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Mostrando postagens de Outubro, 2015

SOBRE AS MENINAS QUE NASCEM NA LUA NOVA — para Letícia >> Cristiana Moura

Hoje uma amiga me disse: — Escreve sobre os bebês que nascem na Lua cheia!

Será que Letícia nasceu na lua cheia? Letícia é minha sobrinha. É a coisa mais linda, precisam ver. Já tem quatro meses e está esperta como ela só. Impressiona-me mesmo é como um menino e uma menina são tão diferentes desde muito pequeninos. Letícia, diferentemente de Luís Eduardo, o sobrinho de pouco mais de um ano, é dengosa como só uma menina é capaz de ser. A pequena faz caras e bocas, é manhosa, faz bicos e por aí vai. Pequenas nuances do feminino em poucos dias de vida.

E Letícia nasceu na Lua cheia? Fui conferir. Ah, Letícia nasceu na lua nova! Esta crônica é para as meninas que nascem na Lua nova. Minha bela sobrinha veio ao mundo de parto normal. Cunhada de cócoras, irmão sentado atrás, obstetra no chão. Com quarenta e duas semanas sendo gestada, a barriga de sua mãe já não lhe bastava e nasceu assim, sem data marcada, aos vinte e três de junho deste ano.

A Lua nova significa início de um ciclo. Ah, há…

FLORES >> Paulo Meireles Barguil

 Que eu vá
Se tu flor


Se tu fosses
Quando eu flor

 Quando eu for
Que nós flores




[Chapada Diamantina - Bahia]

[Fotos de minha autoria. Outubro/2015]

DAS COISAS (E PESSOAS) QUE CONQUISTAM
>> Mariana Scherma

Gente que oferece sorrisos grátis, só porque saiu da cama com uma sensação leve no coração e decidiu dar um sorriso nada amarelo ao primeiro desconhecido que encontrou na rua. Gente que oferece comida grátis, só porque acabou de fazer e a panela está lá, quentinha. Quem mora longe da mãe (e da comida maravilhosa dela) dá valor a uma comida caseira tanto quanto valorizaria fazer os seis pontos sozinho na Mega-Sena.

Pai e mãe. Só porque eles decidiram que você mereceria vir ao mundo e experimentar sorrisos grátis, comida do vizinho, carinho de filhote de gato, seu time ser campeão do Brasileiro, o cheiro da chuva no asfalto quente, uma coca-cola gelada depois de uma ressaca brava, um elogio do nada, um abraço mais do nada ainda e um pedaço de chocolate no dia de TPM mais enfurecido.

Seu sofá que lhe espera todo dia de braços e assentos abertos. Seu sofá que lhe consola depois de um dia tenso e que também sabe guardar segredos sobre amassos bem amassados e suspiros de quero mais. Travess…

BENNET, DARCY E AUSTEN >> Carla Dias >>

Li uma notícia sobre um filme baseado em Orgulho e Preconceito, livro de Jane Austen. O filme será lançado em 2016, e seu título é Orgulho e Preconceito e Zumbis... Isso mesmo, zumbis.

Jane Austen... Zumbis. Zumbis... Jane Austen.

Ainda não tinha lido um livro de Austen, mas este é o clássico caso de “eu assisti ao filme”. Sim, eu nunca comparo o livro ao filme, que adaptações geram sempre diferenças. Minha última experiência foi com Um Dia (One Day/2011), baseado no livro homônimo de David Nicholls, também roteirista do filme. Mesmo com o autor nas rédeas da adaptação, as diferenças se apresentam, e acaba que adorei o filme, até comprei o DVD. Então, ganhei o livro, aprofundei-me nas características dos personagens, e acho que o filme deveria ter durado três horas e meia e Nicholls aproveitado mais da história registrada no livro.

