terça-feira, 3 de abril de 2018

PERDENDO OS MEDOS >> Clara Braga

Quando ela era criança quis trocar de escola. Não recomendaram, afinal, ali ela estava criando seus primeiros laços de amizade e essas amizades poderiam acompanhá-la para o resto da vida, essa convivência pode fazer a diferença no desenvolvimento de uma criança. Como crianças não decidem nada, ou pelo menos não decidiam há alguns anos, ela continuou onde estava.

Alguns anos depois, já mais velha e um pouco mais independente, pensou novamente em trocar de escola, mas dessa vez foi ela que pensou que talvez não fosse interessante se separar daquelas amigas com quem já vinha estudando há tantos anos, logo viriam as formaturas, as viagens de escola e se ela mudasse talvez não tivesse intimidade com ninguém para participar desses eventos.

Depois que formou pensou em fazer intercâmbio, mas não aconselharam, fazer intercâmbio agora atrasaria sua entrada na faculdade, o que poderia prejudicá-la futuramente, pois faculdade é bom quando se entra cedo, forma logo e já se insere no mercado de trabalho.

Alguns anos de curso depois, pensou em trocar de curso. Mas talvez não fosse a melhor hora, afinal, porque desperdiçar todo o conhecimento que já foi adquirido? Melhor terminar esse curso e depois, mais para frente, ela poderia pensar em fazer outro, talvez depois de já estar empregada, assim não perderia tempo de inserção no mercado.

Quando formou pensou novamente na ideia do intercâmbio, mas achou que já estava velha demais para isso e se optasse pelo intercâmbio perderia aquela oportunidade de emprego ótima que tinha aparecido. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso, ficou com o emprego que era exatamente o que ela sonhava enquanto estava na faculdade.

Os anos foram passando e ela percebeu que na verdade aquele emprego dos sonhos não era tão sonho assim, não se sentia feliz e trabalhar virou um fardo. Pensou que passar a maior parte do seu dia em um lugar que era um fardo não parecia justo e então cogitou largar o emprego. Ninguém a apoiou, afinal, já estava casada e tinha filhos, como ela pensava que iria criar seus filhos? Não importa se ela passava mais tempo trabalhando do que curtindo os filhos, ou se nunca conseguia comparecer a uma festa na escola, o que importava era que os filhos tinham comida na mesa.

Muito anos se passaram, ela se aposentou e percebeu que aquelas amigas que ela não quis perder quando era criança tinham virado apenas lembranças, as poucas com quem ainda mantinha contato foram justamente as que acabaram mudando de escola. Graças ao emprego, seus filhos fizeram intercâmbio e ela pode ver o quanto essa experiência foi importante para eles. Mesmo perdendo um ano da faculdade, o que eles aprenderam viajando os diferenciou e os ajudou na inserção no mercado de trabalho.

Viu amigas começarem novos cursos e trocarem de emprego várias vezes. Os filhos sobreviveram, talvez tenham deixado de ir ao shopping algumas vezes ou não tenham dado um presente de aniversário muito bom pro coleguinha na festa de aniversário, mas hoje em dia eles nem lembram disso, lembram apenas da mãe presente.

Repensou sua vida e viu que poderia ter feito escolhas diferentes, principalmente se não se importasse tanto com o que os outros iriam pensar a respeito dela, mas ao invés de sofrer viu que podia tirar dali sua maior lição de vida: a hora é sempre agora, o conhecimento adquirido sempre vai ser útil e o amanhã é sempre uma nova oportunidade para recomeçar. E foi ali, naquele momento, aposentada, depois de criar seus filhos e sem pedir a opinião de ninguém que ela se juntou com seu marido, foi fazer intercâmbio, começou um novo curso em uma faculdade, abriu seu próprio negócio, reencontrou amigos antigos, fez novas amizades, enfim, perdeu os maiores medos que teve a vida toda e nem percebeu: o medo de mudar e o medo de errar.



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