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Mostrando postagens de Abril, 2018

É HOJE! >> Paulo Meireles Barguil

 – É hoje! – assustado, gritei para mim: são quase 21 horas e preciso publicar a crônica quinzenal. Não é que eu tenha me esquecido: achava que tinha escrito na semana passada... Todos vivenciamos situações em que não nos lembramos de algo importante: seja para a gente, seja para outra pessoa. Em virtude de uma perspectiva sistêmica, que procuro implementar na minha vida, sei que é necessário considerar o contexto, o processo, e não me concentrar apenas no resultado, no produto. Na hora do aperto, o prejudicado não quer saber de álibi, justificativa, desculpa ou análise. Às vezes, a avaria pode ser zerada, outras vezes, diminuída. E quando a situação é irremediável? Ou de restauro quase insignificante? Ignoramos os frutos do que fazemos, mas esses são influenciados pela intensidade do nosso desejo de viver num mundo melhor. É uma tragédia nós ainda sermos tão impolidos e nos ferirmos com tanta frequência. A crença na separação é uma grande ilusão e fonte de muito sofrimento, motivo …

SE EU FOSSE DAS COISAS DITAS >> Carla Dias >>

Que há sim o que eu diria se houvesse tempo e espaço e encontro e vitalidade. Coisas como dane-se!, declaração seguida por uma gargalhada afiada, das que deixam bem claro que a verdade foi dita e com gosto.

Só que me amiúdo em mim, reverberando silêncios e contrabandeando espaços que me separam de desfechos. Longe eu me mantenho, que é para não correr o risco de quebrantar em cinco minutos de conversa fiada, aquele aquecimento necessário para chegar ao que eu diria se tivesse coragem.

Que, nesse momento, consigo nem dizer para mim mesma.

Certa vez, um padre disse: pode contar tudo, minha filha. Foi nesse quando que compreendi que jamais diria a verdade a quem pedisse pelo meu tudo. Ninguém deveria pedir o tudo ao outro. Tudo é matéria que nem mesmo o proprietário dele conhece por inteiro. Então, contei ao padre um tudo forjado pela minha imaginação. Colori e sombreei o que achei cabível. Modifiquei nuances, incrementei com suspiros as minhas declarações.

O padre adorou a história, ma…

GLEICI X GLEISI >> Clara Braga

Esses dias estava acompanhando na televisão um desses debates com especialistas. Nesse dia, três cientistas políticos analisavam o atual cenário político brasileiro e faziam previsões, ou melhor, levantavam possibilidades a partir de um conjunto de fatos (assim não fica parecendo que o debate era entre discípulos da Mãe Diná), dos possíveis candidatos à presidência da república.
Lá pelas tantas, depois de muito falarem sobre a prisão do Lula, disseram que o PT não deve demorar para lançar um candidato, pois isso pode depor contra o partido, e que uma das possibilidades reais do PT é lançar a candidatura da senadora Gleisi Hoffmann.
Eu não entendo absolutamente nada de política, mas confesso que achei estranha essa posição dos debatedores, além de não achar que a Gleisi tem um apelo popular bom, ela está sendo investigada, não está? Enfim, mas quem sou eu para questionar cientistas políticos!
Coincidência ou não, no dia seguinte estava olhando uma rede social e vi uma fotografia que i…

DESAGRADABILÍSSIMO >> Sergio Geia

O título não é por acaso. Se quiser abandonar o barco, a hora é agora. Mas prometo que serei delicado, o mais delicado possível. Pretendo terminar este breve relato com máxima elegância. São coisas da vida. Não pense que Scarlett Johansson ou Marina Rui Barbosa estão livres disso. Nunca pensei que uma coisa bobinha dessas pudesse ser tão chata e constrangedora. Depois que você atinge certa maturidade, que você reconhece que tem mais passado que futuro (Melancolia, pessimismo? Nada! Faça as contas), tudo parece estar sob controle, e, o que foge, ou parece fugir, a experiência propicia mecanismos de manejo para fazer com que a coisa possa trazer o mínimo de transtorno possível. São as habilidades sociais que qualquer quase-cinquentão adquire com as voltas que a vida dá. O happy hour estava marcado pro barzinho de sempre. Havia tempo que não via os ex-colegas de trabalho, um reencontro com pessoas queridas. Conversas animadas, chope, comidinhas, um degustar alegre do saboroso passado, ave…

