.

Disse que melhor era pagar penitência, e que eu rezasse Pai Nosso, Ave Maria, entoasse o Credo. Que fortalecesse o contato com anjos e dispensasse os demônios. Naquele momento, eu disse, assim, sem medo e com a verdade na essência:

Não, obrigada.

Agradecida, recolhi meus pecados inventados, inspirados pelos atrevimentos verdadeiros, e fui para a rua. Garoava e, ainda assim, as ruas estavam consideravelmente frequentadas. Observei aquelas pessoas úmidas de garoa. O que será que elas não dizem?

Quer comprar bala de hortelã, moça?

E o encaro, miúdo e de olhar choroso. Tiro uma nota do bolso e troco por um punhado de balas. O menino vai embora e eu nada digo.

Mas eu diria. Eu diria se...

Imagem: Water Serpents II © Gustav Klimt

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terça-feira, 24 de abril de 2018

GLEICI X GLEISI >> Clara Braga

Esses dias estava acompanhando na televisão um desses debates com especialistas. Nesse dia, três cientistas políticos analisavam o atual cenário político brasileiro e faziam previsões, ou melhor, levantavam possibilidades a partir de um conjunto de fatos (assim não fica parecendo que o debate era entre discípulos da Mãe Diná), dos possíveis candidatos à presidência da república.

Lá pelas tantas, depois de muito falarem sobre a prisão do Lula, disseram que o PT não deve demorar para lançar um candidato, pois isso pode depor contra o partido, e que uma das possibilidades reais do PT é lançar a candidatura da senadora Gleisi Hoffmann.

Eu não entendo absolutamente nada de política, mas confesso que achei estranha essa posição dos debatedores, além de não achar que a Gleisi tem um apelo popular bom, ela está sendo investigada, não está? Enfim, mas quem sou eu para questionar cientistas políticos!

Coincidência ou não, no dia seguinte estava olhando uma rede social e vi uma fotografia que ilustrava uma notícia de jornal. Na fotografia um grupo muito grande de pessoas se amontoavam ao redor de uma faixa escrita: Gleici, nós te amamos. Eu, que até então não sabia que a senadora se chamava Gleisi e não Gleici, achei muito curioso, pensei: não é que os cientistas estavam mesmo certos, parece que a senadora tem um apelo popular muito maior do que eu poderia imaginar.

Decidi entrar na notícia e ler onde foi que as pessoas haviam se juntado para receber a senadora de uma forma tão calorosa, e foi aí que entendi a confusão: além da Gleisi não ser Gleici, ninguém estava nem um pouco preocupado com a agenda política, Gleici foi a eliminada da semana do BBB18 e estava sendo recebida dessa forma carinhosa no Acre, local onde morava antes da fama.

Me senti uma idiota assim que entendi a confusão que fiz, mas isso é o que acontece com quem tenta entender mais sobre política ao invés de ficar por dentro das notícias da atualidade, afinal, o que realmente importa: notícias sobre uma senadora que pode vir a ser candidata ao cargo de presidente ou a chegada da verdadeira heroína brasileira em sua terra natal? 





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sábado, 21 de abril de 2018

DESAGRADABILÍSSIMO >> Sergio Geia





O título não é por acaso. Se quiser abandonar o barco, a hora é agora.
Mas prometo que serei delicado, o mais delicado possível. Pretendo terminar este breve relato com máxima elegância. São coisas da vida. Não pense que Scarlett Johansson ou Marina Rui Barbosa estão livres disso.
Nunca pensei que uma coisa bobinha dessas pudesse ser tão chata e constrangedora. Depois que você atinge certa maturidade, que você reconhece que tem mais passado que futuro (Melancolia, pessimismo? Nada! Faça as contas), tudo parece estar sob controle, e, o que foge, ou parece fugir, a experiência propicia mecanismos de manejo para fazer com que a coisa possa trazer o mínimo de transtorno possível. São as habilidades sociais que qualquer quase-cinquentão adquire com as voltas que a vida dá.
O happy hour estava marcado pro barzinho de sempre. Havia tempo que não via os ex-colegas de trabalho, um reencontro com pessoas queridas. Conversas animadas, chope, comidinhas, um degustar alegre do saboroso passado, aventuras pitorescas, acontecimentos triviais e os inusitados, o presente de cada um, as novidades, tudo o que se encaixa na faixa de um fraternal reencontro de pessoas que conviveram durante anos, mas que, por essas voltas que a vida dá, as chamadas contingências, acabaram se separando.
O primeiro aviso aconteceu, eu nem liguei. Aliás, nem percebi, coloquei-o dentro daquelas desimportâncias ingênuas e passageiras, um pequeno desconforto momentâneo, nada, longe disso, que pudesse tirar o colorido daquele festejo. 
Não me lembro, honestamente, de episódio parecido. Aliás, até lembro de um, eu ainda mocetão, na casa dos 18, 20 anos, pobre de marré deci, que saía a pé com os amigos sábado à noite, até que um cinza-chumbo de céu carregado ameaçou desabar no meio do caminho, me fazendo dar meia-volta e correr como um gnu, o bicho mais rápido do planeta, pra casa.
Os demais avisos se sucederam e o espertão aqui, enfim, se deu conta da tragédia que estava prestes a acontecer. O pagamento da conta, a volta imediata pra casa (diga-se, em outra cidade) não seria a melhor solução: uma desfeita com os amigos, sem dúvida, e total ausência de garantia de sucesso, diante da distância entre as duas cidades.
O jeito — o pensamento deslizou em solavancos, como numa rua esburacada, sobre um sujeito cinza de dor — seria encarar o que se tinha praquele momento, torcendo para que o espaço, cuja falha de memória não me permitia um diagnóstico preciso, fosse adequado, amplo, arejado e limpo.
A lei de Murphy deu sua parcela de contribuição.
Pequeno, sem ventilação ou entradas de ar, para só uma pessoa por vez (bar lotado), inadequado para o momento. Limpo, se há um consolo. Solução? Nenhuma. Também, diga-se, o tempo se esgotara.
Mas houve outras intempéries.
Essa eterna mania de economia de energia, credo! Sem movimento, no pequeno recinto, a luz se apagava. Precisei erguer as mãos (não, não era a música do Padre Marcelo) várias vezes; me imaginava no estádio comemorando um gol do Borja (Leu Borja? Não, é Borha), pois não bastava um simples erguer das mãos, a coisa tinha que ser violenta.
Que saudades do meu Neve de cada dia, mas sobre isso nem falo, digo apenas que era fino como uma seda, delicado.
Tentei reduzir o tempo útil do momento, parcelando-o em 3, 4 vezes, coisa que sempre faço com minhas contas, de forma a permitir o compartilhamento do espaço. Confesso que até isso pensei, considerando logo depois como algo inexequível.
Triste, amigo, e constrangedor.
Fiquei com enorme pena daquele que me sucedeu.
Coisas da vida.
Desagradabilíssimo.