No caso de Austen, eu assisti a todos os filmes baseados em suas obras, assim como os inspirados por elas. Todos. Também assisti ao Amor e Inocência, base…

OBRIGADA! >> Clara Braga

Vivemos na sociedade do:
"Não tenho problema nenhum com gays, desde que estejam longe de mim."
"Adoro fulaninho, ele nem parece gay!"
"Sou contra violência contra a mulher, mas usando essas roupas que elas usam hoje em dia, estão pedindo, né?"
"Não tenho problema com gays, trato como se fossem normais."
"Besteira no trânsito? Quer apostar quanto que é mulher?"
"Com certeza foi aquele negro que pegou!"
"Falar de violência contra a mulher é como falar de racismo contra o branco!"
"Respeito todas as religiões, mas isso aí não é religião, é macumba!"
"Não acredito que até hoje existam negros na televisão!"
"Sai daí, seu macaco!"
"Professora, tira fulaninha da minha frente, não vejo o quadro por causa do cabelo de vassoura dela. Tem que fazer escova!"
"Meu filho não vai estudar cultura africana, é contra nossa religião!"
Não sei se a ignorância das pessoas está piorando …

EXCELÊNCIA E ÁGUA FRESCA >> André Ferrer

Nosso país é relativamente novo. A História de outras nações, no entanto, pouco tem servido de lição por aqui.  O que poderia ser encarado como um privilégio — todos aqueles anos de tentativas e erros cometidos mundo afora à disposição! — é, quando muito, subaproveitado no Brasil.
Estuda-se pouco. Na maioria das vezes, o suficiente para o canudo. Trabalha-se muito. Sim, no Brasil, trabalha-se muito, porém com qualidade e frequência risíveis.
Em torno de alguns negócios bem sucedidos por aqui, alardeia-se a implantação da excelência estrangeira, principalmente a norte-americana. Oh, my gosh! Olhe mais de perto. Take a closer look! Assim, como o próprio Monument Valley numa fita de John Ford, descortina-se a realidade: I'm sorry, but you cheated. O homem do marketing te pegou! O único contato com a legítima excelência ianque, no mínimo, te custará a obtenção do green card e duas décadas, pelo menos, da mais honesta imersão num vilarejo cravado nos rincões de Utah.
Por falar nisso, Utah…

AS SENHORINHAS >> Sergio Geia

Dei de cara com quatro senhorinhas andando pela calçada da Professor Moreira. Normal. Ainda mais considerando que era domingo de manhã, dia ensolarado, a igreja a poucos metros dali. Mas a cena me chamou a atenção porque as quatro senhorinhas andavam penduradas umas nas outras. Parecia que cada uma precisava da força e do equilíbrio das demais pra seguir adiante. Ali não eram quatro senhorinhas, mas uma só; uma identidade, coesa, sólida, que se mantinha estável pela força de oito braços frágeis, moles e cansados.

O registro daquelas senhorinhas elegantes, cheirosas e de cabelos de algodão ficou na memória, e tão logo cheguei em casa tratei de dar corpo a alguma coisa que tivesse as velhinhas da Professor Moreira como mote. Fiquei a imaginar, por exemplo, a rotina daquela gente numa manhã alvissareira de domingo. Confesso que tenho até medo. Pois é nessas horas que essa cabeça doida viaja e dúzias de talvez, quem sabe e coisa e tal me enlouquecem. Mas juro, juro que a intenção não é es…

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS (Parte I)
>> Zoraya Cesar

Estava exausta, após quase dez horas de voo sem dormir ou comer decentemente. Comida de avião, mesmo vegetariana, causava-lhe náuseas. Costumava levar seu próprio farnel nas viagens longas, mas tem um momento em que o organismo, cansado de lanches, pede uma refeição. E ela, que nem gostava de carne, estava quase ansiando por um filé com fritas.
Tempo para descansar e comer, porém, não havia. Importante era chegar ao apartamento, deixar a bagagem e entrar em contato com a pessoa a quem viera procurar. Comeria nesse ínterim. Se tivesse sorte, poderia, até, tirar um cochilo. Não, alertou seu cérebro disciplinado. Para dar conta do que viera fazer, deveria, antes, comer e dormir adequadamente. Sim, respondeu ela, eu sei.
Carregava apenas uma pequena mala e uma mochila, para facilitar a locomoção, caso precisasse viajar rapidamente.  Como dessa vez, em que saiu do Rio para Paris, às pressas, a única a saber como quebrar a resistência de Eoland, a Tímida. 
Desceu na estação Luxembourg e foi em…