O PÃO QUE SE COME DORMIDO 2a parte >> Zoraya Cesar

O pão que se come dormido - 1a parte - O padeiro Tuninho apaixonou-se por Wanusa, sobrinha de sua esposa. Wanusa era 25 anos mais jovem que D. Isabel, bonita e gostosa. Tuninho, não satisfeito em expulsar a mulher de casa, queria o divórcio. Mas as coisas não saíram bem como esperava. 
Tuninho não era o melhor dos maridos, decerto. Era ríspido, rude e pouco afeito a romantismos. Jamais gostara de D. Isabel. Achava-a insuportável, feia, com mau hálito e uma voz de taquara rachada que não silenciava nunca.
Casara por conveniência, porque os dois, batalhando juntos, teriam chance de melhorar de vida. Por acostumado àquela situação medíocre, jamais cogitara em se separar. Até Wanusa aparecer. 
Mas, D. Isabel, por que não exigia seus direitos? Por que, afinal, não concedia logo o bendito divórcio, vivendo ela, também, um casamento infeliz?
Nessa história não há santos. Humilhada publicamente, assumiu o papel de esposa aviltada, para angariar simpatias e penas. Na verdade, D. Isabel tinha avers…

IMPERATIVOS>>Analu Faria

Desenha no meu corpo o seu, como se eu fosse papel em branco e você, a tinta que estremece à espera do movimento. Apaga as noites mal gastas com amores mornos, protocolares. Reaviva a memória da liberdade ao me deixar ser a onda que sou. Embaralhe comigo os pontos, esqueça comigo as retas. Lembra-me da propagação que somos, todos nós. Lembra-me como na outra noite.
Eu sei, não preciso te pedir. Talvez o momento que eu procurava também fosse a busca sua. (Se aqui eu for sincera , a palavra "liberdade" vai se repetir mais vezes do que convém à crônica.) Mas a vida também pode ser coincidência. Sincronicidade, diz-se em bom português. Eu chamo de bom acaso esse reencontro depois de anos de proibição autoimposta.
Não há laço que nos prenda (eu não disse que me repetiria?) agora ou sempre e é o desprender-se que me faz querer voltar à sua boca, à sua cama. Sinto que caio, me entrego, doce e fortemente à promessa de nada e isso é parte da beleza toda de estar contigo. Hoje sou, h…

HOJE NÃO ESTOU AQUI >> Carla Dias >>

Hoje eu não estou aqui.

Não se preocupe em ser cortês, em se lembrar de acenar à possibilidade de me observar durante um segundo ou dois. Não estou aqui. E meu absentismo será languidamente representado pelo esguio soluço do vazio.

Caso minha ausência lhe provoque curiosidade, evite o desejo de desvendar a falta que sente de se ocupar com a minha presença, ainda que seja para se desviar dela com certa classe. Aliás, mora em mim a curiosidade sobre o que o leva a ignorá-la com tamanha dedicação.

Não estou aqui.

Não ajeitei palavras para criar diálogos necessários, tomando cuidado para que os sons não ultrapassem a medida e descambem na intimidade das longas conversas. Não há nada que você desame mais do que ser cativado pela conversa do outro, tornando-se impossível evitar de se gastar tempo com ela. Porém, hoje você não corre esse risco.

Hoje eu não estou aqui.

Não como estava ontem, sentada no canto da sala, espectadora de seus monólogos sobre importâncias que não alcançam ninguém, …

IRONIA >> Clara Braga

Já escrevi outras vezes sofre um fenômeno que decidi chamar de ironia das datas. Esse fenômeno refere-se aos vários dias nos quais nada de muito importante acontece quando, de repente, chega um dia específico e tudo parece se concentrar naquele dia.
Em uma das vezes falei sobre a morte da atriz Farrah Fawcett, que foi pouquíssimo tempo antes da morte de Michael Jackson, será que alguém se quer lembrou de prestar uma homenagem fúnebre a ela? Claro que não, afinal, estavam todos abalados e ocupados com a morte do rei Michael.
Em outro momento comentei sobre o impeachment da Dilma. Ninguém discorda que foi algo histórico, mas por incrível que pareça, em alguns momentos parecia que importante mesmo era discutir sobre a separação de Bonner e Fátima Bernardes, afinal, será que ele estava traindo a esposa?
Outra situação semelhante a essas aconteceu muito recentemente. No dia que Cazuza completaria 60 anos estávamos prestes a acompanhar a votação do habeas corpus do ex presidente Lula. Com …

