sexta-feira, 20 de abril de 2018

O PÃO QUE SE COME DORMIDO 2a parte >> Zoraya Cesar

O pão que se come dormido - 1a parte - O padeiro Tuninho apaixonou-se por Wanusa, sobrinha de sua esposa. Wanusa era 25 anos mais jovem que D. Isabel, bonita e gostosa. Tuninho, não satisfeito em expulsar a mulher de casa, queria o divórcio. Mas as coisas não saíram bem como esperava. 

Tuninho não era o melhor dos maridos, decerto. Era ríspido, rude e pouco afeito a romantismos. Jamais gostara de D. Isabel. Achava-a insuportável, feia, com mau hálito e uma voz de taquara rachada que não silenciava nunca.

Casara por conveniência, porque os dois, batalhando juntos, teriam chance de melhorar de vida. Por acostumado àquela situação medíocre, jamais cogitara em se separar. Até Wanusa aparecer. 

Mas, D. Isabel, por que não exigia seus direitos? Por que, afinal, não concedia logo o bendito divórcio, vivendo ela, também, um casamento infeliz?

Nessa história não há santos. Humilhada publicamente, assumiu o papel de esposa aviltada, para angariar simpatias e penas. Na verdade, D. Isabel tinha aversão a Tuninho e só continuava casada por interesse. Eram sócios na padaria. Queria mais que ele morresse (estava velho e a saúde era um tanto precária), para herdar tudo, e não somente a metade. 

Tuninho,  alucinado por Wanusa,  não via a hora de livrar-se da jararaca maldita que se recusava a dar-lhe o divórcio. Visitava constantemente D. Isabel em seu ostracismo, prometendo-lhe mundos e fundos pelo divórcio. Ela, irredutível. Dizia que ele até podia manter a amante, afinal, sendo Wanusa sua sobrinha, ficaria tudo em família. Mas, separação, não. Repetia que lugar da mulher era ao lado do marido até que a morte os separasse. 

Ah, é assim, pensou Tuninho, então, que fosse!  

Engendrou um plano medíocre, como ele, mas bastante eficaz. Numa das suas visitas à mulher, deixou, escondido no armário do banheiro, um vidro de chumbinho. 

D. Isabel continuava a ir à padaria, para resolver as coisas que sempre resolvera. Afinal, nem ela nem Tuninho tinham a mínima intenção de que seu modesto - mas próspero - negócio fosse à falência. O trato era que ela não entraria na casa, não ofenderia Wanusa, nem se demoraria em ti-ti-ti com as vizinhas. D. Isabel tinha palavra, cumpria o acordado. Tinha, também, um defeito: a gula. 

Sempre que ia à padaria levava para casa uma dúzia de pão doce, repletos daquele creme cor amarelo-corante-cancerígeno. Num – digo logo – fatídico dia, levou consigo pãezinhos recheados de chumbinho. 

D. Isabel morreu, como Tuninho esperava que morresse, e a polícia achou por bem aceitar a tese de suicídio. Mulher trocada por outra mais nova, expulsa de casa, deprimida... As amigas corroboraram essa versão. 

D. Isabel não resistia a pão doce coberto de creme.
A gula, sabemos, é um pecado capital. 
E Tuninho, sabe o Diabo como, conseguiu se safar incólume (coisas estranhas acontecem nessa vida). Estava livre, portanto, para casar com Wanusa. O que efetivamente se deu, não com a pompa e circunstância que ele queria, mas com a discrição exigida frente às circunstâncias.

Uma palavrinha sobre Wanusa. Peço ao Leitor que não a julgue mal. Percebera que o casamento da tia era uma farsa, e que D. Isabel não sabia se aproveitar daquele velho chato, mas bem de vida. Wanusa sabia muito bem o que fazer com dinheiro e viera à cidade para isso: melhorar de vida. A oportunidade surgiu, ela agarrou. Lembremos de seu peculiar senso de moral: não passava das carícias ousadas com Tuninho e só se entregou a ele depois de casada. E chorou sinceramente a morte da tia. Família é família, pensava.