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS II >> Analu Faria

"Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e achar o que não procurava." (Manoel de Barros)
Estudar na Escola Estadual Messias Pedreiro era um saco. Eu vinha de uma escola particular, onde, apesar de não sermos tratados como minideuses como se vê em muitas instituições privadas por aí, tínhamos certa liberdade e voz. No Messias, a gente só tinha direito de obedecer. Não podia usar boné (não que eu usasse, mas eu achava a regra estúpida), não podia ser vista pelos corredores (sempre tinha uma supervisora chata para te perguntar o que você estava fazendo fora de sala de aula), tinha que ir para a educação física fora do horário da aula (eu acabei arranjando uma justificativa para não fazer). Tinha também que apresentar uma espécie de carteirinha que comprovava presença. Na escola particular, não tinha isso.

Estudar na Escola Estadual Messias Pedreiro foi uma bênção.

No último feriado, viajei para a cidade onde morei quase toda a vida — Uberlândia —, onde fica “O Me…

FACILIDADE NÃO É BANALIDADE >> Carla Dias >>

Nasceu no anteontem de um ano pelo qual nenhum calendário se interessa. Seu registro geral já foi esquecido em bancos de dados que não são mais acessados. Suas habilidades profissionais tiveram de mudar conforme o mundo se transformava, mas ainda se lembra de quando a simplicidade presente era o desafio no passado.

Particularmente, ele não compreende certas facilidades.

Facilidades já comprometem seu interesse pelo mundo. Não compreende — ou deseja se valer de — ferramentas e investidas para facilitar o que deveria ser do jeito que tem de ser, aquilo que exige que a jornada seja trilhada do começo ao fim. Esse tipo de facilidade abriu alas a todo tipo de facilitador. Assim, surgiram figuras como traficantes de diplomas que certificam que completos idiotas exerçam profissões fundamentais como a de médico.

Vai ao botequim para uma dose que seja do que for. Não quer conversa, que anda nostálgico a respeito de um de seus muitos amores. Porém, senta-se ao seu lado um homem que se apresent…

ME SENTINDO CONFUSA >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo rádio a caminho do trabalho e, durante um programa de entrevistas e notícias, os participantes começaram a discutir sobra a situação política e econômica do Brasil na atualidade. Falavam sobre o quão envergonhados eles se sentiam ao observar que a prisão só existe para os pobres e o quão triste é o fato de nenhum político ser condenado da forma como deveria diante de tamanha roubalheira. 
Todos os participantes comentavam a situação com uma certa revolta e concordavam com o fato de que a lei deve valer para todos da mesma forma, ninguém deve ter regalias, seja lá quem for e seja lá o que essa pessoa tenha feito.
Logo após a discussão sobre política, uma nova notícia muda o rumo do debate. Um detento estuda por conta própria, termina os ensinos fundamental e médio e é aprovado em cinco cursos pelo Enem. Seu pedido de saída para estudar foi negado, uma vez que, pela lei, um preso reincidente em regime semiaberto tem que cumprir um quarto da pena para ter direit…