 


 





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sexta-feira, 20 de abril de 2018

O PÃO QUE SE COME DORMIDO 2a parte >> Zoraya Cesar

O pão que se come dormido - 1a parte - O padeiro Tuninho apaixonou-se por Wanusa, sobrinha de sua esposa. Wanusa era 25 anos mais jovem que D. Isabel, bonita e gostosa. Tuninho, não satisfeito em expulsar a mulher de casa, queria o divórcio. Mas as coisas não saíram bem como esperava. 

Tuninho não era o melhor dos maridos, decerto. Era ríspido, rude e pouco afeito a romantismos. Jamais gostara de D. Isabel. Achava-a insuportável, feia, com mau hálito e uma voz de taquara rachada que não silenciava nunca.

Casara por conveniência, porque os dois, batalhando juntos, teriam chance de melhorar de vida. Por acostumado àquela situação medíocre, jamais cogitara em se separar. Até Wanusa aparecer. 

Mas, D. Isabel, por que não exigia seus direitos? Por que, afinal, não concedia logo o bendito divórcio, vivendo ela, também, um casamento infeliz?

Nessa história não há santos. Humilhada publicamente, assumiu o papel de esposa aviltada, para angariar simpatias e penas. Na verdade, D. Isabel tinha aversão a Tuninho e só continuava casada por interesse. Eram sócios na padaria. Queria mais que ele morresse (estava velho e a saúde era um tanto precária), para herdar tudo, e não somente a metade. 

Tuninho,  alucinado por Wanusa,  não via a hora de livrar-se da jararaca maldita que se recusava a dar-lhe o divórcio. Visitava constantemente D. Isabel em seu ostracismo, prometendo-lhe mundos e fundos pelo divórcio. Ela, irredutível. Dizia que ele até podia manter a amante, afinal, sendo Wanusa sua sobrinha, ficaria tudo em família. Mas, separação, não. Repetia que lugar da mulher era ao lado do marido até que a morte os separasse. 

Ah, é assim, pensou Tuninho, então, que fosse!  

Engendrou um plano medíocre, como ele, mas bastante eficaz. Numa das suas visitas à mulher, deixou, escondido no armário do banheiro, um vidro de chumbinho. 

D. Isabel continuava a ir à padaria, para resolver as coisas que sempre resolvera. Afinal, nem ela nem Tuninho tinham a mínima intenção de que seu modesto - mas próspero - negócio fosse à falência. O trato era que ela não entraria na casa, não ofenderia Wanusa, nem se demoraria em ti-ti-ti com as vizinhas. D. Isabel tinha palavra, cumpria o acordado. Tinha, também, um defeito: a gula. 

Sempre que ia à padaria levava para casa uma dúzia de pão doce, repletos daquele creme cor amarelo-corante-cancerígeno. Num – digo logo – fatídico dia, levou consigo pãezinhos recheados de chumbinho. 

D. Isabel morreu, como Tuninho esperava que morresse, e a polícia achou por bem aceitar a tese de suicídio. Mulher trocada por outra mais nova, expulsa de casa, deprimida... As amigas corroboraram essa versão. 

D. Isabel não resistia a pão doce coberto de creme.
A gula, sabemos, é um pecado capital. 
E Tuninho, sabe o Diabo como, conseguiu se safar incólume (coisas estranhas acontecem nessa vida). Estava livre, portanto, para casar com Wanusa. O que efetivamente se deu, não com a pompa e circunstância que ele queria, mas com a discrição exigida frente às circunstâncias.

Uma palavrinha sobre Wanusa. Peço ao Leitor que não a julgue mal. Percebera que o casamento da tia era uma farsa, e que D. Isabel não sabia se aproveitar daquele velho chato, mas bem de vida. Wanusa sabia muito bem o que fazer com dinheiro e viera à cidade para isso: melhorar de vida. A oportunidade surgiu, ela agarrou. Lembremos de seu peculiar senso de moral: não passava das carícias ousadas com Tuninho e só se entregou a ele depois de casada. E chorou sinceramente a morte da tia. Família é família, pensava.

Uma vez casada, levou Tuninho à loucura na cama. Não que sentisse algum prazer em transar com aquele arenque velho, mas Wanusa, como D. Isabel, tinha palavra. 

Não era gulosa, mas curiosa. E de tanto mexer nos recantos da padaria, acabou por encontrar um pacote contendo alguns poucos gramas de um granulado cinza escuro. Wanusa nada tinha de boba e, num átimo, entendeu o que se passara. Ficou arrasada. D. Isabel era sangue de seu sangue e elas tinham um acordo. Muito bem, agora ela descobrira uma horrenda verdade. E daí?

Daí, nada. Continuou a transar com o marido, a tirar todo o dinheiro que podia dele e a se fingir de desentendida. 

Tuninho virara um sátiro
lúbrico e insaciável.
A luxúria é outro pecado capital.
Tuninho parecia um bode velho, um sátiro descontrolado, insaciável pelo corpo de Wanusa, que jamais se negava ao marido. Algumas mulheres, só de olhar para Tuninho, cada vez mais barrigudo e pelancudo, sentiriam ânsias. Mas, logo depois, pensariam na conta bancária, no conforto, na vida pra levar... Wanusa era jovem, mas muito prática.