EU (NÃO) SOU CAPAZ! >> Paulo Meireles Barguil

 Não é muito frequente, escutarmos e falarmos, para nós e para os outros: "Você é capaz!".
O que sentimos, pensamos e fazemos durante toda a nossa vida está diretamente relacionado ao modo como interiorizamos o que ouvimos.
Somos resultados da combinação, em proporções ignoradas, entre genética e ambiente. Ainda que esses números fossem conhecidos, a combinação não o seria, seja porque a relação entre aqueles ingredientes é variável, seja porque a mão – e todo o ser – do alquimista, de vez em quando, agita o conteúdo da panela. E o que dizer quando são muitos os que interagem com o candidato a alimento? Talvez, por isso, há quem declare que "Panela em que muitos mexem, ou sai insossa ou sai salgada.". Às vezes, desconfio que esse provérbio foi inventando por alguém que queria uma desculpa para não ajudar na cozinha, pois nunca vi um estudo transcultural e longitudinal que o comprove. A despeito dos meus escassos conhecimentos da arte gastronômica, sei que o resul…

EXTRAORDINÁRIO >> Carla Dias >>

Café, sempre. Xícara bem-servida, frescor do feito há pouco, tradicional, porque ele precisa de energia para encarar esse desafio.

Anteontem, provocou o destino e executou o plano de sair de casa. Saiu, caminhou até o fim da rua. Ao voltar para casa, suava, arfava, tremia. Teve de se sentar no chão, ali mesmo, na soleira. A porta ainda aberta para o mundo. Ficou ali até a respiração normalizar e ele entender que estava a salvo.

Não seria o anteontem o dia em que a morte o cortejaria, só porque ele deu uma volta pelo lá fora. Apesar de ele ter sentido as mãos geladas dela sobre seus ombros, durante toda a apressada caminhada.

Sim, o lá fora o deslumbra, embora o amedronte com mais vigor. Não sabe como, sobre quando, tem suas dúvidas. Fato é que esses passeios sazonais pela Rua Vinte e Sete têm sido o contato mais íntimo que mantém com o lá fora.

A cada seis meses.

Por sorte, tem jardim na sua casa. Ele é amplo e tem cores variadas. E ele gosta do sol. Às vezes, fica por lá, quarando-s…

SONHOZINHO >> Sergio Geia

Sei que é pessoal, muito pessoal, mas não tem como escrever crônica sem ser pessoal. Clarice sofreu disso, tentou fugir, não se interessava em contar coisas de sua vida. Desistiu de fugir quando alertada pelo rei da crônica, o Rubem Braga, de que não tinha como escapar do pessoal se quisesse escrever crônica.
Semana de turbulências, bateu insônia, calor insuportável, até que numa noite de sexta para sábado, o sono veio, pesado, dolorido. Acordei feliz da vida no sábado, desperto, nível da bateria nas alturas.
Manhã comum, fui organizar fotos no computador. À tarde, dei um cochilo. Foi quando acordei, atropelado de novo por um sono pesado, que a coisa aconteceu. Naquele momento em que a cabeça ainda pesa, que você tateia coisas, reconhece lugar, dia, hora, olhos se negam a abrir, você vai chegando mansinho, nascendo na velocidade de um jegue, de repente, num estalo, lembrei.
Sonhava e o sonho se apresentou a mim com uma clareza tão incomum, absurda e surpreendente que meus olhos se abrira…