Ó RAIOS! (Segunda Parte) >> Albir José Inácio da Silva

PRIMEIRA PARTE

Seu Manuel resmungava, mas nada podia fazer, ela estava na rua e a rua é pública. À noitinha distribuía gratuitamente as flores que não vendia, e era nesse momento que o quitandeiro mais se revoltava.
O reumatismo era apenas uma das manifestações da velhice que finalmente descera sem pena sobre Dona Rosa. Na segunda de manhã ela mandou chamar o Pício. Quando ele chegou, o caixote de flores já o aguardava.
— Uma é dois, três é cinco e cinco por dez.
Seu Manuel não subiu nas tamancas parque já estava nelas, mas tamanqueou o chão enquanto esbravejava:
— Agora melhorou! Tenho também de trabalhar para os outros! E ainda por cima é maluca essa velha. Onde já se viu três por cinco e cinco por dez?
Resmungou o dia todo, mas vendeu algumas flores, fez as contas e mandou entregar o dinheiro. Mandou também, de volta, as flores que restaram.
Caduquice ou não, a verdade é que Dona Rosa recebeu o dinheiro e esculhambou o Pício por causa das sobras.
— Ó imprestável, que é que eu vou f…

SANTO ANÓFERO E OUTROS TANTOS
>>Eduardo Loureiro Jr.

Não bastasse fazer o milagre, o santo ainda tem que adivinhar se quem está sendo chamado é mesmo ele...

Esses dias, tive acesso a uns bilhetinhos de fiéis de Santo Onofre. Uns o chamam de Santo Nofre. Outros de Anofe ou Anofi. Há aqueles, talvez os mais chegados, que o chamam carinhosamente de "Nofe". E aqueles outros que, talvez querendo demonstrar algum tipo de erudição, chamam o santo de Anófito ou Anófero. Tem quem confunda as consoantes dentolabiais e chame o pobre Onofre de Santo Onove ou, pra simplificar, Santonove.

Talvez, entre os muitos atributos da santidade, como os de fazer milagres e aparecer em mais de um lugar ao mesmo tempo, exista também um poder especial para saber que se está sendo chamado não pelo que está dito ou escrito, mas pelo pensamento mesmo do fiel.

De todo modo, não seria de se estranhar se o santo em questão, nosso Santo Onofre, negasse o favor do milagre a quem o chama de Santa Antrofe (veja bem, no feminino) ou Santa Antonofre. A não ser que …

SEM TÍTULO >> Cristiana Moura

Noutro dia, caminhava no shopping olhando pro tempo e para as pessoas. Smartphones, olhares baixos e várias indivíduos no mesmo espaço, provavelmente conversando com quem não estava lá.
Já não vejo grupos. Vejo aglomerados de pessoas que não se vêem.

Puxar conversa com quem está ao lado é memória guardada no corpo de quem falava com estranhos. Num estranho parece, agora, morar o medo. Parece habitar um estranhamento que, ao invés de instigar, afasta.

Mas e daí? Temos tantas possibilidades de comunicação! Tablets, smartphones, entre outros, nos conectando em redes sociais e tudo o mais. Nada contra a tecnologia, gosto dela. Mas as cabeças estão desalinhadas das colunas, olhando para baixo, enquanto os dedos acariciam as telas. Por vezes, os espaços parecem-me apenas corredores a serem atravessados por corpos desabitados.

Leio a crônica até aqui e parece-me que ainda falta texto a ser escrito. É, faltam-me olhares.

EX-PROFESSOR >> Paulo Meireles Barguil

"A palavra é de prata. O silêncio é de ouro."  Provérbio Chinês
"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: [...] tempo para calar, e tempo para falar." Eclesiastes 3, 1.7b

"São precisos dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar." Ernest Hemingway 
Professar ou não professar?

Há alguns meses, ele vinha sendo palco de uma feroz batalha interna.
Etimologicamente, professor é aquele que divulga verdades, crenças, certezas, na intenção de influir na vida dos ouvintes.
A sua trajetória pessoal, incluindo a acadêmica, lhe indicava, cada vez mais, a impossibilidade de cumprir esse mister, ainda mais utilizando palavras...
Na maioria das vezes, o máximo que conseguia fazer, quando percebia alguma acolhida, era partilhar o que tinha aprendido, pois avaliava ser insano distribuir as suas dúvidas.
Professor ou ex-professor? Vivia como um agente duplo, que brinca de se esconder, sem ter o prazer de se sentir em ca…

QUANDO DIZER NÃO É DIZER SIM >> Mariana Scherma

Bem no dia em que eu disse não a um estresse a mais, eu disse sim pra minha paz de espírito. Eu fui dormir na dúvida ai-será-que-eu-deveria-ter-feito-isso e acordei na certeza do que-bom-que-eu-fiz-isso. Sou contra atitudes impulsivas e, na maioria das vezes, de tanto pensar eu deixo a ação pra lá. Penso, logo desisto. Dessa vez foi diferente. O meu não acabou sendo um baita sim!