Tuninho não fazia exercícios outros que não os de alcova, e envelhecia, com os achaques comuns a esse estado da existência. Ninguém estranhou, portanto, quando, vários meses após o casamento, ele bateu as botas, enfartando durante uma noite de sexo regada a cachaça com Wanusa.

Coincidência? Claro que não, Leitor, claro que não!

Havia tempos que Wanusa trocava os remédios para o coração de Tuninho por vitaminas para cachorro. Dava-lhe do que havia de mais gorduroso para comer. Enchia-o de viagra. Dizia-lhe que, se fosse ao médico por conta de simples indisposições, o doutor acabaria por proibi-lo de transar, para não cansar o coração. E fazia sexo com ele dia e noite.

Acho que chegou a hora de revelar que Wanusa e D. Isabel tinham um acordo. D. Isabel queria se livrar de Tuninho, mas não queria se separar e ter de dividir os bens. Tudo foi planejado para acabar exatamente assim: Tuninho deixaria todos os seus bens para Wanusa, seria morto, e as duas ficariam com tudo, em família - afinal, o sangue é mais forte que a água. A morte de D. Isabel interrompeu o plano de ambas, e Wanusa jurou vingança pelo assassinato da tia.

O infarto, cumpre-me dizer, não foi exatamente fulminante. Wanusa assistiu Tuninho morrer sem prestar socorro. Limitava-se a dizer que família é coisa sagrada. E que a vingança era um pão que se comia dormido. 

Eu bem gostaria de dizer que, ao final, Wanusa foi presa; comeu pão com chumbinho por engano - ou dado por Tuninho, desconfiado que seria a próxima vítima; descobriu que o velho lúbrico já não tinha mais dinheiro... Sim, eu bem gostaria de dizer que todos os personagens desse drama se deram mal, porém, estaria mentindo. Wanusa se deu muito bem, obrigado.

Mas a vida nem sempre é justa, não é mesmo?

Fotos Pinterest



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quinta-feira, 19 de abril de 2018

IMPERATIVOS>>Analu Faria

Desenha no meu corpo o seu, como se eu fosse papel em branco e você, a tinta que estremece à espera do movimento. Apaga as noites mal gastas com amores mornos, protocolares. Reaviva a memória da liberdade ao me deixar ser a onda que sou. Embaralhe comigo os pontos, esqueça comigo as retas. Lembra-me da propagação que somos, todos nós. Lembra-me como na outra noite.

Eu sei, não preciso te pedir. Talvez o momento que eu procurava também fosse a busca sua. (Se aqui eu for sincera , a palavra "liberdade" vai se repetir mais vezes do que convém à crônica.) Mas a vida também pode ser coincidência. Sincronicidade, diz-se em bom português. Eu chamo de bom acaso esse reencontro depois de anos de proibição autoimposta.

Não há laço que nos prenda (eu não disse que me repetiria?) agora ou sempre e é o desprender-se que me faz querer voltar à sua boca, à sua cama. Sinto que caio, me entrego, doce e fortemente à promessa de nada e isso é parte da beleza toda de estar contigo. Hoje sou, hoje somos, amanhã não, como da outra vez. Agora, porém, há o brilho de ser inteira. 





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quarta-feira, 18 de abril de 2018

HOJE NÃO ESTOU AQUI >> Carla Dias >>


Hoje eu não estou aqui.

Não se preocupe em ser cortês, em se lembrar de acenar à possibilidade de me observar durante um segundo ou dois. Não estou aqui. E meu absentismo será languidamente representado pelo esguio soluço do vazio.

Caso minha ausência lhe provoque curiosidade, evite o desejo de desvendar a falta que sente de se ocupar com a minha presença, ainda que seja para se desviar dela com certa classe. Aliás, mora em mim a curiosidade sobre o que o leva a ignorá-la com tamanha dedicação.

Não estou aqui.

Não ajeitei palavras para criar diálogos necessários, tomando cuidado para que os sons não ultrapassem a medida e descambem na intimidade das longas conversas. Não há nada que você desame mais do que ser cativado pela conversa do outro, tornando-se impossível evitar de se gastar tempo com ela. Porém, hoje você não corre esse risco.

Hoje eu não estou aqui.

Não como estava ontem, sentada no canto da sala, espectadora de seus monólogos sobre importâncias que não alcançam ninguém, além de você mesmo. Já disse e repito: dia desses você se cansará de quem é. Olhará para si e compreenderá que perdeu um tempo valioso moldando uma pessoa que não gostaria de ser. Tudo porque não olhou para o canto da sala, onde silêncios eram tecidos feito uma delicada teia de esperas.

É o que dizem sobre os especialistas em esperas, os que dão chance ao improvável: um dia eles se esgotam, enlouquecem, fogem. Bichos assustados com a indecente subjugação que aceitaram, como se fossem colher benquerença no final do turno. Escravos dos sentimentos do outro; facilitadores das suas vontades.

Só que hoje eu não estou aqui.

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terça-feira, 17 de abril de 2018

IRONIA >> Clara Braga

Já escrevi outras vezes sofre um fenômeno que decidi chamar de ironia das datas. Esse fenômeno refere-se aos vários dias nos quais nada de muito importante acontece quando, de repente, chega um dia específico e tudo parece se concentrar naquele dia.

Em uma das vezes falei sobre a morte da atriz Farrah Fawcett, que foi pouquíssimo tempo antes da morte de Michael Jackson, será que alguém se quer lembrou de prestar uma homenagem fúnebre a ela? Claro que não, afinal, estavam todos abalados e ocupados com a morte do rei Michael.

Em outro momento comentei sobre o impeachment da Dilma. Ninguém discorda que foi algo histórico, mas por incrível que pareça, em alguns momentos parecia que importante mesmo era discutir sobre a separação de Bonner e Fátima Bernardes, afinal, será que ele estava traindo a esposa?

Outra situação semelhante a essas aconteceu muito recentemente. No dia que Cazuza completaria 60 anos estávamos prestes a acompanhar a votação do habeas corpus do ex presidente Lula. Com tanto dia disponível no ano para essa votação acontecer, foi cair justo ali, quase no dia do Cazuza, deixando sua presença um pouco apagada. 