O PÃO QUE SE COME DORMIDO - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Tuninho tinha uma padaria, negócio honesto e sólido. Não que isso significasse grandes riquezas. Dava para viver com certo conforto – para os padrões mais que modestos do bairro onde morava com a mulher.
Não era boa nem má pessoa, rico ou pobre. Não era, exatamente, estúpido, tampouco primava pela inteligência. Um medíocre, em todos os sentidos.
Tão medíocre e previsível, que, quando sua esposa, D. Isabel, completou 50 anos, ele a trocou – não por duas, mas por uma de 25. 
Wanusa era sobrinha de D. Isabel. Toda roliça e voluptuosa, as curvas nos lugares certos e os decotes na medida exata para despertar imaginações e desejos. Estivéssemos no séc. XX, diríamos que ela era brejeira e sestrosa. Viera passar uma temporada com a tia para estudar, aprender uma profissão e arranjar um casamento vantajoso. Quem não nasce rico tem que casar com o dinheiro, dizia (pois era pobre, não boba). 
A esposa pressentiu o perigo, mas, para desgosto das amigas, nada fez para expulsar a desavergonhada e mante…

O NARIZ MEDITATIVO>>Analu Faria

Cheiro de patchuli, alguma flor, cheiro de árvore... hum, que árvore? Não é frutífera..... putz não sei. Que cheiro é esse? Cheiro do moço que passou por mim. O moço não é lá muito bonito, mas do perfume eu gosto. Qual será o nome dele  - do moço e do perfume?  Eu repararia naquele se não fosse este?

Cheiro de repartição pública é levemente cheiro de bolor misturado a produto de limpeza (amônia com um toque artificial de menta ou capim limão ou maçã verde). E poeira, mas não tem poeira na repartição onde eu trabalho. Pode estar nos dutos do ar condicionado, pode estar dentro do armário, pode estar dentro do meu nariz de burocrata. Hoje a repartição também tem cheiro de chocolate, porque foi Páscoa e alguém trouxe um ovo de chocolate que ninguém em casa quis comer. O chocolate acabou, mas ainda sinto no ar o cheiro. Serotonina, se tiver cheiro, tem esse cheiro. Alegria, também.
Dizem que ninguém da nossa geração sabe o cheiro de almíscar, porque, retirado de glândulas de um veado que …

CAFÉ SOLIDÃO >> Carla Dias >>

Para Carol, quem sabe inspirar com o olhar.

Ela se levanta, morosamente. Vê-se que preferia permanecer onde estava, cobertor enroupando a cabeça. Mantém os olhos fechados, como se as pálpebras pesassem mil receios. O espectador provavelmente deve se perguntar, inspirado pela frouxidão da cena: o que se passa na cabeça dela?

Não?

Provavelmente, não.

É que algo mais dinâmico acontece para além dela, enquadrado por uma janela escancarada. Não é o cinza do dia de garoa. Não é a imagem do frio que esse cinza realça.

Vê-se bem o cenário: janela que dá para janela. A dela se encaixa no escancaro da janela da vizinha, feito um túnel invisível atravessando a estreita rua.

A vizinha, diferente dela, tem uma energia contagiante. Chacoalha os lençóis, botando ordem na cama de onde se levantou, assim, em um pulo. Os cabelos dela esvoaçam em sintonia com os panos. Um diretor de comercial para televisão se orgulharia da cena. Seria fácil trabalhar com aquela personagem, a fim de vender o produto que…

PERDENDO OS MEDOS >> Clara Braga

Quando ela era criança quis trocar de escola. Não recomendaram, afinal, ali ela estava criando seus primeiros laços de amizade e essas amizades poderiam acompanhá-la para o resto da vida, essa convivência pode fazer a diferença no desenvolvimento de uma criança. Como crianças não decidem nada, ou pelo menos não decidiam há alguns anos, ela continuou onde estava.
Alguns anos depois, já mais velha e um pouco mais independente, pensou novamente em trocar de escola, mas dessa vez foi ela que pensou que talvez não fosse interessante se separar daquelas amigas com quem já vinha estudando há tantos anos, logo viriam as formaturas, as viagens de escola e se ela mudasse talvez não tivesse intimidade com ninguém para participar desses eventos.
Depois que formou pensou em fazer intercâmbio, mas não aconselharam, fazer intercâmbio agora atrasaria sua entrada na faculdade, o que poderia prejudicá-la futuramente, pois faculdade é bom quando se entra cedo, forma logo e já se insere no mercado de tr…