Não dá pra dizer não pra tudo o que nos irrita. Probleminhas do trabalho podem ser engolidos, digeridos e os restos deixados no trabalho mesmo. Relacionamentos de qualquer espécie também têm seus dias de entressafra. E como a gente não é uma ilha, precisamos da convivência, das pessoas, de suas esquisitices às vezes. Mas também precisamos distinguir o que pode ser abandonado e o que deve ser digerido.

Hoje eu entendi que alguns abandonos não são fraqueza. É ser fraco abandonar algo que várias pessoas estão de olho porque não lhe faz bem? Pra mim isso é mais força que qualquer coisa. Ter coragem de dizer não é…

UM SUBSTITUTO >> Carla Dias >>

Conheçam Graciliano.

Quer dizer, vocês podem tentar. E até que, para alguém que não quer conhecer pessoas, ele conhece muita gente.

Dizem que ele tem talento para atrair clientes para a birosca na qual trabalha. Ele alega que não se esforça, e que adora quando o lugar fica às moscas. Ele gosta do silêncio. Não é sempre que uma birosca tem no seu quadro de funcionários um tão qualificado. Veja, ele sabe conjugar verbos, e eles cabem bonito nas frases. Até parece música.

Desde que as escolas foram fechadas, uma geração inteira de pessoinhas sem escola nasceu. Elas aprenderam o que havia para ser aprendido, apenas o suficiente para sobreviverem em um mundo que se calou por não saber dizer o pensamento. Sendo assim, calar-se é necessário.

Por isso é fácil entender o desejo pungente de Graciliano pelo silêncio. Melhor mesmo é não escutar o que as pessoas até tentam, mas não sabem dizer.

Ele foi filho de dono de faculdade, por isso é cultuado na comunidade dos sem escola.  As pessoas o tra…

A CONTA, POR FAVOR >> Clara Braga

Noventa por cento dos brasileiros tem o hábito ou mania de ouvir a conversa dos outros. Não, minha afirmação não é baseada em algum estudo sério, até porque estudiosos sérios não perderiam tempo com esse tipo de pesquisa (ou perderiam?). Minha afirmação é puramente baseada na observação. É claro que se você perguntar para as pessoas se elas fazem isso, o número diminui consideravelmente, já que essa prática é considerada feia e as pessoas não têm coragem de assumir que fazem, mas a verdade é que a grande maioria presta atenção na conversa dos outros, e as vezes nem é por querer.
Bom, mas se esse hábito é comum ou não, correto ou não, não vem ao caso no momento. O que importa é que ele rende boas histórias. A que vou relatar hoje nem aconteceu comigo, mas essa não é uma forma de me esquivar e dizer que eu não presto atenção na conversa alheia, eu presto, só não tive a sorte, ou o azar, de presenciar o caso que vou relatar agora. Desculpem-me se estou demorando para ir direto ao assunt…

TRUQUES >> André Ferrer

Em vários textos, ao longo da sua obra, Ernest Hemingway cita a arte da pintura. Nenhum desses momentos, entretanto, é mais eloquente a respeito das suas reais intenções ao mencionar a pintura do que em um trecho do conto Escrever. Aliás, uma das suas histórias menos conhecidas.
Em Paris é uma festa, Hemingway fala de alguns dos vários pintores que conheceu e, com a propriedade de quem viveu na Cidade Luz dos anos de 1920, relaciona as soluções encontradas por aqueles artistas à sua própria arte, a escrita. Trata-se de um livro de memórias. Nele, o autor relata os anos em que vivera na França e era apenas um repórter norte-americano que aspirava, um dia, tornar-se escritor. Paris é uma festa foi escrito na década de 1950 e só foi publicado após a morte do autor.
Se neste livro Hemingway gasta várias linhas com a tentativa de demonstrar o quanto um escritor pode aprender com a pintura, no conto Escrever ele atinge o objetivo com maestria. Sabe-se, claramente, que o autor valorizava a per…