Não tenho dúvidas de que Farrah merecia ter tido mais atenção, o processo do impeachment merecia ter acontecido com mais seriedade e menos importância para crises de relacionamento e a possível prisão de um ex-presidente, que depois acabou se confirmando, deve mesmo ser coberta exaustivamente. Diante do cenário atual, aceitaria até que Cazuza ficasse um pouco de lado, desde que suas ideias continuassem a se propagar e fossem mais lembradas do que nunca, afinal, o Brasil precisa urgentemente mostrar sua cara e apresentar ao cidadão uma ideologia na qual ele consiga viver.



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sexta-feira, 13 de abril de 2018

EU (NÃO) SOU CAPAZ! >> Paulo Meireles Barguil


Não é muito frequente, escutarmos e falarmos, para nós e para os outros: "Você é capaz!".

O que sentimos, pensamos e fazemos durante toda a nossa vida está diretamente relacionado ao modo como interiorizamos o que ouvimos.
 
Somos resultados da combinação, em proporções ignoradas, entre genética e ambiente.
 
Ainda que esses números fossem conhecidos, a combinação não o seria, seja porque a relação entre aqueles ingredientes é variável, seja porque a mão – e todo o ser – do alquimista, de vez em quando, agita o conteúdo da panela.
 
E o que dizer quando são muitos os que interagem com o candidato a alimento?
 
Talvez, por isso, há quem declare que "Panela em que muitos mexem, ou sai insossa ou sai salgada.".
 
Às vezes, desconfio que esse provérbio foi inventando por alguém que queria uma desculpa para não ajudar na cozinha, pois nunca vi um estudo transcultural e longitudinal que o comprove.
 
A despeito dos meus escassos conhecimentos da arte gastronômica, sei que o resultado final não se resume à aplicação da receita – o como fazer – pois ele é influenciado tanto pelo artífice, como pela qualidade dos ingredientes e dos utensílios utilizados, além da temperatura do ambiente.
 
Em tempos de fastfood e ifood, é compreensível que, por vezes, optemos por delegar a outrem a responsabilidade pelo que comemos.
 
Também é aceitável, embora questionável, o discurso daqueles que declaram não ter dom para manusear uma colher – de ferro, pau, alumínio, silicone, plástico... – e ajudar no preparo, mas o tem para pegá-la – ou um garfo – para degustar a iguaria.
 
O que dizer quando adotamos esses comportamentos na panela que somos nós, negligenciando a nossa única missão aqui na Terra?
 
E quando posamos de mestre-cuca diante das outras panelas?

Durante a nossa vida, escutamos, de forma explícita ou não, com muita frequência "Você não é capaz!".

A depender da situação, do emissor e de como estamos, essa frase ressoa de modo peculiar em cada um de nós, ora aceitando, ora refutando.

O efeito dela – seja para a retração, seja para a expansão –  pode durar apenas alguns segundos, mas, às vezes, persiste durante décadas...
 
Em virtude disso, eu, amorosamente, lhe lembro: "Você é capaz!".

Quanto você duvidar dessa máxima, olhe para a sua criança interior, pegue nas mãos dela, abrace-a e diga "Eu sou capaz!".


[Mão direita de Ana Beatriz Peixoto Barguil com 2 meses]

[Foto de minha autoria. 23 de julho de 2004]


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quarta-feira, 11 de abril de 2018

EXTRAORDINÁRIO >> Carla Dias >>


Café, sempre. Xícara bem-servida, frescor do feito há pouco, tradicional, porque ele precisa de energia para encarar esse desafio.

Anteontem, provocou o destino e executou o plano de sair de casa. Saiu, caminhou até o fim da rua. Ao voltar para casa, suava, arfava, tremia. Teve de se sentar no chão, ali mesmo, na soleira. A porta ainda aberta para o mundo. Ficou ali até a respiração normalizar e ele entender que estava a salvo.

Não seria o anteontem o dia em que a morte o cortejaria, só porque ele deu uma volta pelo lá fora. Apesar de ele ter sentido as mãos geladas dela sobre seus ombros, durante toda a apressada caminhada.

Sim, o lá fora o deslumbra, embora o amedronte com mais vigor. Não sabe como, sobre quando, tem suas dúvidas. Fato é que esses passeios sazonais pela Rua Vinte e Sete têm sido o contato mais íntimo que mantém com o lá fora.

A cada seis meses.

Por sorte, tem jardim na sua casa. Ele é amplo e tem cores variadas. E ele gosta do sol. Às vezes, fica por lá, quarando-se. Deitado na grama verde, verde.

Enquanto se quarava, ainda no anteontem, teve esse ímpeto, essa coisa estranha a lhe cutucar pensamento. Foi assim que saiu da agenda, da programação, da rotina que tem possibilitado sua sobrevivência.

Mas então, veio o ontem.

Ontem, ele quebrou acordo que mantinha consigo mesmo e bateu recorde de ousadia. Caminhou até a banca de jornal que ficava ali, do outro lado da rua. Primeiro, abismou-se diante do fato de que elas ainda existam. Sim, ele observa a banca da sua janela, por um longo tempo.

Aproximar-se é diferente.

Bancas de jornal fizeram parte de sua infância, que teve um tio jornaleiro. Mas ele entende que há certo romantismo nessa vista, nessa lembrança. Tudo o ele que precisa, encontra nessa banca de caos que é a internet.  Seria muito mais sofrido viver o que ele vive, não fosse ela.

Mas veja, há um prazer imenso que vem com o tocar o papel, folhear páginas. Nem importam as notícias. E trazer as lembranças para o hoje, de quando ele corria ao redor da estrutura de metal abarrotada de papel, sob o olhar vigilante de seu tio.

Ao voltar para casa, precisou se arrastar, literalmente, das escadas da entrada até a porta. A energia sumiu dele, decidida. Ficou ali, sentado, observando o movimento da rua como se assistisse a filme antigo. Então, recuperado, arrastou-se de vez para dentro da casa e bateu a porta.

Passou ainda um bom tempo ali, deitado no chão.