Uma vez casada, levou Tuninho à loucura na cama. Não que sentisse algum prazer em transar com aquele arenque velho, mas Wanusa, como D. Isabel, tinha palavra. 

Não era gulosa, mas curiosa. E de tanto mexer nos recantos da padaria, acabou por encontrar um pacote contendo alguns poucos gramas de um granulado cinza escuro. Wanusa nada tinha de boba e, num átimo, entendeu o que se passara. Ficou arrasada. D. Isabel era sangue de seu sangue e elas tinham um acordo. Muito bem, agora ela descobrira uma horrenda verdade. E daí?

Daí, nada. Continuou a transar com o marido, a tirar todo o dinheiro que podia dele e a se fingir de desentendida. 

Tuninho virara um sátiro
lúbrico e insaciável.
A luxúria é outro pecado capital.
Tuninho parecia um bode velho, um sátiro descontrolado, insaciável pelo corpo de Wanusa, que jamais se negava ao marido. Algumas mulheres, só de olhar para Tuninho, cada vez mais barrigudo e pelancudo, sentiriam ânsias. Mas, logo depois, pensariam na conta bancária, no conforto, na vida pra levar... Wanusa era jovem, mas muito prática.

Tuninho não fazia exercícios outros que não os de alcova, e envelhecia, com os achaques comuns a esse estado da existência. Ninguém estranhou, portanto, quando, vários meses após o casamento, ele bateu as botas, enfartando durante uma noite de sexo regada a cachaça com Wanusa.

Coincidência? Claro que não, Leitor, claro que não!

Havia tempos que Wanusa trocava os remédios para o coração de Tuninho por vitaminas para cachorro. Dava-lhe do que havia de mais gorduroso para comer. Enchia-o de viagra. Dizia-lhe que, se fosse ao médico por conta de simples indisposições, o doutor acabaria por proibi-lo de transar, para não cansar o coração. E fazia sexo com ele dia e noite.

Acho que chegou a hora de revelar que Wanusa e D. Isabel tinham um acordo. D. Isabel queria se livrar de Tuninho, mas não queria se separar e ter de dividir os bens. Tudo foi planejado para acabar exatamente assim: Tuninho deixaria todos os seus bens para Wanusa, seria morto, e as duas ficariam com tudo, em família - afinal, o sangue é mais forte que a água. A morte de D. Isabel interrompeu o plano de ambas, e Wanusa jurou vingança pelo assassinato da tia.

O infarto, cumpre-me dizer, não foi exatamente fulminante. Wanusa assistiu Tuninho morrer sem prestar socorro. Limitava-se a dizer que família é coisa sagrada. E que a vingança era um pão que se comia dormido. 

Eu bem gostaria de dizer que, ao final, Wanusa foi presa; comeu pão com chumbinho por engano - ou dado por Tuninho, desconfiado que seria a próxima vítima; descobriu que o velho lúbrico já não tinha mais dinheiro... Sim, eu bem gostaria de dizer que todos os personagens desse drama se deram mal, porém, estaria mentindo. Wanusa se deu muito bem, obrigado.

Mas a vida nem sempre é justa, não é mesmo?

Fotos Pinterest



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4 comentários:

Ana Luzia disse...

Felipe Espada, cadê você pra colocar ordem nessa bagunça!!!!!!!!!!!

Assassinos impunes jamais!

Anônimo disse...

Nem sempre é justa.... depende do ponto de vista. Do ponto de Wanusa, a vida foi bem justa. Fazer o que?

Marcio disse...

Fiquei com a forte impressão de que o vínculo que une tia e sobrinha é um VELCRO.

Unknown disse...

Tuninho teve o merecido fim, mas a vida nao foi justa com a d. Isabel... Morrer de chumbinho?! Pelo menos se refestelou nos paes doces antes de bater as botas... Deve ter morrido feliz kkk