TÁTICAS PARA UMA NEGOCIAÇÃO EFICAZ,
CASO O INIMIGO SEJA INEXPERIENTE
>> Whisner Fraga

1. Defender a existência de um acordo prévio

Objetivos: Deixar o oponente com medo, colocando-se mais importante do que realmente é. Simular e defender a existência de um pacto, muitas vezes tácito, para explorar os prejuízos que uma possível quebra desse compromisso pode causar ao interlocutor.

Efeitos esperados no adversário: Medo, insegurança, vergonha.

Exemplo de frase: Se você quer romper o acordo agora, por mim tudo bem, pois é evidente que você não precisa do meu apoio.

Antídoto: Concorde com o rival e rompa com qualquer tipo de negociação, deixando claro que esse tipo de atitude, baseada na chantagem e na provocação, não será tolerada.


2. Concluir que o adversário o humilhou, baseando-se em premissas falsas

Objetivos: Fazer com que o oponente pareça ter transgredido uma regra básica da convivência, deixando-o com a impressão de ser mal-educado. Infantilizar as ações do oponente, deixando transparecer que ele não é digno daquele diálogo, daquela negociação, com um adulto. Crian…

DE UNS ANOS PRA CÁ, PASSEI A CHORAR
>> Sergio Geia

O ditado popular diz que homem não chora. Bom. Ou o ditado popular está errado ou o homem que vive em mim está a me abandonar. De repente, meu lado feminino está a expulsar a parte macha. De repente, o Pepeu vacilou e ser um homem feminino fere sim o lado masculino. Não só fere como o expulsa, sem eira nem beira. De repente, a sensibilidade é característica exclusiva do elemento feminino, e ser sensível a ponto de verter um rio de lágrimas por qualquer bobeirinha revela que esse elemento mostra-se acentuadamente presente num corpo que, pelas características, é corpo de macho. Questões ligadas à identidade de gênero? Talvez não, talvez se trate mesmo é de corpo de macho com alma de fêmea.

O que me tranquiliza é que não é nada disso. Que errado é o ditado, que nasceu revestido de preconceitos, fruto de uma sociedade conservadora e patriarcal, que vai demorar muitos anos pra se tornar uma sociedade mais humana, especialmente por ter demorado séculos pra descobrir que não só a beleza e a…

UMA NOITE >> Zoraya Cesar

A sopa estava quente e condimentada, o caldo engrossado pelas carnes do coelho que conseguiram arranjar pelo caminho. Estivesse a comida ruim, ainda assim não lhe perceberiam o gosto, tal a perturbação que se apoderara de suas almas. Comeram em silêncio, cansados e tensos, alerta a qualquer barulho estranho, perscrutando os sons trazidos pelo vento. 
Os batedores voltaram, apagando os rastros deixados pelo pequeno contingente que restara da tribo e que agora fugia, desalentado e furtivo. Sentaram-se, eles também, para comer e descansar, enquanto os outros ajeitavam o acampamento improvisado por entre as pedras e o mato. Quando a primeira estrela apareceu, foi a vez de os vigias se levantarem. 
Calma e resolutamente, os quatro homens se encaminharam para a costa, deixando para trás a tribo, que dormia depois de um dia de fuga, de mortes, de perdas. O ataque à aldeia tinha sido tão feroz, que só mesmo pela proteção de Sucellos, Senhor da Vida e da Morte, eles conseguiram escapar. Malditos…

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS >> Analu Faria

"Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso."
(Manoel de Barros)
Defendo fortemente a simplicidade. Ainda assim, minha visão é turva, turvíssima, para as coisas boas da vida.