Não costuma pensar sobre quem seria se fosse capaz de trafegar pelo mundo. Por sorte, tem um trabalho que lhe permite ficar em casa. Por sorte, praticamente qualquer coisa pode ser entregue em casa.  Por sorte, ele tem tevê a cabo, porque há coisas que precisam continuar como eram. Ligar e desligar o aparelho herdado do pai, que a herdou de seu pai. Heranças são complexas. Ele herdou a tevê, a casa e as fobias de seus pais.

Ele pensa que fobias são engraçadas, até não ser mais possível enquadrá-las como excentricidades. Quando elas se apoderam da sua condição de doença.

Ele tem se esmerado em progredir, porque tem aquele restaurante que gostaria de conhecer, pessoas que adoraria visitar, universos que seria catártico descobrir.

Lugares que sonha em conhecer.

Uma caneca quase cheia de café fresco, feito agora há pouco. Senta-se em sua poltrona confortável, onde seu avô costumava se sentar e permitia que ele se espalhasse em seu colo para assistirem juntos a algum programa. É inevitável relembrar cores, cheiros e barulhos de um passado de casa cheia, de ele sendo alguém lidando com descobertas. De bem antes dos fantasmas que o acompanham.

Não há nada mais compensador do que aprender o mundo. Aprender com o outro, assim, na conversa, no conhecimento adquirido porque você estava disponível para escutar o que era dito.

Senta-se ali, e enquanto bebe seu café, tradicional, visita tantos lugares que não visitará.

Cair no mundo. Não seria extraordinário?

Quem sabe na próxima ousadia.



Time Lapse Collection: Earth from space


Imagem: La victoire © René Magritte





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sábado, 7 de abril de 2018

SONHOZINHO >> Sergio Geia





Sei que é pessoal, muito pessoal, mas não tem como escrever crônica sem ser pessoal. Clarice sofreu disso, tentou fugir, não se interessava em contar coisas de sua vida. Desistiu de fugir quando alertada pelo rei da crônica, o Rubem Braga, de que não tinha como escapar do pessoal se quisesse escrever crônica.

Semana de turbulências, bateu insônia, calor insuportável, até que numa noite de sexta para sábado, o sono veio, pesado, dolorido. Acordei feliz da vida no sábado, desperto, nível da bateria nas alturas.

Manhã comum, fui organizar fotos no computador. À tarde, dei um cochilo. Foi quando acordei, atropelado de novo por um sono pesado, que a coisa aconteceu. Naquele momento em que a cabeça ainda pesa, que você tateia coisas, reconhece lugar, dia, hora, olhos se negam a abrir, você vai chegando mansinho, nascendo na velocidade de um jegue, de repente, num estalo, lembrei.

Sonhava e o sonho se apresentou a mim com uma clareza tão incomum, absurda e surpreendente que meus olhos se abriram, agora, na velocidade de um gnu, o bicho mais rápido do planeta. Lembrava detalhes, diálogos, expressões, tudo veio até mim. Quase me levantei para anotar, achava que num novo estalo tudo se perderia, apagão completo, e aí, babau coisas tão doces.

O sonho.

Estava na rua Barão, na casa onde morou minha bisavó Santa Ronconi. João tinha sido escalado para dormir com ela. Entramos e lá encontrei a bisa assistindo ao Silvio Santos (ela adorava), com as pernas esticadas sobre uma banqueta. Até aí, tudo bem, exceto que João e bisa nem se conheceram e são de gerações separadas por um oceano de anos. De repente, olhando pra mim, na sala da casa da bisa Santa Ronconi, minha vó Lourença, mãe de meu pai. Detalhe: no sonho, a bisa estava vivinha da silva enquanto vó Lourença tinha morrido. Assim, eu falava com o espírito ou seja lá o nome que se dá a isso, da vó Lourença.

Minha primeira atitude foi acarinhá-la, passei a mão sobre seus cabelinhos brancos (o que restava deles), sobre seu rosto em formato de pera, seus olhos brilhavam e ela parecia muito feliz.

Você vai à missa?, me perguntou.

Vou, respondi de imediato.

Eu não sei se vou, ela comentou, afinal, a missa é para vocês que estão aqui. Eu não estou mais aqui, mas talvez consiga ir sim.

E a senhora está bem, vó?, eu perguntei.

Sim, estou bem, ela me respondeu, sem entrar em detalhes.

No sonho, depois disso, me despedia de João, dizendo que estaria dormindo na casa da vó Ita, que qualquer coisa que ele precisasse era só chamar. E hoje, depois desse sono pesadíssimo, acordei com vó Lourença perto de mim.

Como todos os sonhos, sonho confuso e meio sem sentido. Cronologicamente, a bisa morreu primeiro, depois Lourença, depois Ita. No sonho, somente vó Lourença tinha morrido, enquanto vó Ita, mãe de minha mãe, e sua mãe Santa Ronconi, a bisa, viviam. Doideira total.

 Sim, não aconteceu mais nada. Talvez você possa estar aí decepcionado; esperava grandes revelações, imagens do além, algo forte, ou gestos marcantes, frases sensacionais, ou dúbias, ou complexas. Um sonhozinho, você deve pensar.

Tem razão.

Talvez nem devesse estar aqui contando sobre ele. Talvez o que importe aqui não tenha sido o sonho, mas a maneira como tudo aconteceu, a forma como ele veio até mim, como se minha própria avó, querida avó, vó de todos os alunos do Municipal, tivesse descido um pouquinho do céu para ver o neto, contar algumas coisinhas bobas, perguntar se eu iria à missa (faz tempo que não vou), bater um papo, permitir-se ser acarinhada.

Minha casa é sua, vó, eu disse antes de me levantar, venha sempre que quiser, quem sabe bater um papo, se puder traga mais gente, meu pai (o coração aperta, olhos encharcam), tio Ademar, tia Marília, tia Dayse, tio José, tio Nilson, tia Cida, tia Teresa, tio Paulo, vô David, vó Ita, vô Sansa, Armando, tio Cláudio, tia Cecília, Marco Antônio, Zé Ricardo...

P.S.: Da esquerda para a direita, tia Marília, vó Ita, vó Lourença, meu pai, minha mãe, tia Adélia

 





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sexta-feira, 6 de abril de 2018

O PÃO QUE SE COME DORMIDO - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Tuninho tinha uma padaria, negócio honesto e sólido. Não que isso significasse grandes riquezas. Dava para viver com certo conforto – para os padrões mais que modestos do bairro onde morava com a mulher.

Não era boa nem má pessoa, rico ou pobre. Não era, exatamente, estúpido, tampouco primava pela inteligência. Um medíocre, em todos os sentidos.

Tão medíocre e previsível, que, quando sua esposa, D. Isabel, completou 50 anos, ele a trocou – não por duas, mas por uma de 25. 

Wanusa era sobrinha de D. Isabel. Toda roliça e voluptuosa, as curvas nos lugares certos e os decotes na medida exata para despertar imaginações e desejos. Estivéssemos no séc. XX, diríamos que ela era brejeira e sestrosa. Viera passar uma temporada com a tia para estudar, aprender uma profissão e arranjar um casamento vantajoso. Quem não nasce rico tem que casar com o dinheiro, dizia (pois era pobre, não boba). 

esposa pressentiu o perigo, mas, para desgosto das amigas, nada fez para expulsar a desavergonhada e manter o casamento. “Agora que ele tá bem de vida. Depois de tanto sacrifício. Você já não tem idade pra procurar outro marido. É macumba! Você não pode sair assim, com uma mão na frente, outra atrás”... As amigas se desesperavam. Era muita injustiça. D. Isabel perdera a juventude aguentando as sovinices, chatices, cretinices do marido. Trabalhara duro, acordando de madrugada, fazendo contas e compras, atendendo no balcão, tudo. Tuninho só fazia o pão. 

Embora cansada daquela vida monótona, do trabalho extenuante, do casamento sem graça, ela jamais cogitara em se separar. Tuninho nunca a levara para sair, nunca a elogiara, nem permitira gastos com beleza. Não tiveram os filhos que D. Isabel tanto queria. Ela não sabia o que era tirar férias – sempre quisera ir ao Nordeste; o mais perto que chegara fora assistindo novelas. O marido dizia que era melhor trabalhar árduo para aproveitarem mais tarde. E agora, que o “mais tarde” havia chegado...


O pão nosso de cada dia de D. Isabel
já estava solado há bastante tempo.
D. Isabel estava exaurida, alquebrada, decepcionada. Então, vociferavam as amigas, agora que você pode aproveitar a vida e o dinheiro, vai deixar tudo de mão beijada praquele desgramado? Vai sair assim? Humilhada, rejeitada, sem chiar, espernear, ou, ao menos, se vingar? Mata a lambisgoia! D. Isabel chorava, sacudindo a cabeça. Não podia fazer nada contra a moça, era família! E, quanto ao resto, que se desse tempo ao tempo.

Agora, deixemos D. Isabel cuidando de suas feridas, quieta em seu canto, como é de seu feitio discreto, e voltemos ao nosso anti-herói.

Tuninho sentia-se no sétimo céu, se me perdoam o chavão. Olhou as contas, viu que dava para fazer algumas extravagâncias; olhou para a mulher que o ajudara a chegar nessa confortável posição, viu que estava envelhecida e feiosa. Olhou para si mesmo, viu um homem que merecia ser recompensado por ter trabalhado como um mouro por toda a vida.

Tinha dinheiro, saúde e oportunidade - pois era evidente que a sobrinha de D. Isabel estava caidinha por ele. Rolava beijo, amasso, meu amor pra cá, meu amor pra lá, “a mão naquilo e aquilo na mão”... e só. Wanusa recusava-se a se entregar biblicamente enquanto a tia estivesse em casa. “Falta de respeito”, dizia.

Mesmo velho, barrigudo, enrugado e ridículo - colava com gel os compridos fios de cabelo que lhe restavam na careca manchada de marcas de senilidade – Tuninho acreditava no amor de Wanusa. Abrasado pelas chamas do tesão e da vaidade, decidiu que a esposa já dera o que tinha de dar. E mandou-a morar em outro bairro, ainda mais modesto, com uma pensão um pouco menos que digna. D. Isabel foi chorando, mas sem reclamar seus direitos.

Estando o caminho livre, as carícias se aprofundaram: agora, colocavam também a boca naquilo e aquilo na boca, mas, transar, mesmo, comme il faut, garantiu Wanusa, só depois de casada (afinal, pensava ela, “pão comido, pão esquecido”). Vivendo em constante estado de ansiedade e enlouquecido de paixão, Tuninho começou a pressionar a esposa pelo divórcio.

D. Isabel trabalhara duro pelo
pão de todo dia.
Mas o bocado nem sempre é
para quem o faz,
mas para quem o come.
Aquilo foi a gota d’água. As amigas de D. Isabel quiseram incendiar a padaria. Mas ela, chorando, dizia “deem tempo ao tempo”. 

Enquanto D. Isabel não assinava o divórcio, Tuninho desfilava com Wanusa pra cima e pra baixo, orgulhoso em mostrar que, apesar da idade, ainda era macho, capaz de se garantir com um mulherão daqueles na cama (mesmo que não totalmente), mesa e banho.

Nem tudo, claro, eram flores. Tuninho tinha ciúmes. Ciúmes viscosos e grudentos que não o deixavam aproveitar seu grande momento. Se, por um lado, envaidecia-se em mostrar seu troféu de minissaia pela vizinhança, por outro, apavorava-se de que algum rival mais moço e bonito lhe passasse a perna. E quanto mais ciúmes tinha, mais raiva nutria por D. Isabel, aquela megera dos infernos que, por mesquinharia e inveja, recusava-se a dar-lhe o divórcio. 

Tuninho acreditava firmemente que fora justo com D. Isabel. Acreditava, também, que, uma vez casada, Wanusa não só lhe entregaria o corpo todo, como não o largaria mais. Talvez até tivessem filhos, aqueles mesmos que ele não quisera ter com D. Isabel.

Ciúme, sabemos, é um ser que, convenientemente alimentado, cria volição própria. Sua pressa em separar-se de D. Isabel e casar com Wanusa transformou-se em premência. 

Forno aberto antes da hora não assa pão. E o apressado come cru, certo?


Continua dia 20 de abril.