Só agora comecei a fazer o que realmente gosto — escrever e estudar texto. Antes eu quis coisas "grandes" — fiz Direito, tentei carreira diplomática — e falhei miseravelmente nas duas (graças a Deus?). "Mexer com Letras" dava pouco prestígio, pagava pouco e não fazia sucesso com a família nas festas de fim de ano. O máximo de felicidade que permiti à minha alma de artista foi me aventurar por Artes Cênicas, mas isso porque se eu fosse muito, muito boa, talvez ganhasse um bom dinheiro e fosse famosa. Escritor é pobre.

Lembro-me com pesar de que, nu…

NÃO >> Carla Dias >>

Houve uma época em que eu me joguei ao mundo. Trabalhava e estudava durante a semana, fazia aulas de bateria aos sábados e frequentava um clube para dançar aos domingos. Nos raros intervalos entre isso e aquilo, ensaiava com minha banda, visitava amigos e escrevia.

Queria que o dia durasse 48 horas.

Naquela época, eu estava tão ansiosa pelo que viria que vivia tudo em uma velocidade que já não reconheço. Não... Não digo isso pela idade, já que quase trinta anos me separam de lá. Digo isso porque, quando não temos ideia do que desejamos para a vida, pisamos no acelerador e seguimos adiante sem aproveitarmos a paisagem.

Particularmente, adoro uma paisagem.

Então, décadas depois, compreendi o óbvio: o que desejamos para a vida nem sempre é o que receberemos dela, tampouco o que desejaremos para a vida daqui a vinte e quatro horas ou quase trinta anos.

Para mim, a necessidade de compreendermos a maleabilidade do desejo para a vida também cabe ao que desejamos para cada dia, para os desej…

MUNDO NOTURNO >> Clara Braga

Desculpe, mas não! Eu não acredito que existam pessoas que de fato acordam felizes às seis horas da matina! Tudo bem, até entendo que algumas já se ajustaram a uma rotina, mas isso não faz com que elas fiquem felizes ao acordar. As pessoas precisam aprender de uma vez por todas que existe uma grande diferença entre costume e felicidade.

Não, eu também não compreendo como algumas pessoas conseguem fazer disso um estilo de vida, optam por acordar cedo para fazer o dia render mais ou algo do tipo. Acho que é uma questão de necessidade, de obrigação ou talvez até de loucura, mas opção eu acho difícil de acreditar.

Eu também não sei onde estão, mas sei que existem aquelas pessoas que, enquanto você ainda está desligando a função soneca pela quinta vez, elas já foram ao mercado, pilates, pagaram uma conta e estão tomando banho para ir para o trabalho. E, pasmem, estão sorrindo enquanto tomam um suco verde supersaudável. Bom, a parte do suco verde foi um acréscimo particular. Posso estar err…

Ó RAIOS! >> Albir José Inácio da Silva

Dona Rosa tinha mais que nome de flor, tinha paixão, a ponto de não permitir que nenhuma flor se despetalasse ou morresse no pé. Se não as vendia, dava-as. Não fazia isso por amor às pessoas, mas às flores.

Tanto assim que não gostava quando lhe pediam:

— Aguarde a sua vez! — dizia de mau humor, mas logo arranjava um jeito de atender ao pedido.

Depois que o marido morreu, Dona Rosa vivia das flores que cultivava no quintal de casa. Era uma venda irregular, às vezes não ganhava nada, mas precisava de pouco e ninguém jamais a ouviu reclamar.

A poucos metros ficava a quitanda de um patrício, um lugar confuso, que talvez desse prejuízo se alguém fizesse as contas. Seu Manuel comia do que havia nas empoeiradas prateleiras e pagava a conta de luz. Nunca pensou que pudesse ser melhor.

Parecendo sair de seu próprio estoque, ele vivia de mau humor e só abria a boca para reclamar do caixeiro, um moleque a quem ele chamava de Estrupício e, diante dos fregueses, de Pício, numa tentativa de ameniz…