Fotos





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quinta-feira, 5 de abril de 2018

O NARIZ MEDITATIVO>>Analu Faria

Cheiro de patchuli, alguma flor, cheiro de árvore... hum, que árvore? Não é frutífera..... putz não sei. Que cheiro é esse? Cheiro do moço que passou por mim. O moço não é lá muito bonito, mas do perfume eu gosto. Qual será o nome dele  - do moço e do perfume?  Eu repararia naquele se não fosse este?

Cheiro de repartição pública é levemente cheiro de bolor misturado a produto de limpeza (amônia com um toque artificial de menta ou capim limão ou maçã verde). E poeira, mas não tem poeira na repartição onde eu trabalho. Pode estar nos dutos do ar condicionado, pode estar dentro do armário, pode estar dentro do meu nariz de burocrata. Hoje a repartição também tem cheiro de chocolate, porque foi Páscoa e alguém trouxe um ovo de chocolate que ninguém em casa quis comer. O chocolate acabou, mas ainda sinto no ar o cheiro. Serotonina, se tiver cheiro, tem esse cheiro. Alegria, também.

Dizem que ninguém da nossa geração sabe o cheiro de almíscar, porque, retirado de glândulas de um veado que cresce na Ásia, é bastante raro, difícil e também ecologicamente incorreto usá-lo, e já há alternativas sintéticas razoáveis. Dizem que, tirado o primeiro odor meio repulsivo (logo que a glândula do bicho é retirada), tem "o cheiro quente de uma cabeça de bebê". Li em outro lugar que tem cheiro de homem. Bebê e homem me remetem a coisas tão diferentes! Fico querendo sentir o cheiro de almíscar de verdade. Chego a esquecer que um bicho pode morrer para que eu sinta um cheiro. Quero ver a glândula, quero ver o animal abatido, quero ver a extração do órgão. Um bicho tão bonito, tem dentes de sabre! O nome certo é cervo-almiscarado.

Perdi os cheiros à minha volta enquanto pensava no almíscar, no veado, na Ásia. Quanta gente passou por mim pela rua, quanto cheiro de perfume e suor e talvez sangue e talvez pus, talvez lágrima, talvez cigarro, talvez... Não há coisa que te faça prestar mais atenção no que existe aqui e agora que os cheiros! Em outras palavras, o nariz te traz para o presente, sempre e sempre, porque a cada segundo os cheiros mudam, como as células, como o próprio tempo. Basicamente o que a meditação diz para a gente fazer: viver agora. Prestar atenção agora. O nariz, eu penso, deve ser um órgão meditativo.




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quarta-feira, 4 de abril de 2018

CAFÉ SOLIDÃO >> Carla Dias >>



Para Carol, quem sabe inspirar com o olhar.


Ela se levanta, morosamente. Vê-se que preferia permanecer onde estava, cobertor enroupando a cabeça. Mantém os olhos fechados, como se as pálpebras pesassem mil receios. O espectador provavelmente deve se perguntar, inspirado pela frouxidão da cena: o que se passa na cabeça dela?

Não?

Provavelmente, não.

É que algo mais dinâmico acontece para além dela, enquadrado por uma janela escancarada. Não é o cinza do dia de garoa. Não é a imagem do frio que esse cinza realça.

Vê-se bem o cenário: janela que dá para janela. A dela se encaixa no escancaro da janela da vizinha, feito um túnel invisível atravessando a estreita rua.

A vizinha, diferente dela, tem uma energia contagiante. Chacoalha os lençóis, botando ordem na cama de onde se levantou, assim, em um pulo. Os cabelos dela esvoaçam em sintonia com os panos. Um diretor de comercial para televisão se orgulharia da cena. Seria fácil trabalhar com aquela personagem, a fim de vender o produto que fosse. Funcionaria. E se fosse produto com perfume, sério, daria para senti-lo.

Primeiro plano, ela.

O espectador já se aborrece, porque no segundo plano a cena corre muito mais animada. Ainda assim, não há como desviar completamente o olhar. A personagem do apartamento do outro lado da rua cantarola uma canção qualquer e sorri largo. Eu disse que ela venderia o que fosse. Sorrisos vendem bem. Estão sempre em alta no mercado. Há quem compre até infelicidade ao se permitir enredar por sorrisos de propaganda.

Ela sai de cena por pouco mais de minuto. Enquanto o espectador se deleita com a vivacidade da cena do segundo plano, não consegue evitar de escutar os sons e imaginar a do primeiro plano se esforçando para lavar o rosto e se encarar no espelho. Eu sei, clichê de cena de cinema, de novela, de série. Mas não se esqueçam que clichês são essenciais, porque resumem a importância da nossa insignificância diante do mundo.

Mas não irei filosofar sobre nossas mazelas, porque o episódio continua.

Não queria revelar, condutora de cenas que sou, mas não me resta muito a fazer. Enquanto você, caro espectador, deleita-se com a vizinha do outro lado da rua, já completamente envolvido com a alegria dela - que agora dança uma música que você não consegue escutar, mas que já se tornou a sua preferida para momentos de alegria -, ela volta para cama.

Sim, ela volta para a cama e se cobre, até a cabeça. Seu quarto, esse espaço que parece concentrar a densa melancolia desse dia cinza de garoa e frio – que fique claro que essa condutora de cenas aqui aprecia deveras dias cinzas de garoa e frios – é um cenário impecável para o desalento da protagonista dessa história.

A música vem...

Sim, tinha de ser arrastada e interpretada no violoncelo.

Com essa trilha sonora, fica um tanto incômodo observar a cena do segundo plano – a vizinha continua sua dança, com movimentos aeróbicos contemporâneos -, então que o olhar do espectador pousa menos distraído sobre esse corpo coberto, dos pés à cabeça, jazendo inerte em uma cama.

O que há nessa cena capaz de seduzir olhar?

Talvez o momento em que ela estica o braço, livrando o tal do cobertor pesado. Espreguiça-se demoradamente e fica impossível não perceber como seu corpo parece ganhar movimento. Você já entendeu que o tempo dela não é próprio do ritmo necessário para comerciais para televisão que vendem produtos com sorrisos fabricados, certo? Entendeu que o dia é cinza de garoa e frio e ela gosta disso. Que ao colocar os pés descalços no chão supostamente gelado, é você quem se arrepia.

Então, que ela olha diretamente para você, como se você fosse o espelho que você a imaginou encarar, ainda há pouco. E não há nada de clichê nesse olhar. Ela se levanta, sai de cena. Silêncio total. Carregado.

A moça da cena do segundo plano continua se descabelando de dançar. Eu a invejo. Sim, eu mesma...  A condutora de cenas. Isso não significa que eu comprei o que ela vendia. Sim, vendia. Porque, observe de perto: tudo parou na cena do segundo plano. Percebe? A música imaginada já era. A personagem, sentada em sua cama arrumada, agora mais desolada do que...

Um momento. Aguarde...  Aguarde...

Ela não colocou uma roupa especial para a cena. Continuou vestida naquela longa camiseta preta. Sabe de onde vem? De uma história de amor antiga, que, apesar de não ter vingado, promoveu significativas catarses.

Não penteou os cabelos, não se preparou para a cena.

Ainda na morosidade do movimento, ela coloca uma cadeira no meio do quarto e sai de cena. Volta a música do violoncelo. Eu adoro o som do violoncelo. Sim, eu mesma...  A condutora de cenas.

Alguns segundos de inquietação para o espectador, então ela está volta. Veja como seu corpo, ainda há pouco prostrado, agora se movimenta diferente. Há beleza nos gestos dela. Eu sei que é essa visão que os distrai, meu caro espectador, a ponto de não permitir que você perceba o que ela segura.
Até ser tarde demais.

Close-up.

O som do violoncelo aumenta. A música melancólica, mas tão bonita, leva o espectador a um passeio interior, daqueles de provocar suspiro.

Plano geral.

Surpreenda-se com a cena, porque ela é divina, a seu modo.

Ela tomou a música para si, tocando o violoncelo, apropriando-se dos significados distribuídos nesse dia cinza de garoa e frio. Não é mais trilha sonora de cena. É música em cena.

Ela que sorri, agora, no ponto alto dessa música. Não é sorriso fabricado. É sorriso redenção.

Não se preocupe, porque o segundo plano vai sempre fazer parte da cena. Não há personagem a ser desprezado nesse Café Solidão que, às vezes, é a vida da gente.

The end.

Imagem © Carolina Bicudo





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terça-feira, 3 de abril de 2018

PERDENDO OS MEDOS >> Clara Braga

Quando ela era criança quis trocar de escola. Não recomendaram, afinal, ali ela estava criando seus primeiros laços de amizade e essas amizades poderiam acompanhá-la para o resto da vida, essa convivência pode fazer a diferença no desenvolvimento de uma criança. Como crianças não decidem nada, ou pelo menos não decidiam há alguns anos, ela continuou onde estava.

Alguns anos depois, já mais velha e um pouco mais independente, pensou novamente em trocar de escola, mas dessa vez foi ela que pensou que talvez não fosse interessante se separar daquelas amigas com quem já vinha estudando há tantos anos, logo viriam as formaturas, as viagens de escola e se ela mudasse talvez não tivesse intimidade com ninguém para participar desses eventos.

Depois que formou pensou em fazer intercâmbio, mas não aconselharam, fazer intercâmbio agora atrasaria sua entrada na faculdade, o que poderia prejudicá-la futuramente, pois faculdade é bom quando se entra cedo, forma logo e já se insere no mercado de trabalho.

Alguns anos de curso depois, pensou em trocar de curso. Mas talvez não fosse a melhor hora, afinal, porque desperdiçar todo o conhecimento que já foi adquirido? Melhor terminar esse curso e depois, mais para frente, ela poderia pensar em fazer outro, talvez depois de já estar empregada, assim não perderia tempo de inserção no mercado.

Quando formou pensou novamente na ideia do intercâmbio, mas achou que já estava velha demais para isso e se optasse pelo intercâmbio perderia aquela oportunidade de emprego ótima que tinha aparecido. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso, ficou com o emprego que era exatamente o que ela sonhava enquanto estava na faculdade.

Os anos foram passando e ela percebeu que na verdade aquele emprego dos sonhos não era tão sonho assim, não se sentia feliz e trabalhar virou um fardo. Pensou que passar a maior parte do seu dia em um lugar que era um fardo não parecia justo e então cogitou largar o emprego. Ninguém a apoiou, afinal, já estava casada e tinha filhos, como ela pensava que iria criar seus filhos? Não importa se ela passava mais tempo trabalhando do que curtindo os filhos, ou se nunca conseguia comparecer a uma festa na escola, o que importava era que os filhos tinham comida na mesa.

Muito anos se passaram, ela se aposentou e percebeu que aquelas amigas que ela não quis perder quando era criança tinham virado apenas lembranças, as poucas com quem ainda mantinha contato foram justamente as que acabaram mudando de escola. Graças ao emprego, seus filhos fizeram intercâmbio e ela pode ver o quanto essa experiência foi importante para eles. Mesmo perdendo um ano da faculdade, o que eles aprenderam viajando os diferenciou e os ajudou na inserção no mercado de trabalho.

Viu amigas começarem novos cursos e trocarem de emprego várias vezes. Os filhos sobreviveram, talvez tenham deixado de ir ao shopping algumas vezes ou não tenham dado um presente de aniversário muito bom pro coleguinha na festa de aniversário, mas hoje em dia eles nem lembram disso, lembram apenas da mãe presente.

Repensou sua vida e viu que poderia ter feito escolhas diferentes, principalmente se não se importasse tanto com o que os outros iriam pensar a respeito dela, mas ao invés de sofrer viu que podia tirar dali sua maior lição de vida: a hora é sempre agora, o conhecimento adquirido sempre vai ser útil e o amanhã é sempre uma nova oportunidade para recomeçar. E foi ali, naquele momento, aposentada, depois de criar seus filhos e sem pedir a opinião de ninguém que ela se juntou com seu marido, foi fazer intercâmbio, começou um novo curso em uma faculdade, abriu seu próprio negócio, reencontrou amigos antigos, fez novas amizades, enfim, perdeu os maiores medos que teve a vida toda e nem percebeu: o medo de mudar e o medo de errar.



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